Peça Arqueológica Descoberta em Bom Despacho
* Por Jacinto Guerra

Força tarefa resgata Igaçaba
Na Extrema, zona rural de Bom Despacho, próxima do Rio São Francisco, foi encontrada uma peça arqueológica – grande e belo vaso de cerâmica. É uma igaçaba, contendo fragmentos de ossos, além de parte de uma arcada dentária, aparentemente de individuo jovem, porque os dentes encontram-se muito bem conservados.
Em comparação com a igaçaba encontrada em 1991, na Fazenda Indaiá, a poucos quilômetros da cidade, a Igaçaba da Extrema é, também, uma peça arqueológica de primitivos habitantes de nossa região, em época muito anterior à Descoberta da América. Estima-se que os achados arqueológicos de Bom Despacho são muito antigos, com idade aproximada de 1.500 anos. É o que revelam os primeiros estudos de arqueólogos do Museu de História Natural da UFMG, ainda sem confirmação oficial pela técnica de datação com o Carbono 14.
A Igaçaba da Fazenda Indaiá, uma das primeiras obras tombadas pelo Conselho Municipal do Patrimônio Cultural, desde sua instituição em 1997, encontra-se em exposição no Museu da Cidade e, no ano 2000, participou em Belo Horizonte da Grande Exposição dos 500 Anos da Descoberta do Brasil, promovida pelo Ministério da Cultura.
Com autorização do IPHAN-MG – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, a Igaçaba da Extrema foi retirada de um terreno de encosta, de onde se descortina bela paisagem do pequeno povoado e da Fazenda Boa Vista, cujo proprietário é Dermivaldo Araújo, morador no Engenho do Ribeiro.
Como sempre acontece nesse tipo de descoberta, a nova igaçaba que enriquece o Patrimônio Cultural de Bom Despacho foi encontrada por acaso, quando Alex Araújo, estudante de Engenharia Ambiental, dirigia um trator que arava a terra para o plantio de pastagem para o gado.

Igaçaba no Museu de Bom Despacho
A primeira visita ao local da descoberta para verificação e registro fotográfico foi realizada pelo major Carlos Botelho, que possui um sítio na Extrema, e pelo empresário Julio Benigno Fernández, presidente da AMC-Associação Museu da Cidade. Com as informações desse grupo pioneiro, a museóloga Nilce Coutinho, diretora do Museu, dirigiu-se ao IPHAN, em Brasília, solicitando orientação a respeito do assunto, uma vez que os bens encontrados no subsolo são propriedade da União e constituem patrimônio cultural do País.
Com autorização do IPHAN-MG para o resgate da igaçaba, formou-se uma equipe de voluntários do Museu da Cidade, coordenada pela museóloga Nilce Coutinho e integrada pelo major Carlos Botelho, professor Jacinto Guerra, Kayo Lima Peixoto, restaurador, e Giselle dos Santos Moreira, profissional de Turismo e funcionária da Prefeitura de Bom Despacho.
Juntou-se à equipe do Museu o fazendeiro Dermival de Araujo e seu irmão Carlos Humberto, além de trabalhadores da fazenda e alguns moradores do lugarejo que, numa verdadeira “força-tarefa”, conseguiram ao longo dia resgatar, sem qualquer dano, a importante peça arqueológica. Foi um acontecimento histórico acompanhado com emoção por todos os presentes.
Em seguida, a Igaçaba da Extrema – mais uma relíquia da cultura de Bom Despacho – foi conduzida para o Museu da Cidade, como testemunha do da vida e de costumes dos nossos primitivos antepassados, que aqui viveram no amanhecer da civilização.
Com este ato simbólico, prestamos nossa homenagem à memória de homens e mulheres que viveram antes mesmo das tribos indígenas que povoavam o Brasil, mas que já conheciam a arte da cerâmica e eram caçadores e coletores dos frutos da natureza, iniciando a longa e misteriosa marcha do humanidade nos caminhos do futuro.
Jacinto Guerra, professor e escritor, formado em Letras pela UFMG, foi pesquisador do Memorial JK e fez diversos cursos de Museologia promovidos pelo Ministério da Cultura. É autor de vários livros, entre os quais Gente de Bom Despacho – historias de quem bebe água da Biquinha (Thesaurus, Brasília, 2003).
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