A Fábrica de Ritos reúne a poesia completa do poeta José Santiago Naud
Por Menezes y Morais*

Santiago Naud
José Santiago Naud, 78 anos, professor, poeta gaúcho radicado em Brasília (DF), começou a publicar suas poesias completas in A Fábrica de Ritos. O volume 1 saiu pela Thesaurus Editora, com o apoio do FAC – Fundo de Arte e Cultura, reunindo poemas escritos no período de 1948 a 1993.
O diferencial é que a obra completa de José Santiago Naud reúne também os livros inéditos. Para o volume 2, que deve sair em 2010, revela, tem quatro obras inéditas: Nostalgia de Jacob, O Negro e Sol Lunar de Santa Joana e Anatomia Invisível. O quarto, Cara de Cão, o Poeta não pretende editar.
Fiel à Poesia
“Meu definitivo exercício poético – diz JSN – há de ficar talvez um testemunho solitário, apenas publicado em parcelas segundo já ocorreu. A minha poesia, cuja reunião destaca os 15 livros impressos, mais Cantares, é um ato contínuo de fidelidade”.
Essa “fidelidade à Poesia – acrescentou – dura exatamente seis décadas e reconhece a minha dívida com a Semana de Arte Moderna de 1922 e a Geração de 1945”.
Nós Fora dos Eixos conversamos com José Santiago Naud. Foi um papo agradável, na redação, numa manhã de junho, na qual o poeta falou um pouco de sua vida e obra. E fez algumas observações sobre a Poesia feita no Brasil contemporâneo.
A Fábrica de Ritos: o que o leitor pode encontrar neste volume?
O testemunho da presença do homem na Terra. Nunca esquecendo a sua referencia regional. Eu despertei pra poesia muito cedo, ainda na infância, ouvindo os cantadores do Rio Grande do Sul. Foram eles que me ensinaram que a palavra humana pode reproduzir a natureza e os fatos do dia-a-dia.
A Alma do Povo
Existe semelhança entre cantador gaúcho e violeiro nordestino?
Os cantadores gaúchos não tem a riqueza do cantador nordestino, mas representam a alma do povo. Eles me ensinaram a magia da palavra, entre o sexto e o sétimo ano, numa fazenda, ali ouvi pela primeira vez os cantadores. Depois isso se confirmou de forma erudita, quando, no curso secundário, li pela primeira vez a poesia medieval de língua portuguesa, principalmente as Cantigas de Amigo do Rei Dom Diniz, marido da Rainha Isabel. A Rainha Isabel é outra maga, ela é do milagre das rosas.
Nesse primeiro momento você se sentiu fisgado, digamos assim, pela Poesia?
Ai já foi um segundo estágio. Dessa fase, dou o salto: os primeiros versos que escrevi, foi no sentido de preencher a falta sentida com a morte da minha mãe, em junho de 1945. Felizmente eu rasguei esses versos.
Esses versos não mereciam ficar nem como um registro humano?
A pergunta é interessante, mas a resposta é não. Publiquei o meu primeiro livro em 1948. Mudei de Ijuí, terra do Dunga, terra de tríplice imigração. Ijuí foi a cidade que me ensinou a democracia. O Rio Grande do Sul não fugiu disso. Minha infância passei em São Borja. Aos 11, mudei para Ijuí. Foi lá, no sentido democrático, que eu despertei pelo respeito ao próximo e pelo trabalho manual. Ijuí é uma cidade de tríplice imigração: alemã, italiana e polonesa. Fui para Porto Alegre, em 1947, fazer o Colegial.
Em Porto Alegre nasceu o livro Poemas sem Domingo?
Foi. Aí então eu escrevi os primeiros poemas que estão estampados no meu primeiro livro, Poemas sem Domingo, que reúne trabalhos produzidos entre 1948 a 51. Eu publiquei um livro datilografado que eu ofereci ao meu pai, que eu entitulei Poemas da Inutilidade, hoje eu não sei aonde anda esse livro. Tirei uns 25 exemplares mimeografados.
Voz Interior
O que é Poesia para você?
Antes de mais é nada, a Poesia para mim é inspiração. Nós recebemos e não sabemos de onde ela vem. Eu diria que é uma voz interior querendo manifestação e que se perde na noite dos tempos. É por isso que a Poesia liga passado e futuro, como testemunhos do presente.
Futuro?
Eu dou o exemplo com a pintura do Michelangelo na Capela Sistina, que reproduz o mito da criação do homem: Deus fez o homem do barro, mas o Michelangelo escondeu a mulher nos constados de Deus. E Eva é o futuro que o Adão já trazia dentro dele. Na curvatura do tempo, passado, presente e futuro são contemporâneos. E o milagre da Poesia está exatamente ai. Por isso, Hölderlin, um dos fundadores do Romantismo, disse: “O que permanece os poetas o fundam”. Nada a ver com o poder econômico-político.
E a Poesia hoje?
Eu vejo a Poesia hoje como confirmação de um ato universal que é dos maiores do mundo. Aqui na América Latina, por exemplo, a Poesia tem um lugar de destaque e o Brasil figura na primeira linha. E com o passado que nós temos, desde Anchieta, há uma continuidade nunca interrompida. Atualmente a Poesia no Brasil é fruto do movimento paulista de 1922, corrigida em seus rumos por 1945 (uma geração verdadeira, apesar das críticas) e depois enriquecida pela fase experimental (cheia de arrogância e alguma incompetência), mas que se sustenta por algumas experiências excepcionais. Assim, para nos limitar a três situações, entre Drummond, Jorge de Lima e João Cabral, da Amazônia ao RS, a Poesia brasileira atual é uma prova indiscutível. São tantos os nomes, já relacionados por antologistas como o piauiense Assis Brasil e em Brasília, Joannyr de Oliveira, que qualquer um pode ver que em Brasília – e em todas as capitais – brasileiras – já existem nomes definitivos.
Fábrica de Ritos
O volume 2 da sua obra completa também vai se chamar Fábrica de Ritos?
Vai. Por motivos técnicos, o livro teve que se partido. Da segunda parte: Poemas publicados entre 1948 e 1966 (Poemas sem Domingo e Ofício Humano). Contrariamente à opinião da minha primeira leitora, que é a minha mulher, Leda Maria, eu deveria obedecer à ordem cronológica. Mas, inverti a ordem porque alguns dos últimos títulos nem sequer tinham sido editados no Brasil. Agora eu me habilitei ao projeto FAC, o segundo volume das minhas memórias terá o mesmo título.
Além do Brasil, onde mais você tem livros publicados?
Eu publiquei livros na Argentina, Portugal, Panamá, México e na Austrália.
Serviço
A Fábrica de Ritos – reúne poemas escritos entre 1948 e 1984, com livros editados no marco dos anos 1952 e 1993. Soma os inéditos Cantares de Nossa Senhora e O Olho Reverso – de José Santiago Naud -Thesaurus/FAC.
Antologia Pessoal – José Santiago Naud – Thesaurus, vol. 5. Volumes anteriores, pela ordem de publicação: Anderson Braga Horta, Antônio Carlos Osório, Fernando Mendes Vianna e José Augusto Seabra. Pedidos: www.thesaurus.com.br
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