Frio, flores, tons e rubiácea!
Crônica semanal de Orlando Muniz
Nunca tinha sentido tanto frio aqui no planalto central. O mês de junho – já atravessando para o seu final – nos surpreende com doses cada vez mais frias de um clima seco e que penetra por veias despreparadas para tão baixas temperaturas. A Cidade por vezes se encobre por um manto de névoa branca que esconde suas belezas como por vergonha de não ter abrigo para tanta gente que sofre ao relento por entre seus imensos jardins e gramados. O lago se esconde amparado por uma nuvem de vapor produzida pelos primeiros raios da manhã fazendo daquele singelo espelho algo assim meio embaçado que não combina com o azul meio cinza que insiste em não se colocar como moldura da pintura natural.
O frio trás também alguns prazeres para a carne e para alma. Comer bem, apreciar um bom vinho e um café bem quente, faz com que as roupas grossas, recém saídas do armário, componham um conjunto completo de prazeres e beleza para noites que necessitam de reforço extra para o clima de deserto que envolve o Planalto Central.
O inverno também combina com uma boa música. Sentar-se para apreciar um jazz bem apurado, faz esquentar ouvidos moucos que se agarram a tons e notas mais graves na expectativa de uma sonoridade que acordará corações desaquecidos e fará da lei do silêncio uma imensidão de toques e acordes inesquecíveis. Vale também chorar nos bandolins e cavaquinhos de algumas esquinas desta cidade sem cortes. São mestre de cordas e menestréis de acordes que falseiam por entre quadras a nos empurrar goela abaixo para mais uma saideira de qualidade.
No ardor do frio, vale degustar um bom vinho derramado na acidez de aromas e sabores para ser apreciado com o vagar e para o deleite de quem o admira. A Cidade possui uma rede de casas bem montadas com especiarias que legam conforto e bem estar nas noitadas de inverno. Tudo isso com bom papo e fina harmonia pode ser misturado aos prazeres das massas e fondues que faria Baco morrer de inveja.
Para compensar os estragos da secura e do frio, parece que a natureza se compadece dos que aqui habitam e fará brotar em breve nos milhares de pés de Ipês Rosa, as flores que irão adornar, os agora gramados cinza, compondo uma paisagem bucólica, mas de extrema elegância.
Bastam pequenos toques de harmonia neste deserto e logo a Cidade está preparada para nos conceder prazeres e sensações que somente uma noite fria pode propiciar.
Vale o conselho de que não adianta reclamar muito, até porque por aqui os espaços são difusos e seus lamentos no máximo podem ser ouvidos no dia seguinte!

Orlando Muniz é escritor
Orlando Muniz é autor do livro Armazém Brasil e está com novo livro no prelo Máscara das Palavras.
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