M. P. Haickel Resgata Tradição do Folhetim no Século XXI
Por Menezes y Morais
O poeta, contista, romancista e professor M. P. Haickel está com um livro novo na praça: O Amor de Mariano, que reúne os contos e as novelas No jardim de jaz mim, A Procissão dos Ossos, A morte percorrendo o sistema, Jogo Duplo, Homem é tudo igual, Os patifes, A dor, O segredo de um mistério, e O funcionário. Haickel chama esses textos de folhetins.
O Amor de Mariano (2009) e o romance Cinza da Solidão (2007), foram publicados pela Thesaurus Editora, com o apoio do Fundo da Arte e da Cultura (FAC). Maranhense de nascimento, formado em Letras pela Universidade Federal do Maranhão, M. P. Haickel estreou na Literatura em Brasília, como poeta, com o livro Poemas de um Amor ao Acaso (1994). Em 96, publicou Poemas Apócrificos, todos de forma independente.
Brincando de Escritor
Para Nós Fora dos Eixos, M. P Haickel, que, além de sala de aula, vende sua obra de mão-em-mão pelos bares de Brasília, respondeu questionário por e-mail, falando sobre sua vida e obra. Confira a entrevista.
Você tem quantos anos?
Trinta e oito anos, completados no dia 8 de maio de 2009, ocasião também em que lancei o livro O Amor de Mariano, no Bar Raízes, na CLN 110, no Plano Piloto.
Escreve desde quando?
Desde pré-adolescente, por volta dos 14 anos de idade.
Por que você escreve?
Já nessa idade, escrevia o casamento da brincadeira de quadrilha da minha rua. Adorava participar destas brincadeiras, assim como também gostava de cantar as músicas dos festivais de sucessos, Jessé e tantos outros, daquela época.
Você começou como poeta, pelo menos em matéria de publicação, mas há 13 anos só tem publicado ficção. A Poesia lhe abandonou ou foi você quem deixou a Poesia de lado?
Acho que deixei a Poesia de lado devido à profissionalização. Todo mundo é poeta, na minha concepção. A Poesia tem um mercado muito melindroso, muito apático em nosso país, embora seja a mãe das artes, sempre tive a sensação que ainda está por se fazer, falta corporificar…
Lembro-me de uma conversa com um amigo poeta, Fernando Abreu, onde ele dizia que pelo fato de a Poesia ser feita com a alma, com o sangue e até mesmo com carvão, fica difícil de mensurar, de se cobrar por ela… Diferente de um quadro, em que você tem os materiais, a tinta, a tela, que tudo isso representa um custo; na poesia isso tudo é muito relativo, quando se quer fazer uma poesia, se escreve em qualquer papel, com qualquer caneta, não vai interferir tanto no resultado, pode-se fazer tanto com uma Bic, como com uma Monblanc…
Personagens Populares
Como você se define como escritor?
Contemporâneo… Nesse trabalho último, um tanto porta-voz, já que escrevia folhetins para os jornais, escutava muito as histórias das pessoas nas praças, depois do expediente na redação. Gosto de usar uma linguagem simples, às vezes coloquial, gosto de me fazer entender pelas pessoas, sempre lutei pela popularização da Literatura Brasileira, sou professor, lido com isso no dia-a-dia…
Geralmente as críticas publicadas a respeito do meu trabalho alardeiam que meus personagens são pessoas do povo, não são nobres, nem intelectuais, são pessoas simples, minhas histórias são compilações populares, histórias que minha avó me contava dos tempos de eu menino, outras que reescrevo de pesquisas a respeito do inconsciente popular, ou mesmo de nossa tradição, que aos poucos estão se perdendo com a globalização, com os importados japoneses, com os pastiches da televisão, que substitui a figura carinhosa e sábia que era representada pelos nossos avós…
Linguagem do Folhetim
Por que a escolha do gênero folhetim?
A idéia de trabalhar com o folhetim surgiu ainda nos tempos da universidade, numa aula de Literatura Portuguesa IV. A professora tinha passado uma atividade de análise literária do livro Seara de Vento, de Manoel da Fonseca. Lembro que me chamou atenção, além do enredo, a construção da história, sempre com um suspense ao final de cada capítulo, as emoções desenfreadas, a vida dura retratada com palavras fortes, envolventes, o desfecho apoteótico, e ao mencionar isso em sala de aula, a professora me falou que tudo isso eram características de uma literatura voltada para o consumo diário, nos periódicos… Que a esse tipo de literatura era empregado o nome de “folhetim”, que vinha acompanhada das palavras mágicas “amanhã continua”, posto que devesse prender o leitor até o desfecho…
Aquilo me chamou atenção, já que nessa época trabalhava em jornal, escrevendo críticas literárias, resenhando livros, e estava ficando cansado disso. Então perguntei, por que não existe mais esse tipo de literatura em nossos jornais? Ela deu de ombros e me falou: Boa pergunta, responda você, que trabalha em jornal diário!
Aquilo ficou martelando e aguçou minha curiosidade. Daí pesquisando descobri que o folhetim é uma fórmula, que migrou inicialmente do jornal para o rádio e posteriormente, no final do século XIX, tornou-se numa indústria cultural e até hoje ocupa os horários nobres da televisão.
Resolvi então me aventurar em escrever um folhetim para saber se ainda tinha algum feedback nos jornais e para o meu grande espanto tive uma resposta incrível, as pessoas acompanhavam cada episódio, opinavam, ficam chateadas quando eu, por uma razão visceral, tinha que matar um personagem, ou então dar um fim trágico, ou feliz para cada história; depois veio a campanha de incentivo à leitura Leia Mais, já que ao final de cada capítulo, publicava a história completa em edição de bolso e punha à venda nas bancas, e daí comecei a vender mil, dois mil, três mil exemplares dos livretos; houve casos de folhetins que chegaram à casa de cinco mil exemplares…
Depois foram surgindo os primeiros convites para publicar através de pequenas editoras, e finalmente o convite para publicar pela Thesaurus Editora, vir morar em Brasília novamente, então saí de São Luís e estou agora divulgando o livro para todo o Brasil.
Você não acha o folhetim um gênero fora de moda? Ou não existe essa de moda, em matéria de literatura? Por quê?
Minha monografia foi encima desse tema, intitulada “O Folhetim enquanto fenômeno literário”. Todos os nossos escritores tidos como clássicos, desde o Romantismo, até meados dos anos 1870, escreveram em forma de folhetim.
Cada vez mais os escritores estão sendo assassinados pelo silêncio, devido principalmente pela desnacionalização de nossa Literatura. Hoje, o cenário nacional revela autores estrangeiros nas poucas páginas destinadas aos cadernos literários nos jornais. O que deixa o escritor brasileiro sem muita alternativa de vitrine. Ou ele vai escrever músicas ou fazer roteiro pra cinema.
No meu caso, eu como trabalhava em jornal, resolvi promover o resgate desse gênero como uma forma de me manter na vitrine, e pelo visto deu resultado. O que prova que todo mundo gosta de uma história bem contada. Desde que o mundo é mundo sempre teve a figura do contador de histórias, e se ela vem recheada de suspense, emoção, romance, sempre vai ter um público cativo. Nunca vai sair de moda.
A diferença é o suporte que na modernidade vem através da televisão ou da internet, com os blogs que tem também promovido o surgimento desse gênero.
O Amor de Mariano
Como está sendo a receptividade junto ao público do seu novo livro?
Como disse anteriormente, durante a publicação em jornal foram milhares de exemplares vendidos em bancas de revistas. A diferença é que agora eu reuni todos num só volume e tenho tido o apoio de uma editora de alcance nacional e internacional, como a Thesaurus.
Na verdade o trabalho em sala de aula tem me deixado pouco tempo para trabalhar o livro como gostaria… Mas agora vem as férias de julho, então vou poder me dedicar mais à literatura e aí sim, vou poder mensurar com mais exatidão. Mas de uma maneira em geral, tem sido acolhido com muito entusiasmo, não pela crítica especializada, ainda, mas pelos alunos, que tem me revelado grandes surpresas, alegrias e até mesmo me enchido de entusiasmo e esperanças.
O que você está preparando de novo, em matéria de literatura?
Por hora nada. Quero curtir um pouco mais esse trabalho, já que agora ele alcançou um nível excelente. Pra ser sincero, tem sido a realização de um sonho vê-lo publicado por uma editora cult, como a Thesaurus, e pensar que inicialmente eu fazia livro por livro em casa, de maneira artesanal, acreditando num sonho, e agora saber que o livro está à venda para além das fronteiras de minha terra natal, em nível nacional, acho que preciso acompanhar mais o desenvolvimento desse “filho que agora começar a caminha com suas próprias pernas” e estar atento a ele, antes de pensar em novas histórias…
Nunca gostei de escrever para a gaveta… Recebi uma proposta de escrever um roteiro para cinema, ainda estou estudando a proposta… Mas ainda é cedo para falar em novo trabalho.
Serviço
O Amor de Mariano – M. P. Haickel – Série Folhetins Literários – Thesaurus/FAC, Brasília (DF), 2009. Cinza da Solidão – Uma história romântica – M. P. Haickel – Thesaurus/FAC, Brasília (DF), 2007. Pedidos: www.thesaurus.com.br
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[...] Ficha Técnica: Título: O Amor de Mariano; Autor: M.P.Haickel; Arte da Capa: Beto Paixão e Normando Rodrigues; Ilustrações: Joacy James, J.Júnior, Pablo Reis. Gênero: Contos; Editora: Thesaurus Editora de Brasília; Nº de pág.: 120; il.; ISBN: 9788570928169; Preço: R$ 25,00. Agência Literária CultPress. SIG, Q. 8, lote 2356, 1º Andar; CEP: 70610-480 – Brasília (DF) Tel. (61)-3344-3738. Leia entrevista com o autor. [...]