GUERRA FRIA, A Contra-espionagem brasileira vista por dentro

GUERRA FRIA: A Contra-espionagem brasileira vista por dentro

A Thesaurus anuncia para agosto de 2009 o lançamento do livro A Contra-espionagem Brasileira na Guerra Fria, de Jorge Bessa, ex-oficial da Inteligência, que viveu por dentro parte desse momento histórico. E registrou suas impressões, no período que vai de 1970 a 90.

“Basicamente tento mostrar no livro – diz o Autor – que é muito fácil analisar e condenar as posturas políticas da época. Mas, para se fazer analise crítica isenta de paixão ideológica, temos que examinar o período da guerra fria.”

Contra ou a favor?

Naquela época, acrescentou JB, “O mundo político era bipolar: ou se estava com os americanos, com a CIA ou com a URSS, com a KGB”. CIA é a sigla da Central de Inteligência do governo dos EUA – Estados Unidos da América. KGB é o equivalente na ex-URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Jorge Bessa viveu a guerra fria por dentro: “Eu era oficial da ativa, hoje sou da reserva do Exército Brasileiro. Os superiores me indicaram para o SNI (Serviço Nacional de Informação). Queriam profissionalizar, tornar uma atividade efetiva no país”.

Muro de Berlim

A guerra fria acabou em 1989, com a queda do Muro de Berlim. E com o desmoronamento da URSS em 91, o mundo capitalista (EUA) e o mundo socialista (URSS) inauguram uma nova fase histórica, sem a bipolarização ideológica.

A URSS mudou o nome para Rússia e voltou a ser capitalista. Da mesma forma os demais países do leste europeu retornaram ao modo de produção capitalista, como a Polônia e a Romênia.

Bessa afirma que “A competição pela hegemonia ideológica entre as duas potencias econômicas gerava as alianças políticas nos dois polos de disputa de poder, que se desdobravam também para o campo da inteligência. Todo mundo trocava informação, o trabalho era integrado, seja de um lado ou do outro”.

O Autor  narra como era a estrutura do KGB (Comitê de Segurança)  e da CIA: “Fui indicado, fiz os cursos, estudei marxismo, fiz estudos sobre essas questões pertinentes ao marxismo-leninismo”.

No livro A Contra-espionagem Brasileira na Guerra Fria Bessa narra “Alguns casos de contra-espionagem, de êxito, eu cito alguns exemplos de grandes agentes do KGB que passaram pro Ocidente,  que a nós chamamos de defector, trânsfuga”.

- Eu falo da nossa interferência no processo da revolução no Suriname, os americanos queriam invadir o Suriname e nós achamos inaceitável, deixa que o Suriname a gente cuida e fizemos uma estratégia muito boa.

- Eu conto essas histórias no livro. A sociedade que julgue se foi correto ou não. Pelo menos eu estou dizendo que nós fizemos isso e aquilo,

GUERRA FRIA: As Ditaduras não respeitam a vida

Jorge Bessa assegura: “As ditaduras não respeitam a vida. Toda ditadura é perigosa, massacrante, a do proletrariado é a pior delas. A guerra de classes – aí estava todo o veneno do marxismo – que Marx preconizou, Lênin achou que era inevitável”.

O Autor critica os “Intelectóide, que nunca leram Lênin ou Marx, mas falam de marxismo como se conhecessem essa doutrina. Intelectual é aquele que pensa por si próprio, estuda todas as visões, faz sua escolha, ninguém lhe impõe nada”.

Já o intelectóide – acrescentou – “Repete feito papagaio. Eu não me considero um intelectual, um tampouco um intelectóide. Li, estudei muito para fazer a minha opção anticomunista, mas, mesmo assim, eu não me considero intelectual, nem intelectóide.  Intelectóide é  o que mais a gente vê hoje em dia”.

Implosão do império

Bessa conheceu a URSS, os EUA, a América Central e a América do Sul “Em missões de inteligência, em viagem de estudos, de troca de experiência.  A guerra fria acabou em 1989 com a queda do muro. Em, 91 a implosão do império soviético era algo imaginável”.

E acrescentou: “Em 1988 tive a impresão que a URSS ia implodir. Nas análises políticas que a gente fazia, víamos que na parte econômica a URSS estava se exaurindo. O presidente dos EUA, Jimi Carter, um bom moço, coração muito bom, vivia fora da realidade. Carter não era pragmático”.

- A URSS começou processo de expansão muito grande e foi através de Cuba que ela tentou desestabilizar vários países no Cone Sul e na África. Esse processo só foi barrado no governo Ronaldo Reagan. No poder, Reagan decidiu deter o processo de expansão da URSS.

Ponto fraco

Bessa lembra de uma reunião na qual Reagan comentou: “Onde eles (referindo-se aos soviéticos) são fortes eu sei, o que eu quero saber é onde eles são fracos”. A reposta: na economia. “Foi uma reação que os soviéticos não estavam preparados. Eu cito isso para falar da minha análise”.

- Além das falhas inerentes ao regime de economia planificada – nada nela funciona – você tinha essa tentativa de expansão que foi exaurindo a URSS. Eram US$ 8/14 bilhões anuais para Cuba. A gente viu que a URSS estava com o pé no buraco.

- O que surpreendeu foi a velocidade da queda. Como os países iam se libertar, a gente não sabia. Mas sabíamos que o modelo tinha chegado à exaustão, nos aspectos político e econômico. A unidade socialista era uma farsa: assim que puderam todos pularam fora.

GUERRA FRIA: A URSS exercia o controle total sobre a sociedade

A seguir, alguns trechos da entrevista de Jorge Bessa, relativos ao império soviético e ao SNI – Serviço Nacional de Informações:

- A ex-URSS exercia o controle total da sociedade. O KGB tinha cerca de 100 mil funcionários, dos quais apenas uma pequena parte fazia a espionagem externa. A grande parte estava ocupada na espionagem e repressão interna, o Grande Big Brother.

- Para se ter uma idéia, no Brasil, toda a estrutura do SNI e da chamada comunidade de Inteligência não chegava a cinco mil pessoas. O nosso instrumento principal era a contra-espionagem.

- A nós cabia, primeiro, identificar e acompanhar e, quando possível, neutralizar as atividades de espionagem no Brasil, feitas pelo KGB e seus homólogos no leste europeu. Eles tinham o controole total dos paises do Pacto de Varsóvia.

- Toda ditadura tem agência de espionagem e de contra-espionagem. Uma agência de inteligência trata de documentos sigilosos, de fontes abertas, mas grande parte são documentos secretos. Eu entendo que, no caso do Brasil, havia um exagero.

GUERRA FRIA: O SNI não soube lidar com a imprensa

Quando Jorge Bessa assumiu a coordenação dos trabalhos da contra-espionagem, tentou melhorar as relações do SNI com a imprensa. Mas não consegui. Ele conta como foi:

- O SNI foi sempre atacado pela mídia e nunca se defendeu. O SNI nunca soube trabalhar com a imprensa. A questão de transparência de uma sociedade democrática é de vital importância. Você tem que dizer pra sociedade o que você faz, porém isso nunca foi feito.

- O SNI tinha a imprensa como inimiga. Nunca se chamou a imprensa para conversar.  O secretismo exacerbado foi prejudicial para a nossa organização. O que eu condenava era o excesso de secretismo que não permitia que os chefes da Inteligência brasileira tivessem um melhor relacionamento com a mídia.

- Eu defendia que o SNI informasse à sociedade sobre quem era quem naquele jogo, inclusive não abrindo os arquivos do SNI, o que causa pavor a muitos pretensos democratas de hoje já que o seu passado os acusa. A idéia é que perdemos a guerra fria da informação pelo excesso de secretismo.

- Quando assumiu a direção da contra-inteligência brasileira, sugeri  um trato melhor com a mídia, receber os jornalistas, isso é normal na  democracia. É um compromisso com a sociedade levar ao seu conhecimento que tínhamos um órgão de contra-espionagem. Numa situação mundial você não poderia prescindir desse tipo de trabalho.

- Nenhum país pode prescindir da inteligência, ela é inerente a qualquer Estado. A contra-inteligência geralmente compreende a contra-espionagem, contraterrorismo, o combate ao crime organizado transnacional e a proteção das informações que cumpre ao Estado preservar.

Quem é Jorge Bessa

Jorge Bessa, 57 anos, casado, dois filhos, nasceu em Belém (PA) e vive em Brasília desde  1980. Mestre em educação e bacharel em economia, também cursou medicina oriental.

Publicou dois livros: Inteligência Competitiva (2007) e Jesus – O maior médico que já existiu, publicado no mesmo ano. O primeiro trata sobre  o emprego da inteligência do Estado nas empresas.

- Quando acabou a guerra fria, começou a guerra econômica. Coincide com o processo de globalização econômica. As grandes empresas americanas e européias começam a contratar o pessoal que trabalhou na inteligência para o trabalho de espionagem econômica.

No livro Jesus – O maior médico que já existiu, faz “uma análise dos ensinamentos de Jesus fora do contexto religioso. É uma leitura psicológica dos ensinamentos de Jesus. Não precisa frequentar igreja para saber que os ensinamentos de Jesus são bons”.

Tem três livros inéditos: 2012: Apocalipse Now? “É uma visão espiritualista das profecias maias”. O segundo livro: Medicina Emocional
e o terceiro: Acupuntura: a medicina do século XXI.




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