H. Dobal: A Poética do Homem e Outros Bichos Esquecidos
Menezes y Morais *

Dobal em Teresina, foto sem crédito
Os olhos do poeta Hindeburgo Dobal Teixeira (1927-2008) brilhavam repletos de ternura naquela tarde, na qual ele, Cineas Santos e o autor dessas virtuais traçadas linhas, saboreávamos um cafezinho em sua casa, em Teresina (PÍ).
De férias na cidade, morando em Brasília, sabendo que H. Dobal fora acometido pela doença de Parkinson, pedi ao CS que me levasse até sua casa.
Poeta consagrado, premiado, servidor público aposentado, cidadão do mundo que morou em Teresina, Rio de Janeiro, Brasília, Londres e Berlim, HD parecia feliz naquela tarde.
Creio que isto aconteceu em 1994. Dobal indagou se eu queria café com açúcar ou adoçante. Diante a minha negativa, observou, com um sorriso sincero nos lábios:
“Você tem razão, doçura só a da vida”.
ALIENAÇÃO
Conversamos amenidades, dias depois eu voltei a Brasília, sem, entretanto esquecer aquela frase ecoando na memória, que bem pode ser um verso: “doçura só a da vida”.
O que mostra que Dobal não sofria da doença chamada alienação política, essa gente costuma creditar a vida as mazelas sociais e históricas que infernizam a odisséia humana, esquecendo que o verdadeiro inimigo não atende pelo nome “vida”, mas pela alcunha “poder”, a forma de como o “Estado” é organizado.
A vida é inocente. Como dizia Sartre, “o inferno são os outros”.
Se Dobal tivesse resistido um pouco mais, talvez sua viagem definitiva fosse prorrogada por mais tempo, pelo milagre das células-tronco, a grande esperança da revolução na medicina neste surpreendente século XXI.
HUMANO

Dobal, retrato do artista quando jovem, album de família
H Dobal debruçou-se sobre a existência humana, falando no “homem e outros bichos esquecidos”, diz num poema. Nada escapou do seu olhar poético e crítico. Da solidão humana povoando a tarde, à solidão dos homens anônimos encharcando o dia.
Flashes da vida, retratos do cotidiano – Rio-Teresina-Brasília-Londres-Berlim – o atento olhar dobalino observou mudanças na geografia física da cidade – Roteiro Sentimental e Pitoresco de Teresina, Os Signos e as Siglas (Brasília) – e nas paisagens humanas, produzindo uma poética onde não faltam mergulhou objetivos e subjetivos na condição humana.
A obra de HD dá uma sacudida dialética na cabeça e no estômago do leitor. Poeta de paisagens, tempo, gentes, lugares, dos rebanhos do tempo, do homem ou da vida simplesmente, Dobal ainda encontrou uma folguinha para criticar a poesia rimada e metrificada.
Mesmo quando escreveu ficção (Um Homem Particular), condimentou poeticamente a sua prosa, às vezes, é um poema quase inteiro, embora com o final frouxo, aguado, prosaico.
CRONISTA DO TEMPO
O olhar atento do poeta registra mudanças na rota do tempo, o que faz de HD um cronista do tempo. A “Província” de Dobal é o mundo, mais ou menos como a aldeia de Marshall McLuan é a aldeia global.
A globalização do capitalismo começou no período das grandes navegações, no mercantilismo, quando o colonizador europeu transformou as populações nativas (chamadas índios) e povos africanos em mercadoria, mão-de-obra escrava.

Dobal, por Adriano Lobão
Tudo isso consta do ideário poético de H. Dobal: os índios piauienses que foram massacrados (Acoroazes, Pimenteiras, Gueguezes, Tapuyas), ganharam um poema épico (El Matador), onde nomina um dos chefes da chacina, o tenente-coronel João do Rêgo Castelo Branco (1776-1780).
Faltou o pistoleiro de aluguel, o assassino por encomenda de índios e africanos, o bandeirante Domingos Jorge Velho, que é nome de ruas no país inteiro e de colégios, inclusive em Teresina.
DJV chefiou a expedição militar da monarquia que assassinou Zumbi dos Palmares (?-1695). Por todos os crimes que cometeu, sempre bem remunerado, DJV é considerado um “herói” nacional.
Até quando?
Dobal exaltou heróis da independência – anônimos (Memorial do Jenipapo, “o sonho anônimo dos que morreram pela liberdade”) e resgatou o histórico poeta piauiense Leonardo de Carvalho Castelo Branco ou Leonardo de Nossa Senhora das Dores Castelo Branco, que foi preso no Piauí, Maranhão e Portugal.
Em tempo: a vida do poeta e inventor Leonardo também deveria ser estudada nas escolas do ensino médio do Piauí e do país.
Não temos sequer um retrato de Leonardo. Lembro de algumas conversas que eu tive, na década de 1980, com o publicitário, letrista (tem obras-primas com o cantor e compositor Edvaldo Nascimento) e poeta Durvalino Filho, nas quais me dizia, empolgado:
“Vamos forjar um retrato do Leonardo”.
POESIA VIVA

A grandeza ética e estética da poesia de HD parte do micro para o macro, da solidão para a alegria (me divirto lendo Serra das Confusões), da vida para a destruição da morte: a Poesia vive.
Dobal deu-se ao luxo de achar alguns dias inúteis, por ser um repórter do tempo, cuja poesia fotográfica não poupa o mal caratismo popular ou estilista.
A poética dobalina é uma radiografia da existência social, iniciando pelo começo, da Província à contemplação da paisagem, registrando universais tipos humanos.
Nem a gente simples e humilde com seus flagrantes de virtude e desvirtude escapou de suas retinas. As qualidades estéticas de HD já foram exaltadas por poetas e estudiosos da literatura.
Entre eles Manuel Bandeira, Odylon Costa, filho, Álvaro Pacheco, Fábio Lucas, Cristina Maria Miranda de S. P. Correia, M. Paulo Nunes (grande contemporâneo e companheiro de Dobal), Almeida Fischer, Cineas Santos (anjo da guarda de Dobal, na fase aguda da doença de Parkinson) e a professora Maria G. Figueiredo dos Reis.
Lembro bem daquela tarde, Cineas com o olhar fixo no poeta, eu bebendo café puro e Dobal sorrindo com seu jeito piauiense universal de ser, com sua ternura e humildade diante o mistério, se emocionando com o dia bonito pra chover.
Por que Deus não nos deu o poder de congelarmos o tempo nas retinas da tarde?
BIBLIOGRAFIA

Dobal visto pelo olhar genial de João de Deus Netto
O Tempo Consequente (1966), O Dia Sem Presságios (1970, Prêmio Jorge de Lima).
A Viagem Imperfeita ((1973), A Província Deserta (1974), A Serra das Confusões (1978, editada por Cineas Santos, com ilustrações geniais de Albert Piauí, saiu originalmente em A Província Deserta).
A Cidade Substituída (1978), El Matador (1980, em forma de folheto, com xilogravura de Fernando Costa, editado por CS, saiu originalmente em O Dia Sem Presságios).
Os Signos e as Siglas (1986, ilustrado por AP e editado por CS). Gleba dos Ausentes – Uma Antologia Provisória (2002). Entre as antologias que tem a poesia de H. Dobal incluída, Desde Planalto Central – Poetas de Brasília (2008, organizada e apresentada por Salomão Sousa).
* Jornalista, professor, escritor e historiador, editor da Nós – Fora dos Eixos
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Gostei do seu artigo,e aprecio H. Dobal e tudo que ele representa. É valoroso saber que outras pessoas apreciam o que muitos ignoram, o que nós temos de bom.
Você ressaltou que Domingos Jorge Velho foi um dizimador de indios e de escravos, o nosso Estado não tem nenhuma herança indígena por conta deste ignóbil senhor, exaltado por muitos. Mas, algumas coisas ja mudaram, ele já não é visto como herói por aqui. um abraço,