Centenário de Nascimento de Patativa do Assaré
Por Menezes y Morais *
Ilustração: João de Deus Netto *

Patativa do Assaré e William Shakespeare
Uma das vozes mais autênticas da poesia brasileira está completando cem anos de nascimento. Trata-se de Antônio Gonçalves da Silva (1909-2002), que entrou para a história com o pseudônimo de Patativa do Assaré.
Nascido na comarca Serra de Santana, distante 18 km de Assaré, cidade da região do Cariri (CE), AGS perde a visão do olho direito aos quatro anos de idade, em função de uma enfermidade e da falta de médico na cidade.
Esse lamentável fato denuncia o descaso que existe até hoje na medicina brasileira (especialmente no interior), com a falta de profissionais e o despreparo científico de muitos deles.
Eu tenho um amigo – cujo nome não revelo para não expô-lo – que há cerca de cinco anos, em Brasília (DF), entrou na sala de cirurgia enxergando, para livrar-se de glaucoma, e saiu de lá literalmente cego. Como é possível uma coisa dessas?
Conheço uma senhora com mais de 70 anos, que, ao contrário, que há cerca de um ano, também entrou com problemas de visão numa sala cirúrgica, para o mesmo procedimento, e saiu de lá maravilhada com a recuperação da visão.
SALVO PELA POESIA
E Patativa do Assaré? Simplesmente não havia médico nenhum para operar-lhe o olho. Para completar, tinha uma perna mecânica, devido a um acidente de carro que sofrera em Fortaleza (CE).
Patativa foi salvo pela Poesia: prendeu ler com os folhetos de Literatura de Cordel. Ficou apenas um semestre na escola, mas descobriu o caminho das pedras.
E tornou-se um autodidata que inclusive lia os poetas clássicos e tratados técnicos de literatura. Dominava até a polêmica forma do soneto. Patativa é mais uma voz brilhante na tradição de poetas cegos como Homero, Camões, Jorge Luiz Borges, Cego Aderaldo e Glauco Matoso.
TRABALHO

O Autor de Cante Lá Que Eu Canto Cá pensou o Brasil
Aos oito anos, com a morte do pai, ingressa no mundo do trabalho, labutando a terra. Aos 12 anos vai para a escola, onde fica apenas seis meses, dividindo as atividades escolares com o trabalho na roça.
PA aprendeu a ler sem respeitar ponto ou vírgula. E foi através da leitura de poetas clássicos como Castro Alves – que considera o maior do Brasil – que aperfeiçoou a leitura.
Aos 16 anos, fascinado pela literatura de cordel, pelo som da viola e a peleja entre os cantadores, foi fisgado pela música, a leitura e a Poesia. Daí em diante não parou mais.
É quando compõe os primeiros versos e convence a mãe a vender uma ovelha para comprar uma viola: ingressa, assim, no universo literário e musical, participando de cantorias. A partir de então começa a construir a sua lenda pessoal, produzindo poesia, fazendo cantorias e trabalhando na roça – até os 70 anos.
Aos 19, faz a sua primeira grande viagem, sai do Ceará para Belém (PA). Na capital paraense, Patativa trava cantorias com vários colegas. Ele mostrou o seu trabalho às comunidades que habitavam ao longo da estrada de ferro entre Belém e Bragança.
APELIDO
Foi em Belém que ele ganhou o epíteto de Patativa, pelo jornalista e escritor José Carvalho de Brito, ao ouvir a cantoria do poeta conterrâneo. Ao regressar de Belém, constata que existem inúmeros poetas com o pseudônimo de Patativa e decide acrescenta o sobrenome Assaré.
Inconscientemente, ao homenagear a cidade onde nascera, insere-se na tradição clássica da Antiguidade, como Tales de Mileto e Jesus de Nazaré. O resto é história.
Para quem não sabe, Patativa é o nome de um pequeno pássaro de cor cinza, hoje ameaçado de extinção, cuja principal característica é esconder-se na floresta e ficar imitando outros passarinhos.
PA não imitou ninguém. Sua inspiração nascia da vida concreta. Escreveu o que vivera. Teve inclusive problemas com a ditadura militar de 1964-85.
PA criticou a ditadura em artigos em jornais alternativos, assinados com pseudônimo. Amargou uma prisão, por causa do poema Prefeitura sem prefeito.
Como cidadão, teve participação ativa na vida política nacional. Foi uma das vozes que empolgou o País nos comícios da histórica campanha nacional pelas eleições “diretas já”!
VOZ SOCIAL

Patativa criticou a ditadura e foi preso
PA é um poeta camponês. Sua poesia dá voz ao povo nordestino do campo e da cidade, excluído da riqueza e à mercê das intempéries naturais.
Mas não é apenas a voz social que lhe serve de temática. Sua poética envolve questões sociais gritantes – fome, opressão, reforma agrária, falta de liberdade.
PA também cantou o amor, religião, a amizade, costumes sociais, Deus, natureza, Poesia. Enfim: todos os temas cabem na sua poesia.
Cantor, compositor, violeiro e poeta, PA era uma celebridade quando Luiz Gonzaga, o “Rei do Baião”, grava o clássico A Triste Partida (1964), de sua autoria. Foi um sucesso nacional.
Outros nomes famosos da Música Popular Brasileira, como Fagner, também gravaram obras do PA. A interprete e compositora brasiliense Simone Guimarães também gravou música dele,
Fagner, inclusive, gravou O Vaqueiro, modificado para Sina, sem citar a autoria, no disco Manera Fru-Fru (1972). Em 1996 o LP de estréia de Fagner é transformado em CD, ainda excluindo o nome de PA. A crítica denunciara o fato.
Fagner, então, redimiu-se: foi ao encontro de Patativa, explicou o mal entendido, gravou outra canção, Vaca Estrela e Boi Fubá, com o nome do Patativa no crédito. E fez inclusive fez um grande show em Fortaleza, dividindo o palco com o poeta Patativa.
TRIBUTOS

O ator Adilson Tavares, de Teresina (PÍ), revive Patativa interpretando seus poemas
PA gravou inúmeros discos de poesia – sabia sua obra de cor, carregando-a consigo para onde ia. Ao todo, são mais de mil poemas. Publicou obra extensa, entre as quais Inspiração Nordestina (1956) e Digo e não Peço Segredo (2001).
Virou tema de tema de filme (Jefferson Albuquerque Jr. e Rosemberg Cariri). E objeto de estudo em teses acadêmicas (mestrado e doutorado), de ensaios bibliográficos.
Patativa foi agraciado com quatro títulos de Doutor Honoris Causa. Ele é um dos poetas brasileiros mais estudados, inclusive no exterior, (França). Recebeu dezenas de tributos em vida e de forma póstuma.
Em Brasília (DF), no primeiro semestre de 2009, foi homenageado diversas vezes. Primeiro, pelo Coletivo de Poetas e depois pela Associação dos Cantadores Repentistas e Escritores Populares.
A Associação, presidida por Chico de Assis, promoveu um encontro nacional (28 e 29 de maio de 2009) no qual Patativa foi homenageado. O Coletivo de Poetas promove saraus no DF desde 1990, ao longo deste ano está promovendo tributos ao Autor de A Triste Partida, com saraus e rodas de leituras, incluindo minipalestras sobre sua vida e sua obra.
Uma das palestras foi proferida pelo casal de escritores Wagner Sresthas e Hilda Rãdha, autores do livro Brasília: a Cidade Mais Inteligente do Mundo. A TV Brasil (Canal 2 no DF) levou ao ar (01/6/2009) uma edição do programa De Lá Pra Cá, dedicado a Patativa do Assaré, apresentado pelos jornalistas Vera Barroso e Anselmo Góis.
No Teatro dos Bancários (Brasília-DF) foi exibido o longa-metragem de Rosemberg Cariri sobre a vida e a obra do autor de Cante Lá Que Eu Canto Cá.
A Poesia está livre e, graças a Deus, o poeta vive.
* Jornalista, professor, escritor e historiador, editor de Nós – Fora dos Eixos.
** Designer gráfico, cronista, chargista, caricaturista e criador dos blogs Jenipapo + News e PINICEZ
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Comentários
Nossa, que interessante, é muito interessante para nós professores trabalharmos os cordéis e poemas em sala de aula,
porque é muito educativo e descontraido, além de ser atividade extra educativa.
A vida e obra de Patativa é apaixonante. Típico nordestino sofredor se sobressai através do cordel encanta a qualquer leitor.
Pena que parou tão cedo de produzir 101 ano teria se ainda estivesse aqui.A TRISTE PARTIDA – PATATIVA DO ASSARÉ. Patativa é imortal na sua obra.

Nossa, super interessante, principalmente para pesquisa…Trabalho incrível, muito dedicado a literatura brasileira…. Bay,
Luana.