O Pecado da Palavra

Por José Roberto da Silva*

Em nossa velha e boa tradição religiosa, é possível pecar por pensamento, palavras e obras.

Da mesma forma, podemos ser livres agindo eticamente nessas três variantes da estrada da vida.

No último dia 6, faleceu o jornalista Getúlio Bittencourt, o Getulinho que deixou um rastro de profissionalismo e penca de amigos nas redações por onde militou, especialmente nas da Folha de SP, Gazeta Mercantil e Veja.

Nos idos de 78, entrevistou o general João Figueiredo, candidato in pectore do Presidente Geisel à sua sucessão.

Figueiredo já se preparava para a missão de concluir a abertura política, iniciada por Geisel e Golbery para se antecipar ao risco do atropelamento pelo clamor das ruas.

A nova conjuntura exigia, portanto, falar com jornalistas, prática sempre dispensável em regimes fechados.

Figueiredo falou, mas exigiu que a entrevista fosse de “orelha”. Nada de gravador. Nada de caneta bic e lauda de papel dobrada. Era a tentação da palavra.

Getulinho ouviu e reproduziu com fidelidade de xerox. Figueiredo não acreditou nas excepcionais orelhas do jornalista. Achou-se traído no trato, ameaçou retaliações, mas por fim se deu por convencido, o que, dada a época e o clima, foi um avanço.

Trata-se de uma entre tantas lições sobre o crucial papel que os jornalistas viveram na reconstrução democrática em nosso País.

Logo em março de 1985, em pleno calvário de Tancredo, os jornalistas voltaram a pisar o palácio de vidro do Executivo não mais como abelhudos e impertinentes, ou meramente convocados, mas como atores de uma sociedade civil que saia das sombras de 21 anos de arbítrio.

Graças aos jornalistas Fernando César Mesquita e Frota Neto, assessores da Presidência tal como o foi posteriormente Getulinho, o aguerrido reportariado fincou pé no que era seu por direito democrático: a Sala de Imprensa “Tancredo Neves”.

Aí, sim, para ouvir e arguir o Poder, gravar o Poder, fotografar e filmar o Poder.  Sem grampo, sem receitas de bolo, sem blogs espertos como um release infiltrado.

A palavra deixou de ser pecado mortal.

Artigo Publicado no Jornal de Brasília – DF em 23 de junho 2009

foto_jose_roberto* José Roberto da Silva é jornalista,

sociólogo e escritor. Publicou em 2008 o livro Sementes da Memória – os rebeldes de 68.

É editor da coleção Idéias e Debates da Thesaurus Editora de Brasília.




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