Pensar
Por Paulo Madeira *

O Pensador, escultura de August Rodin (1840-1917)
Pensar percebendo que se o está fazendo parece banal e, aliás, o natural. Mas, não! Foi, na verdade, um ACHADO. E, tão importante, que pavimentou a estrada para a Filosofia.
E perceber sem fantasiar, de conformidade com as reais realidades, foi outro achado, que também deveria ser o natural. Mas, também não!
Levou muito tempo para os humanos começarem a desconfiar dos mitos e crenças que eles mesmos inventavam. E mais ainda para começarem a substituí-los por conceitos resultantes de observações cuidadosas, testes, experimentações.
Os primeiros humanos a suspeitarem (antes de Shakespeare) de que havia, mesmo, muito mais mistérios entre o Céu e a Terra foram os gregos antigos, alguns poucos séculos antes de Cristo, portanto, só recentemente, aqui bem pertinho de nós…
E o que foi a motivação impulsionadora dessa façanha? Foi a coragem deles de não levar as crenças muito a sério e o gosto por especularem sobre o que viam na natureza e sobre a diversidade de opiniões encontradas nos contatos com povos vizinhos: sim, eram OUTRAS as opiniões e, daí, também as crenças, os mitos, os costumes, os saberes.
Como, então, distinguir quais seriam confiáveis?
O que eles concluíram, inteligente, corajosa e humildemente!, foi que se tratava apenas de suposições (inclusive as suas próprias opiniões, bem INGÊNUAS e INCERTAS, aliás…)
E passaram então a pensar mais cuidadosamente. Até com uma atitude quase filosófica. Desconfiando das verdades estabelecidas pelos sacerdotes e passando a optar por pensamentos próprios.
Um salto. E que salto! Começaram a fazer autocrítica e a querer, daí em diante, tudo bem entendido e esclarecido.
Os conceitos (para os gregos, os “logos”) teriam de ser definidos em função das realidades (ou das concepções a que se referissem).
Com este cuidado, fundamental (!), eles foram deixando de ACEITAR (como antes faziam) explicações inventadas, imaginadas, imprecisas (ainda que dogmatizadas pelas religiões ou tradições).
Mas, como ficar sem elas? Ah, para substituí-las, agora com mais realismo!, começaram a produzir OUTRAS EXPLICAÇÕES, desta feita tentando, ao invés de inventar, interpretar (fielmente) o que viam.
Nem sempre conseguiam fazê-lo perfeitamente, o que era natural e compreensível. Mas o auspicioso é que começavam a se dedicar à tarefa de procurar BEM PENSAR.
Não foi por acaso que aí surgiu a figura de SÓCRATES, o pensador preocupado com ensinar a PENSAR. E, num crescendo, os gregos foram ficando curiosos, corajosos e, até, abusados.
Só que, por causa disso, passaram a incomodar o establishment, ao submeterem saberes tidos como sagrados a reflexões independentes, duvidando deles também.
Esse demolidor método de duvidar & repensar, fazendo “juízos de realidades”, era um perigo… Poderia desmantelar o arcabouço de crenças baseadas em mitos. E vieram inevitáveis conflitos.
Mas eles foram aos poucos sendo superados, e o saber leigo foi tomando o lugar que lhe cabia na mente dos mais inteligentes. E estes, felizmente para a humanidade, construíram as bases do mundo que agora temos.
Fantástico, apesar das crenças de que, incrivelmente, este nosso Mundo ainda está abarrotado…
O que você acha disso?
Serviço

* Paulo Madeira
é filósofo
e cronista.
Autor dos livros
Incertas Certezas
e Crenças Incríveis.
www.thesaurus.com.br
Se você gostou deste artigo, deixe um comentário abaixo e considere
cadastrar nosso RSS, para ser notificado nas próximas atualizações do blog.

Comentários
Nenhum comentário.
Comente este artigo