La dolce vita de um Poodle

Por Orlando Muniz*

Foi-se o tempo em que a expressão “vida de cachorro” era utilizada como sinônimo de vidas desregradas e forjadas no limiar dos tropeços cotidianos. Ser chamado de cachorro quer por sogras afoitas, quer por garçons combalidos, em insuportáveis finais de noite, era sem dúvida uma pecha que nem os mais empedernidos contumazes das madrugadas queriam ser nominados.

O melhor amigo do homem vez por outra saía das hostes da fauna domiciliar para frequentar o imaginário dos poetas de ocasião, dando vida a composições de gosto e tema discutíveis, mas que mostrava a exata dimensão do que esses artistas queriam exaltar. Não foi por acaso que o grande Waldick Soriano buscou na vida mundana de um vira-lata notívago a inspiração para o já clássico “Eu não sou cachorro não”. Ali, o poeta preferido nas casas de afoitamentos se fundava nessa epístola da vida animal para desgraçar bocas vaidosas que pulhavam seu combalido coração de amante sem causa. Fez sucesso o seresteiro baiano. Vendeu muitos discos com esse refrão que até hoje graça por ouvidos pecaminosos dos que fazem pouco da arte popular.

Diante deste início meio pedra, meio tijolo, pode ficar entendido que com essas elucubrações de meia-boca, que estamos querendo dizer que vida de cachorro é mesmo uma vida de cachorro. Nada disso, viver como cachorro deve servir como referência para vidas glamorosas e cheias de trejeitos que somente os plácidos dedos de pelica podem produzir. Ser cachorro por aqui no Brasil, e em São Paulo por excelência, é a certeza de que os tempos de outrora fazem parte de um passado feio e mal-cheiroso que não se parece em nada com os ambientes de luxo e paparicação por onde trafegam Lulus, Amalinas, Grapetinhos, Freds… e tantos outros de linhagens e pelagens sedosas como os cabelos de Cleópatra.

Não faz tempo, uma matéria que foi ao ar pelo Jornal Hoje da TV Globo deu a exata dimensão do quanto a economia nacional já se curva aos latidos dos caninos. Até certo ponto apoiada em bases científicas, a reportagem fazia uma comparação entre a quantidade de pet shops e o número de padarias na paulicéia. Não deu outra, a cachorrada ganhou de lavada. São 6 mil lojas de venda de coleirinhas e bibelôs para os mimosos, contra 4 mil padarias para os portugueses que ainda resistem no ramo. Confesso que fiquei abismado com esses números. Era muita loja de cachorro para português de menos. Mas tudo tem uma explicação. Só existe aquelas se existir dono de cachorro e dinheiro farto para atender os deleites do cão. No regime capitalista essa regra é clara: só tem oferta se houver demanda.

Pensei mais um pouco. Ouvi alguns latidos que vazaram por minha cabeça e voltei ao mundo real, começando a sentir um pouco de inveja dos pulguentos. Comecei a refletir sobre uma hipotética pesquisa entre os pet shops e as livrarias de São Paulo ou do Brasil. Fiquei depressivo, não com o possível resultado, pois aí seria uma goleada para demitir qualquer técnico. A depressão é saber que enquanto se cultivam hábitos requintados para os cachorros — que nada têm a ver com depressão e livros —, mais meninos crescem neste país sem saber interpretar um texto e sem amor pela leitura. É triste chegar a esta conclusão, mas neste ritmo nossas livrarias estão condenadas a se transformar em pet shops, até que, talvez, os cachorros aprendam a ler.

Orlando Muniz é escritor

Orlando Muniz é escritor

Orlando Muniz é autor do livro Armazém Brasil e Máscara das Palavras.




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