João Videira Santos, Quando a Poesia Radiografa a Condição Humana
Por Menezes y Morais *
O poeta, artista plástico e compositor lusitano João Videira Santos, 66 anos, é um daqueles que a Poesia procura. Aos 11 anos escreveu o primeiro poema, Só Louco. Desde então a Poesia nunca mais deixou sozinho.
O editor Victor Alegria (esquerda) e o poeta JVS
Filho de Portugal, nascido e criado em Lisboa, João Videira Santos está no Brasil, Brasília, para participar da abertura da exposição poemográfrica O Nu das Palavras, em parceria com a publicitária e fotografa Renata Biglia.
A exposição está aberta à visitação pública no Instituto Camões, que funciona na Embaixada de Portugal. Leia matéria sobre a mostra nesta edição. O Nu das Palavras também será aberta ao público em Porto Alegre (RS). JVS volta para Portugal (Lisboa) nesta quarta-feira, 2.
Em entrevista exclusiva à revista Nós – Fora dos Eixos, JVS fala um pouco do seu trabalho, dos problemas que os escritores enfrentam para publicar suas obras e um pouco da sua vida. Confira.
PINTANDO E ESCREVENDO
Nós – Fora dos Eixos: O que está fazendo, agora, Poeta, paralelamente à mostra O Nu das Palavras?
João Videira Santos: Pintando e escrevendo, só escrevo poesia. Escrevo desde os 11 anos.
NFE: Como foi a sua iniciação poética?
JVS: Nem eu sei explicar. O primeiro poema que escrevi era de tal forma tão virulenta que não acreditaram que tinha sido eu que escrevi. Eu tenho esse poema no meu blog. Só Louco é o título. Daí em diante a Poesia nunca mais deixou de me procurar.
NFE: O que é Poesia para você?
Horizonte de Bruma, acrílico de JVS
JVS: Eu acho que, para além de ser um sentimento vivo da pessoa no seu olhar à vida e ao mundo – e a sua própria sensibilidade – todos somos um pouco poeta, só que não temos a coragem de escrever.
NFE: Você recebeu algum estímulo, incentivo…
JVS: Não recebi nenhum incentivo. Eu próprio, olhando a mim próprio, considerei que eu sou uma pessoa diferente. Sou um mortal como todos, só eu que considero, que em termo de sensibilidade, que eu sou uma pessoa diferente.
NFE: Quando você publicou o primeiro livro?
ENFRENTANDO A DITADURA
JVS: Em 1973. Meu primeiro livro chama-se Meio Tom.
NFE: Por que Meio Tom?
JVS: Eu tinha 30 anos à época e achava que ainda tinha outro meio tom para escrever. É uma edição do autor. À época Portugal ainda vivia a ditadura. E embora as palavras fossem agrestes e que escondiam, de certa forma, aquilo que eu percebia da situação. Foi uma afirmação viva e concentra.
NFE: Em 1973, Portugal vivia a ditadura salazarista: Marcelo Caetano era o ditador de plantão. Era muito difícil para um poeta publicar seus poemas à época, com a censura?
JVS: A minha geração enfrentou problemas de censura, de falta de oportunidade, da procura de uma literatura que não era fácil de encontrar, dificuldades de edição, que infelizmente ainda existe. A única vantagem que eu encontrei foi o convívio com artistas. Você conhece Lisboa?
NFE: Ainda não.
JVS: Na parte central de Lisboa existia um café – ainda existe – a única vantagem que nós tínhamos era o encontro com outros artistas se reuniam. A troca de informação foi importantíssimo. Eu sou autodidata. A minha universidade foi essa toda.
NFE: Como é o nome desse café?
JVS: A Brasileira. Por lá passavam não apenas artistas em geral, mas também políticos famosos. Nesse café eu conheci Juscelino Kubistchek, por exemplo. Eu tinha 13 para 14 anos. Minha família esta ligada a duas épocas distintas da história de Portugal. O meu avô materno foi um dos fundadores da República.
NFE: Sua família era politizada, pelo visto…
JVS: Para você ter uma idéia, aos 5 anos meu avô, Sargento Videira, que era revolucionário, me disse que o Getúlio Vargas tinha morrido, para nós ele era uma figura conhecida. Eu sabia quem era Prestes (Luiz Carlos Prestes) e Brizola (Leonel de Moura Brizola). Estou falando das figuras recentes.
NFE: Do primeiro livro até o presente, o que mudou na sua poesia? O que é Poesia para você?
JVS, primeiro poema aos 11 anos
JVS: Hoje, minha escrita está mais desenvolvida. Eu entendo que a Poesia é um estado d’alma evolutivo.A língua portuguesa é tão rica em poetas – angolanos, portugueses etc. Eu só considero uma poesia ligeiramente superior a nossa, a Poesia francesa. Depois disso não existe uma Poesia melhor do que a nossa, de língua portuguesa.
NFE: Você teria algum “conselho” aos poetas que estão começando?
Para quem está começando?
JVS: Usem e abusem da liberdade criativa, não se condicionem à métrica. A Poesia pesa à métrica não tem a espontaneidade que deve ter.
NFE: Você sente que o brasileiro gosta da Poesia feita em Portugal?
JVS: Sim, apesar do Brasil só conhecer bem dois poetas portugueses, Fernando Pessoa e Florbela Espanca. Mas existem outros…
O NU DAS PALAVRAS
NFE: De Brasília, onde fez a estréia mundial, para onde vai a exposição O Nu das Palavras?
JVS: A mostra, em princípio, deve ir para Porto Alegre. Renata Biglia é uma artista fotografa de grande mérito estético, é uma jovem de quem há de se esperar muito nessa atividade. Eu só a conheci agora. Uma amiga, Isabel Fontes, que também escreve poesia, sugeriu que eu fosse ver os trabalhos da Renata, que estavam na internet. Eu fui ver e gostei. E a desafiei para me apresentar as fotografias nu, que eu escreveria poemas para essas fotografias. Ela gostou, me apresentou 25 trabalhos e durante o ano de 2007 eu escrevi os poemas, para esse conjunto de poemas que eu chamei O Nu das Palavras. Depois de Porto Alegre vamos tentar expor em Portugal.
NFE: O título é sugestivo. Os poemas desse projeto, naturalmente, vão ser editados em livro…
JVS: A expectativa é transformar em livro. Modéstia à parte é um trabalho lindíssimo. Renata consegue captar a imagem feminina e masculina sem a ostentação do corpo. E normalmente quem fotografa o corpo faz sempre a apologia erótica do corpo da mulher, porque somos o que somos, fêmea e macho e sendo o que somo, não precisamos ser expostos. Renata fotografou as partes mais incomuns do corpo da mulher sem cair no lugar comum. Ela mostra até a sensibilidade de uma boca…
MÚSICA E ARTES PLÁSTICAS

De Brasília, a mostra será exibida em Porto Alegre (RS)
NFE: E o JVS músico?
JVS: O João é um perfeito analfabeto em termos musicais, não toca, com alguma habilidade consegue tocar campanha de porta. Há dois anos as canções escritas em Angola ganharam uma seleção das cem melhores músicas. Entre as cem estava eu, o único individuo branco que está na coletânea e o único que não conhecia Angola. O disco chama-se Mona Kilumba. Eu tenho mais de 50 gravações de músicas minhas
NFE: E o JVS artista plástico?
JVS: Os primeiros trabalhos foram criados com a técnica de carvão. Depois fiz, no inicio dos anos 1970, algumas exposições, depois parei porque estive envolvido com o movimento sindical. Depois voltei. A minha pintura é abstrata. Desde 2001 exponho regularmente, fazendo duas, três por ano.
* Jornalista, professor, escritor e historiador. Editor da Nós – Fora dos Eixos
Serviço: para conhecer
mais a poesia de JVSD
acesse: www.joaovideirasantos.blogspot.com
www.thesaurus.com.br
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Comentários
Excelente artigo. Numa linguagem bem articulada, cuidadosa e simples, conseguiram desnudar-lhe a alma, capturando-lhe o que estava à mostra, num misto de despojamento e sensibilidade.
Lúcia
João é um grande artista.É pessoa de fino trato, com quem dá gosto falar. Estive com ele e com Renata na exposição e gostei bastante dos dois. São duas pessoas de sensibilidade muito próxima e a exposição é magnífica. Estão de parabéns. Para eles e para seu trabalho desejo muitas felicidades. Que Deus os acompanhe.

Excelente artigo. Aqui, conseguiram desnudá-lo num misto de despojamento e sensibilidade, capturando-lhe a alma, e numa linguagem bem articulada, cuidadosa e simples.
Lúcia