A Gíria dos Países de Língua Portuguesa Invade o Primeiro Mundo

Por Menezes y Morais *

Gurgel,há 20 anos pesquisando a gíria dos paises de língua portuguesa

Gurgel,há 20 anos pesquisando a gíria dos paises de língua portuguesa

Os puristas da língua que me perdoem, mas, o jornalista e escritor cearense JB Serra e Gurgel é um dos maiores defensores e pesquisadores (há mais de 20 anos) da gíria que eu conheço. E ele não está sozinho nessa odisséia semântica.

Que o digam os seus milhares de leitores espalhados pelo mundo afora, que já leram o seu Dicionário de Gíria, o Equipamento Lingüístico Falado do Brasileiro, com 33 mil verbetes, 735 páginas, com gírias do Brasil, Portugal, Angola e Moçambique.

Quem trabalha com a palavra sabe que é o povo é o seu principal renovador, com a sua vanguarda de escritores, criadores de neologismos. As palavras inventadas, quando resistem à ação do tempo, terminam se petrificando nos livros (dicionários), como diria o poeta João Cabral de Melo Neto.

DESMISTIFICANDO A TESE DOS QUE SÃO CONTRA A GÍRIA

Gurgel fustiga os moralistas da língua. E desmistifica os seus ataques à língua do povo: “É falsa a afirmação de que a gíria é linguagem de malandros, marginais, de pobres, de excluídos”.

Acrescenta: “É falsa a afirmação de que rico, educado, bem nascido, não fala gíria. Também é falsa a afirmação de que a gíria empobrece a língua”. E vai mais além:

“Também é falsa a afirmação de que gíria é a linguagem usual dos brasileiros que não tiveram a oportunidade de estudar. Ou ainda, é a linguagem usual dos brasileiros que tiveram a oportunidade e não estudaram”.

O que é a gíria, então? “É a linguagem dos brasileiros de todas as cores, raças, etnias, sexo, níveis, instrução, educação, cultura, classes sociais, posse de bens etc.”. Gurgel fala com a autoridade do autor  daquele que é considerado “o mais completo Dicionário de Gíria editado no país e na língua portuguesa, reunindo os modismos utilizados pelas tribos urbanas”.

Manuel Antonio de Almeida (1831-1861)

Manuel Antonio de Almeida (1831-1861)

Tanto é assim que a primeira edição foi publicada há 10 anos e tinha apenas um pouco mais de 6 mil verbetes. “Eu estudo a gíria brasileira há mais de 20 anos. A gíria não é apenas um conjunto de palavras ou códigos semânticos usados por determinados grupos ou profissões”.

GÍRIA, INSTRUMENTO DE COMUNICAÇÃO DOS EXCLUÍDOS

“Também não é giria – acrescentou Gurgel – o caipirismo ou o regionalismo, muito embora algumas palavras dessas linguagens estejam incorporadas ao patrimônio gírio”.

O que é, então? “É muito mais do que isso. É um recurso legítimo, empregado pelos brasileiros, que não conhecendo a linguagem padrão e precisam se comunicar, se fazer entender”.

Para Gurgel, um empresário e um trabalhador da construção civil se entendem facilmente através da gíria. “Se o dinheiro os separa, a gíria os une. Da mesma forma, os adolescentes se entendem. Nesta tentativa, tudo é válido”.

Por esta razão, assegura: “Chega a ser inacreditável que os brasileiros reajam com desprezo aos que falam fluentemente a língua, aos que empregam expressões cultas e eruditas na sua comunicação. Todos torcem o nariz e até ridicularizam, chamando-as de barrocos, rococós, pernósticos, pretensiosos, metidos à besta”.

Aloisio de Azevedo (1857-1913)

Aloisio de Azevedo (1857-1913)

A GÍRIA NA MÍDIA AJUDA LEVANTAR A AUDIÊNCIA?

O dicionarista cearense radicado em Brasília (DF) diz que sim. E chama atenção para um fato. “Vejam o que acontece nos meios de comunicação do país, principalmente no rádio e na televisão. Se eles mudassem sua linguagem, se não recorressem à gíria, perderiam audiência”.

Ao recorrerem ao uso da gíria, esses comunicadores nivelam por baixo? Gurgel diz que não. “Eles usam e abusam da gíria para manter a audiência. Estão certos. Até os jornais e revistas recorrem à gíria. Principalmente os mais populares. Daí que ser crescente o número de brasileiros que falam gíria e cada vez mais são criados novos modismos gírios, incorporados à língua Portuguesa”.

O acervo gírio na língua portuguesa pode chegar a 50 mil verbetes. “Isto é muito. É verdade que muitas gírias estão dicionarizadas na língua padrão, embora continuem condenados pela língua culta ou oficial”.

E acrescentou: “De qualquer forma, acredito que os baixos níveis de educação nos últimos 30 anos contribuíram para uma expansão da fronteira gíria no Brasil e para que muitas gírias deixassem der ser gírias”.

Gurgel afirma que “O brasileiro comum usa duas mil palavras, inclusive do idioma gírio”. E que “o razoavelmente instruído tem um vocabulário de 5 mil palavras e o culto utiliza 10 mil”.

A GÍRIA BRASILEIRA NAS BIBLIOTECAS DO MUNDO

O Autor informou que sua obra pode ser encontrada nas principais bibliotecas do mundo. “Quem consultar a Biblioteca Nacional do Brasil ou de Portugal, as bibliotecas dos Congressos dos Estados Unidos e do Brasil, encontrará o livro no acervo”.

O mesmo acontece com o acervo do Instituto Ibero-americano de Hamburgo, acrescentou Gurgel. “As 4ª e 5ª edições chegaram às bibliotecas das 240 universidades e todas as faculdades de letras cadastradas no Brasil”.

Gurgel fala com orgulho do seu Dicionário de Gírias rompendo fronteiras. “Especialmente na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional de Lisboa, o Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro e  Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, em Washington”.

Onde mais? “Na Biblioteca do Senado Federal, da Câmara dos Deputados e da Universidade de Brasília, em Brasília (DF), Biblioteca da Academia Brasileira de Letras e da Associação Brasileira de Imprensa”.

O que isto significa? “Trata-se de um esforço para que a gíria deixe de ser marginalizada, por escrúpulos e pruridos idiotas, pelos que devem estudar sua importância na vida e cultura dos brasileiros”.
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A ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS NÃO LEMBROU

O dicionarista cearense enviou carta ao presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), escritor Cícero Sandroni: “Enfatizei que neste ano de 2009 está sendo lembrado os 250 anos da publicação Infermidades da Língua, de Manuel Joseph de Paiva, marco gírio na língua portuguesa. Mas a ABL não se lembrou”.

Até onde estou informado – acrescentou –  “a Academia Portuguesa também está ignorando o marco. Temo, com todo o respeito, que sejam esquecidos. Lembrei também: em 1990, dos 100 anos, do segundo livro publicado em idioma gírio no Brasil, O Cortiço, de Aluísio de Azevedo”.

“Em 2003, dos 100 anos do O Dicionário Moderno, de Bock, pseudômino de José Angelo Vieira de Brito, mas não trazia gíria no título. Em 2004, dos 150 anos do primeiro livro publicado em idioma gírio no Brasil, Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antonio de Almeida, em 1854”.

CENTENÁRIO DO PRIMEIRO DICIONÁRIO DE GÍRIA

Diante tanto esquecimento, Gurgel se antecipa no tempo: “Em 2012, teremos o centenário do primeiro Dicionário de Gíria publicado no Brasil, mais precisamente A gíria dos Gatunos Cariocas, de Elysio de Carvalho”.

“Também em 2012 – acrescentou –  os 300 anos da primeira referência à gíria na língua portuguesa, feita pelo padre Raphael Bluteau, no seu Dicionário da Língua Portugusa”.

A gíria fará 300 anos em 2012 Em 2012. A presença da gíria na língua portuguesa vai completar 300 anos, marco gírio da referência gíria no Dicionário do padre Raphael Bluteau.

Dos dois lados do Atlântico, por enquanto, só nós aqui registramos a data enquanto aguardamos alguma manifestação oficial.
Explosão gíria

giria,gurgel.capa.2.image003Serviço: e-mail: gurgel@cruis

* Jornalista, professor, escritor e historiador. Editor da Nós – dos Eixos.




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Comentários

Caro Menezes y Morais
Grato pela oportunidade.
A gíria é a segunda língua dos brasileiros, mas ninguém admite.
Sigo a trilha de Antenor Nascentes e de Antonio Houaiss, lexicográficos como eu,que defenderam a dignidade da gíria como a língua falada dos brasileiros. A Academia Brasileira de Letras deveria não fazer a apologia da gíria, mas sua indiferença aos marcos gírios é uma agressão à evolução da língua portuguesa.

Acompanho o trabalho do meu irmão desde antes da publicação da primeira edição do seu Dicionário de Gíria, quando ele garimpava por tudo que é lugar novas gírias para incorporar ao livro. Publicar a primeira edição foi um trabalho de fôlego que começou sem muita pretensão, para se tornar na maior referência nacional sobre o assunto, tão importante quanto os mais completos dicionários brasileiros, cujos autores, por puro preconceito, muitas vezes ignoram esse modo de falar. Hoje em dia, se não falamos gíria, não nos comunicamos, porque a gíria está presente em todos os níveis de nossa cultura.

Achei muito interessante o artigo. No Espírito Santo já existe um Jornal praticamente todo formulado em linguagem com gírias, o que popularizou mais a sua leitura, ficando mais acessível às pessoas que não gostavam de ler.
Hoje em dia é quase impossível manter uma conversação sem que seja incluída pelo menos uma gíria.
Parabéns!

Sou tradutor e entendo que a língua só enriquece, ela mesma e seus usuários, quando são respeitadas todas as formas de expressão dentro de um país. Desde a linguagem formal às expressões populares.

Ola! Gostei muito desse artigo. Acho que a gíria é uma forma de expressão que faz a língua evoluir e aproxima as pessoas, além de ser criativa. Estou cursando Bacharelado em Humanidades na UFVJM, em Diamantina (MG), com ênfase em Letras e vou sugerir o Dicionário para a biblioteca! Sacou?

abraços,

Cristina Vieira.

Gostaria de saber algumas palavras que eram gírias, deixaram de ser e foram para o dicionário.
Aguardo resposta, grata, Anna Karina

Prezada Anna Karina Pires, boa tarde.
No rodapé da matéria tem um e-mail para contato direto com o Autor do Dicionário de Gírias.
Abraço,

Nós – Fora dos Eixos.

As gírias e de lmala eu que sou brasileiro não tenho medo de falar pos ganbe que fica moscano na quebrada né não irmão podi creeee.

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