A Arquitetura Lírica da Poesia de João Carlos Taveira

Por Wilson Pereira *
Especial para Nós – Fora dos Eixos

João Carlos Taveira

João Carlos Taveira

A produção poética brasileira, significativa tanto em termos de quantidade quanto de qualidade, é também representativa na diversidade de estilos.

Do início da segunda metade do século passado, quando surgiram as manifestações e produções poéticas de vanguarda, especialmente com o concretismo, passando, em seguida, pela poesia práxis, o poema-processo, o neo-concretismo e, depois, nos anos setentas, pela chamada poesia marginal, têm coexistido diversas formas de expressão poética.

Ao lado dessa poesia de caráter experimental, que vigorou com maior força de penetração nos meios literários até a década de 1980, mas com ecos ainda nos dias atuais, vem sendo produzida a poesia de estrutura tradicional, elaborada em  estrofes e versos com ritmo, rima e, até, métrica, pois mesmo o velho e bom soneto, combatido pelos modernistas de 22, retomado pela Geração de 45, renegado aqui e ali por alguns vanguardistas, vem sendo praticado como forma legítima e bem aceita de construção poemática.

Manoel de Barros

Manoel de Barros

EM BUSCA DA ORIGINALIDADE

Enfim, parece que as investidas vanguardistas em busca da originalidade como valor maior, se não único, de criação artística, esbarraram nos limites próprios da linguagem verbal, esgotaram-se. Fica, no entanto, a par e dentro desses limites estruturais, semióticos, a busca por uma expressão poética pessoal, que é, enfim, o que justifica a produção da obra de arte genuína, senão não seria criação, mas tão-somente cópia.

Essa busca passa a ser mais por uma semântica poética, por um significado, um conteúdo, que emana de uma forma elaborada em linguagem apropriada. E, no caso da poesia, a linguagem deve re)vestir-se de um tecido metafórico, figurado, conotativo, capaz de produzir no leitor a contemplação artística, a surpresa, o embevecimento, o espanto estético.

E é daí que, dependendo da criatividade (em pouquíssimos casos da genialidade) do autor, surge o novo, o inusitado, para bulir com a sensibilidade, com a intersubjetividade do receptor da obra de arte.

A procura da originalidade na obra de arte, especialmente na poesia, é tema complexo, que mereceria pesquisa exaustiva com as considerações pertinentes. No entanto, resvalo na questão por pura elucubração teórica, de pretensões menores.

E me vem,  a propósito, que seria impossível hoje, depois de mais meio milênio de literatura produzida no Ocidente, alguém arvorar-se a inventor de uma nova “roda” no universo literário.

MANOEL DE BARROS

Caso interessante, a esse respeito, na literatura brasileira, é a poesia do mato-grossense Manoel de Barros que, com seu alogicismo semântico, sua cata de inutilidades poéticas, em contraponto com o sóbrio, o profundo, o filosófico, com os temas grandiosos ou edificantes da humanidade, faz pressupor uma extraordinária inovação.

No entanto, um olhar mais cuidadoso pode  encontrar raízes desse jeito novo de dizer poético em outros poetas como Murilo Mendes, Jorge de Lima, Manoel Bandeira e Mário Quintana, isso sem falar na visível influência que recebe aquele poeta de Guimarães Rosa.

E isso, vale ressaltar, não diminui o valor de Manoel de Barros, como bom poeta que é, mas mostra que, mesmo sendo um dos mais ousados e criativos dos últimos tempos, não é tão original quanto se poderia a princípio supor. A questão, porém, para encerrar essa pequena provocação crítica, é o que se propõe o poeta a fazer com o que catou, com o que absorveu em suas leituras e como transformar em novidade ou, pelo menos, como, enfim, recriar o impacto da arte.

taveira,captadoarquitetura.1491 ARQUITETURA DO HOMEM

As considerações acima me vêm como pretexto para um breve comentário sobre Arquitetura do Homem, último livro de poemas de João Carlos Taveira.  Com bela capa e acabamento gráfico primoroso, traz o conjunto de poemas distribuídos em 5 partes: “Da eterna construção”; “Da inútil arquitetura”; “Das imprecações”; “De novo a música e as incertezas” e “De sonetos e haicais”.

Assentada nos pilares sugeridos pelos subtítulos do livro, ou seja, pelos títulos das partes, e seguindo a lírica tradicional que sempre caracterizou desde o primeiro livro a safra poética do autor, a poesia deste novo livro comunica um sentido palpitante de vida e de suas ressonâncias, de suas buscas e perdas, de sua constante construção e da inevitável caminhada dos seres e das coisas para o fim.

O poeta Taveira é desses que escreve antes para expressar o que lhe brota da alma sensível, como necessidade de comunhão artística, com viés existencialista, do que para exibir sua habilidade de construir o verso, o que, aliás, faz muito bem. Sua poesia surge, portanto, carregada de significados íntimos e sugestivos da condição do ser perante o mundo.

Como nota o admirável poeta e crítico de poesia Anderson Braga Horta, no texto impresso na orelha do volume: “Assim, sua poesia agrada pelo equilíbrio formal e pelo sentido existencial que a forma veicula, depurado em essência poética.”

De fato forma e conteúdo se harmonizam de maneira que os poemas expressam, numa  linguagem de ritmo fluente, com metáforas sugestivas, mas sem sofisticações impertinentes, um sentido de imediata absorção e, ao mesmo tempo, de conotações sutis e, às vezes, surpreendentes, para a fruição refinada, de leitores mais exigentes de poesia.

ARTESÃO DA PALAVRA

O poeta Ronaldo Costa Fernandes, que também assina texto de apresentação do livro, ressalta: “É João Carlos Taveira um exímio artesão da palavra poética, reinventando a tradição sem perda da contemporaneidade. Verso musical, sonoro, rítmico, construído a partir de uma conjunção feliz de tema e expressão poética”.

Mário Quintana

Mário Quintana

Taveira, consciente de que a poesia não é feita de arroubos ou bravatas, nem pirotecnias verbais, como os poemas-piada, os trocadilhos fáceis, os protestos sem destino certo, nem tampouco de meras aparências visuais e fônicas, declara, na abertura do poema “Novíssima poética”: “Não sou conservador/ nem progressista: sou poeta”.

Boa poesia se faz especialmente com metáforas, com os recursos expressivos da linguagem figurada. E há nos poemas de Arquitetura do Homem passagens dignas que bem demonstram o teor metafórico com o que poeta  reveste sua poesia.

Veja o leitor os seguintes exemplos: “Em proporção aritmética/ o boi me parecia ter crescido/ centímetros acima do espanto. / As casas já podiam/ ser desvendadas/ do alto dos meus sonhos.” (do poema “Autoconhecimento”, p.35); “As paredes sem cal/ erguidas dentro do tempo, / se vestem de fuligem, / assombrações e morcegos.” (do poema “A Máquina”, p.37) “Guarda teu boi/ de espuma e vento/ dentro da nuvem/ branca, da nuvem/  que se formou/ sobre o papel.” (do poema “Adágio para Oboé”).

ARTIMANHAS DA LINGUAGEM

A aparente simplicidade – aparente porque, como já assinalado, o poema, mesmo sendo acessível ao leitor não especializado, carreia em seu bojo sutilezas, enigmas, sugestões e subjetividades só alcançáveis por olhos mais afeitos às artimanhas da linguagem poética – é uma conquista e não demérito como pensam alguns.

Penso no poema “Ismália”, que vem encantando gerações de leitores há mais de um século. É um poema simples, mas de uma simplicidade profundamente poética e comovente pela situação que expressa. Penso também em Cecília Meireles: “Eu não tinha este rosto de hoje (…)”, penso em Manoel Bandeira, em Mário Quintana, poetas que encantam tanto leitores simples quanto críticos e professores de literatura.

Boa parte da poesia de qualidade, em geral, tem o mérito de servir a uma leitura contemplativa, capaz de encantar e comover, logo de saída, e também de se sujeitar a uma leitura crítica, para análise de seus elementos estruturais e suas reverberações semânticas.

Pois bem, a poesia de João Carlos Taveira, bem arquitetada, se desenha com linhas claras, transparentes, que deixam ver em seu interior a essência lírica, de edificante sentido humano.

wilson_pereira* Wilson Pereira,

associado da Associação

Nacional de Escritores,

é poeta, contista,

ensaísta, professor

e autor de livros infanto-juvenis.




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