O Baião e os Parceiros do Rei
Por Carlos Araújo *
Especial para Nós – Fora dos Eixos
Os melhores caminhos do sertão

Luiz Gonzaga não inventou o baião (criação do povo), mas deu formato e dimensão...
Não se abrem no calor da força bruta
De máquinas hostis rasgando o chão.
A melhor estrada pede outra conduta,
Assim como quem canta uma canção
E acende o prazer de quem escuta.
Esse bom caminho fez Luiz Gonzaga
E o que se faz com talento não se apaga.
Quem pode apagar o que a beleza cria?
Ninguém reduz a grandeza de um rio
Que derrama ritmo, letra e melodia
E dança, e avança, como um desafio
E forma na terra um mar de alegria,
Feito de baião e balanço macio.
Nessa estrada real andou o rei Luiz.
E o Brasil seguiu a diretriz.
Mas o rei do baião subiu a ladeira
No brilho dos versos de Zé Marcolino
Do grande Zé Dantas e Humberto Teixeira
E o baião seguiu o seu destino.
O Brasil dançava a noite inteira
No balanço do ritmo nordestino,
Ao som da zabumba e da sanfona.
E o triângulo pegou uma carona.
Outros parceiros do rei nessa jornada,
Por quem o Brasil inteiro tem estima,
Lembrá-los aqui não custa nada,
Começando pelo mestre Miguel Lima.
Rosil Cavalcanti fez verso e toada,
Onildo Almeida uniu canto e rima.
E na coroa do rei, garbosa e triunfante,
Cada parceiro musical era um brilhante.
E o povo seguiu a trajetória
Construída de baião, xote e xaxado,
Que até hoje atiçam a memória
E sacodem o corpo de quem é treinado
No ritmo que nasceu e fez história,
Com música e poesia lado a lado.
Assim a parceria era completa,
Pois compositor tinha que ser poeta.
Mas a mesma nação que adormecia
E sonhava no ritmo do baião
De repente acordou na noite fria
Nos braços da cadeira do dragão.
Foram anos de chumbo e agonia,
De lamentos e gritos de aflição.
Mas o rei, quem sabe, distraído,
Não ouviu dos porões um só gemido.
Quando Gonzaguinha entrou na dança
Viu nuvens de medo que o pai não via.
Então fez um canto de esperança
Com indignação e rebeldia,
Sonhando com um tempo de mudança,
Desfiando prantos onde pranto havia.
“Cruzes sem nomes, sem corpos, sem datas”
Arrastavam cordões em passeatas.
O clamor se fez a voz do sonho
Que a voz da sanha não calou
E o baião mudou seu ar tristonho
Quando a noite de medo agonizou.
E um novo dia amanheceu risonho
Quando a nova dança começou.
O Brasil inteiro viu que o baião
Não rimava com golpe e repressão.
Hoje quando alguém escuta um fole
Gemendo num bom forró pé de serra
Ao sentir o gemido que escapole
Da garganta do fole desenterra
Um balanço macio, e o corpo bole,
Pois um corpo buliçoso não emperra.
Mas existe prazer nesse exercício…
Sem eletrochoque, sem suplício.

...nacional ao ritmo. O Xaxado, uma variante do baião, foi "inventado" por Lampião, o capitão Virgolino Ferreira da Silva. Bob Marley, por outro lado, também não inventou o Reggae, mas deu dimensão nacional e internacional à esse tipo de música. Nota da Redação
E até hoje o prazer é a bandeira
De quem prefere o doce balanceio
E o sabor da dança verdadeira,
Sem forró de plástico pelo meio
Azedando a cultura brasileira,
Num cenário degradante e feio.
E agora, que vocês sabem o que eu sei
Que tal seguir os caminhos do rei?
*Carlos Araújo é jornalista aposentado, poeta e escritor.
Serviço
riopajeu@hotmail.com
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