Setor Noroeste, Terra de Ninguém Onde Cada um Faz o Que Bem Entende

Por Eugênio Giovenardi

Índios, considerados "invasores" do Setor Noroeste, uma espécie de "bairro" de Brasília

Índios, considerados "invasores" do Setor Noroeste, uma espécie de "bairro" de Brasília

Especial para a Revista Nós Fora dos Eixos

“Dizer que o Noroeste é o primeiro bairro ecológico é apenas um elemento de marketing,” afirmam em artigo minucioso o coordenador do Setor Noroeste Paulo Zimbres e o professor da UnB – Universidade de Brasília, Geraldo Nogueira Batista. O grosso caderno de publicidade, propaganda e marketing com 24 páginas do Correio Braziliense (18.10.2009) vai além da afirmação dos arquitetos.

Assisti a conferências, discussões e seminários sobre a conveniência do adensamento urbano da capital. Participei de reuniões específicas sobre o Setor Noroeste, li entrevistas de autoridades governamentais, empresários e políticos em defesa da expansão e do crescimento de Brasília. Reiteradamente, cita-se em apoio ao novo setor, e só a ele, o relatório do Dr. Lúcio Costa – Brasília Revisitada. Parece que, nesse relatório, não há outro item importante à exceção da proposta da área noroeste para expansão da cidade.

Lucio Costa

Lucio Costa

Atrevo-me a afirmar que se as demais propostas e recomendações contidas no Brasília Revisitada tivessem sido tratadas com o mesmo emprenho governamental, o mesmo dinheiro, a mesma capacidade de engenheiros e arquitetos do projeto Noroeste, a diligência da Câmara Legislativa, a firmeza dos órgãos ambientais e a celeridade dos tribunais de justiça, Brasília teria um rosto melhor cuidado. Não seria essa terra de ninguém onde cada um faz o que bem entende, do puxadinho aos quiosques, das ocupações irregulares aos gabaritos de 30 andares.

Um bairro ecológico se caracteriza pela capacidade da natureza em repor com a mesma velocidade e intensidade a riqueza natural explorada e consumida pelos habitantes que ocupam uma área de terra. No cômputo desses habitantes não figura apenas o homem. Ele será, ali, minoria. Levará consigo poderosos artefatos que competirão com a maioria dos habitantes originais da área, atacados minuto a minuto pelo exacerbado consumo do homem. Água. Os 40 mil moradores tirarão dali 14 milhões de litros diários para uso direto. Milhares de árvores, plantas e arbustos com volume hídrico apreciável serão erradicados e deslocados para outras áreas. Pássaros e milhões de insetos compõem o equilíbrio biológico e ambiental. “Alguns” indígenas absurdamente considerados invasores das terras brasileiras, ali radicados, terão que buscar outro espaço para sobreviver.

O fato de serem instaladas facilidades do progresso e novos artifícios para o conforto humano não caracteriza ipso facto o estado ecológico do bairro. A solução técnica, por mais acabada e defensável, não é necessariamente ecológica. A arte e a beleza paisagística podem ser uma estética maquilagem se não equacionarem o equilíbrio entre a oferta e o consumo da riqueza natural. A impermeabilização do solo com a construção de edifícios, avenidas, ciclovias, exigirá cuidados especiais para garantir a infiltração de águas pluviais e assegurar a recarga dos mananciais e aquíferos subterrâneos da área, sob o risco de secamento das bacias do Bananal e do Paranoá.

Chegará  o marketing às cabeças dos novos moradores ou produzirá apenas efeitos imobiliários, status social e enriquecimento de construtores?

Cientes da moleza de nossas instituições e da presença constante de interesses secundários, os autores de FRUTO DE MUITAS CABEÇAS esperam que as flexibilidades anunciadas não desviem nem corrompam a “proposta tão esmeradamente desenvolvida”. Águas Claras e centenas de condomínios irregulares sobre a frágil área do Cerrado são fatídicos exemplos que gritam mais alto contra a insensatez do crescimento que impõe impagáveis custos ambientais na conta do conforto urbano desejado e da saúde humana ameaçada.

eugênio_sociológo_* Eugênio Giovenardi é sociólogo e escritor

Serviço (61) 9981-2807




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