A Arte da Dissimulação
Por Orlando Muniz*
A mentira bem contada já não me impressiona de jeito nenhum. Por vezes chega até ser charmosa uma conversa bem aplicada, um “171″ com cara de quero mais, uma lorota para enganar trouxa…e por aí vai. O que não consigo engolir é a arte rasteira da dissimulação. Causa-me asco, perceber que o sujeito passa o tempo todo quererendo fazer parecer aquilo que exatamente não é.
Já tratei dessa esbornia da esquisofrenia de falta do caráter nacional, no conto “Chá da Sinceridade” que abre meu livro Máscara das Palavras. Os personagens que compõem aquela trama se despem do seu mundo protegido pelas ambivalências, ao tomar o poderoso produto da santidade, para desatar as línguas ferinas em sinceridades nunca antes presenciadas no planeta. Aquilo lá é uma ficção de vida real pura e acabada, se isso é possível! Como de costume, os meus personagens – conto – foram colhidos bem ali, no meio da rua, nas esquinas das casas legislativas, nos amplos corredores de tribunais, nos holofotes da imprensa, nos corredores dos supermercados, nas poltronas macias das academias…pelas vielas das favelas.
A dissimulação nesse ponto é democrática, não distingue classe social, credo, raça, gosto musical, preferências futebolísticas, cores partidárias, etc. O dissimulado é um ser unicelular e camaleônico, muda sua conversa na variedade da oportunidade. Fala o que é conveniente não se importando se mais tarde alguém vai conferir o que já dissera no passado e se haverá alguma contradição no futuro. O que importa é o que vai parecer que queria dizer e jamais o que realmente pensa.
Realmente o limite da paciência é um preço que as estomatites pagam pela sua persistência. Haja sal de fruta e óleo de peroba para aguentar os dissimulados que vão se revezando em entrevistas mal ajambradas nas TV´s, que por sua vez nada fazem nem os contestam. Até quando o caráter de baixo plano desse tropicalismo envergonhado vai aturar é uma aposta de risco e sem prazo de validade? Sei lá!
O pior de tudo é saber que logo, muito em breve mesmo, estaremos recebendo doses cavalares dessa indiosincrasia múltipla sob as asas míopes do horário gratuito na TV para as eleições que se aproximam. Que Deus proteja nossos ouvidos!
*Orlando Muniz é autor do livro Armazém Brasil e Máscara das Palavras.
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