O muro e as pernas da moça!

* Por Orlando Muniz

Há vinte anos, eu ainda tinha alguns cabelos que não eram tão brancos. O trânsito em Brasília parecia algo civilizado, sem semáforos, sem filas duplas, sem os apressadinhos, e quase sem nenhum buraco nas ruas. Há vinte anos, o São Paulo nem pensava em ser hexa, o Brasil só era tri e o Dunga era tão somente um mediano cabeça de área que gostava de distribuir botinadas à dar com o pau. Já se vão alguns anos da redemocratização do país e por aqui as coisas mudaram muito, e acho que para melhor, nessas últimas duas décadas, principalmente pela vinda de Mariana, minha filha que se alinha nessa contagem de tempo.

Quando se é muito jovem, é muito natural olhar o tempo como um ente conflituoso. Ora somos jovens de mais, ora somos jovens de menos. Sempre falta um pedaço de espaço para preencher nossas ansiedades e nossa vontade de fazer, de crescer, de imaginar, de buscar o desconhecido. Tudo é motivo para o confronto de ideias e de sonhos, de buscas e de emoções, de amores e fracassos. Quando se vai chegando à casa dos trinta, o tempo começa a ser um detalhe que já passa a ser considerado de forma mais respeitosa. Uns fios brancos vão pintando as madeixas, um olhar responsável começa a frequentar com mais consistência para o futuro estável, e não há como negar que logo virão os quarenta, os cinquenta… É a vida que anda e anda rápido.

Todo esse olhar saudoso sobre a jovialidade e o tempo me remete para um momento em que panfletávamos no campus da universidade (Federal do Maranhão), em 1978, pela volta da democracia plena, pelo fim da ditadura, pela anistia ampla, geral e irrestrita e pela liberdade plena de expressão. Sabíamos que existia no mundo uma guerra fria, com posicionamentos antagônicos na disputa entre os EUA e a União Soviética, para saber quem seria o síndico do planeta. Sem a massificação que hoje a mídia nos possibilita saber de tudo em tempo real, fazíamos de tudo para colocar nossas ideias ao conhecimento da rapaziada de nossa idade, tão sufocada pelos estertores daquele tempo sombrio. Rodávamos nossas ideias em um velho mimeógrafo a álcool e rezávamos muito para tudo sair conforme o planejado. Tudo andava na roda daquele tempo que parecia não querer passar. Por vezes, e depois da faculdade, o que nos alentava era poder ouvir as músicas feitas pelas cabeças coroadas da MPB naquele protesto bem elaborado, cheio de ambivalências e muita metáfora assanhadora de corações e mentes ávidas por mudanças.

O muro caiu literalmente em 09 de novembro de 1989. A fratura exposta das Alemanhas Oriental e Ocidental marcou o fim de uma era de conflitos e descaminhos. O mundo trouxe abaixo um símbolo que envergonhava uma cidade, um país, um povo sitiado entre as artimanhas de um passado mal resolvido. Os tijolos e o concreto sendo arrebentados por picaretas, machados, facas de cozinha, etc., era a demonstração de que a população da Alemanha e do restante do planeta já não aguentava mais essa dicotomia de esquerda e direita, capitalismo e socialismo, o bem contra o mau, e assim por diante. A queda do Muro de Berlim foi mais que um rompimento com a burrice ideológica, foi um ato de rebeldia da liberdade das ideias, que não suportava mais a vergonha da separação dos povos pela força e pela intimidação à liberdade.

E o que tem as pernas da moça com a queda do muro? Tudo! Quando pensava que já andávamos firmes para a formação de gente com a cabeça livre das amarras da hipocrisia, eis que aqui nestas terras de táxi pirata e micareta o ano todo, surge um fato, no mínimo inusitado. As TV´s, os jornais, as rádios, a internet não falam de outro assunto: a moça que foi expulsa de uma faculdade em São Paulo. O motivo relatado na mídia: a exibição de pernas e outros atributos sabem-se lá aonde e para quem. Aqui não me interessa, sinceramente, o nome da moça, a ilustre faculdade, o município da desdita, quem estava no pólo contrário, nada disso. Também não me interessa se ali existem bandidos ou mocinhos, o que interessa mesmo, é que depois de vinte anos da queda do Muro de Berlim, ainda continuamos fingindo que a sociedade não mudou! É provável que nessa mesma faculdade ocorra outras tantas questões comportamentais e ninguém trata do tema com o fulgor do fato narrado. É provável também, que muitos desses alunos saiam dessa e de outras faculdades sem saber ao certo do porque que ali chegaram e qual o seu destino. Ninguém depois vai conferir se estão sendo bem formados ou não.

Se a moça infringiu ou não aspectos da etiqueta comportamental da ilustre faculdade eu não tenho a menor ideia, o que não se admite mais é essa hipocrisia recorrente dos jogadores de pedra nos pecadores de plantão. Tomara que as saias da moça não acabem em páginas de revistas animadas e tudo literalmente acabe em uma majestosa pizza!

Orlando Muniz

Orlando Muniz

*Orlando Muniz é advogado, procurador federal e escritor.

É autor de Máscara das Palavras (Thesaurus) e Armazém Brasil (Thesaurus).

Confira: www.thesaurus.com.br

Orlando tem um blog acesse: http://orlandomuniz.blogspot.com




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