A Solução (um Conto Inédito de Jarbas Junior*)
A Menezes y Morais
Especial para Nós – Fora dos Eixos
Encontram-se no ônibus, viajam sentados no mesmo assento. O mais jovem fala:
– Vou vender meu órgão!
O outro estranha surpreso:
– Que é isso?
– Desespero de causa.
– Como assim? Você á ainda bastante novo, tem saúde, disposição.
– Mas não consigo trabalho; as contas a pagar; vivo nesse pesadelo de morto social, sem dinheiro, sem crédito estamos mortos para o sistema. Não tenho outra saída.
– Pense melhor. Persevere mais um pouco. De repente, a sorte muda.
– Não creio assim, sorte é uma questão de escolha. Fiz muitas escolhas erradas.
– Talvez, o resultado delas ainda esteja em processo, às vezes, demora mais o que o tempo da nossa paciência.
– Compreendo bem a sua argumentação, agradeço. Mas não tem jeito mesmo, as dívidas me sufocam, nem respiro direito mais. Vivo de olhos insones, a alma em fogo de enxofre.
– Procure uma ajuda diferente.
– Qual? Já tentei loteria, jogo do bicho, reza braba, medalhinha santa, nada!
O outro pensa, procura palavras de Salomão, uma sabedoria espetacular, um conselho mágico. Considera a possibilidade de oferecer dinheiro, mas seria somente um paliativo fraco.
É interrompido pelo mais jovem dizendo:
– Amanhã, vendo meu órgão… O doutor daquela clínica grã-fina me pagará muito bem.
– Quanto?
– O suficiente até eu conseguir uma colocação assalariada.
– E se o dinheiro acabar antes?
– Penso em outra coisa. Um problema de cada vez. Já falei com a minha mulher, está tudo resolvido. Vendo o órgão e pronto.
– Que pena, lamento muito. Era do seu avô, uma peça de colecionador.
* Jarbas Junior
é poeta, contista, romancista e professor.
Entre outros, é autor de A Jangada de Orson Welles (romance) e O Mistério ds Pérolas de Bashô e Outros Escritos (poesia e prosa), ambos pela Thesaurus Editora. Confira: www.thesaurus.com.br
Se você gostou deste artigo, deixe um comentário abaixo e considere
cadastrar nosso RSS, para ser notificado nas próximas atualizações do blog.

Onde está a “Mens sana”? Mas, a culpa é sua. O comprador tinha que ser logo um dono de Clínica? Só a minha santa mãezinha é que pensaria em um instrumento musical.
Um abraço,
Angela Delgado