Olhares Sobre as Inutilidades de Jan Pavel, Ficcionista da Pós-Modernidade
O escritor Jan Pavel, traduzido e publicado no Brasil pela primeira vez
Da Redação
Com Magazín UNI, julho de 2009
O escritor, roteirista, poeta, romancista e contista checo Jan Pavel tem o seu primeiro livro – Inutilidades (Thesaurus, contos, 2009) – traduzido e publicado no Brasil. Jan Pavel nasceu em 26 de outubro de 1973 em Praga.
Lá se formou no Conservatório de Jaroslav Ježek (criação de letras e roteiros). Trabalhou como jornalista e roteirista de um canal de televisão. Atualmente exerce a função de redator da editora Slovart. Reside em Praga. Sua página na internet é: www.janpavel.eu
O tema central da prosa de Pavel é sempre o homem e aquilo que lhe é mais próximo, que o molda durante toda a sua vida: a relação entre homem e mulher.
A FRAQUEZA DOS HOMENS
Para o autor, essa é a coisa mais importante, em que tudo começa. Encara as fraquezas do homem, muitas vezes com compreensão, obrigando assim o leitor a refletir sobre onde fica o limite admissível da “normalidade“, porém sem ser moralista.
Nos seus textos utiliza-se de diálogos como de uma linha de sustentação (não foi em vão que se formou como roteirista) – cada diálogo é como uma navalha afiada que corta a carne viva sempre quando, por alguma razão, necessário.
Com a urgência dos seus textos, Pavel dá continuidade, no melhor sentido da palavra, ao legado dos grandes mestres da literatura tcheca: desde K. H. Mácha e sua quase que obsessão por um herói grandioso e sofredor até a Josef Škvorecký ou Milan Kundera e seus antiheróis, por vezes até “insuportavelmente“ cínicos.
Inutilidades é composto por oito contos. O livro teve boa receptividade em seu país – como se pode constatar pelas resenhas a seguir – e Jan Pavel só veio ao Brasil (na 28ª Feira do Livro de Brasília), para o seu lançamento, porque nasceu o seu filho e ele não quis ausentar-se do herdeiro.
A seguir, alguns olhares analíticos sobre Jan Pavel e particularmente sobre Inutilidades. Confira.
Serviço
Magazín UNI, julho de 2009

O tema de Pavel é sempre o homem e aquilo que lhe é mais próximo
– SOBRETUDO PARA A GERAÇÃO DOS ANOS SETENTA
Por Josef Schwarz *
Jan Pavel (nascido em 1973), um autor já bem experimentado em literatura, construiu em seu livro Inutilidades somente em oito contos (Menininhas, Sem medo, Primeira tentativa, Mães, Vida inútil, Impressão, Manchas, … e multiplicai-vos!) uma estória de pessoas de mais ou menos a mesma idade do autor (Adéla, Kristián, Sabina, Ivan, Pepan, Martin e Marcel) as quais têm em jogo nada menos que – a vida.
Os sentidos literal e figurado desta expressão se entrelaçam na narrativa de Pavel, e também por isso o autor leva os seus personagens a situações extremas em que, só no limite entre a vida e a morte, descobrem o verdadeiro valor (ou inutilidade) de suas vidas.
A sequência de contos forma uma rede preconcebida e interligada que vai sendo desvendada somente durante a leitura por um leitor não instruído por informações prévias ou sem experiência com leitura de textos parecidos.
Nos primeiros três contos acompanhamos experiências formadoras da infância dos personagens, as quais vão sendo refundidas em constelações vitais dos personagens adultos nos cinco contos restantes.
Em uma construção torneada com perfeição todas as partes acabam se encaixando no final formando um arco desde o primeiro até o último conto; o leitor chega à descoberta de algumas alusões sutis somente depois de repetidas imersões no mundo literário de Pavel.
Jan Pavel não criou, porém, um veículo pós-moderno com um fim em si mesmo. Ao contrário, por intermédio dele as principais mensagens e significados da estória penetram com mais facilidade na mente do leitor.
Muitos deles são somente esboços ou insinuações que deixam ao leitor espaço para desenvolvê-los dentro de sua imaginação até o ponto em que se dê conte de que: ˝Esse aí sou eu. Eu, tal como os personagens da estória, meço a plenitude (ou o vazio) da minha vida no horizonte de uma morte irrevogável.˝
A morte está presente, sem exceção, em todos os contos, quer como um fim físico ou psíquico real (p. e. Manchas) quer como uma ameaça (p. e. Vida inútil) quer como algo já distante (p. e. Menininhas); dessa maneira Pavel coloca na nossa frente um memento mori multifacetado.
Os personagens centrais com frequência escapam de suas ruínas só temporariamente ou em troca de outras perdas – o que é um outro tema expressivo de todo o ciclo.
A morte é, porém, superada no último conto pela concepção de uma nova vida, numa sugestiva cena de sexo entre Adéla e Martin, os dois únicos personagens que conseguiram desvincular-se dos padrões familiares, refazer-se das cicatrizes da vida, deixar o passado e chegar a uma visão de vida realista, equilibrada e madura.
Levando em conta a extensão do texto, é surpreendente a quantidade de níveis de significados que Pavel conseguiu colocar nos contos, separadamente ou como um todo. São entre eles os temas de (não) poder, liberdade e seus limites, subconsciência, resp. inconsciência, convenções, desilusão, suicídio, aborto, eutanásia, alcoolismo ou infidelidade, em outras palavras, questões que dizem respeito a todos.
E estas questões não se encontram algures à margem do texto, mas são integradas, embutidas nele e trabalhadas numa linguagem literária. Trata-se aqui de um claro reflexo da formação de Pavel (curso de criação de letras e roteiros de Conservatório de Jaroslav Ježek) e da sua, bastante vasta, experiência anterior na área de criação.
Embora o livro de Pavel seja composto de contos, estes podem ser entendidos ao mesmo tempo como capítulos de um bildungsroman, no certo sentido até de um romance de iniciação: o autor nos leva, através de esboços fidedignos dos destinos dos personagens principais, ao mundo oculto sob a superfície da vida da maioria de nós.
E, ao mesmo tempo, não hesita em ironizar as suas próprias idéias ultrapassadas sobre o que é importante na vida (o personagem do escritor Martin que tenta - no conto Impressão – ˝ir escrevendo até˝ ganhar o prêmio Nobel de literatura).
O texto de Pavel é como uma navalha bem afiada – sem cerimônias e sem ilusões penetra até o âmago da vida de todos nós, ainda que a geração de próprio Pavel se espelhe melhor nesta narrativa.
São justamente as pessoas por volta dos trinta e cinco que enfrentam, com mais premência, a questão de um sim definitivo à vida ou de uma decisão pela morte em forma de uma existência vazia, inútil, carregada de resíduos do passado e de rituais inúteis.
Jan Pavel já fez a escolha dele – e o seu livro nos traz essa notícia de uma forma convincente e valiosa, do ponto de vista literário.
* Josef Schwarz
Serviço
Jornal Právo, 16.04.2009

Pavel, contos lidos como se fosse romance
COMO PORCOS-DA-ÍNDIA EM ÁGUA FERVENTE
Por Jaroslav Balvín *
Jan Pavel (1973) reuniu no seu oitavo livro um punhado de contos curtos, como se independentes. Estes foram lapidados até uma forma minimalisticamente compacta em que os diálogos agem como motor de suas ações.
A prosa composta, aparentemente, de micronarrativas autônomas que se entrelaçam discretamente nos mesmos personagens, capta as mesmas pessoas durante a infância e na idade adulta, trata de complexos guardados desde a infância como causas do desequilíbrio dos adultos.
Pavel escreve sobre crianças magoadas, machucadas, atormentadas, ou por seus colegas ou pelos pais, e sobre os seus perseguidores. Estes dois grupos, porém – ao crescerem – encontram-se, sintomaticamente, em polos opostos na sociedade: aqueles que tinham sido atormentados chegaram a altas posições, antigos atormentadores estão afogados em empregos menores e em condições sociais críticas desfavoráveis.
Desse modo, a animozidade entre eles não se dissipa, mas sim aumenta e as lembranças de infância já guardadas tornam-se um pretexto oportuno para desencadear jogos que não são mais tão infantis como o afogamento de um bichinho numa panela com água fervente.
Pavel nos faz retornar ao mundo incólume da infância, maravilhoso e já quase esquecido, ainda não formado pela ordem social simbolicamente construída. À infância, em que as proximidades imediatas e as vivências próprias são a pedra angular de conhecimento de particulares; à época em que nos deixamos abordar por um mundo que não entendemos por completo.
Presumimos, porém, que tudo nele tenha sentido. E, pelo contrário, um desejo de um entendimento completo que é, na realidade, uma classificação racional mortificadora, é um motor nocivo que nos leva a ruína.
A imagem de crianças que ficam nas pontas dos pés só para entreverem o grande mundo dos adultos é como um arquétipo. Parece tão misterioso, desconhecido e atraente!
Essas crianças ainda nem percebem que por trás das caras dos adultos que, pelo que parece, sabem como tudo funciona, costuma estar uma incerteza angustiosa, privada de ilusões e esperanças.
Aquilo que parecia tão promissor na infância torna-se, depois de algumas aventuras de iniciação, somente uma trivialidade exaustiva, uma necessidade de viver dentro da sociedade, aceitando as suas regras.
Trata-se de um mundo do qual é impossível gostar, mas com o qual é preciso se conformar como com um mal necessário. E trata-se de um mundo vivido com uma maior ou menor consciência de que, na realidade, nunca amadurecemos.
Com a consciência de que arrastamos conosco os primeiros complexos que nos amarram de tal modo que não conseguimos agir livremente e aproveitar o tempo que nos foi dado.
Como Sabina, uma dos personagens de Pavel, comenta: A vida é repleta de manchas, pensou ela. Umas manchas que não podem ser apagadas e que ficam se transfundindo umas por cima das outras.
Como viver com tudo isso? É difícil. Ainda bem que podemos ao menos fingir na frente das crianças um mundo e uma vida completa. Oh, como o nosso mundo dos adultos é sério e maravilhoso, queridas crianças!
* Jaroslav Balvín
Serviço
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Pavel, pegando a geração da década de 1970 pelo braço
NARRADOR DA PÓS-MODERNIDADE LÚDICA
Por Bohdan Volejníček *
“… com o brilhantismo de um narrador de uma pós-modernidade lúdica, instruído em cinematografia e literatura – numa única estória secundária várias situações determinantes do ponto de vista existencial.”
Desse modo o livro nos é apresentado na orelha por Radim Kopáč. Tenho que confessar que não possuo nenhuma formação literária e se alguém me oferecesse o livro dessa maneira, desviaria o olhar de vergonha e deixaria o livro de lado.
O que quer que as expressões “uma pós-modernidade lúdica“ ou “determinantes do ponto de vista existencial“ na nobre linguagem de um dicionário acadêmico signifiquem, traduzindo para um simples amante de livros, significa uma excelente experiência de leitura.
É que eu, pessoalmente, avalio a minha primeira incursão à literatura de Jan Pavel (*1973) desta maneira. Atualmente redator da editora Slovart, Pavel nos traz o seu já oitavo (segundo a Biblioteca Nacional nono) livro, incluindo poesia e prosa.
O autor pôs neste livro de contos oito estórias que são, apesar de suas diferenças, aparentemente interligadas. Os protagonistas destas estórias como que se deslocassem pela linha do tempo para estórias seguintes.
Em alguns casos isso é mais nítido, em outros menos. Os temas principais são as relações, sexuais, amorosas ou até as interpessoais em geral. E, às vezes, trata-se de quase que insignificâncias que, de repente, mudam a nossa visão de outra, ou outras, pessoas.
É interessante a visão do autor sobre a inacreditável crueldade da juventude, não só como tormentos da alma ligados aos primeiros sentimentos, mas até uma brutalidade adolescente (no conto Sem medo).
Desde as primeiras páginas, trata-se da inédita capacidade do autor de conseguir, com leveza, transportar o leitor, ou até de envolvê-lo na narrativa.
Aproveita-se da linguagem moderna para isso, de vez em quando apimentada com um pouco de “vulgaridade“. Provavelmente todos os leitores ficam perplexos logo na primeira página, quando a avó diz, comovida, à suas filha e à suas neta: “Eu amo vocês tanto, minhas putinhas de merda…”
Nenhum dos contos, na maioria envoltos num certo mistério, tem um final propriamente dito. O autor sempre faz somente leves alusões àquilo que espera ao personagem, àquilo que talvez aconteça poucos minutos depois do fim da última frase.
O livro Inutilidades só volta a comprovar que o conto como gênero consegue surpreender mesmo em época de culto ao romance. E que há muito excelentes contistas por aqui.
* Bohdan Volejníček, Josef Schwarz e Bohdan Volejníček, são conterrâneos e contemporâneos do escrritor Jan Pavel.
Serviço
Inutilidades (Thesaurus, contos, 2009),
em co-edição com a Embaixada da no Brasil.
Embaixada da República Tcheca no Brasil, (Brasília). Telefones: +55 (61) 3242.7785
fax : +55 (61) 3242.7833.
www.mzv.cz/brasilia
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