Joanyr de Oliveira: um Poeta

Joanyr de Oliveira, falando ao público

Joanyr de Oliveira, falando ao público

Por Anderson Braga Horta *

Especial para Nós – Fora dos Eixos.

Joanyr de Oliveira nos deixou na manhã do dia 5 deste dezembro. Foi sepultado no dia seguinte, exatamente quando completaria 76 anos. Acompanhei sua trajetória desde os inícios de Brasília, quando aqui, recém-chegados, nos encontramos. Da curva luminosa de sua passagem fui testemunha privilegiada.

Quando cheguei a Brasília – e isso vai completar meio século em julho de 2010 –, vindo de Minas, de Goiás e do Rio de Janeiro, cheguei só. A cidade, incipiente e vazia, de terras vermelhas revolvidas e edifícios a brotar do chão como do nada, via-se do alto como uma chaga ou uma rosa no cerrado. Mais chaga do que rosa, nesse então…

Se a amizade é uma das coisas que dignificam o homem, naqueles primórdios brasilienses era de certo modo uma necessidade vital. Uma das primeiras e mais sólidas amizades que fiz aqui – e tenho a alegria de dizer que muitos amigos fui encontrando ou reencontrando nestas plagas, ao longo destes muitos anos – foi Joanyr de Oliveira. Aproximavam-nos alguns pontos em comum. Éramos ambos mineiros, eu de Carangola, na Zona da Mata, ele do Vale do Rio Doce, da cidade de Aimorés, onde minha família residiu por algum tempo, nos idos de 1947. Tínhamos pouco mais ou menos a mesma idade. Eu funcionário da Câmara dos Deputados, em cujo serviço ele também logo ingressaria. Ele casado já, e pai de filhos, eu nas antevésperas de constituir família. Ele com um livrinho publicado em 1957 – Minha Lira, por ele mesmo reputado imaturo –, eu iniciando um bater de asas em antologias, uma das quais organizada pelo infatigável Walmir Ayala. Claro que, de todas as nossas afinidades, a Poesia era a mais notável; mas eu afirmo que amizades duradouras e profundas requerem mais do que essa ou qualquer outra comunidade de cultos: elas pedem por base uma similitude de disposições de espírito antes modais que denominativas.

Joanyr de Oliveira

Joanyr de Oliveira

Joanyr foi um grande trabalhador literário. Além dos livros no gênero que o consagrou, publicou contos e um romance, escreveu crônicas para o rádio, manteve colunas de literatura em mais de um jornal, dirigiu revistas, foi sócio fundador da ANE – Associação Nacional de Escritores, que presidiu, até recentemente, com espírito de luta, ajudou a criar academias; e pode-se dizer que alcançou uma posição ímpar como antologista de poesia. Em 1962 lançou, pela Editora Dom Bosco, Poetas de Brasília, no dizer de José Roberto de Almeida Pinto “a primeira manifestação coletiva ligada à poesia de Brasília”, e no de Napoleão Valadares, “a primeira obra literária editada na nova Capital”. Em 1971 viria a Antologia dos Poetas de Brasília, pela Coordenada Editora. Em 1982, em vez de se limitar aos poetas locais, produziu uma antologia temática: Brasília na Poesia Brasileira (Editora Cátedra, com apoio do Instituto Nacional do Livro, de saudosa memória), saudada entusiasticamente por Drummond, Moacir C. Lopes, João Manuel Simões, Alphonsus de Guimaraens Filho, Murilo Rubião, José Santiago Naud, Danilo Gomes, Xênia Antunes, Antônio Roberval Miketen, Domingos Carvalho da Silva. De 1998 é Poesia de Brasília (Sette Letras), e o coro de elogios se acresce das vozes de Ivan Junqueira, Wilson Martins, Lêdo Ivo, Nelly Novaes Coelho, Eduardo Dalter (da Argentina), José Mendonça Teles, Fernando Py, Adriano Nogueira, Guido Bilharinho, Caio Porfírio Carneiro, Massaud Moisés, Branca Bakaj, Cyro Pimentel, Aníbal Albuquerque, Francisco Carvalho, Wilson Pereira, Manoel Hygino dos Santos, Jason Tércio, José Mindlin. Mencione-se ainda a organização de Horas Vagas: Coletânea 2, edição do Comitê de Imprensa do Senado Federal (1981), e de uma Antologia da Nova Poesia Evangélica (1978). Embora não fosse, em rigor, uma antologia, quero lembrar aqui o primeiro livro em que apareço, na capa, como autor, em parceria com Joanyr, mais Izidoro Soler Guelman e Elza Caravana: O Horizonte e as Setas, contos, de 1967.

O antologista deixou pelo menos esboçada uma seleção de poetas de 1933, e preparada uma de Poetas dos Anos 30, ambas ideadas por Fernando Mendes Vianna, pouco antes de morrer, a segunda com edição prevista para 2010, ano do cinqüentenário de Brasília. Lamentavelmente, parece que se frustraram suas tentativas de apoio financeiro… Cabe um apelo, e o fazemos enfaticamente, à Secretaria de Cultura do Distrito Federal, por meio do FAC – Fundo da Arte e da Cultura ou de qualquer outro instrumento que venha a parecer mais adequado, para que não se cale essa nota de qualidade nas comemorações do cinqüentenário.joanyr de oliveira_capa_antologia_jpg

O poeta esteve longe de ser um acomodado. Tendo-se iniciado no jornalismo em Vitória, fundou e dirigiu periódicos de natureza religiosa no Rio, em São Paulo, em Goiânia e outras cidades de Goiás. Sua ligação com este Estado não se limita aos planos literário e religioso, mas estende-se à política: foi subchefe do gabinete civil, suplente de deputado estadual e o candidato a constituinte mais votado na coligação PDT-PJ, não tendo sido eleito por questões de legenda. Deixou as terras cariocas pelo Planalto Central para exercer o cargo de Revisor do Departamento de Imprensa Nacional. Na Universidade de Brasília iniciou o curso de Filosofia Pura, vindo, entretanto, a se diplomar em Direito pela Universidade do Distrito Federal. Pastor evangélico, tinha a palavra fluente e inflamada. Logo nos seus primeiros anos brasilienses tentou o comércio; nos últimos, dedicou parte de sua energia a uma pequena indústria; malogrou-se em ambos…

A essas e outras atividades devotou boa parte de sua grande capacidade de trabalho, nelas realizou com garra e competência sua missão de servir. Em verdade, porém, Joanyr era fundamentalmente poeta. Uma vocação para a poesia como poucas tenho visto. Muitos de nossos melhores críticos escreveram vigorosa e positivamente sobre seu fazer poético. Um dos que o vira mais intimamente e melhor o identificou foi talvez Oswaldino Marques, que, prefaciando a antologia Casulos do Silêncio (Rio, 1988), sentenciava: “Joanyr de Oliveira pensa imageticamente”, desse modo lhe sublinhando a sintaxe nitidamente diferenciada da sintaxe da prosa.

Se tentássemos esgotar o extenso rol dos que analisaram e louvaram sua poesia e sua prosa, talvez este artigo não bastasse. Claro que não o farei. Mas pode ser de utilidade lembrar – e me proponho fazê-lo, ainda que desordenadamente – algumas obras de referência que o contemplam. É, por exemplo, verbete no Dicionário Literário Brasileiro, de Raimundo de Meneses, na Grande Enciclopédia Delta Larousse, na Enciclopédia de Literatura Brasileira, dirigida por Afrânio Coutinho e J. Galante de Souza, no Dicionário de Escritores de Brasília, de Napoleão Valadares, no Dicionário de Poetas Contemporâneos, de Francisco Igreja, no Dicionário Biobibliográfico de Goiás, de Mário Ribeiro Martins, no International Who’s Who in Poetry, editado em Cambridge, Inglaterra, no Dicionário de Música Evangélica, de Rolando de Nassau (Roberto Torres Hollanda); figura em O Áspero Ofício, de Almeida Fischer, Escritores Brasileiros ao Vivo, de Danilo Gomes, Meninos, Eu Li!, de Alan Viggiano, Poesia de Brasília: Duas Tendências, de J. R. de Almeida Pinto, O Cristal e a Chama, de Maria da Glória Barbosa, Depoimento Literário e Literatura na Criação de Brasília, de Ézio Pires, A Literatura Brasiliense, de Wilson Pereira, Testemunhos de Crítica, de José Augusto Guerra, Prismas, Literatura e Outros Temas, de Ronaldo Cagiano, Diálogos sobre a Poesia Brasileira, de Temístocles Linhares, Antologia Comentada de Literatura Brasileira, de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina C. Bellodi, e (não posso omitir-me) Sob o Signo da Poesia – Literatura em Brasília, deste articulista; mereceu estudo de Fritz Teixeira de Sales na revista Encontros com a Civilização Brasileira e de Adércio Simões Franco no Suplemento Literário do Minas Gerais; e mais haveria a respigar, se tempo houvera.

Joanyr, vivendo poesia e religião

Joanyr, vivendo poesia e religião

Joanyr sofria de diabetes, mal insidioso a que não dava o devido respeito; em conseqüência dele, perdeu uma das vistas e ficou com a outra fortemente comprometida. Não se deixou abater, e prosseguiu sua luta. Com o passar dos anos, porém, o mal ia-lhe minando o organismo. Ultimamente podia-se-lhe notar alguma alteração de humor, alguma mudança de gênio. Em fevereiro deste ano, compôs um poema decididamente amargo, intitulado “Despedida”: “Novos amigos, não quero. / Nem primos, nem descendentes. / Amizade requer provas / na longa extensão dos dias. / Quanto aos netos de meus netos, / sequer ouvirão de mim. // Quero empedrar-me onde estou, / enraizar-me aqui mesmo. / Como alcançarei o cerne / de outras terras, de outras gentes, / se um relógio fatigado / em minhas córneas põe fim? // Novos compêndios, pra quê? / Alfarrábios, muito menos. / Virgens metáforas se perdem, / no crepúsculo definham. / Amigos, filhos, cenários, / adeus, para nunca mais.” Amigavelmente interpelado por Ronaldo Cagiano, confessou-lhe que sentia aproximar-se o fim de sua jornada.

Deixou-nos o poeta, ao cabo de uma temporada de dois meses de hospital. Legou-nos, contudo, a magia de um verbo encantatório, de um lirismo telúrico e cósmico, de suave misticismo e, contudo, de violenta denúncia das misérias do homem. Esse legado se manifesta num punhado de livros, todos de elevada feitura poética, publicados entre 1976 e 2004, no Rio, em Brasília e nos Estados Unidos, onde morou por algum tempo: Cantares, O Grito Submerso, Casulos do Silêncio, Soberanas Mitologias e A Cidade do Medo, Luta A(r)mada, Flagrantes Líricos, Pluricanto – Trinta Anos de Poesia, Canção ao Filho do Homem, Tempo de Ceifar, 50 Poemas Escolhidos pelo Autor, Antologia Pessoal. O reconhecimento desse labor de eleição está nos inúmeros pronunciamentos da crítica mais qualificada, nas diversas premiações, na inclusão em conceituadas antologias – no Brasil e no exterior.

Estou certo de que permanecerá em nossa memória cultural – se bem reconheça que uma espécie de obtusa amnésia ronda os meios que deveriam mantê-la viva. Brasília, especialmente, lhe deve isso. Foi um dos maiores cantores da cidade, e seguramente quem mais contribuiu para difundir a poesia que nela e em torno dela se tem praticado.joanyr de oliveira_capa_tempo_jpg

Mas também acredito que agora pouco lhe importem a glória e outras circunstâncias. Libertou-se. Como diz num poema – “Pássaro Etéreo” – dedicado a outro poeta extraordinário, José Santiago Naud,

Desobrigado enfim

de ossos, cartilagens,

entranhas, epiderme

(abominável fardo),

no triunfal enlace

além do pensamento,

o homem, pássaro etéreo,

abarca os universos

e solene se insere

no sagrado infinito.

Assim seja.

POEMAS DE JOANYR DE OLIVEIRA

O POETA NÃO VEIO PARA RESPONDER

Ao Fernando Mendes Vianna

O poeta não veio para responder.

Nem para fazer: a água, o prado,

o pranto, o sonho, o susto, o grito,

o muro, a crença, a lança, o mundo…

O que existe já moldou sua própria fisionomia.

O que pulsa já mediu seus rumos,

sua intensidade real.

O que paira já estabeleceu sua correta cronologia.

O poeta não veio para responder,

senão para a tessitura das dúvidas e incógnitas.

Para a antevéspera, para a eternidade sem aplauso,

para o anverso da matéria, das normas, das teorias.

A exatidão jamais se casou

com a alma da poesia.

Nos meios-tons, reside a verdade perfeita.

No indivisível, tudo está sem turbação alguma.

No irrevelado, pontifica o coração do mistério.

Se quereis saber, indagai aos magos,

aos iluminados em seus montes e transfigurações,

aos espíritos salpicados de estrelas,

aos físicos, às dialéticas, à meteorologia, às aves,

à lucidez das loucuras.

Indagai a vós mesmos.

O poeta não veio para responder:

palavras deslizam em sua boca,

conceitos se ampliam, mas, lívidos, desfalecem.

Os liames com o cosmo diluem-se num átimo

ante o verbo e a eloqüência.

Os tribunos (sim) estão para os transbordamentos.

Os pregadores, em seus santos delírios,

se espargem nas alturas.

(Colhei nos dilúvios de suas bocas.)

O poeta se oculta (e se revela)

no cerne dos entes e das coisas.

Seu domicilio é o inefável, o inviolado silêncio.

(Seus lábios pertencem aos deuses.)

O poeta não veio para responder.

BRASÍLIA joanyr_de_oliveira_capa_canção_jpg

A Lúcio Costa

Amorosa e clara,

a cidade

voa

com as próprias asas

Alegorias em pluma,

estátuas no rosto das águas.

Arcos, trevos, o verde.

Eixos geram esperanças

na fronte do homem.

O lago ama com os braços

abarcando o equilíbrio.

A torre afina os tímpanos

e as perfeitas retinas:

canta nas noites a fonte.

Artérias humanas e urbanas

em suas vigílias: áureas

dádivas: o branco, as superquadras.

(O pretérito nos mausoléus,

(longe de nossos cânticos.)

Amorosa e clara,

a cidade

voa

com as próprias asas.

A MADURA PALAVRA

A madura palavra

pende e sangra

nos dias opacos     a palavra

bica em sua vigília

a crosta do grave silêncio.

Nas sirenas da angústia

nos murmúrios e fugas

a madura palavra

abre as mãos perplexas

no dorso dos dias.

Contra o vale da morte

a madura palavra.

Na madura palavra

o epitáfio das sombras

e a canção dos homens.

anderson_ braga_ horta__* Anderson Braga Horta é poeta, contista, ensaísta, tradutor, professor, advogado e servidor público aposentado. Tem vários livros editados pela Thesaurus Editora, entre os quais: Antologia Pessoal, e Como traduzir Poesia. www.thesaurus.com.br

Leia mais sobre Joanyr de Oliveira em Nós – Fora dos Eixos: Morre Joanyr de Oliveira, presidente da Associação Nacional de Escritores e A Cerimônia do Adeus de Joanyr Oliveira.




Se você gostou deste artigo, deixe um comentário abaixo e considere
cadastrar nosso RSS, para ser notificado nas próximas atualizações do blog.

Comentários

Sempre admirei a obra literária do poeta Joanyr de Oliveira. Por sermos da mesma denominação tive o privilégio de conhecê-lo e ouví-lo algumas vezes. Com muito pesar tomei conhecimento do seu falecimento. Deixo aqui a minha singela homenagem a este que foi o mais laureado poeta evangélico:

HOMENAGEM PÓSTUMA A JOANYR DE OLIVEIRA
Por fim repousaram as mãos insones
Que não se cansavam de tecer metáforas
Suas poesias não comportam clones
Tão pouco são produtos da catáfora.

Um homem culto que com muita maestria
Procurava por meio dos seus versos
Aglutinados em forma de poesia
Deixar os seus leitores submersos

No seu grito quase sempre silencioso
Que ao brotar da sua hábil e fértil lavra
Produzia um som tão mavioso.

Descansa em paz engenheiro das idéias
Descansa junto ao Todo Poderoso
Sua obra é uma verdadeira epopéia.

Natanael Santos
Guarulhos-SP
05 de janeiro de 2010

Lendo hoje o Jornal da ANE – Associação Nacional de Escritores, fiquei profundamente entristecido com a notícia do falecimento do poeta Joanyr de Oliveira, ocorrido em Brasília, no dia 5 de dezembro de 2009.
Tive a honra de conviver com o ilustre poeta, durante as reuniões na sede da ANE, importante entidade de cultura, da qual foi presidente de 2007 a 2009.
Joanyr de Oliveira deixa grande saudade e uma extensa e bela obra, que por certo, ficará imortalizada nas páginas da literatura brasileira.
Poeta, descanse na casa do Pai! Que Deus o tenha num lugar de luz e de angélica paz!
Onofre Ferreira do Prado
Belo Horizonte
11 de fevereiro de 2010

DESPEDIDA
( a propósito de um poema sob o mesmo título do meu saudoso Amigo Joanyr de Oliveira. Este poema foi escrito dois anos antes do seu desaparecimento.)

Como Antigona quis
empedrar-me aqui
longe de palavras, de certas
arestas de pedra nas palavras
que vêm de algumas bocas
perturbar nosso canto

Fatigado de mim mesmo
gasto ainda meus olhos
na claridade das metáforas
e cativo fragmentos
de uma rosa desferida
pelo vento
apanhador do voo
das borboletas.

João Tomaz Parreira

Comente este artigo

(obrigatório)

(obrigatório)