Rodrigo Flávio: ‘O Processo de Pintura é Muito Doloroso’
Cor, textura e virtuosismo. Rodrigo Flávio expõe novos trabalhos, nos quais se destacam as pinceladas vigorosas e a expressividade das cores.

Rodrigo Flávio, artista plástico, expõe em Goiânia (GO).
Por: Ciça Carvelo
Ele tinha 14 anos quando descobriu que a pintura é sua grande paixão. Aluno da primeira turma da Escola de Artes Visuais do Museu de Arte Contemporânea ele surpreendeu-se, durante sua conversa com o POPULAR, ao se dar conta de que já fez 20 anos de carreira.
Aos 35 anos, com um jeito moleque – seu figurino básico são bermudões de skatista e camisetas surradas de rock e cultura pop sempre manchadas de tinta –, Rodrigo Flávio é um artista que mostra maturidade e complexidade em sua nova exposição de pintura.
Amantes das artes só têm a ganhar ao visitar a mostra, na Galeria de Arte Marcos Caiado, no Setor Marista.
Rodrigo é queridinho do mais alto clã das artes em Goiás. Queridinho mesmo, não há quem não se encante com seu jeito, um paralelo simpático de inteligência e ingenuidade.

Obra de Rodrigo Flávio
A força da cor
Sua obra, marcada principalmente pela força da cor, navega com leveza nos mais diversos ambientes. Está na sala de estar chique e também nos clubes noturnos, na parede, em cima da mesa.
“Busco explorar ao máximo a expressividade das cores na representação pictórica. A cor prevalece sobre a forma. Às vezes a figura se torna pura cor, matéria, textura”, afirma.
Rodrigo explica que a cor é o elo que liga toda a sua produção desde que pintou seu primeiro quadro.
“Utilizo a gestualidade, às vezes agressiva, em que o olhar se deixa levar pelos ritmos das pinceladas e sobreposições da matéria – não existe um ponto definido no olhar de minha obra. Sou colorista. Na pintura é clara a intenção de busca de uma memória da arte moderna, da emoção declarada, do subjetivismo, da sexualidade.”Assim descreve-se o artista.
Divisor de águas
Sua primeira exposição importante foi em 1995, na Itaú Galeria de Arte em Goiânia. Era em acrílico, uma pintura bem mais tímida, “sem tantos exageros”.

Siron Franco, uma das referências culturais de Rodrigo Flávio...
Seu encontro com a tinta a óleo foi um divisor de águas para sua pintura. No ano seguinte, foi convidado pela galerista Marina Potrich para expor. Produziu todas as obras com tinta a óleo e desenvolveu uma nova forma de relacionamento com sua obra e suas emoções.
“A tinta a óleo me definiu como pintor. Eu precisava passar mais tempo no ateliê. A tinta demora mais a secar e com isso você tem de olhar mais para o trabalho, vira o quadro, volta depois de dois anos, muda tudo, põe mais tinta… Tem camada.”
Para Rodrigo, a tinta a óleo adiciona um novo elemento à pintura, a textura, que é um meio poderoso de expressão. “O tempo da obra é bem maior”, observa. Seu dia a dia inclui o convívio diário com crianças.
Rodrigo Flávio passa suas manhãs dando aulas de artes para alunos de uma escola particular, do maternal ao quinto ano. “Isso é muito importante para mim”. Na escola pude perceber o quanto a arte faz bem para as crianças.
Arte faz bem para as crianças

... Ao lado de Vincent Van Gogh...
Tem alunos que apresentam problemas de comportamento ou de aprendizado que acabam superando suas dificuldades depois que se soltam no ateliê. Eles vivem o processo criativo de um ateliê de verdade e podem se soltar totalmente.”
À tarde e à noite, Rodrigo dedica-se ao trabalho em seu ateliê, recentemente instalado na Rua 89 do Setor Sul. No som, Queens, Ramones, The Who, Tutti Frutti, Gal Costa roqueira em Fatal, New Order e Depeche Mode. “Impossível se livrar do Caetano e do Gilberto Gil”, confessa o artista.
“Vou todos os dias ao ateliê. Acho isso fundamental para qualquer artista. Lá é o meu lugar mais íntimo. Nem minha casa nem no meu quarto eu me sinto tão confortável.” Além de tudo o que é oitentista, os pós-impressionistas Paul Gauguin, Cézanne, Van Gogh e Henri Matisse, Grupo Cobra – principalmente Karel Appel –, Flávio de Carvalho, Siron Franco, Jorge Guinle, o fauvismo e o neo-expressionismo são grandes influências na obra de Rodrigo Flávio.

... A banda The Who...
Vertentes conceituais
“Não sou influenciado pelas vertentes conceituais da arte brasileira da década de 60 e 70, existe uma impressão fora do País que todo novo artista brasileiro é influenciado por essas gerações. Sou pintor e acredito fielmente na sobrevida da pintura, pinta quem sabe pintar.”
Além da pintura, Rodrigo se interessa pelo design, desde a concepção de objetos de arte até para a possibilidade industrial de produção de outras peças de utilidade real. Sua vida pessoal e sua pintura se encontram na hora de produzir.
“O processo da pintura é muito doloroso, mas me sinto muito bem quando termino uma obra. Tudo o que era problema e tudo o que era errado passa a ser engraçado”.
Ele confessa que a maior dificuldade de sua carreira é administrar as finanças. A obra de um artista tem de ser administrada como negócio num mercado altamente competitivo e restrito, além de muito vulnerável à vaidade.

... E Gilberto Gil, visto por Gepp Maia.
“A gente tem de parar de pensar em vender a obra só dentro do Estado. Temos de ganhar o mundo, mas isso só será possível se pararmos com picuinhas, de falarmos mal uns dos outros e competir o tempo todo. Tem espaço para todo mundo. Só assim vai ficar viável viver de arte.” Para uma tarde cheia de cor, fica a dica da belíssima exposição, que abre hoje na Galeria Marcos Caiado. Arte, café e um bom papo podem fazer a diferença para quebrar a rotina.
Serviço
Exposição: Rodrigo Flávio – Pinturas.
Local: Galeria Marcos Caiado, Rua 1136, nº. 56, Setor Marista, Goiânia (GO).
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