Jorge Antunes e o Pesadelo de Dom Bosco

Compositor e maestro Jorge Antunes, por Rafael Ohana

Jorge Antunes, por Rafael Ohana

Da Redação

O Pesadelo de Dom Bosco é a mais nova criação musical de Jorge Antunes. Trata-se de uma Ópera de Rua, em um ato,  na qual o maestro e compositor radicado em Brasília satiriza alguns dos últimos escândalos políticos ocorridos em Brasília (DF).

Os nomes dos personagens dão a dica que tipo de escândalo Antunes inspirou-se para criar a sua “Ópera de Rua”, ele, Antunes, que também é responsável pela introdução da Música Eletrônica no Brasil e pela criação do primeiro miniCD brasileiro.

Antunes é um criador inquieto, do ponto de vista estético, pois está sempre produzindo formas múltiplas de arte: poesia, artes plásticas (instalações), música popular, música eletrônica.

Professor da Faculdade de Música da UnB– Universidade de Brasília, carioca de nascimento que escolheu Brasília para viver, Antunes publicou também na série Livro na Rua (Poesia), pela Thesaurus Editora.

A seguir, o libreto Auto do Pesadelo de Dom Bosco, de Jorge Antunes, que Nós – Fora dos Eixos publica em primeiríssima mão.

Libreto da Opera de Rua

Cenário:

Mesa, à qual se sentará o Juiz Voxprópolis. Este estará munido de um martelo de madeira.

Um engradado, representando as celas de uma prisão.

Personagens:

Meirinho, ator.

Juiz Voxprópolis, ator-cantor

Burgomestre Leo Bardo Pro-Dente, tenor

Monarca Xaró Parruda, barítono

Suserano Paul Batávio, tenor

Ioarrín Kouriz, Rei do Gado, Senhor da Bezerra d’Ouro, barítono

Reverendo Júnior Embromélli, barítono

Reverendo Benedictus Dormindo, barítono

Gran Vizir Ben no Início Tavares, barítono

Príncipe Augustus Baralho, tenor

Bruxa Ouvides Grito, mezzo-soprano

Vassalo O Vilão Aires, tenor

Vassalo Rogê Rolíces, tenor

Vassalo Borval da Bóza, barítono-baixo

Truão Pônei Nêmer, tenor

Coro do Povo (entre 15 e 20 pessoas, homens e mulheres)

Ato Único

Meirinho (em tom solene) -

O Senhor Juiz Voxprópolis! Todos de pé!

Juiz Voxprópolis (entrando, sentando-se à mesa) -

Cada um aqui trazido,

essa gente toda presa,

vê o povo enfurecido

assustado de surpresa.

A revolta é algo novo,

a Justiça é chama acesa.

Defendemos este povo,

esta massa indefesa.

Não seremos extremados

dirigindo esta mesa.

Eu garanto aos acusados

o direito de defesa.

Dou agora a marretada.

(bate com o martelo na mesa)

Veredito, vem após.

A palavra então é dada

para cada um de vós.

Meirinho – O primeiro acusado, desonesto e indecente: Burgomestre Leo Bardo Pro-Dente!

Coro do Povo –   Burgomestre é prudente,

gosta de por nossa grana na meia.

Isso é coisa indecente,

ele merece é ir pra cadeia,

cadeia, cadeia, cadeia, cadeia, …

Juiz Voxprópolis (gritando, interrompendo o povo) -

Silêncio!

Burgomestre Leo Bardo Pro-Dente -

Essa gente me maltrata,

essa gente pisoteia.

Não mereço a chibata,

não mereço a cadeia.

Vejo tanto manifesto,

essa gente alardeia.

Eu não roubo, sou honesto,

eu não tomo coisa alheia.

O monarca me chamou,

fui no canto da sereia.

Um esperto me filmou

e a coisa ficou feia.

A minh’alma é pura e bela,

tenho sangue bom na veia.

Sou prudente com cautela,

causa justa me norteia.

Minha conta lá no banco

tem milhões, está bem cheia.

Só trabalho. Sou bem franco:

Pouca grana pus na meia.

Meirinho – Eis mais outro acusado, o da sujeira graúda: o Monarca Xaró Parruda!

Coro do Povo –   Este Rei Xaró Parruda

pega dinheiro, gorjetas e agrados.

Do poder jamais desgruda,

ele merece trabalhos forçados,

forçados, forçados, forçados, forçados, …

Juiz Voxprópolis (gritando, interrompendo o povo) -    Silêncio!

Monarca Xaró Parruda -

Eu venci de modo fácil,

eu cheguei como um ciclone.

Cada pobre no palácio

ganha leite e panetone.

Nem aqui e nem na China

vai ter lei que me destrone.

Com a grana da propina

distribuo panetone.

Quando eu falo pro povão

eu rebento o microfone.

Cada pobre é como um cão

esperando um panetone.

Quando o pobre vê promessa

bota a boca no trombone.

Distribuo bem depressa

um montão de panetone.

Mesmo assim com a tortura,

mesmo que eu decepcione,

vou mudar a conjuntura

com meu choro e o panetone.

Meirinho – Eis o outro acusado leviano: Paul Batávio, o Suserano!

Coro do Povo

Paul Batávio, o Suserano,

em cada feito ganhou comissão.

Isso é coisa de tirano,

ele merece é ir pra prisão,

prisão, prisão, prisão, prisão, prisão, …

Juiz Voxprópolis (gritando, interrompendo o povo) -    Silêncio!

Suserano Paul Batávio -

Sou um grande construtor,

eu não sou um cafajeste.

Meu reinado é puro amor,

sou um líder inconteste.

Nesta terra bruta eu fiz

prédios rumo ao céu celeste.

Todo mundo agora diz:

Viva o Rei do Centro-Oeste!

Eu não quero essa peleja

que parece um faroeste.

Que o povo me eleja

pra fazer o Noroeste.

Em respeito a seu protesto,

que essa gente faça o teste:

poderei lhes dar o resto

da propina que me reste.

Meirinho – Eis mais um acusado, figura perniciosa: o Vassalo Borval da Bóza!

Coro do Povo –   O vassalo cineasta,

lá no passado já foi delegado.

É preciso dar um basta,

ele merece ficar enjaulado,

enjaulado, enjaulado, enjaulado, enjaulado, …

Juiz Voxprópolis (gritando, interrompendo o povo) -    Silêncio!

Vassalo Borval da Bóza – Eu servi ao Rei antigo,

trabalhei com a cambada.

Novo Rei ficou comigo,

se meteu em enrascada.

Eu cansei do populista,

apoiando a cachorrada.

Resolvi virar artista,

cineasta da moçada.

Deputado como ator,

muita cena debochada,

Filmei podres do pastor

e também da deputada.

Exibí podres do Rei

e dos sérios de fachada.

Os canalhas dedurei:

delação bem premiada.

Meirinho –Eis mais outro acusado, que no roubo não é calouro: Ioarrín Kouriz, Rei do Gado, Senhor da Bezerra d’Ouro!

Coro do Povo

Desse Rei conheço o jogo,

as artimanhas e habilidades.

É famoso o demagogo,

ele merece ir pra trás das grades,

das grades, das grades, das grades, das grades …

Juiz Voxprópolis (gritando, interrompendo o povo) -    Silêncio!

Iaorrín Kouriz -

No meu gado ninguém toca.

Por que essa acusação?

Vocês fazem só fofoca

do bezerro de um milhão.

Eu adoro este meu povo:

ele sempre tem razão.

Eu me sinto ainda novo

pra enfrentar nova eleição.

Meu discurso, em cada estrofe,

vai empolgar a multidão.

Se eu perder é catrastófe,

se eu ganhar é salvação.

Eu envio aos inimigos

meu abraço e meu perdão.

Aos amigos mais antigos

mando beijo ao coração.

Meirinho – Eis agora a feiticeira cheia de delito: a Bruxa Ouvides Grito!

Coro do Povo

Essa bruxa é uma cobra,

até parece serpente rasteira.

Ela é cheia de manobra,

ela merece é ir pra fogueira,

fogueira, fogueira, fogueira, fogueira, …

Juiz Voxprópolis (gritando, interrompendo o povo) -    Silêncio!

Bruxa Ouvides Grito -

Vocês pensam que sou bruxa.

Toda gente, nessa orgia,

logo fala, desembucha:

sou a voz da maioria!

Eu fui uma professora,

forte fui na Academia.

Eu cheguei a ser Doutora,

eu vivi muita alegria.

Na política eu entrei,

abracei a burguesia.

A carreira acabei

pra fazer demagogia.

Defendi Educação,

já sonhei com utopia.

Comecei na religião,

acabei na vilania.

A verdade vem depois:

candidata em agonia

logo enche o caixa-dois

e a vergonha logo esfria.

Não sou ave de rapina!

Pra que tanta rebeldia?

Na bolsa, pouca propina.

Muito pouco eu recebia

Meirinho – Eis outro réu, vergonha que fala sorrindo: o Reverendo Benedictus Dormindo!

Coro do Povo

Benedictus esperto,

tá envolvido e tá encrencado.

Foi agora descoberto,

ele merece ver o sol quadrado,

quadrado, quadrado, quadrado, quadrado, …

Juiz Voxprópolis (gritando, interrompendo o povo) -    Silêncio!

Reverendo Benedictus Dormindo -

Pra que tanta indisciplina?

Não tô no mundo da lua!

Falam que ganhei propina,

dizem que eu fiz falcatrua.

Pensei que ninguém sabia

da verdade nua e crua.

Descobriram porcaria,

mas a luta continua.

Mas ficou muito bonito

o asfalto desta rua.

Mas será o benedito?

E a luta continua!

Com a força da igreja

a maldade só recua.

Canto em dupla sertaneja

e a luta continua!

Meirinho – Outro réu! Da serpente eu ouço o chocalho: Príncipe Augustus Baralho!

Coro do Povo –   Deste sempre ouvi falar,

conversa mole eu vejo, eu ouço.

Ele vai se desculpar,

mas merece ir pro calabouço,

calabouço, calabouço, calabouço, calabouço, …

Juiz Voxprópolis (gritando, interrompendo o povo) -    Silêncio!

Príncipe Augustus Baralho -

Não estou neste atoleiro,

não mereço esse tranco.

Meu contato com dinheiro

teve início lá no banco.

Eu mudei de atitude,

mas agora eu sou bem franco:

não entendo de Saúde,

mas ganhei um cheque em branco.

Meirinho – Outro acusado, mestre das sem-vergonhices: o Vassalo Rogê Rolíces!

Coro do Povo –   Este veio de repente,

sempre aprovando projetos furados.

É um mero conivente,

ele merece trabalhos forçados,

forçados, forçados, forçados, forçados, …

Juiz Voxprópolis (gritando, interrompendo o povo) -    Silêncio!

Vassalo Rogê Rolíces -

Quê que é isso? E o meu boneco?

Vou ter que jogar no ralo?

Companheiro de boteco,

sou fiel, eu sou vassalo.

Todos querem me cassar:

não vou mais cantar de galo.

Vou então ter que cortar

o meu rabo-de-cavalo.

Eu pensei que o recesso

fosse um ótimo intervalo.

Do mandato me despeço,

pois o povo vai cassá-lo.

Meirinho – Outro acusado vamos ouvir: o mestre em ações irregulares, Gran Vizir Ben no Início Tavares!

Coro do Povo

Esse até já confessou,

vimos aquela vergonha no vídeo.

Sua história acabou,

ele merece é ir pro presídio,

presídio, presídio, presídio, presídio, …

Juiz Voxprópolis (gritando, interrompendo o povo) -    Silêncio!

Gran Vizir Ben no Início Tavares -

Moça de cabeça oca

lá no barco ancorado.

Ela então caiu de boca,

eu fiquei bem sossegado.

A barcaça afundou,

não pude sair a nado.

Ela nem soube que sou

um honesto deputado.

As propinas que ganhei

foi pra gente do meu lado.

Escrevi bastante lei.

Eu não posso ser julgado.

Meirinho – Um bobo da corte é acusado de ladrão: Pônei Nêmer, o Truão!

Coro do Povo –   Conhecemos o truão,

bobo da corte bastante maroto.

Conhecido espertalhão,

ele merece é ir pro esgoto,

esgoto, esgoto, esgoto, esgoto, esgoto, …

Juiz Voxprópolis (gritando, interrompendo o povo) -    Silêncio!

Truão Pônei Nêmer -

Nem à toa, nem boêmio,

aderi ao banditismo.

Logo então me deram prêmio:

me confiaram o Turismo.

Todos somos bons guerreiros,

pra que tanto fanatismo?

Eu espero, companheiros,

que respeitem meu cinismo.

Todos entram na bolada,

por que tanto moralismo?

Roubei pouco, quase nada,

Vamos sem radicalismo.

Meirinho – Eis o próximo réu. É um prazer acusá-lo: o Vilão Aires, um Vassalo!

Coro do Povo

O baixinho tem propina,

lá na cueca e no paletó.

Completemos a faxina,

Ele merece ir pro xilindró,

xilindró, xilindró, xilindró, xilindró, …

Juiz Voxprópolis (gritando, interrompendo o povo) -    Silêncio!

Vassalo O Vilão Aires -

Neste conto-do-vigário

sou do time dos frangotes.

Pra me verem no cenário

só subindo nos caixotes.

Sei que o roubo não é pouco,

assisti dos camarotes.

Fui vassalo do Rei louco

e do outro que deu lotes.

Eu andei bem escondido,

eu sumi dos holofotes.

Me filmaram constrangido

com propina em pacotes.

Meirinho – Um acusado religioso, com sujeira à flor da pele: Reverendo Júnior Embromelli!

Coro do Povo –   Embromelli, Embromelli,

faz oração quando ganha propina.

Mesmo que ele reze e apele,

ele merece é ir pra latrina,

latrina, latrina, latrina, latrina, …

Juiz Voxprópolis (gritando, interrompendo o povo) -    Silêncio!

Reverendo Júnior Embromelli -

Meus irmãos, povo querido,

sou um grande homem de bem.

Se me chamam de bandido

digo amém, amém, amém.

A oração que faço agora

não me rende um vintém.

Mas se a grana vem na hora

digo amém, amém, amém.

Quando faço a oração

sem propina, sou ninguém.

Se me pagam comissão

digo logo: amém, amém!

Não mereço pontapé,

a propina me faz bem.

É o dízimo da fé

que me faz dizer: amém!

Juiz Voxprópolis -

Nós ouvimos bem atentos

preleções de cada réu.

Percebi tristes momentos

de uma torre de babel.

Muitos chegam ao cinismo

de entrarem num papel

de assumido banditismo,

e de roubo a granel.

Um lançou forte veneno

como feia cascavel.

Outro fala, obsceno,

de uma prática infiel.

Tem até dissimulado,

que antes do papel cruel

já havia envergonhado

violando o painel.

Eu condeno o bando novo,

criminosos de aluguel

cá trazidos pelo povo

que não teme o tropel.

Todo o povo desta aldeia

bem merece um laurel.

Os réus vão para a cadeia,

pro povo eu tiro o chapéu.

Coro do Povo – De pé, cidade envergonhada!

Seu povo quer paz e honestidade.

Esta cidade

da inovação,

quer civilidade,

quer libertação.

Contra o desmando,

a exploração,

fora o bando

da corrupção!

Vamos além!

Seja onde for,

prendam também

o corruptor.

Nossa cidade

especial,

quer igualdade

e justiça social.

(não cai o pano, porque na rua não tem panos, nem nada por baixo dos panos):

(só nos gabinetes tem coisas por baixo dos panos)

FIM.

jorgeantunes1Serviço

Para saber sobre o Livro na Rua (poesia) de Jorge Antunes: www.thesaurus.com.br

Para saber sobre O Pesadelo de Dom Bosco, de Jorge Antunes;

http://www.americasnet.com.br/antunes/opera-de-rua




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Comentários

Parabéns pela ousadia! Mas em se falando de Jorge Antunes não é de se admirar!!! Valeu…eu como residente em Brasília desde a sua inauguração fico feliz com essa demonstração de repúdio a toda esta corja..aproveite de verdade sua liberdade de expressão fazendo peças como estas…de protesto ao insano e imundo atual Governo…como eu sou também cantora clássica e popular irei apreciar com mais paixão o seu trabalho! By

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