Um Pássaro que Voou Lonjuras

 	Menezes y Morais, recital na Sala Funarte, em Brasília (DF). Por Marilda Campolino

Menezes y Morais, recital na Sala Funarte, em Brasília (DF). Por Marilda Campolino

Por Carlos Alberto Dias*

Especial Para Nós – Fora dos Eixos

José Menezes de Morais. Quem conhece esse nome em Altos (PÍ)? Quem já leu um livro de sua autoria? Quem já viu um retrato seu? Quem é ele?

Eu lhes digo: Menezes y Morais (seu nome literário) é um altoense da gema, consagrado poeta, contista, romancista, jornalista e professor.

É partidário da definição de Maiakovski, para quem “não existe arte revolucionária sem forma revolucionária”. Buscando as mais variadas modalidades de linguagem, mantem-se sempre atentamente “preocupado com as idéias, as formas e as renovações”, no dizer do poeta e magistrado Elmar Carvalho.

Menezes y Morais foi um dos pioneiros da renovação poética no Piauí na década de 70, ao lado de Alcenor Candeira Filho, Paulo Machado, William Melo Soares, Nelson Nunes, Rubervam du Nascimento, Elmar Carvalho, Wilton Santos, Chico Castro, Beth Rêgo, Marleide Lins Albuquerque, Francisco Eduardo de Moraes Lopes, Ana Miranda, Zé Magão, Miso, Kenard Kruel, Albert Piauí, Arnaldo Albuquerque, dentre outros.

Essa renovação deu-se com a eclosão do fenômeno chamado Literatura Marginal, que originou a Geração Mimeógrafo, definida por José Pereira Bezerra, em seu livro Anos 70: Por que Essa Lâmina nas Palavras (FCMC, Teresina – PI, 1993) como o “produto de um fenômeno cultural típico da segunda metade dos anos 70,… que se utilizava uma antiestética, anárquica e confusa, que incluía a tematização da realidade, produção autofinanciada de livros (sobretudo mimografados) e a veiculação e venda pessoalizada desses livros, além de uma postura integrada ao contexto sócio / político / cultural de seu tempo”.

Nordestino pela gravidez de alto risco, como ele próprio diz, Menezes y Morais nasceu no solo da cidade de Altos, a 29 de julho de 1951.

Cursou o ensino médio no Colégio Álvaro Ferreira, em Teresina (PÍ), cidade em que manteve intensa atividade cultural. Ali trabalhou no jornal O Dia, onde era responsável pela parte de Cultura e Artes, editando entre os ano de 1977 / 1878 uma página cultural.

Em rascunhos para uma trova, o poeta nos dá uma dimensão do seu pensamento inquieto e revolucionário.

canto

despertar

a amanhã

c/ sua carga

revolucionária

de amor

y liberdade

radicalmente a favor

de tudo q/ é contra

a fria-longa noite

dos campos

fábricas

laresubúrbios

escolas templos prisões

canto

a negação do canto

sim, por que não

pela ternura (in) compreendida

dos Mortos

do novo mundo

república de todos um

olhos da liberdade

calor do sol.

(Jornal O DIA, Teresina – Pi, 13.7.1977).

Afeito ao teatro, muito se interessou pela arte cênica, tendo representado e dirigido várias peças em grupos amadores.

Menezes y Morais, recitando no 1º SaliAltos. Por Michelle Mascharenhas.

Menezes y Morais, recitando no 1º SaliAltos. Por Michelle Mascharenhas.

Mudando-se para a Capital Federal (Brasília) adquiriu licenciatura em História, pela Universidade de Brasília, onde ainda reside, milita na imprensa, participando do Sindicato da categoria e do Sindicato dos Escritores, que presidiu pelos idos de 1992, e é professor universitário.

Autor de vários livros, participou de mais de 13 antologias e tem poemas traduzidos para o espanhol.

Seu primeiro livro, Laranja Partida ao Meio, foi editado em 1975, em mimeógrafo, com capa de Fábio Torres e contracapa de Arnaldo Albuquerque. Analisando-o, o poeta, contista e ensaísta José Pereira Bezerra fala que o mesmo “apresenta poemas e, sobretudo, uma prosa experimental, numa linguagem macarrônica, onde o autor expõe a sua cosmovisão”.

Para Menezes y Morais, o que abre as portas para a verdadeira existência é a liberdade para viver.

senha da existência

o

que

se

basta

em

nome

da

vida

é

livre

para

a vida

que não

se basta

em si.

(Outros Poemas, 1992).

Diário da Terra & Cenas da Cidade Sitiada, de Menezes y Morais.

Diário da Terra & Cenas da Cidade Sitiada, de Menezes y Morais.

N’A Balada do Ser e do Tempo, publicado em Brasília e Teresina, o poeta escreve o mesmo poema ao longo das 81 páginas do livro, “sem a preocupação com a organicidade do tema”, tendo sido produzido “entre os anos de 1966 e 1986″, no dizer do próprio autor. Na dedicatória, ele diz que:

ser é

brinquedo

do tempo

o tempo

é invenção

da existência

Já desenvolvendo o poema, Menezes y Morais traça um perfil do homem em seus aspectos social, político, econômico e, acima de tudo, humano:

existe uma coisa tão grande

que só cabe dentro d’um homem

haverá um tempo em que todos seremos todos

na infinita totalidade do ser

o homem

de fome

ao homem

o homem

de homem

ao nome

o nome

de homem

ao homem

a fome

de nome

ao homem

a fome

de homem

ao homem

o homem

de fome

à fome

o homem

de nome

à fome

o nome

de fome

ao homem

Pessimista? Não. Realista. No conto Conversa na Esquina (de três linhas apenas), do livro O Suicídio da Mãe Terra, vemos a dura vida em suas vielas:

- e aí?

- dei sei tiros; morreu sem um gemido.

- jóia.

Realidade esta endossada no livro-poema A Balada do Ser e do Tempo:

nem só de precisão vive o homem

além desta existem outras misérias.

Publicou vários livros, dentre os quais: 1964 – Poemas do Sufoco (1986); Laranja Partida ao Meio (1978); Pássaros da Terra com Paisagens Humanas (1982); Diário da Terra & Cenas da Cidade Sitiada (1984); A Balada do Ser e do Tempo (1986/87); O Suicídio da Mãe Terra (1980), contos; O roque da massa falida (1992); O Livro das Canções de Amor & e Outros Cantares de Igual Teor (1990); Na Micropiscina da Lágrima Feliz (1999) e outros.

Menezes y Morais, capa de Por Favor, Dirija-se a Outro Guichê. Por Paulo Yolovitch.

Menezes y Morais, capa de Por Favor, Dirija-se a Outro Guichê. Por Paulo Yolovitch.

Participou das antologias: Tudo é Melhor que Nada (1974); Aviso Prévio (1977); Ô de Casa (1977); Descartável (1979); O Rio (1980); Piauí: Terra, História e Literatura (1980), organizado por Francisco Miguel de Moura; Poetas Brasileiros Hoje; Literatura Brasileira – Volume I; 27 Po(rr)etas; Outros Poemas; Antologia Poética Piauí / Ceará – Projeto Mão Dupla (1994) e Baião de Todos (1996), ambos organizados por Cineas Santos, além da Antologia da Nova Poesia Brasileira (1992), organizada por Olga Savary.

Figura nos livros Anos 70? Por que Essa Lâmina nas Palavras? (1993), de José Pereira Bezerra, e A Poesia Piauiense no Século XX (1995), de Assis Brasil.

É verbete no Dicionário Biográfico Escritores Piauienses de Todos os Tempos (1995), de Adrião Neto.

Na Antologia Ô de Casa! (Editora Nossa, Coleção Ciranda, Comepi, Teresina, 1977), Menezes y Morais noticia a existência de outros trabalhos, como: Organização Geral dos Seres Vivos (poemas): Homocobaias (romance) e A História é o Povo em Movimento, Lembra? (romance).

De visão ampla, o poeta altoense preocupa-se com o meio ambiente e a vida comunitária de nossa gente.

No poema De um Povo de lugar II sua preocupação com a ecologia “se dá num contexto ideologicamente onde a natureza e o coletivo são duas faces que se comunicam e se resolvem” (J Pereira Bezerra, in Anos 70:…):

nada de aerosol

queremos o supermercado no quintal

natural e coletivo

nada de radioatividade

queremos o sol

em sua forma

nativa.

(Aviso Prévio, 1977).

Também no Cântico dos Prantos, da antologia O Rio, podemos verificar este sentimento de alerta e amor à natureza:

1 – da geografia dos rios

os rios conhecem a terra

musgos, relvas, pradarias.

ribanceirando os caminhos

ao encontro de outros rios.

desmatamentos, queimadas, esgotos

indústrias. roubo de areia

dos leitos para as caras moradias

canais de fezes, do mundo,

cercas, nada disso impede os rios

2 – o movimento dos peixes

os rios têm o seu povo

universos que se agitam

no milagre da existência

da vida de todo dia.

choram o verde que era verde

e hoje é seca, cinza, prantos.

choram os meninos travessos

que aplacam a ira dos rios.

choram os meninos e os bêbados

que morrem nas águas vadias,

nas águas da morte funda

da terra sem moradia.

3 – o tempo social dos rios

os rios choram seus mortos

nas enchentes e marés,

os rios cantam seus mortos

nas chuvas das cabeceiras.

lamento das lavadeiras

no barulho dos anzóis

nos esgotos que recebem

nas barragens que constroem.

é para os rios que convergem

as lavadeiras do Brasil.

assembléia de mães pobres

confluência da esperança.

com o sabão da miséria

i a grandeza cotidiana das mãos

ensaboam e enxagoam

a sujeira dessa vida.

vida de pobres e ricos

de dores y alegrias.

nesses tempos de miséria

os rios são o choro da terra.

Seu conto A Concha Uniformizada é uma retratação crítica e fabulada da situação político-administrativa do Brasil, apresentando o cidadão como ser de sua história: “a formiga 716 olhou bem o que tinha nas mãos e ainda não entendeu direito”. ser fiel ao teu governo, não desrespeitar as leis, cumprir todas as normas, dizia o manual de instruções. ela vinha se perguntando se tinha algum sentido todas as formigas repetir a mesma coisa todos os dias. olhou, re-olhou, jogou o manual fora. disse consigo: “eu liberdade universo”.

Menezes y Morais, na redação da Nós - Fora dos Eixos. Por Victor Tagore.

Menezes y Morais, na redação da Nós - Fora dos Eixos. Por Victor Tagore.

Segue o conto narrando toda a luta travada pela formiga 716 na peleja de organizar o formigueiro para lutar por sua liberdade e seus direitos. tendo saldo positivo, com a ruína do império, a 716, presa e condenada à morte, descansa vitoriosa: “já fiz meu papel somei meu universo ao universo do meu povo e a minha descoberta se completou com a vontade de todos e ganhamos forma de luta. aqui encerro meu drama enquanto estou vivendo o ato maravilhoso da descoberta do ser e do mundo”.

Do gênio de Souzandrade, Menezes y Morais busca todas as formas de linguagem e cai no bloco de rua que tenta repensar a vida, diz ele próprio em sua autoapresentação, afirmando que “… se a poesia é razão e emoção, matéria e espírito, lógica e acaso – entre outros elementos – o Poeta nada mais é do que a poesia em si. O Poeta nada mais é do que um instrumento de Deus para a poesia nossa de cada dia”.

Os poemas transcritos abaixo bem traduzem sua concepção filosófica:

hai cais ocidentais

quando os milhos

milharem

colherei teu ser

manhã se primavera

cadê a paz e a calma

que a alma espera?

o dia em cio

meus olhos vadios

em tua poesia

(Outros Poemas, 1992)

mad in

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de liquidação: o senhor

não paga. a morte

e cortesia

da ca

sa

(A Balada do Ser e do Tempo, 1986)

Sendo o mais expressivo nome de nossas letras, o escritor, professor e jornalista Menezes y Morais alcançou projeção nacional e até internacional. Foi presidente do Sindicato dos Escritores no Distrito Federal (SEDF).

“Todas às vezes que o Menezes vem a Altos, ele chora”, revelou-me o poeta William Melo Soares.

Nas páginas 47-48 d’A Balada do Ser e do Tempo ele dá um mergulho na infância passada na terra natal:

manhãs aguadas de tempo e os mangueirais da

terra no cio do vento e os passarinhosangrando

os frutos do sol que alimentam

os dias os seres soldados na usina do tempo

do tempo passado a limpo no corpo da gente

o tempo oficina de tudo onde a vida se reinventa

e os frutos eternos ciciando o vento

explodem em fogo água ar semente

um homem caminha lento nas ruas do tempo

do menino nascido em Altos

ficou a infância

cinema da existência

e esta simples

lição de vida

Este arredio altoense parece ter resumido num dos poemas que faz a sua biografiua:

eu sou apenas um pássaro que pousou livre

na janela

do seu coração

mas você não viu

e eu avoei lonjuras

da gaiola dos seus olhos.

carlos dias_professor_escritor_jpg*Carlos Alberto Dias é escritor, pesquisador e professor.

Serviço

Este estudo, ampliado por Carlos Alberto Dias, foi apresentado em forma de palestra para saudar Menezes y Morais, durante a abertura do 1º SaliAltos (Salão do Livro de Altos (PÍ), realizado no período de 13 a  15 de novembro de 2009, no qual o poeta foi homenageado). O texto foi publicado inicialmente em www.krudu.blogspot.com

Sobre os livros Por Favor, Dirija-se a Outro Guichê (teatro) e Diário da Terra & Cenas da Cidade Sitiada (poesia e fotografia) acesse:

www.thesaurus,com.br




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Comentários

Parabéns! Carlos Alberto, por essa homenagem ao velho amigo,conterrâneo e companheiro de sarau – Menezes y Morais. Aqui, em Brasília, ele tem a admiração de todos que o conhecem. Abraços, do poeta Hélio Soares Pereira.

MENESES Y MORAES MUDOU-SE PARA BRASILIA NOS ANOS 70. MORAVA NA PIÇARRA, AQUI EM TERESINA. CONHECI-O NAQUELE TEMPO. ABRAÇOS.

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