O Niilista Medroso

Por Ariosto Teixeira *

Capa do livro de poemas de Ariosto Teixeira

Às vezes você se pergunta

Olhando o rosto no espelho

Se o reflexo é verdadeiro

Ou se a verdade é o corpo

Parado no meio do banheiro

Você acha que sabe bem o que é

Você acha que sabe bem o que quer

Você acha que sabe quem você é

Mas você sente medo

Medo de não ser você no espelho

Medo de ser mero reflexo

Do outro que consigo parece

Você não tem medo de sexo

Você gosta de sexo

Você sonha com sexo

Você procura fazer muito sexo

Sexo à distância

Sem beijo sem fluido

Higiênico e sem lirismo

Seguro como sexo com prostituta

Você de frente ela de costas

Ela por cima de costas

Você por baixo de costas deitado

É que você tem medo

Do ataque de um vírus complexo

Medo de gravidez

Medo de se apaixonar irremediavelmente

Medo de perder o controle

Medo de assumir o controle

Medo de que tudo enfim faça nexo

Você acende e apaga o cigarro

Com medo de pegar câncer de pulmão

Medo de apagar a luz

Medo de acender a luz

Medo de desligar o alarme

Medo de abrir o portão

Medo de ladrão policial pivete

Medo de colisão

De atropelamento

De ataque do coração

Medo de padre

Da certeza cristã absoluta

Da democracia liberal

Da esquerda latina

Medo da nova direita francesa

Medo do presidente americano

Medo da falta de medo do terrorista muçulmano

Medo de ser fragmentado por um raio da Al Qaeda

Medo da China capitalista

De milho transgênico

De buraco negro

De carne vermelha

Medo da falta de limite da física quântica

Do aquecimento global

Da inteligência artificial

De velocidade acima do permitido

De remédio de quinta geração

Da globalização

Do fim da globalização

Da falta de sentido

Medo de que Deus provavelmente não exista

De não haver outra vida

Você tem medo de ficar sozinho

Sem ninguém nem final feliz

Ah mas você confia no amor

O terno e doce amor

Do homem pela mulher

Do homem por outro homem

Da mulher por outra mulher

Do homem pelos animais

Da humanidade pela natureza

Você confia no amor das criancinhas

Você pensa nessas coisas

E por um instante

Acha que nada está perdido

Que o amor salvará o mundo

O amor romântico como no cinema

Como em um soneto de Shakespeare

Apesar da podridão no reino terrestre

Mas quanto tempo dura o amor

Antes de se dissolver em tédio

15 minutos uma tarde inteira uma noitada?

Você odeia sentir isso assim tão sentimentalmente

Mas é impossível ser de outro modo

É preciso agarrar-se a algo

Não ter medo de que o vazio

Tenha se espalhado em todos os quadrantes

O fato indiscutível é que você tem medo

Medo muito medo

De ficar vivo durante o inverno nuclear

Você principalmente tem medo

Do que um dia vai fazer

Quando ao anoitecer

Ariosto Teixeira, lendo poesia na Biblioteca Nacional de Brasília (DF).

* Ariosto Teixeira, poeta, jornalista, cientista político, colunista da Factual/Broadcast da Agência Estado, publicou Poemas do Front Civil (7Letras, RJ, 2006). Publicou também poemas e contos em revistas brasilienses, como Bric-a-Brac, nas antologias Poemas, do Coletivo de Poetas do DF (1990) e Candieiro, coletânea de contos de escritores gaúchos (1976). É autor do ensaio Decisão Liminar – A Judicialização da Política no Brasil (Editora Plano, Brasília/DF, 2001).

Graça Ramos, jornalista, escritora, doutora em História da Arte, diz sobre a poesia de Ariosto Teixeira que, “na oscilação entre potência e impotência equilibra-se uma agressividade desconcertante, certo lirismo às avessas, que provoca ao expressar a consciência de que o sujeito contemporâneo sobrevive na intimidação. (…). Fogem os poemas de Ariosto Teixeira do senso-comum. Trata-se de escrita de abissal contundência, que despreza regras politicamente corretas e coloca o leitor diante da pergunta: que viés poético dará conta dos sentidos deste tempo radical?” Ariosto Teixeira nos deixou na madrugada de sábado, 23 de janeiro de 2010.




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