Jacinto Guerra: ‘Qualquer Coisa Que Desperte Minha Atenção e Curiosidade me Inspira’
Por Menezes y Morais *
Jacinto Guerra Jacinto Guerra, professor e escritor, natural de Bom Despacho, Minas Gerais, onde nasceu a 16 de julho de 1935, mora em Brasília e fez curso de Letras em Belo Horizonte, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Contista, cronista, pesquisador, é autor, entre outros, de O Gato de Curitiba (Thesaurus). Jacinto Guerra concedeu esta entrevista por e-mail à Nós – Fora dos Eixos, na qual fala de literatura, o amor que sente por sua aldeia natal (Bom Despacho) e da paixão por Brasília. Confira.
Nós – Fora dos Eixos: Quem é Jacinto Guerra?
Jacinto Guerra: Sou um trabalhador da cultura, mineiro de Bom Despacho, morador de Brasília e um luso-descendente que muito se orgulha de suas origens na pátria de Camões e Eça de Queiroz. Quando criança, morei em Moema e Lagoa da Prata, cidades mineiras muito presentes em minhas memórias de infância.
NFE: Como luso-descendente, quantos pré-nomes teria o seu nome?
JG: Na internet, registro no programa Família RTP, da Rádio Televisão Portuguesa, uma curiosidade interessante: caso voltasse o costume muito antigo de acrescentar os sobrenomes de nossos antepassados ao nosso próprio nome, o leitor estaria lendo uma entrevista com Jacinto Guerra da Silva Machado Alves Pinto Ribeiro de Freitas Mourão.
NFE: Mas a sua realidade é Brasília. Você gosta daqui?
JG: Tenho muito entusiasmo com Brasília, desde os tempos da ousadia do presidente Juscelino Kubitschek ao construir e inaugurar, no Planalto Central, a capital da Esperança. Considero-me um mineiro muito próximo de todos os quadrantes da Pátria, com os olhos e o coração voltados para sua aldeia natal e para o mundo inteiro.
NFE: Dividiu o coração entre Minas e Brasília?
JG: Mineiro-brasiliense, considero-me um “escritor de província”, na expressão muito querida de Cassiano Nunes para os que escrevem e publicam nas diversas regiões do Brasil, fora do eixo Rio-São Paulo, fazendo uma literatura de qualidade sem os privilegiados espaços da mídia nacional e das grandes editoras.
NFE: Você se define como “escritor de província?”
JG: Sim. Sou também um escritor entusiasmado defensor da natureza, que precisamos preservar com muito empenho, em minhas ações do cotidiano, faço tudo o que é possível nesse sentido. Provinciano com muito orgulho, passei grande parte de minha vida em cidades pequenas, numa região de montanhas e planícies, no interior de Minas, onde nasce o Rio São Francisco.
NFE: Você tem alguma religiosidade?
JG: Tenho muita fé em Deus, criador de todas as coisas. Entendo que não existe nada mais importante que a cultura de um povo. Gosto muito de livros, bibliotecas, folclore, museus, festas populares, obras de arte, monumentos antigos e modernos, arqueologia, mas entendo, também, que precisamos valorizar os esportes, cuidar da saúde, influir na política e na vida pública da cidade e do país, enfim, exercer a cidadania com responsabilidade e grandeza.
NFE: O que o levou à literatura?
JG: De origem modesta no interior de Minas, não tínhamos livros em casa nem bibliotecas públicas nos lugares em que morei com minha família. No entanto, meus pais, Antônio Guerra Filho e Ester Pinto Guerra eram pessoas inteligentes, que muito valorizavam a educação e a cultura.
Dona Ester foi minha primeira professora, escrevia bem, tinha uma letra bonita e era muito organizada em suas atividades de educadora em casa e na escola. Meu pai gostava muito de conversar com os filhos, transmitindo-nos suas experiências e seus valores, sobretudo de civismo e de amor à terra natal, sua pátria pequena: Bom Despacho.
Escrevi uma pequena biografia de Antônio Guerra Filho, texto ainda inédito, história de um brasileiro comum, com suas lutas e esperanças ao longo de muitas décadas do século XX. Já a vida de minha mãe encontra-se no meu livro Gente de Bom Despacho – histórias de quem bebe água da Biquinha (Thesaurus, 2003), prefácios de Ronaldo Cagiano e Pedro Rogério Moreira.
NFE: E os estudos?
JG: Iniciei o curso primário numa escola rural de Lagoa da Prata, terra de minha mãe. Depois fui estudar na cidade, como aluno de Maria Belarmina Guadalupe, jovem professora muito entusiasmada com as artes, as letras, o Brasil e, principalmente, a sua e a nossa Lagoa da Prata. Presto homenagem a dona Guadalupe em minha crônica “A invasão do México”, texto literário inspirado nos Quinhentos Anos da Descoberta da América, traduzido para o espanhol por Kori Bolívia e publicado no meu livro O gato de Curitiba – crônicas de viagem (Thesaurus, 2004, 2ª edição), que recebeu o Prêmio BDMG Cultural de Literatura/Banco do Desenvolvimento de Minas Gerais.
No Grupo Escolar Dr.Jacinto Campos, encantei-me com a literatura infantil de Monteiro Lobato e com o incentivo de dona Guadalupe, que despertava em seus alunos o interesse pelos livros e o desafio de escrever corretamente e com certa elegância. Estávamos na década de 1940, governo do presidente Getúlio Vargas. O Brasil encontrava-se em guerra na Europa. No interior de Minas, distante milhares de quilômetros dos campos de batalha, sentíamos, com o mundo inteiro, as preocupações e as dificuldades de um conflito internacional de grandes proporções.
O jovem tenente Joaquim Guadalupe, irmão de minha professora, era um dos oficiais da Força Expedicionária Brasileira, a FEB, que lutava na II Grande Guerra Mundial, nas montanhas e planícies da Itália. Todos os dias, no início das aulas, rezávamos para que a guerra terminasse, com a vitória do Brasil e das forças aliadas, pedindo a volta dos pracinhas da FEB e do tenente Guadalupe. Queríamos sua volta são e salvo para o Brasil e a sua Lagoa da Prata, o que felizmente ocorreu.
NFE: Qual a sua primeira incursão na Literatura?
JG: Num trabalho escolar, ainda quando os brasileiros lutavam na Europa, destaquei-me em primeiro lugar entre meus colegas, ao escrever e enviar para a Itália a melhor carta ao tenente Guadalupe, desejando-lhe breve retorno da Europa, com a paz mundial que todos esperávamos.
Mais tarde, em Bom Despacho, no Ginásio Estadual ( hoje o Miguelão, Escola Estadual Miguel Gontijo), destaco-me novamente, entre meus colegas, com um trabalho de redação sobre “O Brasil no Campeonato Mundial de Futebol”, considerado excelente pelo professor Geraldo Majela de Melo Santos, grande incentivador do livro e da leitura. Era o ano de 1958. As obras da construção de Brasília desenvolviam-se em ritmo surpreendente, empregavam milhares de trabalhadores e entusiasmavam o país, pela ousadia, a modernidade e a beleza. Enquanto isto, em Estocolmo, na Suécia, o Brasil conquistava, pela primeira vez, o Campeonato Mundial de Futebol. Era emoção demais da conta!
Ainda no ginásio, que correspondia aos últimos anos do atual de Ensino de 1º Grau, cheguei a ler, num ano, mais de 40 bons livros e muitas páginas, além de jornais, revistas e almanaques, num sistema de empréstimos entre colegas. Esse hábito consolidou-se com a iniciativa de nossa professora de História, dona Joesse de Melo Queiroz ao fundar a biblioteca do nosso Ginásio Estadual.
NFE: Quando você descobriu vocação para ser escritor?
JG: Com o hábito da leitura veio, naturalmente o interesse em escrever e publicar. Ainda adolescente, aos 16 anos, comecei a escrever notícias de minha cidade para jornais de Belo Horizonte: “O Diário” e, depois, o “Diário de Minas”. Depois do jornalismo, passei a escrever alguns textos mais literários, inclusive para a Rádio Difusora Bondespachense, sempre com muito prazer pelas atividades de redação. Mais tarde, fui trabalhar e estudar em Belo Horizonte, onde fiz o curso de Letras na Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG. Como professor de Língua Portuguesa, ampliaram-se meus contatos com a literatura. Em Patos de Minas e, depois, em Brasília, firma-se a minha vocação literária e a oportunidade de publicar livros.
NFE: Você também envolveu-se com o jornalismo estudantil. Como foi essa experiência?
JG: No final dos anos 1960, em minha terra natal, fui um dos redatores e o diretor-presidente do jornal “0 Bom Despacho”, pioneiro da mídia impressa na cidade da Senhora do Sol. No início da década de 2000, tive outra experiência enriquecedora: desta vez, como editor do Caderno de Cultura do “Jornal MG Turismo”, de Belo Horizonte, empreendimento do meu irmão Antônio Claret Guerra, jornalista e empresário mineiro.
NFE: Como é o seu processo criativo?
JG: Escrevo pelo gosto de escrever. Trabalho bastante o texto, procurando clareza, correção, e elegância, tendo em vista agradar o leitor da melhor forma possível. Na escolha dos temas para uma crônica, um ensaio, um conto, inspiro-me em minhas viagens, leituras, conversas, uma notícia de jornal ou da televisão, qualquer coisa que me desperte atenção e curiosidade. Tenho mais facilidade de escrever no horário da manhã. Quando chega uma idéia, tenho vontade de começar a escrever imediatamente. Se não tenho caneta e papel, escrevo na imaginação como foi o caso de um dos meus trabalhos mais lidos e comentados: o conto-ensaio “Um carnaval diferente”, cujas idéias e toda a sua estrutura foram elaboradas de manhã, em Brasília, numa caminhada em duas superquadras da Asa Sul.

Escultura em bronze (Rio de Janeiro) do poeta Carlos Drummond de Andrade, conterrâneo e uma das leituras preferidas de JG.
NFE: Quais os autores que você mais gosta?
JG: É uma pergunta difícil de responder, porque gosto de muitos autores, de gêneros e literaturas diversas, de língua portuguesa e de outros idiomas. Lembrando Mário Quintana, prefiro não falar dos que ainda vivem, principalmente bons escritores de Brasília, Goiás e Minas Gerais, que estão mais próximos de nós, são nossos amigos e com eles muito aprendemos. Falo, então, de escritores brasileiros e portugueses, de quem já nos despedimos do convívio mais próximo, mas que continuam vivos nos livros e em nossa memória literária: Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Fernando Sabino, Carmo Bernardes, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Bernardo Élis, Raquel de Queiroz, Cassiano Nunes, Cora Coralina, Graciliano Ramos, Fernando Pessoa, Miguel Torga e tantos outros.
NFE: O que os leitores podem esperar do escritor Jacinto Guerra neste 2010?
JG: Continuarei escrevendo minhas crônicas, contos, ensaios, artigos, comentários diversos e, talvez, alguma poesia. Ainda em 2010, pretendo lançar O cavaleiro andante – viagens mundo afora, já no prelo da Thesaurus, com apoio do Governo do Distrito Federal/Fundo de Apoio à Cultura – FAC. No entanto, meu lançamento mais próximo será do livro Uma casa navega no mar – contos, crônicas e pequenos ensaios (Thesaurus, 2008), que está nas livrarias, num evento conjunto com Nilce Coutinho Guerra, minha esposa, que irá lançar Valquíria – contos e crônicas, com prefácio de Santiago Naud, também pela Thesaurus, com apoio do FAC. Nilce é professora de Educação Artística, estudiosa do folclore, autora da coleção Baú de Brincadeiras, com os livros Palavra de Saci, Vamos Brincar, Criança e Como Brincar e Fazer Brinquedos. Pretendo, também, em comemoração do Cinqüentenário de Brasília, continuar minhas palestras e oficinas literárias sobre os meus livros JK – Triunfo e Exílio:um estadista brasileiro em Portugal, já em 2ª edição, e JK – Um comício em Goiás, ensaio histórico sobre o início da campanha presidencial de 1955, quando em Jataí, o então candidato Juscelino Kubitschek prometeu construir Brasília e transferir a capital do País para o Planalto Central.
NFE: Acrescente o que julgar necessário.
JG: Desejo apenas agradecer a oportunidade da entrevista e cumprimentar Victor e Tagore Alegria, administradores e mestres dessa universidade do livro, que é a Thesaurus – e, também, levar meu abraço ao escritor Menezes e Morais, editor da revista Nós – Fora dos Eixos, que tão bem representa os valores universais da cultura, sobretudo para os países e comunidades de Língua Portuguesa em todos os continentes.
* Menezes y Morais é jornalista, professor,
escritor, historiador
e editor da Nós – Fora dos Eixos.
Serviço
Os livros do escritor Jacinto Guerra
podem ser encontrados
na Livraria Virtual da Thesaurus:
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Comentários
Estamos te aguardando Na FLIBA 2010 – Primeira Feira Literária Internacional de Juazeiro da Bahia.Estamos otimista e trabalhando muito para este evento acontecer nas datas de: 27, 28 e 29 de outubro e 2010.Temos que pavimentar o caminho para tornar a literatura cada vez mais apaixonante . Não é fácil mas não é impossivel ver sonhos como esse ( FLIJBA) , acontecer. sidapinheiro@yahoo.com.br










Preciso convidá-lo a atuar na FLIJBA- Primeira Feira literária de Juazeiro da Bahia. Acontecerá em outubro de 2010, e nós da UBE de Petrolina – União Brasileira de Escritores em parceria com o Instituto Aquidabam, estamos organizando este evento. Precisamos de contatos urgente com o escritor Jacinto Guerra. E-mail outros etc… Sou Sida Pinheiro Vice presidente da UBE e administradora da FLIJBA. Aguardo um retorno breve inclusive de confirmação deste convite. Maiores detalhes enviarei depois de confirmado. sidapinheiro@yahoo.com.br ou ubepetrolina@gmail.com Telefone 74-88190457 ou 38610050 ( 87 ) Paz Inverencial!