Boêmio da Chapada

Biné, personagem do contista Orlando Muniz, foi tentar a vida no Rio de Janeiro.

Por Orlando Muniz*

Especial para Nós – Fora dos Eixos

O mundo de Biné já estava pequeno e queria alçar outros vôos. Foi-se sobre lágrimas de Maria, sua mãe, para o Rio de Janeiro para tentar a sorte e amealhar sonhos de gente grande. Foi bancário, mascate e namorador. Dizem que fazia boca em boate soturna no baixo Leblon para ouvir de sua meiga donzela pianista – que jazia em vida pelos mais de setenta nas costas – doces acordes que ao final se transformavam em um bom garfo à luz das velas, por conta dela, é claro! Quase casa com a pianista!

Virado, o baixinho não se fazia de rogado, e na pensão barata em Botafogo era quem dava às cartas. O bicho era mandão! Mas a saudade falou mais alta e lá se vem o homem de volta e junto com ele os sonhos fechados em uma maleta de couro já um tanto surrada de tantas idas e vindas. Sorte de Maria que tinha de volta seu rebento baixinho, que mesmo lhe consumindo horas de sono pela espera da chegada em madrugadas frias sabia que Paulo Catolé, o soldado de polícia, não era mais perigo para sua cria.

Cresceram-lhe as calças, Eirunepé – no alto Juruá – já fazia parte dos sonhos passados, mas os repentes ficaram ainda mais cheios de astúcia.

Certa terça-feira de carnaval, ele e alguns amigos de troça descem candidamente pela Avenida Kennedy – local onde se vendem peças de carros em São Luís do Maranhão – tocando Juvenal, um burrico manco que puxava carroça com os apetrechos da festa e que não tinha licença do IBAMA para cair na gandaia com a trupe do deixa disso. Todo mundo estava de cara branca pela quantidade de Maizena aplicada em dose robusta – inclusive Juvenal. No embalo das marchinhas carnavalescas aproveitaram para pipocar foguetão no rabo do faceiro jerico, que urrava como se estivesse no cio.

Com a cabeça ornada por doses generosas de uma mistura de leite condensado e vinho seco, os gandaieros desciam ladeiras e mais ladeiras para formar no cortejo de momo, até que um sardento vira latas veio com tudo para cima de Biné lhe rasgando a calça suja da bandalha e metendo canino afiado nas ancas magras. Pobre folião, o cortejo alegre ainda não estava nem na metade e ele ali mordido por um cachorro sem dono, com sangue escorrendo pela perna. Não teve jeito, os colegas de farra estavam resolutos e levaram o cabra na marra para o Presidente Dutra – hospital público de São Luís.

Lá chegando, e na animação típica de uma terça gorda dentro de nosocômio, ficou aquele magote de bêbados se espremendo no corredor até aparecer uma enfermeira austera para introduzir o indigitado à sala de consultas. O paciente estava inconformado com o destino que os arcanos da folia estavam lhe reservando. Sua sorte é que o estoque de cana no juízo tinha autonomia para mais algumas horas fora da realidade. De língua torta feito trança de alho ele indagou ao médico – que já estava com cara de poucos amigos:

E então, doutor, será que vou morrer com essa mordida de cachorro? – no que o médico responde na bucha:

– Morrer coisa nenhuma, seu pé-de-cana, com o tamanho desse bafo e dessa cachaça é melhor vocês enterrarem o pobre do cachorro, que a estas horas deve está mortinho da silva.

O médico, com um mau humor de dar gosto, enfiou uma dose generosa de éter no ferimento e logo lhe dando atestado de alta:

– Pode voltar prá cachaça que neste carnaval não teremos teu funeral.

O cabra ainda teve fôlego prá um gracejo:

– Égua, doutor, esse produto – o éter – tá cheirando um tremendo loló -

Quase sai preso do hospital. Até hoje o malandro sente saudades de Juvenal, que segundo contam já com a lata cheia de cana, se apaixonou por jumenta nova e seguiu o caminho de vida nova em carroça de pastoreio. Nunca mais foi encontrado!

* Orlando Muniz, nasceu em 1959, em Eirunepé, na foz do Rio Juruá, no Amazonas. Filho de Benedito e Maria.Formou-se em Direito na Universidade Federal do Maranhão. É advogado e procurador federal. É autor do livro Armazém Brasil, livro de crônicas urbanas publicado em 2006, e de Máscara das Palavras, lançado em 2009.

Serviço

http://orlandomuniz.blogspot.com

www.thesaurus.com.br




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