Oficinas do Tela Brasil Incentivam Jovens a Repensar o Cinema.

Alunos da oficina Tela Brasil em Brasília (DF).

Por Marina Mara *

Especial Para Nós – Fora dos Eixos

Colecionador de histórias, o roteirista Luiz Bolognesi (Chega de saudade, Bicho de sete cabeças) recorda os primeiros passos profissionais com a emoção de quem revive o momento ao observar jovens que têm seu primeiro contato com um set.

“Eles não se apaixonam pelo glamour, mas pela possibilidade de expressão que a telona oferece. E os olhos brilham”, conta a respeito dos curtas produzidos em comunidades carentes durante as Oficinas Tela Brasil.

O projeto, que o cineasta encabeça ao lado de Laís Bodanzky, é realizado em 25 cidades e teve sua primeira edição em Brasília (DF) em dezembro de 2009.

Oficinas Relâmpagos

Com o objetivo de levar os bastidores de uma produção cinematográfica a jovens de baixo poder aquisitivo, o Tela Brasil realiza, desde 2007, oficinas relâmpagos sobre roteiro, som , trilha, fotografia e direção, e incentiva os alunos a contarem suas histórias por meio dos recursos audiovisuais.

Em cada cidade, são selecionadas até 25 pessoas com idade a partir de 16 anos, divididas em três grupos com a responsabilidade de, ao fim de 15 dias, roteirizar, filmar, editar e apresentar curtas-metragem.

O projeto tem na sensibilização dos envolvidos sua faísca, que explode nos produtos finais. Projetadas, as histórias versam sobre afeto, sonhos, namoro, desencontros, desejo, angústia, doença, afastando-se do clichê rua-tráfico-assassinato abordado pelos filmões que exploram essa realidade.

Patrocinada por entidades privadas, a edição deste ano é composta por 25 oficinas em todo o país, cada uma com três curtas a serem realizados com equipamentos oferecidos pela Buriti Filmes, produtora de Bolognesi e Bodanzky.

Seleção e Prêmio

Ao todo, 115 curtas foram finalizados em dois anos de Tela Brasil, alguns selecionados e premiados em festivais. É o caso dos documentários Primaveras (Prêmio Primeiro Olhar na mostra Visorama do Festival Visões Periféricas, no Rio de Janeiro) e Tia Dita: no raiar da aurora (Prêmio CinePró no Festival de Curtas de São Paulo).

As filmagens ocupam a menor parte do cronograma da edição candanga: três dias. As aulas que precedem as filmagens servem de base para a finalização: durante oito horas diárias, orientadores e alunos descartam a idolatria ao cinema para analisá-lo sob argumentos críticos, o que Bolognesi chama de “pequena revolução”.

Marina Mara, poeta, por: Rafael Ohana.

Estratégia de Poder

“Vemos o produto audiovisual como ferramenta estratégica de poder. O Brasil é dominado pelo imaginário da novela e as pessoas consomem aquilo como verdade. É preciso educar o povo para uma cultura crítica da sociedade”, afirma.

A iniciativa resulta do Cine Mambembe, cinema itinerante idealizado pela dupla de cineastas em 1994 que levou a projeção de filmes nacionais a espaços populares e regiões com pouco acesso à sétima arte.

O Mambembe se transformou em 2004 no Cine Tela Brasil, um caminhão equipado com um circo de lona no formato de sala de cinema, e agora renasce com as pequenas produções.

Novos Cineastas

A rotina do Centro Educacional 7 de Taguatinga (DF) se transformou com a chegada da equipe da Associação Tela Brasil. Se fosse formada apenas por uma produtora, três educadores e um orientador pedagógico, integrantes da Buriti Filmes que participam do projeto, o grupo não seria tão significativo.

Mas as salas da aula foram ocupadas, em plenas férias, pelos 20 jovens selecionados pelo projeto, equipamentos de filmagens e três ilhas de edição configuradas com softwares profissionais para captação e edição de imagem.

Do grupo, saem três curtas foram apresentados no Cinemark do Taguatinga Shopping, em sessão gratuita.

Histórias Genuínas

“A oportunidade é sensacional. Todos os dias minha mãe vê que eu chego em casa à meia noite e fica preocupada. Ela vai poder ver no telão que é um trabalho sério, que envolve aprendizado”, acredita a aluna Thaísa Raiane, que participou do curta de ficção (ainda sem nome) sobre a rotina de um travesti em busca de emprego.

Oficina de cinema do Tela Brasil em Taguatinga (DF).

“As histórias são extremamente genuínas porque saíram da vida dos garotos. Isso leva as minorias às telas e aborda novos universos sem sensacionalismo, mas de forma intensa e verdadeira”, declara o cineasta Edu Abad (Sonata para Orquestra Mágica), que participa da oficina como coordenador pedagógico.

Outros Filmes

Os outros filmes, um documentário e uma ficção, abordam, respectivamente, o mito do Calango Voador, criado pelo grupo Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro, e a viagem no tempo de um dos pioneiros da construção de Brasília.

Após aulas sobre ferramentas e hierarquia no set, os alunos saem à rua com uma câmera DV (digital vídeo), um microfone direcional, tripé e rebatedor de luz.

A criatividade é incentivada, desde que não ultrapasse duas horas de gravação. Os curtas são editados para ter, em média, dez minutos.

* Marina Mara é poeta, blogueira e publicitária

marinamara@gmail.com

Serviço

http://www.marinamara.com.br/2009/12/19/2525

http://picasaweb.google.com.br/paulinhagc/OficinasTelaBrasilBrasiliaBuritiFilmes101209A191209#.




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Comentários

Que agilidade! Parabéns pela revista e obrigada pela bela matéria em nome dos alunos e da Buriti Filmes.

Abraços poéticos,
MM

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