Freio de Arrumação

William Shakespeare: ser ou não ser, eis a questão.

Por: Orlando Muniz*

Especial Para Nós – Fora dos Eixos

Existem momentos em que ficamos olhando para o próprio caminho como se estivéssemos observando a história de vida que acontece do outro lado do balcão. Parece que o marcador de tempo e pressão não funciona direito e a percepção de que algo não vai bem fica menos perceptível.

É nessa hora que um bom freio de arrumação funciona profilaticamente, fazendo com que a tela de vida se projete sem nenhum evento terceirizado. Você acaba sendo ator e expectador de suas próprias decisões.

Quantas vezes a tomada de decisões importantes nesse caminhar de vida é feito de forma assoberbada, com ansiedade saindo pelo ladrão e sem qualquer preparação mais ajustada para que os arrependimentos tardios não sejam uma clara perspectiva?

Com certeza, haverá um rosário de exemplos que podem e serão citados ao longo da existência, mas, invariavelmente, e pela pressa como tudo anda, logo os bons exemplos são jogados numa área do cérebro que insiste em apagá-los.

Orlando Muniz

Isso, como tudo o que se passa ao redor da existência, é fruto das fragilidades humanas e fica contido no espectro do modelo adotado por cada um. Alguns são mais racionais e se municiam de proteção adicional contra surpresas desagradáveis, outros mais afoitos e menos precavidos jogam-se de cabeça nas emoções e vez por outra descobrem que a piscina é mais rasa do que se imaginava ao pular sem qualquer proteção.

E qual o motivo dessas reflexões? Vez por outra temos presenciado pessoas que se arrependem muito por decisões tomadas à revelia de outras que o cercam e dos conselhos valorosos da própria consciência. Fazer ou não fazer? Ser ou não ser?

Questões shakespearianas que rodam o inconsciente e que martelam a cabeça até não haver analgésico para a cura dos solavancos.

Olhar a vida do vizinho é sempre melhor que olhar o próprio umbigo. Falar sobre a vida pessoal dos outros pode até ser interessante para quem gosta de um adicional cáustico de conversa fiada, mas sem dúvida será sempre uma falta de assunto com seu próprio destino.

Por mais sábio que seja o interlocutor, por mais convincente que seja seu conselho, nada substituirá a certeza da sua própria decisão.

Quem cuida de ouvir somente o que se fala pelos cantos acaba esquecendo que o tempo passa rápido e, logo ali, haverá uma esquina com o semáforo quebrado, pronto para um atropelo de última hora.

* Orlando Muniz nasceu em 1959, em Eirunepé, na foz do Rio Juruá, no Amazonas. Formou-se em Direito na Universidade Federal do Maranhão. É advogado, procurador federal, contista e cronista. É autor dos livros Armazém Brasil (crônicas urbanas), publicado em 2006, e de Máscara das Palavras (contos), lançado em 2009, pela Thesaurs Editora.

Serviço

www.thesaurus.com.br

http://orlandomuniz.blogspot.com




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