Almir Lima: “O Estado Brasileiro Está de Costa Para os Inventores”

Almir Lima, inventor do triângulo pulsante, lamenta que o poder público no Brasil trate os inventores com descaso.
Por: Menezes y Morais *
A vida do inventor brasileiro é uma tragédia grega. Quem afirma é Almir Lima, 68 anos, inventor, escritor e pioneiro de Brasília. ”Se você uma idéia, um projeto, você vendeu todos os bens para concretizar aquela ideia.”
Natural de Barreiras (BA), em Brasília (DF) desde 5 de janeiro de 1957, Almir Lima está insatisfeito devido a falta de apoio do Estado para com os cientistas. E revoltado com os escândalos de corrupção que enlameiam grande parte da classe política do DF.
Almir Lima ingressou no mundo do trabalho em Goiânia (GO), com apenas 6 anos de idade, na qualidade de aprendiz de mecânica. Por isso assegura que é “Uma estupidez proibir que o menor de idade trabalhe.”
Porém, reconhece a necessidade que elas têm de estudar e de a criança viver como crianças e o adolescente como adolescente. Na redação da Nós – Fora dos Eixos, Almir Lima falou um pouco do seu trabalho.
Nós – Fora dos Eixos: Quer dizer que o Estado brasileiro está de costas para o inventor?
Almir Lima: Sempre esteve.

Cerca de 70% dos acidentes de trânsito requerem atendimento de primeiros socorros. A cvilização do automóvel faz do carro um instrumento mortal.
NFE; Você fala por experiência própria?
AL: Sim. Mas eu também conheço inúmeros colegas inventores que pensam assim. No meu caso, eu não tenho carro, apto etc. Vendei tudo para realizar o projeto do triângulo. Graças a Deus que deu certo.
NFE: Fale um pouco mais sobre as dificuldades institucionais que o inventor enfrenta no Brasil.
AL: O Estado não ajuda em nada, o que é um absurdo. O INPI – Instituto Nacional de Propriedade Intelectual existe só para registrar, mas tudo é pago pelo inventor. É um absurdo. O INPI atrapalha com sua burocracia. São muitas taxas que um inventor tem que pago. Aliás, tudo é pago, se você não tem dinheiro, perde sua patente.
NFE: Mesmo as autoridades (de bom senso) sabendo que o País precisa de inventores?
AL: Mesmo assim. Tudo é contra o inventor. Se eu soubesse que era tão complicado, não teria entrado. Foram 10 anos para realizar esse projeto, da criação ao registro.
NFE: Fale mais das dificuldades que você enfrentou.

Almir Lima, inventor do Triângulo e Newman J. D. Marques da Silva, diretor da Engebrás, depois do ato da assinatura do contrato entre o inventor e a Engebrás.
AL: Passei fome, não tinha onde dormir, os amigos somem… Mandei carta para o Presidente da República, para o governador, mas ninguém deu um passo para me apoiar. Parece que a indiferença pública, o descaso público, diz para o inventor: “Você entrou no barco, você que navegue sozinho, ninguém dá um remo, nada. Você que se arrume”.
NFE: Você é um pioneiro, daqueles que se pode chamar de Candango. Como foi a sua saída da Bahia para o Distrito Federal?
AL: Eu tenho orgulho de ser candango. De trabalhar na primeira barraca de lona inaugurada como oficina mecânica na Cidade Livre (hoje Núcleo Bandeirante). Eu estava lá quando tudo isso começou.
NFE: Você conheceu muitas personalidades responsáveis pela construção de Brasília?
AL: Sim; Conheci o Dr. Ernesto Silva.
NFE: Ernesto Silva era uma figura histórica. Nasceu em 1914 e disse adeus fevereiro de 2010. Como o conheceu?
AL: Ele levava o jipe e a lambreta para conserta na oficina que eu trabalhava. Tenho boas recordações da lambreta do Doutor Ernesto Silva…
NFE: Como assim?
AL: No começo todo mundo só andava de jipe. Ernesto Silva tinha um jipe e uma lambreta. Quando viajava para o Rio de Janeiro, deixava a lambreta na oficina e eu andava nela pra cima e pra baixo nos finais de semana… (Risos). NFE: De mecânico você ascendeu ao posto de funcionário público. Como foi isso?
AL: Eu trabalhei na William Overlond do Brasil (representação em Brasília) durante 13 anos. Fui chefiar o departamento de revisão da William. Um belo dia fui convidado para trabalhar na Câmara dos Deputados, então um barracão de madeira, eu fiquei uma semana e voltei para a William, mas eles foram atrás de mim. E aí fiquei lá 18 anos. Acabei estudando, fui estudar Psicologia (eu estudei em casa, levava meus livros) em um ano e meio fiz o Madureza (primeiro e segundo graus) e então prestei vestibular para Psicologia no Ceub, sou da primeira turma. A primeira sala inaugurada foi a nossa. Não parei. Foi uma caminhada. Fui para o exterior. Alemanha, Espanha, Estados Unidos da América, foram 10 anos na Espanha (e Europa em Geral) e 30 nos EUA (ficava dois meses voltava).
NFE: Como a invenção entrou na sua vida?
AL: Quando eu era menino (10 irmãos, morreram 5) nunca ganhamos um brinquedo. Eu aprendi a fabricar os meus brinquedos. Tudo que a gente vê com tecnologia, fazíamos quando era menino. Quando fui ser mecânico – ele é muito criativo – e como eu aprendi a ler sozinho, iuclusive os filófosos gregos – a cabeça do mecânico evoluiu. Eu sempre a tive a ideia de mexer com invenções, uma extensão da minha infância. Naquele trágico 11 de setembro 2001 (atentado terrorista aéreo às Torres Gêmeas) eu estava em Miami. Vi aquela confusão, tentei voltar para o Brasil via México, mas não tinha como. Ficamos aguardando em Miami, até que o governo brasileiro conseguiu nos resgatar (a sensação é a mesma), conseguiu nos trazer de volta. Quando eu voltei para o Brasil, me perguntei: e agora? Eu vivia disso, escrevi algumas matérias, publicava uns livros e fazia o intercâmbio cultural. Só sabia fazer isso. Aí eu parei e pensei: “Eu tenho algumas ideais de invenções” e decidi trabalhar com elas.

O triângulo inventado pelo candango-baiano Almir Lima tem eficácia cientificamente comprovada: diminui os riscos de acidentes de trânsito.
NFE: Quantas invenções você criou?
AL: Umas 10 invenções. Entre elas, o Triângulo de madeira: o primeiro que surgiu. Está no Museu do Invento, em São Paulo.
NFE; Como é o processo de registro de um invento?
AL: É junto ao INPI. O licenciante é o úico e exclusivo proprietário e titular da invenção denominada. O meu invento chama-se “Triângulo de Emergência com Área Refletora e Iluminação Pulsátil,” conforme Carta Patente número UM 8401660-4, Classificação Internacional B60Q7/00, com prazo de validade de 15 anos, contados a partir de 13/05/2004 (o “Produto Patenteado”). O processo está na ENGEBRAS S/A Indústria Comércio e Tecnologia de Informática (“Licenciada”). Contrato de Licença Para Exploração de Patente, com a participação da UnB – Universidade de Brasília. O Sebrae-DF me encaminhou para o CDT – Centro de Desenvolvimento Tecnológico da Universidade de Brasília. A empresa de desinger industrial Tipo D produziu o vídeo para divulgação do triângulo e preparou o pré-projeto de divulgação do triângulo. Fez estudo e comprovou que o meu triângulo tem impacto de 5% na prevenção de acidentes. Salvará milhões de vidas e economizará bilhões de reais reduzindo internações cadeiras de roda etc. Ele é diferente do triângulo comum porque é um triângulo com luz.

Existe uma guerra civil de quatro (e duas rodas) nas estradas brasileiras que atende pelo nome de acidente de trânsito.
NFE: Quanto é o pagamento dos direitos autorais de um inventor?
AL: 10% de direitos autorais do liquido.
NFE: Você disse que a vida do inventor é uma tragédia grega…
AL: Muitas invenções não saem do papel porque o inventor é pobre, não tem dinheiro. Quem é rico vai gastar seu dinheiro no exterior. Quem é inventor não tem dinheiro.
NFE; Agora você é um inventor reconhecido, quando entrar a grana da invenção do seu triângulo, o que você pretende fazer com ela?
AL: 50% da renda do triângulo serão destinados aos hospitais infantis do câncer no Brasil e no Mundo. Também vou ajudar o projeto da FAO para alimentar as crianças que estão passando fome. A FAO – Fundo Assistencial (um organismo da ONU – Organização das Nações Unidas) contra a fome no mundo. A minha maior felicidade é poder ajudar quem necessita. Vale a pena viver para ajudar o próximo, seja com ajuda em dinheiro, seja através de invenções. A função do triângulo é salvar vidas no trânsito e as crianças que estão com câncer nos hospitais. Se eu conseguir isso, valeu a pena ter vivido. Deixando alguma coisa de boa nesse mundo.
* Menezes y Morais é jornalista, professor, escritor, historiador e editor da Nós – Fora dos Eixos.
Serviço
Contato com o inventor Almir Lima:
dralmirlima_inventar@hotmail.com
Fones: (61) 9926-9567 / (61) 3272-6307
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Comentários
Olá amigo Almir, te conheço e te admiro já bastante tempo, não só por voce ter participado da história de minha família, mas tamabém por voce ser uma pessoa de bastante garra, determinação e de uma coragem incrível, como voce sabe tambem registrei patente no inpi, porém me faltaram algumas dessas qualidades que acabei de citar.
Espero que voce consiga realizar seus objetivos, não só os referentes aos inventos, mas todos os outros que envolvam sua vida. Felicidades e um grande abraço, do amigo Erich.


No Brasil, há muitos obstáculos para alguém que quer estudar e tornar-se um cientista. Estou falando do Scriptum Sensu, mestrado e doutorado. Porém, quando um profissional alcança o domínio científico, através desses cursos, não há uma contra-partida por parte dos órgãos do Estado(MEC), nenhum incentivo financeiro que venha compensar tal investimento. É triste-grande-verdade.
Por isso, é salutar o desabafo do meu xará Almir