Trote, Mesmo
Por: Orlando Muniz *
Especial Para Nós – Fora dos Eixos
Pelo conjunto da obra e pela selvageria como agem alguns alunos que já estão na universidade ante os novatos que chegam para novos cursos, o que se vê não são festinhas de madres carmelitas descalças.
Na verdade, essa tropa participa sim dos verdadeiros trotes. Enganam-se os que imaginam que estou falando daquele trote sutil, cheio de graça e com pegadinhas que fazem os iniciandos passar por grandes micos sem perder a ternura.
O trote daqueles primeiros, os que atuam como se fossem irracionais, é o trote dos eqüinos de campina livre, que agem somente pelo instinto de animais embrutecidos sem qualquer docilidade.
A diferença é que os cavalos do campo são brutos por natureza, com o crescimento ganham força e velocidade para a corrida sem qualquer vento na crina, enquanto que os troteiros de duas pernas, que se exibem em festas de péssimo gosto e submetem jovens colegas às situações vexatórias e deprimentes, agem sob o comando da bestialidade humana e da falta de qualquer educação.
É interessante observar que estamos falando de alunos quase médicos, quase advogados, quase engenheiros, quase homens, quase mulheres. Talvez por já ser quase alguma coisa se encobrem nos bandos e turbas movidos a drogas e muita bebida para constranger os que se submetem pelo medo a esse domínio pífio de poucas horas de terror.
No limiar dessas festas mambembes e sem qualquer graça, vez por outra, alguém morre ou é vítima de constrangimento moral e físico. Raramente, se tem notícia de que algum desses trogloditas foi preso ou expulso das universidades.
O que é pior, toda essa odiosa “brincadeira” é tolerada irresponsavelmente por Centros Acadêmicos e pela direção das escolas superiores, que, sem qualquer preocupação com algo parecido com educação, se deixam intimidar pela selvageria e pelo asco da falta de caráter dos “donos” do pedaço.
Não é difícil imaginar porque temos tantos profissionais graduados que padecem do vício do emburrecimento eterno.
* Orlando Muniz nasceu em 1959, em Eirunepé, na foz do Rio Juruá, no Amazonas. Filho de Benedito e Maria. Formou-se em Direito na Universidade Federal do Maranhão. É advogado e procurador federal. É autor dos livros Armazém Brasil (crônicas urbanas), publicado em 2006, e de Máscara das Palavras (contos), lançado em 2009, ambos pela Thesaurus.
http://orlandomuniz.blogspot.com
Sobre o Blog do Contista, diz OM:
“Foi criado para se constituir em mais um canal de partilhamento de minha produção literária com meus leitores habituais e com o público em geral.
Aqui, você encontrará contos, crônicas e outros escritos resultantes de experiências de vida, de reflexões acerca do nosso cotidiano e, principalmente, da verve literária que carrego desde minha adolescência”.
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