Livro Eletrônico: Mito ou Realidade?

Vitor Tavares *

Tudo bem, o livro eletrônico é, sim, uma realidade factual. Mas, daí, o escritor  Paulo Coelho emprestar sua imagem para dizer que o livro impresso desaparecerá  – me desculpem os aficionados pelas grandes inovações tecnológicas –, é um tanto  fora da realidade editorial brasileira.

A corrida mercadológica para o livro eletrônico está apenas começando, e é uma  briga para poucos. O primeiro a chegar no Brasil disponibiliza até 1.500 volumes;  mas, quais serão estes textos? Num primeiro momento, todos em inglês. Como  estarão, então, se preparando as editoras brasileiras? Elas vão parar de imprimir  seus livros? Assim como um passe de mágica, o impresso desaparecerá?

Não, não será assim. O custo inicial deste e-book é de cerca de R$ 1 mil. Não nos  esqueçamos do número de leitores no Brasil, sabemos que inicialmente serão  poucos – de acordo com a realidade nacional, é claro –, os que importarão o e- book. Vivemos num país em que o índice de leitura é um dos mais baixos do mundo  (3,7  livros lidos por habitante); sem a compra de livros pelo governo,  o número  de livros lidos seria ainda mais ridículo: 1,8 por pessoa ao ano (dados do Retrato da  Leitura no Brasil, IPL 2007).  Quais vantagens, então,  nos traz esta nova  plataforma de leitura? Agilidade, portabilidade, preços acessíveis, um novo apelo  mercadológico, entre outros? Se estes forem os requisitos básicos, o livro real já  nasceu perfeito e não existe ainda nada mais prático do que o livro impresso. Ele  é portátil, democrático, inclusive no preço; acessível a todos, é um companheiro,  em qualquer hora e lugar.

Então, muita, muita calma; o livro impresso não desaparecerá. A questão inicial é  saber quais (e quando teremos) os primeiros livros disponíveis na língua  portuguesa. Não acredito que as obras de domínio público serão disponibilizadas  pelo eletrônico atual. A agressividade mercadológica deixa bem claro que o fato de  baixar livros gratuitos não faz parte da atual estratégia.

Livros, como os de Dan Brown, possuem um apelo midiático fenomenal em todos  os cantos do mundo. Para esse tipo de livro, um Best Seller, o livro eletrônico será  uma grande ferramenta de venda. Porém, a bibliodiversidade não se faz só de  livros com apelos mercadológicos. A bibliodiversidade de um país é medida por sua  qualidade e diversidade de publicações, e o livro eletrônico não contemplará tudo.  Que interesse comercial teriam os criadores de plataformas eletrônicas para leitura,  a maioria delas, sem o apelo comercial dos grandes Best Sellers? As edições da  maioria dos livros  no Brasil estão entre 1.500 e 2.500 exemplares, para uma  população de 190 milhões e cerca de 70 milhões de leitores, o que significa tiragens  muito baixas. Vejo que o problema não é o livro eletrônico, mas sim o baixo índice  de leitura da população e a falta de acesso ao livro. Neste caso, o papel das  livrarias é fundamental em nosso país.

O livreiro tem de estar, sim, preparado para o lançamento de um E-book produzido  no Brasil, que aceite de imediato a nossa produção. Sabemos que ele irá absorver  uma parte do mercado físico do livro, portanto, temos de estar atentos, atualizados  e preparados para conviver tanto com os livros eletrônicos quanto com os  impressos. As livrarias devem se preparar para trabalhar de forma híbrida,  tanto  com livros físicos como com os eletrônicos; um não substituirá o outro. Se  aumentar o poder aquisitivo da população, e os governos, nos três  níveis, promoverem políticas públicas que formem, de fato, novos leitores, haverá  espaço para as duas formas de leitura, livros físicos e eletrônicos. Com o aumento  da base de leitores se criará, cada vez mais, o hábito da leitura nos cidadãos.

Outra coisa que deverá ser levada em conta é como e onde baixar esses arquivos.

Para que a cadeia do livro não deixe de lado nenhuma de suas vertentes, cabe ao

editor, principalmente, usar e respeitar o meio ‘Livraria’ para disponibilizar seus  livros eletronicamente. No meu entender, então, deve e precisa ser em terminais  eletrônicos, como já acontece com a recarga de telefones celulares. Livros devem  ser baixados nos caixas ou terminais dentro das livrarias, assim, todos teriam  estímulos para operar com as novas tecnologias.

Mas, novamente, vivemos no Brasil e precisamos, antes de tudo, aumentar o índice  de leitura do brasileiro. Precisamos que as várias ações e políticas públicas, mais do  que nunca, incentivem  as crianças a ler. A formação de novos leitores inicia-se nos  primeiros anos escolares, com o incentivo dos professores; e nas famílias, com os  próprios os pais, que se tornam os primeiros contadores de histórias para seus  filhos.

Neste momento, não podemos deixar de abrir um espaço para ressaltar que o  caminho é, também, ter boas e atualizadas bibliotecas públicas. Modernas,  atraentes, com terminais de computadores e acesso à internet. Bibliotecas com  funcionários que gostem de ler, com contadores de histórias e, principalmente,  abertas à população, sem restrição. Vamos aumentar o número de leitores quando  cada biblioteca pública for um verdadeiro centro de cultura com várias atividades  culturais, respeitando-se a nossa grande diversidade cultural – normal para um país  com tais dimensões. O espaço de uma biblioteca não pode ser apenas um depósito  de bons livros.

Então, enquanto buscamos incentivar cada vez mais o número de leitores no Brasil,  baseados na nossa factual realidade, vemos nitidamente que o livro eletrônico aqui  ainda é, sim, um mito. Está fora da realidade do poder de compra da maioria da  população brasileira. Não será desta forma que democratizaremos a leitura no  Brasil. Isso é óbvio.

*Vitor Tavares, executivo na área de livrarias há 20 anos, é presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL) e diretor das Livrarias Loyola.  E-mail: vitor@livrarialoyola.com.br




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