Problemas Estratégicos e Soluções Para o Livro e o Incentivo à Leitura

Por que o "consumo" de livros é tão pequeno no Brasil? Pergunta Victor Alegria.

Por: Victor Alegria

É fato sabido que, no Brasil, se consome 1,3 livros de literatura por ano. Consumo inferior a vários países da América Latina. No incentivo à leitura, nós temos a visão de milhares de bibliotecas mal aparelhadas, sem profissionais competentes e sem verbas para a compra de livros, vivendo numa indigência às vezes aliviadas por pequenas doações, quer oficiais, quer particulares.

Sabemos que o MINC – Ministério da Cultura faz um esforço notável através de seu setor do pró-livro e incentivo à leitura. Possivelmente, deve lutar com falta de verbas para atender o maior número de bibliotecas espalhadas pelo país. Uma biblioteca para cada município é, ainda, um sonho que só pode ser realizado com identificação política da necessidade daquelas bibliotecas, para o desenvolvimento da educação no Brasil.

Acontece que a biblioteca, o direito ao conhecimento e à educação são direitos inalienáveis do cidadão. Como isso é possível, se o preço dos livros – mesmo os escolares – anda na base dos setenta ou oitenta reais por exemplar. Um amigo nosso, para uma aluna que conseguiu bolsa num colégio privado, teve de gastar mil e quinhentos reais, divididos em alegres cinco prestações.

Imaginem vocês! Quanto custarão esses mesmos livros para as pessoas de menor poder aquisitivo, que só podem comprar em dez ou doze prestações? E se essa pessoa que tem filhos estudando mora no interior mais remoto do Brasil?

E aí os Correios exercem um papel pernicioso contra a cultura e a educação no Brasil, pois, para a remessa de um livro de dez reais, comprado num sebo, terá de pagar doze reais de porte postal. Onde está o carimbo de “apoio cultural dos Correios”, criado no tempo do  ministro da Cultura, o dicionarista Antonio Houaiss?

E onde é que foi parar o sedex-livro, que embora caro não atingia os escandalosos fretes postais de hoje? Se um pobre de um autor que publica por uma pequena editora quer fazer uma noite de autógrafos na cidade onde mora, a remessa de mil convites chega a custar um terço da impressão do livro. Não há a menor colaboração com a cultura. E justamente de um órgão público com os Correios e Telégrafos.

Se juntarmos esse fato ao extermínio das páginas e dos cadernos literários nos jornais e revistas, teremos de gritar que o autor brasileiro É ASSASSINADO PELO SILÊNCIO E PELO DESCASO.

Estamos ao lado do Ministério da Cultura no seu trabalho de reconstrução de bibliotecas públicas e dos seus programas do livro e de incentivo à leitura. É um dever de todos nós, brasileiros, de apoiar esses esforços.

Por isso, consideramos que uma biblioteca para cada município brasileiro é imperioso. Mas é também imperioso criarmos em cada município brasileiro condições para a existência de pequenas e médias livrarias, o que nas cidades grandes não é mais possível, devido à política arrasadora do que se denomina grandes espaços ou redes de livrarias que praticam, sem serem distribuidoras, a exigência de descontos que vão de 55 a 65% do valor de capa dos livros a serem comercializados.

Aí está colocarmos o dedo na chaga que ainda existe: o preço caro dos livros! Por isso, é indispensável medidas como preço fixo dos livros, determinado pelas editoras (México e Argentina já aderiram); isenção do IPTU durante dez ou quinze anos; financiamento de espaços da livraria que também é promotora de eventos culturais; formação de pessoal especializado (se uma livraria pode ter de cinco a quinze funcionários, isso representaria a criação de mais de oitenta e cinco mil empregos diretos).

Esses empregos de pessoal treinado pelas associações de bibliotecários com cursos já existentes de auxiliares de bibliotecas e universidade do livro serão uma nova geração de empreendedores que não gravarão o fundo de desemprego e possibilitarão focos incentivadores de cultura em todos os rincões do Brasil.

O financiamento das vendas das pequenas livrarias pelos bancos oficiais ou estaduais, a juros de um verdadeiro Banco do Povo, permitirá também a criação de leitores desaparecidos nos últimos anos que só podem comprar livros em parcelas não-onerosas. O consumo será direcionado para aqueles que querem adquirir conhecimento e não apenas para aqueles que estão preocupados com produtos de consumo inúteis e poluidores.

As pequenas livrarias têm de fazer parte de um plano nacional estratégico de incentivo à leitura. Se pensarmos que um livro representa a emissão de 5% de CO2 e um aparelho e-book representa 250%, como conciliar o desejo de acesso ao conhecimento sem ajudarmos a destruir o planeta.

A internet é um auxiliar preciosíssimo do livro. É insubstituível na divulgação deste. Ela tem de ser usada nas bibliotecas juntamente com os profissionais de monitoramento cultural, que devem abrir aos leitores e internautas o mundo maravilhoso da diversidade e do conhecimento.

Lembremos que esse modismo de promoção dos aparelhos eletrônicos de leitura é uma criação do grande capital, de grandes corporações, para as quais a criação de “gadgets” é vital para seus lucros milionários. O lixo que representam as constantes substituições de “modelos”, às vezes em menos de seis meses, é um problema que humanidade não está conseguindo resolver.

Fiquem com seus lixos nos seus próprios países! Nós pretendemos aumentar, cada vez mais, o uso do papel reciclado.

* Victor Alegria,

Editor e promotor sócio-cultural




Se você gostou deste artigo, deixe um comentário abaixo e considere
cadastrar nosso RSS, para ser notificado nas próximas atualizações do blog.

Comentários

Nenhum comentário.

Comente este artigo

(obrigatório)

(obrigatório)