Triste Memória
Por: Orlando Muniz *
Especial Para Nós – Fora dos Eixos
É impressionante como andando pelo Brasil é possível identificar uma característica que une o sujo ao mal lavado: a falta de conservação de bens do patrimônio público.
Como são maltratadas as placas de trânsito, as escolas, os hospitais e outros edifícios públicos, só para ficarmos nesses exemplos. Tudo indica que prevalece a lógica perversa de que esses bens são apenas do governo e, logo, podem ser alvo das constantes depredações.
Essa visão equivocada provoca uma sangria nos cofres públicos que, no eterno processo de enxugamento de gelo, fica-se sempre correndo atrás do prejuízo.
Quem tiver alguma dúvida disso, que tente entrar em um banheiro nos estádios de futebol. Parece cena de guerra, com torneiras quebradas, vasos entupidos e água escorrendo por todos os lados.
Falo dos estádios, mas a cena, com as exceções de praxe, multiplica-se nos vários segmentos que tenha o cheiro — desculpem o trocadilho — mínimo de utilização pública.
É doloroso presenciar o vandalismo recorrente e a incapacidade em manter as coisas funcionando com regularidade.
Os bens não são dos governos, os bens são da sociedade e ela precisa olhar atentamente para o sucateamento e o definhamento desses equipamentos, até porque custa muito caro a reposição que invariavelmente tarda e muita das vezes falha.
E de quem é o prejuízo dessa simbiose degradante? Dos cidadãos que pagam os impostos e que pela falta da qualidade no recebimento da contraprestação recorrem necessariamente a outros meios com um custo adicional.
Falando assim, fica parecendo que tudo está quebrado e mal conservado. É claro que não. Existe muita coisa funcionando adequadamente e com bons resultados para a população.
Cito como um exemplo — e os estimados leitores com certeza lembrarão de outros tantos — o Hospital Sarah Kubitschek, que tem uma gestão que foge ao padrão da administração pública, mas que se utiliza de recursos públicos e com seus competentes profissionais presta serviços inestimáveis aos que deles necessitam.
Tal como o Sarah, há outros exemplos de excelência como o Hospital das Clínicas e o Instituto do Coração, ambos em São Paulo, mas não há como não reparar na maneira inadequada de como tantos bens e serviços públicos são administrados de forma lastimável.
Acredito que boa parte dos problemas poderá ser equacionada quando a população sentir-se verdadeiramente como dona desses bens. Quando isso realmente ocorrer, não será necessário nem polícia nem multas, pois a mão do dono estará sempre atenta a repudiar toda e qualquer agressão contra o patrimônio público.
* Orlando Muniz é cronista, contista e autor dos livros Armazém Brasil (crônicas) e Máscaras das Palavras (contos), editados pela Thesaurus.
Serviço
http://orlandomuniz.blogspot.com
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