Falando a Língua dos Homens

Por Orlando Muniz *

Especial Para Nós – Fora dos Eixos

Não quero parecer pretensioso, não devo ser impetuoso e nem insolente ao falar naquilo em que Paulo, o apóstolo, expressou de forma profunda em sua primeira epístola aos Coríntios (I Coríntios 13, 1-8). Quero apenas deixar fluir as palavras como forma de elevar, do fundo da alma, aquilo que é tão difícil expressar: a defesa em pregar pela palavra!

“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse Amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse Amor, nada seria…” Assim começou Paulo.

Amar sem a espera do retorno. Amor descoberto dos compromissos perpétuos. Olhar sem pudor aos despudorados, sem críticas nem condenações.

Andar pelo mundo sem querer as sandálias reforçadas e sem temer as pedras que estarão sempre pontiagudas no caminho desconhecido. Segurar a vela acesa com toda a força da purificação, mesmo que o vento seja forte demasiado e queira apagar o encanto da luz que abortará todas as trevas. Resista aos sopros do desconhecido.

Falar de amor mesmo que seja no segredo do claustro e longe do temor das brutalidades perpetradas contra a face inerte, será a calmaria das noites bravias e a garantia do bote que salva. Não se intimidar ante aos coices que advêm das insanas adversidades protagonizadas pela traição dos pagãos de credo. Não afrouxar na rédea do galope bruto mesmo que o ensandecido animal tente a todo custo lançá-lo para fora do caminho traçado. Os resistentes encontrarão força branda para se contraporem aos murros saídos de mãos que não afagam. Resista falando de amor!

São Paulo, apóstolo.Imagem de autor anônimo.

Sair pelo mundo olhando para o lado, sem os temores dos arredios sopros de indignidade, será a alternativa aos cegos de natureza morta que nada enxergam além das suas próprias inquietações. Seja solidário no partilhamento até de suas mágoas. Haverá um dia que um outro ombro será amigo para as travessias que virão.

Fale de amor, pois mesmo que os surdos nunca consigam ouvi-lo, haverá sempre uma mímica que o fará entender que o roçar dos lábios sinceros será o compromisso para enfrentar o beijo forjado nas facilidades do impúbere discípulo que se maculou por poucas moedas.

Não se deixe atrair pela beleza das flores de enganação que brotam no canteiro da vida e depois se misturam às bem nascidas flores vindas do útero da terra fértil. Perdem o cheiro, desbotam da cor.

Fale de amor, pois mesmo que os impuros de força queiram lhe atrair para o despenhadeiro haverá sempre uma força de amparo a proteger os que falam pelo amor. Não deixe de falar nunca sobre esse amor de Paulo:

“(…) Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o Amor.”

* Orlando Muniz é contista e romancista. Nasceu em 1959, em Eirunepé, na foz do Rio Juruá, no Amazonas. Filho de Benedito e Maria. Formou-se em Direito na Universidade Federal do Maranhão. Advogado e procurador federal, é autor dos livros Armazém Brasil (crônicas urbanas), publicado em 2006, e de Máscara das Palavras (contos), lançado em 2009, ambos pela Thesaurus.

Serviço

www.thesaurus.com.br

orlandomuniz@uol.com.br

http://orlandomuniz.blogspot.com




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