A Língua Portuguesa e Globalização
Por Menezes y Morais *
O novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, apesar da resistência em contrário de muita gente boa no Brasil e em Portugal, é um fato consumado. O Brasil ainda vive o período de transição, de 1º de janeiro de 2009 a 31 de dezembro de 2012.
Recentemente em Brasília (DF), foi realizada a I Conferência Internacional Sobre o Futuro da Língua Portuguesa. A conferência contou com a participação de representantes de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.
Resistir é preciso
A questão discutida: a Língua Portuguesa, falada por cerca de 250 milhões de pessoas nesses oito países, tem futuro, no mundo da globalização? A resposta é positiva.
A Língua Portuguesa tem cerca de 650 mil palavras, o que faz dela o idioma com maior número de palavras do mundo. A cada década, entretanto, surgem (e desaparecem, pelo desuso) novas palavras, inventadas (neologismo) pelo povo e sua vanguarda estética.
No Brasil e Portugal, a Língua Portuguesa é pródiga. Em 1789, por exemplo, o lexicógrafo Antônio de Moraes, por exemplo, publicou em Portugal (Lisboa) o seu dicionário, contendo 40 mil palavras.
Criadores da língua
E em 1536, Fernando de Oliveira chamava atenção para o óbvio: “Os homens fazem a língua”.
Os que são contra a unificação da Língua Portuguesa na geografia da CPLP – Comunidade dos Países da Língua Portuguesa, a meu ver, estão equivocados. Preferem o gueto linguístico, apesar do avanço da globalização.
Esquecem os que são contra o acordo da unificação que não existe uma nova ortografia, mas um pequeno conjunto de alterações. O sistema ortográfico é o mesmo, acrescido das letras k, w e y.
Essas três letrinhas acrescidas ao alfabeto, porém, não mudam nada. A exemplo do trema, que agora só existe em nomes estrangeiros. E o acento gráfico, agudo ou circunflexo, deixa de ser usado em uns poucos casos.
Histórico
Sobrevivem apenas dois casos de acento diferencial: pôr/por, pôde/pode. Quanto ao uso do hífen, perdeu-se a oportunidade de simplificá-lo, o que o deixa para uma próxima reforma ortográfica.
O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa foi aprovado aos 12 de outubro de 1990 pela Academia das Ciências de Lisboa, pela Academia Brasileira de Letras e por delegações de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, com adesão dos observadores da Galíza.
A Língua Portuguesa ganhava assim, no embrião, uma ortografia unificada. Os Estados signatários tiveram o prazo até 1º de janeiro de 1993 para elaborar um vocabulário ortográfico comum da Língua Portuguesa.
Naquele primeiro momento, a ortografia unificada entraria em vigor em 1º de janeiro de 1994. O que não aconteceu, pois, no Brasil, entrou em vigor apenas no ano passado.
Prejudicial
Diziam então os defensores da unificação que “A existência de duas ortografias oficiais da língua portuguesa, a lusitana e a brasileira, era considerada prejudicial para a unidade intercontinental do português e para o seu prestígio no Mundo.”.
Os primórdios do acordo remontam a 1911, ano em que foi adotado em Portugal a primeira grande reforma ortográfica, mas que não foi extensiva ao Brasil.
Por iniciativa da Academia Brasileira de Letras, em consonância com a Academia das Ciências de Lisboa, foi aprovado em 1931 o primeiro acordo ortográfico entre Portugal e o Brasil.
Encontros
Os encontros continuaram, sem consenso, em 1943, 45, 1971 (no Brasil) em 1973 (em Portugal). Em 75, novo projeto. Em 1986, novo encontro (Brasil).
O AOLP foi modificado em 17 de julho de 1998. O Acordo assinado em 16 de dezembro de 1990 foi aprovado pelo Congresso Nacional brasileiro. Em 1996, o governo brasileiro ratificou.
Em 29 de setembro de 2008 o Governo do Brasil promulga o AOLP, pelo Decreto nº. 6.583. Entrou em vigor a partir de 1º de janeiro de 2009. E no Brasil, o período de transição foi fixado de 1º de janeiro de 2009 a 31 de dezembro de 2012.
Interação
“A língua é vital à interação humana”, afirma Luiz Costa Pereira Junior. Para ele, toda língua carrega a experiência de uma Nação.
É verdade. A língua é a principal identidade de um povo, assegura o antropólogo Roberto Augusto DaMatta.
Para o autor de Carnaval, Malandros e Heróis, o Brasil precisa descobrir a importância de sua língua para valorizar as suas experiências e contradições.
“O problema maior da língua portuguesa é achar que não escrevemos uma língua importante, com uma literatura riquíssima. Não contamos 10% da nossa experiência e da nossa contradição,” assegura DaMatta.
Cerca de 250 milhões de pessoas falam a língua portuguesa em Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.
Pilares
Usada como instrumento de trabalho por pilares da literatura universal como Luis Vaz de Camões, José Saramago, Machado de Assis, Graciliano Ramos e Clarice Lispector, entre outros, a Língua Portuguesa haverá, sim, de continuar resistindo ao turbilhão global.
Diante os fatos não existe argumento. “A última flor do lácio, inculta e bela” (Olavo Bilac) está ficando cada dia mais culta, revolucionária, bela. E certamente resistirá ao turbilhão do comércio global, para promover a integração cultural – e econômica – dos países da CPPL.
Quem viver verá.
* Menezes y Morais é jornalista,
escritor, professor, historiador
e editor da Nós – Fora dos Eixos.
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Querido Menezes y Morais,
Parabéns pela matéria! Uma aula de história sobre nossa língua… Não sei se já existe, mas seria muito interessante que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) promovesse anualmente Concursos Literários, envolvendo todas as modalidades, a fim de ampliar o intercâmbio linguístico. O que acha? O que diz?
Quero viver pra ver.