Devagar Com o Andor
Por Orlando Muniz *
Especial Para Nós – Fora dos Eixos
O mundo está cheio de gente que imagina que tudo pode ser resolvido na base do “comigo tudo pode”. Muita conversa mole, pouco trabalho e um animado processo de massificação de ideias sem consistência e conteúdo.
Os salvadores da pátria são assim mesmo, forjados em barro de qualidade discutível, e que ante os temporais que atravessam recorrentemente a vida começam a se dissolver em fragilidades lacrimais.
O barro da argamassa da construção tênue não dá liga, é fraco, se quebra com facilidade. Não há cola nem lábia que possam ajustar. Isso é uma constante no mundo do faz-de-conta. Não há como não reparar as inconsistências reproduzidas a esmo. Isso é fato, ou não é?
Por aqui, essa prática — da falta de robustez no conteúdo — também é muito usual, permeia animadas reuniões de condomínio, passando pelos deslumbrados do culto ao corpo nas academias, se propagando pelos corredores acarpetados que alinham os passos trôpegos de uns e outros mais aprumados na vida.
O sujeito canta grosso como se fosse o galo velho no terreiro, mas, quando apertado, já na primeira briga com galo de esporão mais duro, começa a cacarejar como se fosse a matrona das poedeiras, um fisco de bico afinado.
Nessa disputa pelo poleiro mais alto, o galo matreiro até bate as asas no peito, mas, sem muita segurança e sem fazer os sacrifícios de ofício, não põe os ovos esperados. No popular: é galo de terreiro manso, nem canta nem briga.
Até parece que falando assim estamos querendo que as questões se resolvam na briga ou na base do “vamos ver”. Nada disso. O que se quer é que os caminhos sejam trilhados com mais sinceridade e ações verdadeiras, sem tergiversações ou embromações que confundem quem não aprecia o escamoteamento nas relações interpessoais.
Falar menos e praticar mais a sinceridade deve ser sempre o passo principal para quem semeia boas sementes e pretende lá na frente colher bons resultados. Querer ir buscar no roçado a colheita da semeadura feita pelo compadre vizinho, convenhamos, é apropriação indébita.
Vamos em frente com cautela e vagar com esse andor. O país é forte, mas os solavancos do dia-a-dia podem corroer a paciência.
* Orlando Muniz nasceu em 1959, em Eirunepé, na foz do Rio Juruá, no Amazonas. Filho de Benedito e Maria. Formou-se em Direito na Universidade Federal do Maranhão. Advogado e procurador federal. Publicou pela Thesaurus os livros Armazém Brasil (crônicas urbanas), publicado em 2006, e de Máscara das Palavras (contos), lançado em 2009.
Serviço
http://orlandomuniz.blogspot.com
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