A Palavra Está de Luto
Por Orlando Muniz *
Especial Para Nós – Fora dos Eixos
18 de junho de 2010 será lembrado como um dia pobre para todo o sempre, principalmente para a “última flor do Lácio, inculta e bela”, nossa língua pátria.
O idioma casto e suas matizes estão chorando a perda de um leal parceiro das palavras bem formadas e, uma vez juntadas, que se esvaiam por entre caminhos infinitos em romances de histórias sinuosas ante aos olhos aguçados do sisudo e hermético José Saramago.
Ele vai nos fazer muita falta. Isto não é retórica, é fato. Homem das letras e capaz de preencher vazios eternos com sua verve e capacidade de armazenar maravilhas no papel, Saramago está para nossa língua como Beethoven está para a música; como Jean-Baptiste Debret está para a pintura; como Michelangelo di Ludovico Buonarroti Simoni está para o Renascimento; como François-Auguste-René Rodin está para a escultura.
Um gênio cheio de modéstia que começou serralheiro e virou um ícone da literatura.
Hoje, ao tomar conhecimento de que Saramago partiu para o convescote celestial das boas causas, não tenho a menor dúvida de que o Senhor deve ter feito recomendações especiais aos arcanjos e querubins, no sentido de que aquele humilde servo português, que vivia recluso nas Ilhas Canárias, estaria chegando para compartilhar sua palavra na mais fina flor do Éden.
Vou me socorrer de Olavo Bilac — outro mágico das letras — para tentar dizer ao mestre José, o quanto estou órfão neste interminável dia.
Por Olavo Bilac
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…
**
Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!
***
Amo o teu viço agreste e o teu aroma 
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
****
Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
Que Deus o abençoe!
* Orlando Muniz nasceu em 1959, em Eirunepé, na foz do Rio Juruá, no Amazonas. Filho de Benedito e Maria, foi
continuo de escritório de advocacia e formou-se em Direito na Universidade Federal do Maranhão. Advogado e procurador federal, publicou pela Thesaurus, Armazém Brasil (crônicas) e Máscaras da Palavra (contos).
Serviço
http://orlandomuniz.blogspot.com
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