O Brasil Perdeu Para o Brasil

A Seleção da Holanda comemora a vitória de 2 X 1 sobre a seleção de Dunga.

Por Orlando Muniz *

Especial Para Nós – Fora dos Eixos

Após uma derrota cheia de traumas e sofrimentos como essa em que nossa Seleção Brasileira foi abatida pela equipe da Holanda, pelo placar de dois gols a um, em jogo da Copa 2010 na África do Sul, existe sempre um tempo para a limpeza das feridas e a expiação das almas que ardem em direção ao purgatório da vala comum.

É no período pós-derrota onde as armadilhas das línguas soltas fazem a apologia do famoso “Bem que eu avisei”. Não vou cair nessa tentação.

É também em meio a esse saco de pandora que surgem os monstros e as leviandades adormecidas nas cabeças que se arvoravam donas da verdade, quase sempre pífias e mal-contadas, e que na hora do enterro e das lamúrias de ocasião se apresentam como vivandeiras de um apocalipse que nunca fora anunciado, mas que circulava como um desastre possível nas franjas das facilidades verbo-labial de uns e outros.

Os brasileiros que foram à África do Sul sofreram durante a partida Brasil X Holanda.

São lorotas e asneiras produzidas aos turbilhões para explicar o óbvio: perdemos!

A perda é dolorida e mortifica mais ainda quando o preparo para a tragédia não se fez presente quando possível. É difícil perder, claro que é! É complexo querer se preparar para a perda, claro que é!

O que não se pode é trabalhar sempre com a variável da vitória quando a derrota é parte integrante desse produto, mesmo que não queiramos. Logo, perder faz parte do jogo do mesmo modo que a alegria faz parte quando obtemos o êxito.

E para quem perdemos mesmo? Na simplicidade dessa enfermaria nacional em que ainda estamos internados, seria simplório dizer que perdemos para uma Holanda mais firme e equilibrada e que soube dosar seus medos e fragilidades quando nossa seleção fazia um primeiro tempo primoroso.

Dunga, técnico ou ex da Seleção Brasileira?

No fundo, o time da Holanda foi só um ator bem aplicado nesse enredo de morte anunciada a que estaríamos fadados caso o primeiro cadafalso não se consumasse naquela sexta. Pela forma como o desespero fulminou a equipe, o trágico final poderia vir um pouco mais na frente, era tudo uma questão de tempo.

No fundo o que percebo é que o Brasil perdeu mesmo foi para o Brasil. Perdemos para um ufanismo já sem graça, mas que insiste em querer ruminar em datas festivas para dizer que somos melhores que os outros, e não só no futebol, o que é pior.

A língua que só obedece as ansiedades tende a mandar recados para a cabeça fazendo depois um pacto macabro de ações sem planejamento. Daí para o fracasso, é um pulo.

Com tanta conversa fiada e pouca liderança não deu outra, o time começou a receber recados exacerbados de que o patriotismo jeca, misturado a doses cavalares de religiosidade fanática, e a falta de um líder que soubesse baixar a poeira na hora do vamos ver, mais uma vez compuseram uma equação onde o produto tinha como resultante o fracasso.

Orlando Muniz

Não precisa ser nenhum gênio, nem um especialista em psicologia para perceber que nosso time foi traído pela própria cabeça e pelas próprias pernas. Que aprendamos que não somos melhores nem piores que ninguém.

Somos um povo alegre e sensível, que, acima de crendices e credulidades oportunistas, precisa aprender mais, estudar mais, planejar mais e colocar humildade de sobra nas resultantes.

Talvez com um pouco de tudo isso possamos começar a pensar em 2014 como um ano que virá após 2013 e não como mais uma tábua de salvação para a glória nacional.

* Orlando Muniz é escritor. Nasceu em 1959, em Eirunepé, na foz do Rio Juruá, no Amazonas. Filho de Benedito e Maria. Formou-se em Direito na Universidade Federal do Maranhão. Advogado e procurador federal, é autor dos livros Armazém Brasil (crônicas urbanas, 2006) e de Máscara das Palavras (contos, 2009), lançados pela Thesaurus.

Serviço

http://orlandomuniz.blogspot.com

orlandomuniz@uol.com.br

www.thesaurus.com.br




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