Saúde

Por Rui Nogueira *

Especial Para Nós – Fora dos Eixos

Estamos numa era em que se fala muito em planejamento e qualidade. Hoje é perfeitamente possível dimensionar, com cálculos precisos, as necessidades de recursos, instalações e pessoal para atender demandas que podem ser previstas em todo tipo de serviço.

Conhecida a população, o sistema de saúde pode perfeitamente ser planejado. Há parâmetros, até internacionais, para indicar a demanda que precisará ser atendida e ante tais números estabelecer as quantidades de leitos, médicos, enfermeiras, toda a equipe de saúde, hospitais e consultórios. Isto permite dimensionar a necessidade de pessoal e o vulto das instalações para um atendimento racional.

Sou um médico perplexo e tenho o exemplo do Rio de Janeiro. Relembro a minha formatura nos idos de 60 e revejo a atividade de acadêmico de medicina. Todos disputavam e faziam concurso para o trabalho/estudo do plantão na assistência médica pública.

O Souza Aguiar era disputadíssimo pelo seu alto padrão e, nos diversos hospitais, havia os chefes de equipe que, por sua responsabilidade, cultura, dedicação e capacidade de repassar os seus conhecimentos, eram, logo, procurados pelos melhores classificados nas provas.

Não havia pistolão político e os partidos ainda não tinham transformado os hospitais, centros de saúde e ambulatórios em comitês eleitorais e nem se atreviam a criar feudos políticos no atendimento à saúde.

Agora, eu me lembro, os hospitais de hoje são os mesmos daquela época. Souza Aguiar, Getúlio Vargas, o do Méier, o dos Bancários agora é o da Gávea. Quarenta anos e não houve nenhuma evolução – investimento zero. O quadro hoje é de calamidade constante.

Os médicos e os profissionais de saúde sempre “quebrando um galho” porque é lógico, eles convivem, diariamente, com as dores e os sofrimentos das pessoas e não é algo visto na telinha da TV, mas a realidade nua e crua ante os seus olhos.

Há muitas mortes em alguns locais e hospitais e um médico, numa entrevista, disse: “Nós temos que colocar os pacientes que chegam para dentro do hospital, eles não podem morrer na porta”. Lá dentro tudo está precário. Faltam

Rui Nogueira, por Victor Tagore.

instalações, leitos, medicamentos, funcionários. Há gente demais procurando atendimento.

O que isto representa? Duas crianças no mesmo berço, dificuldades com roupas, medicamentos não são suficientes, a enfermagem se exaure ante a multiplicação do que tem que fazer, os médicos são insuficientes.

Nitidamente não são feitos planejamentos , e, se feitos, não são respeitados. Todos os recursos são absorvidos pela sórdida política econômica atual que prioriza os pagamentos de juros de dívida com um “caixa único” centralizando os recursos, somente liberados depois de atingido o superávit primário. Não há o menor escrúpulo em constringir verbas até para a saúde – diminuam as compras de remédios, cortem as verbas pela metade!

O corte é desviado para pagar juros! Que absurdo! Aí está a realidade desumana dos nossos governantes. No orçamento realizado de 31 de dezembro de 2007; 53,21 por cento foi destinado ao pagamento dos juros e 3,49% para a saúde. Mais de 15 vezes para os juros do que para a saúde.

Surrealismo desumano com a saúde.

Resistir é preciso!

* Rui Nogueira, médico, pesquisador e escritor. Entre outros, é autor de Água – A luta do século (ensaio) e Abença, Padim (romance, 2010).

Serviço

rui.sol@ambr.com.br

www.nacaodosol.org




Se você gostou deste artigo, deixe um comentário abaixo e considere
cadastrar nosso RSS, para ser notificado nas próximas atualizações do blog.

Comentários

Nenhum comentário.

Comente este artigo

(obrigatório)

(obrigatório)