Vala Comum ou a Tragédia Anunciada das Enchentes no Brasil

Enchente.Imagem por:sosriosdobrasil.blogspot.com

Por Orlando Muniz *

Especial Para Nós – Fora dos Eixos

A tragédia provocada pelas chuvas no Nordeste já faz parte de um passado distante e debochado. As mortes provocadas pelo deslizamento de morros em Niterói, alguns meses depois, estão sob sigilo sepulcral e não aceitam réplica sobre o ocorrido.

A avalanche mortal — que destruiu as pousadas e tantas vidas em Angra dos Reis durante o último réveillon — caiu em um esquecimento que provoca medo.

Os alagamentos que paralisaram o Rio passaram, como na música de Paulinho da Viola, feito um rio na vida dos cariocas e se perderam pelas bocas de lobo entupidas até o gargalo.

O que dizer da hecatombe que sacudiu o Haiti? Nada a declarar. Talvez seja essa a resposta mais adequada em meio à força das notícias que cobrem as tragédias. As manchetes se sucedem diariamente de forma indecente para lembrar aos que ficaram no esquecimento que logo outras virão para compor um pomposo cenário de números e estatísticas.

Impressiona a sucessão de fatos que vão sendo jogados para baixo do tapete na espera que venham outros para rechear a pauta da mídia sequiosa por sangue novo. Hoje, a bola da vez é a tragédia da vida privada de um goleiro de futebol e suas peripécias fora do gramado.

Enchentes.Imagem por:regismarques.wordpress.com

Já estava demorando que um fato policial voltasse à tona. Não há um só mês em que um crime ou outro fato com cores fortes entre na pauta para garantir o intervalo entre um jogo de futebol e um debate eleitoral.

Essa é a vala comum onde estamos metidos. Somos conduzidos a viver pautados pela falta de sentido para, de teima, bisbilhotar a vida dos cidadãos comuns.

As tragédias, as mortes, a política, os debates… Tudo é parte do contexto do andamento da rotina a que somos submetidos. Porém, essa determinante e exaustiva compulsão por fatos novos vai empurrando também o senso comum para uma quase indolência de sentimentos.

Orlando Muniz, divulgação.

Talvez, de tanto sermos bombardeados por novos dramas, já esteja difícil alguém se compadecer, de verdade, pela tragédia que gira ao seu redor. As pessoas parecem contaminadas por um anestésico forte que impede uma compaixão mais firme pelo problema que mora ao lado. Estamos menos solidários, isso é fato!

As chuvas, as enchentes, as avalanches vão continuar escorrendo freneticamente por entre notícias on-line enquanto as “devidas providências” ficam na fila de espera.

*Orlando Muniz nasceu em 1959, em Eirunepé, na foz do Rio Juruá, no Amazonas. Filho de Benedito e Maria. Formou-se em Direito na Universidade Federal do Maranhão. Advogado, procurador federal, é autor dos livros Armazém Brasil (crônicas urbanas, 2006) e de Máscara das Palavras (contos, 2009), publicados pela Thesaurus.

Serviço

http://orlandomuniz.blogspot.com

orlandomuniz@uol.com.br

www.thesaurus.com.br




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Comentários

coitados desas pessoas que deus proteja eles

Seu artigo é pontual. Um ponto de vista que falta na mídia brasileira. Gostei mesmo. Abraço.

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