A Minha Praça
Por Orlando Muniz *
Especial Para Nós – Fora dos Eixos
Queria saber mais, pensar mais, visitar outros mundos. Talvez os pensa
mentos carre
gados por ideias desconexas comecem a me fazer pensar e imaginar como aquele menino de cabelo fiapo de milho, que sonhava acordado em um mundo que fora feito só para ele. Bons tempos aqueles quando todos os pensamentos mal cabiam em uma cabeça pequena de conteúdo, mas com uma imaginação que roubava todas as fronteiras, inclusive a do absurdo.
Viajei muito por entre mundos desconhecidos e discordantes. Parecia uma loucura imediata querendo fazer parecer que eu era grande. Mas não era grande, eu era apenas um menino solto de cabeça ao prumo, querendo crescer logo para por em movimento as pernas grandes e avançar sobre os obstáculos que ficavam a fomentar toda a energia desconhecida. Andava, corria feito um tigre solto na planície. Suava frio só de pensar que um dia iria crescer.
Parava e chorava como criança nos braços de Maria, uma linda Maria que me aninhava no colo e me consolava: “Calma, Chico, tua hora chega. O mundo não vai sair do lugar.” E o mundo ia chegando!
Não sei por que essa imagem me veio agora, quando estava aqui em frente ao computador idealizando como sair do mundo real para falar de coisas de que acredito. Talvez a saudade de Maria e Benedito me sondou a levar-me de volta ao Largo do Carmo, em frente à Caixa Econômica, quando pensava que meu mundo era só aquela praça. Era uma praça, mas era meu mundo, feito de pernas ainda curtas com uma calça que mal se abrigava embaixo de uma barriga esguia e um cinturão surrado pela fome de meio-dia, que me chamava de volta para os braços e os pratos de Maria.
Hoje, lembrei muito deles… Dos meus pais. Talvez seja essa cisma que me enrosca no passadio das horas, de querer se fazer sobre todas as coisas que me vem à cabeça. Não devia ser assim, mas o que fazer com essa ruga que se fecha em
minha face, como a denunciar, mais uma vez, que estou me preparando para um debate comigo mesmo? Pensei muito neles, e acho que fiz bem. Olho para cima e os vejo dançando em uma velha foto. Sei que se pudessem diriam: “Pensa, Chico. Pensar faz bem, não desgasta a alma e ainda te deixa mais esperto.”
É isso, continuarei a andar e a pensar nesse mundo que, agora sei, não se resume mais àquela praça.
*Orlando Muniz é escritor e procurador federal. Pela Thesaurus, publicou Armazém Brasil e Máscara das Palavras.
Serviço
Se você gostou deste artigo, deixe um comentário abaixo e considere
cadastrar nosso RSS, para ser notificado nas próximas atualizações do blog.



Comentários
Nenhum comentário.
Comente este artigo