Cinza da Solidão (44)

Resumo do capítulo anterior. Do ap de Dérick eles vão para o bar. Lá enquanto Dérick toca Zeto aproxima-se de Lúcia, que parece sentir ciúmes de Fátima, porém acaba ficando com Zeto e lhe comunica sua viagem pela América.

Impeachement do Collor, por alerj.rj.gov.br

Por M. P. Haickel *

Especial Para Nós – Fora dos Eixos

É preciso dar um impeachment neste presidente. O país não vai pra frente por causa desse bando de ladrões! Reclamava Alênca. É isso que gera essa eucaristia, a dificuldade de se prosperar neste país enorme e abençoado por Deus! É por isso que o novo é combatido! Não é já que a ditadura volta a reinar por estas bandas!

— Não seja também assim tão apocalíptico Alênca! – respondia com doçura Jussara, pegando-lhe as mãos para acariciá-las.

— Que nada, é assim mesmo! – partia em defesa o Zinho se levantando para pegar mais uma cervejinha gelada.

Armando resmungava ao lado de Miriam enquanto eu observava a noite. Estava mais fria que nunca, principalmente porque eu estava longe de Lúcia. Procurava em meus pensamentos, que eram vez por outra, entrecortados para falarmos da gravidez de Fátima que sonhadora inspirava calma a todos. Frank apareceu, mas não demorou pra se mandar. O bar estava numa penumbra e tinha pouca gente, uns poucos sentados nas mesas e outros, próximo a zona de onde se jogava dardo, estes mais barulhentos que os outros, comentavam as músicas que rolavam pelo ambiente.

— Quer dizer quem fez a denúncia foi o irmão? – interrogava Dérick.

— Sim, um tal de Pedro Collor, irmão do Fernando! – ia a lugar nenhum o comentário de Armando: — Parece que o cara descobriu que está com câncer e resolveu jogar areia pra todo lado…

— E o outro envolvido?

— É o parceiro, tesoureiro da campanha. Vamos voltar à época dos militares, o país tá uma bagunça.

— E até parece que militar dá jeito! São apenas mais cruéis!

— Pra lá… Deixa que todo mal tem seu remédio. Quer dar serviço pro meu pai, que já está de chinelos e pijama uma hora dessas?! – brincou Fátima que era filha de um militar encostado: — Sou mais pelo processo de impeachment.

— Também sou contrário a esse negócio de golpe militar. Acho que se vivemos uma democracia que seja pelo desejo da maioria, rei morto, rei posto. Quanto a isso, não tenho dúvidas, tá havendo manifestação de norte a sul do país, de leste a oeste e se as coisas estão como estão não é por causa de não sabermos nos governar, é que é assim mesmo, sempre houve ladrões, estamos engatinhando na esculhambação, na democracia. Na época dos militares não quer dizer que não tinha escândalos, a diferença era que a censura não deixava nada vir à tona. Estamos vivendo um outro momento histórico… – refiz o raciocínio.

— Até parece, poeta! Tu acredita mesmo… Conta outra! – Levantou a cerveja completando o copo. Alênca parecia mesmo angustiado com tudo. Zinho voltava pra mesa e preferiu mudar o assunto:

— Armando e o nosso negócio? – falou em tom discreto e enigmático.

— Tá na mão. É perigoso bem sabes, mas rentável. Talvez seja isso que esteja faltando para vocês realizarem o vídeo. Eu já te falei várias vezes, até já te pedi para segredo desse assunto, isso não é coisa pra se comentar em mesa de bar.

Zinho não soube se conter com o pito do Armando que deixou o dinheiro pra cervejas e saiu em direção do carro estacionado na comercial. Caía uma chuva fina que o deteve por algum tempo. Alênca olhou de lado para mim. Dérick acariciava a barriga de Fátima, Jussara parecia não entender o mal estar que Miriam parecia viver em frações de segundo. Zinho me olhou obstinado e saiu atrás de Armando, entrou no carro. Aquela noite ficaria em nossa lembrança por muito tempo ainda, pois foi justo naquele passeio que dera com o Armando que selara o que o destino lhe reservava.

Amanhã continua… No bar a turma discute a possibilidade de dar um impeachment no presidente. Zeto observa a noite enquanto Armando resmunga com Míriam, Zinho vai buscar mais cerveja. Dérick acaricia a barriga de Fátima que espera um filho seu. Zinho sai de carro com Armando e marcam o transporte da cocaína até o Lago Sul.

*M. P. Haickel. Escritor, professor, autor de vários livros publicados de forma independente. Pela Thesaurus Editora, publicou O Amor de Mariano e Cinza da Solidão.

Serviço

mphaickel@gmail.com

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