Cinza da Solidão (46)

No capítulo anterior:No bar a turma discute a possibilidade de dar um impeachment no presidente. Zeto observa a noite enquanto Armando resmunga com Míriam, Zinho vai buscar mais cerveja. Dérick acaricia a barriga de Fátima que espera um filho seu. Zinho sai de carro com Armando e marcam o transporte da cocaína até o Lago Sul.

Tocando violão, por br.olhares.com

Por M. P. Haickel *

Especial Para Nós – Fora dos Eixos

Na manhã que se seguiu acordei sentindo-me estranho. Caminhei com a certeza que ia aprendendo a jogar a vida. Deu-se a mudança, assim, repentina com o tempo. Sentia o precipício e veio a vontade de fazer a crônica dos dias, das horas e dos nada mais. Algo que a si compele. O medo. A falta de experiência para com a vida. A esperança dos dias melhores com a vitória no Festival de Cinema era uma semente que germinava, o pensamento brotava, então pensei: as pessoas são mesmo assim, indiferentes ao caminhar entre as superquadras, assumem papéis no dominó, em busca de um domínio, a região do meio, nem tão pantanosa quanto deveria ser; seguem linhas retas e curvas, equilibram-se a uma atavia, às suas incertezas; blocos e dias… ao passar das horas, no embalo da música que tocava, que os tirava pra dançar.

Em princípio sim, há uma certeza, a única e verdadeira: a que vamos todos um dia morrer, e que não nos basta apenas estarmos vivos. A guerra se travava em mundos diferentes e distantes e tudo pressupõem um início, um meio e um fim. Talvez quando da emoção ao desbunde das leis. Não obedece ao coração aos desmandos do amor?… Somente ele, para quem a razão é outra, tornava mister o sentimento. Ultraleve, o pensamento voava a passar com o tempo às asas da cidade. Ótimo, as roupas no varal a secarem, a flâmula, a família, o elo, cada dia, o pão nosso, indefinido… Noite e dia… Passariam os tempos, a começar e a findar com as amizades. Viria a queda, já que é natural cair, para levantar, malícia adquirir, há de vir o carnaval e o suor, a solidão para que houvesse o trabalho de equipe, aquela coisa de grupo, e nós éramos coletivos, não interessava se de cordas de violão, ou de tripas de gravata, rolos de filme, uma quadrilha, ou de poemas esquecidos como os meus, cheirando a gaveta, que jamais veria publicado. No universo há variedade e unidade da palavra paz, P de perpétuo, A de Amor e Z de sonho. Porém havia o meio, nem tantas vezes próximo ou derredor, paredes encontrávamos com a dificuldade de produzir o filme, de integralizar as artes que cada um produzia. Herdávamos as ruínas de uma geração torturada com a ditadura, brutalizada com as conveniências de uma sobrevida, engatinhando no processo democrático escravizado ao coronelismo, do voto de cabresto, de uma cidade planejada, moderna, falida de tantos golpes contra a juventude, dificultando-lhe o acesso a educação, que desde cedo empurra as crianças para as mutilações nos campos. Pacotes econômicos fracassados pela incompetência, pela corrupção e demagogia; o que levaria as pessoas para rua, gritar e exigir a queda do presidente? Brasília era sufocada com a esterilidade da burocracia, com os trâmites governamentais, nem grande nem interior, capital, cheia de problemas, com uma elite exclusivista, sem novidades, somente com alguns bares, um estádio de futebol e carnaval até fora de época. Paradoxalmente nova e velha, sem lucidez. Porém suave era a noite que caía sobre ela. Com seu refrão impróprio, plana. Certamente sua arquitetura era minha arquitrave. Como num sonho, meu delírio passava a cheirar seus indícios e tudo viciava tudo era um começo e sempre era ponto de partida. Mas haveria de surgir um só canto… E se tanto for a verdade, que seja dita ainda com estas palavras que registro agora como certo da ruína que nos esperava.

O escritor M.P. Haickel, por divulgação.

Leia amanhã o último capítulo: Depoimento final de Zeto. No dia do impeachment do presidente vem a notícia da morte de Zinho, que tentava traficar cocaína para a conclusão do vídeo para participar do Festival de Cinema de Brasília. A notícia da morte de Zinho acaba por separar a todos. Fátima perde o filho, Dérick é recolhido ao hospício, Lúcia viaja, Míriam fica perdida, Alenca separa-se e Zeto reúne toda a história e decidi contar como forma de tentar redimir o passado.de Jussara

*M. P. Haickel, poeta, escritor, produtor cultural, autor, entre outros, de Cinza da Solidão e O Amor de Mariano, publicados pela Thesaurus Editora.

Serviço

mphaickel@gmail.com

www.thesaurus.com.br




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