Cinza da Solidão (final)
No capítulo de ontem: Lúcia vai se despedir de Zeto que mais uma vez declara seu amor por ela e não aceita sua partida, porém ela jura um dia voltar para seus braços. Zeto se oferece para deixá-la na Rodoviária, mas Lúcia não aceita.
Por M.P. Haickel *
Especial Para Nós – Fora dos Eixos
Quando saímos em resgate da vodka, Dérick me falou entre outras coisas que estava escrevendo uma estória. Escutei mas não dei tanta atenção, somente mais tarde, vim incorporar o que ele tinha escrito antes a esta narrativa, com a qual dou por encerrada.
Houve muitas mudanças nas nossas vidas depois que tudo terminou e tudo findou em ruínas. A ruína que vitimou com a ambição de Zinho, a obstinação de Alênca, o oportunismo de Armando, a música do Dérick, a inconstância de Lúcia, a maternidade de Fátima, e com a minha poesia. Foi tudo muito rápido. Não sei ao certo dizer quando tudo começou. Enquanto Dérick ainda se recuperava, Zinho recebeu a visita de Armando, que lhe pediu uma resposta sobre se iria ou não fazer o atravessamento da cocaína da Ceilândia ao Lago Norte, para a casa de um granfino, cidadão que ocupava um alto cargo na escala burocrática do governo e que não podia, de maneira alguma, ter seu nome ventilado em escândalos. O serviço renderia uma boa soma e alimentava o sonho coletivo de ter outros trabalhos realizados com a produção e possível premiação do vídeo que concorreria no Festival de Cinema de Brasília.
Insensatez, delírio, desejo, vaidade… Às vezes me pergunto não sei nem o quê para tentar entender, se é que se entende a ruína que habitávamos, cercados por acontecimentos tão estranhos a nós, ao mesmo que palpável na lembrança, ciente de uma lógica que nos fugia à guerra, à ambição, presos à realidade, onde cada vez mais o esforço humano era desvalorizado frente ao capital, ao brilho de um sucesso metálico. Da loucura urbana somos os séculos e milênios do amém. Voltamos à caverna com a mesma displicência que adentramos em shopping center. Não com a mesma desenvoltura de antes, porque antes não tínhamos cotidiano, nem um plano, não tinha nada combinado entre
nós, o destino nos uniu ponto a ponto com o convívio, o concreto da cidade, a solidão de ideais, os vôos noturnos, as asas quebradas, deixados à própria vida, alimen
távamos um sonho de denunciar o que nos oprimia. E é esta mesma lida que apresenta suas soluções e foi sofrendo que aprendemos. Poderia ter sido diferente… Convenhamos, o mundo poderia ser bem melhor, tal qual queríamos. Mais dias menos dias conseguiríamos rodar o filme… Grandes coisas a vida do Zinho para se fazer um vídeo e concorrer num festival, e quem sabe ganhar o prêmio. Para comprar um caminhão e sair por aí? Espalhando a arte pelos quatro cantos do país? O tempo nos abrandaria o fogo ardente da juventude e teríamos conseguido de outra maneira, que não fosse pela contramão da história, com o velho discurso que tanto repugnávamos, de que os meios justificam os fins. Não, eu não gostaria de estar tendo que desabafar isso só agora, porque foi ainda pouco que pude montar este quebra-cabeça, que perdeu uma peça, está faltando uma parte. A morte, sempre a ruína como razão de viver, a guerra em razão da paz, o amor em razão do ódio, a intolerância em favor do capitalismo selvagem, o rico em detrimento do pobre, a caridade em saber da indiferença, não estranhem, eram dias insalubres pra mim. De pouco quase nada me restava de geração… Atropelados, fomos todos pelo bonde do destino, no dia do impeachment do presidente.
O malogrado plano foi frustrado, e nesse mesmo dia era exibido em todas as janelas ao longo do eixão, um luto, a população em forma de repúdio, demonstrava todo tipo de insatisfação em que vivíamos, colocando em suas janelas bandeiras negras, usavam tarjas, fitas, agitavam pela extensão do eixão, agitando bandeiras, marchavam rumo ao Congresso, somavam-se a eles uma juventude cara-pintada, apitando, gritando palavras de ordem que pediam a cabeça do presidente, enquanto num quarto de apartamento na Asa Norte, recebíamos a notícia da morte de Zinho, que ao tentar fugir e trocar tiros com a polícia, acabou vitimado com três perfurações de bala no corpo, abraçado a um pacote com um quilo de cocaína pura, pronta pra consumo, a poucos quilômetros da casa dos bacanas politiqueiros lobistas e marqueteiros. Armando que tinha planejado tudo, desapareceu sem deixar pistas, nunca mais se ouviu falar dele, até mesmo porque sempre fora macambúzio.
Alênca foi o que mais sentiu o golpe, faltou ficar louco por ter cantado a pedra antes, pro Zinho. A notícia que tive dele foi que recentemente rompeu com Jussara, que se mandou para Pirinópolis. Mirian… Não sei… As circunstâncias da vida fizeram cada um ir pro seu lado e o sonho de fazer-se ouvir dentro de uma sociedade, os planos de revolução, de arte e cinema se desvanecer em culpa que agora tento redimir; Dérick voltou pro hospício, recolhido por andar nu pela faixa central do eixão no horário de rush, depois que soubera que Fátima perdera o filho que gerava ao cair da escada, após uma discussão com o pai. Quando chegou o dia do Festival de Cinema, venceu o curta Rodoviária e ela foi embora de Brasília e do Brasil.
Do vídeo restou a construção de uma ideologia que perdura abandonada, esgotando o que ficou de tudo na ruína. Pode não parecer, mas o tempo passa e passou para todo mundo, enquanto o Dérick fazia música e escrevia, namorava com a Fátima; a Jussara tava casada com o Alênca, que gostava de cinema, que estudou o fundamental com o Zinho, da Miriam, que nunca foi com a cara do Armando… Acostumamos-nos com muita coisa nesta vida, só não com a morte e a loucura, contando assim, pode até não parecer, mas… Lúcia se foi com sua trupe pelo mundo. Tenho vontade de um dia novamente encontrá-la. Por vezes quero esquecê-la, mas a vida não deixa, tenho um passado e um futuro ainda por armar, sei disso. Como todo poeta, sonho às vezes com Lúcia voltando, assim como me prometera… E assim vou vivendo me valendo de poucas palavras, escrevendo só o que o coração manda, na tentativa de um dia sair desse labirinto em ruínas que me cerca.
Fim.
*M. P. Haickel, escritor, professor, produtor cultural, publicou Cinza da Solidão pela Thesaurus Editora.
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