Filosofia do Cotidiano – Ideais
Esta coluna traz semanalmente assuntos do cotidiano para debate e reflexão de aspectos culturais, comportamentais, sociais, éticos, filosóficos e científicos, entre outros. Nosso objetivo é estimular uma sociedade mais consciente do mundo e mais proativa na busca da Humanidade.
Por Augusto Ferradaes*
Platão disse que Deus criou os ideais, ou formas ideais, e os objetos materiais são feitos segundo esse desenho. Na verdade, são as formas ideais que garantem a existência de um objeto, de modo que quando ele se afasta da forma passa a ser apenas matéria informe.
O próprio ser humano, por exemplo, mantém-se como tal enquanto está fixo na forma de ser humano. Essa forma não seria apenas o formato do corpo, mas também atributos como a razão, a ética e a generosidade. Imagino, agora, quantos seres humanos encontram-se distantes da forma ideal que um dia os moldou.
Diz-se que aqueles objetos que mais se assemelham a uma forma ideal são mais belos. Para isso, os seres precisam buscar ideais.
Ideais seriam, então, ideias superiores, sublimes, que conduzem o mundo à evolução e aos princípios universais, como a união, a verdade, o bem, a justiça. Embora possam ser expressos por meios físicos, os verdadeiros ideais não são materiais. Um livro, por exemplo, é o meio físico pelo qual as boas ideias nele contidas podem ser transmitidas, e são elas que têm o poder de transformar aqueles que as compreenderem. O verdadeiro ideal transforma para melhor as almas.
Para uma ideia ser disseminada, é necessário unir as pessoas em torno dela. Além disso, os conhecimentos e as ideias precisam ser compreendidos e aplicados, mais do que simplesmente passados para as pessoas. O ideal une as pessoas em torno dele, superando diferenças pessoais e criando uma amizade ideológica, maior do que uma amizade simples, a qual se forma apenas com base em interesses e afinidades comuns. Um dominador, sabendo dessas coisas, tenta impedir a união de pessoas que tenham uma mesma ideia, contrária à sua.
Todos temos pelo menos um pouco de um idealismo, e o idealista vive em função de ideais. Se ele perde esses ideais, desacredita neles, ou mesmo se vê na ausência deles, isso acaba se tornando a anulação de sua alma.
Hoje, vejo muitas pessoas sem ideais, sejam eles nobres, ou não. Essas pessoas estão mortas, em parte, na sua parte mais essencial.
Uma ideia pode sofrer contestações, mas, ao contrário do homem, inclusive daquele que a criou, ela pode sobreviver durante muito tempo, pode ficar esquecida e depois de certo tempo ser resgatada e acreditada.
O medo, principalmente o da morte, pode ser superado quando a pessoa percebe que existem valores ou bens maiores até mesmo que a própria vida, bens como a integridade e a fidelidade aos ideais e princípios acreditados.
Entretanto, há momentos em que as pessoas deixam de reagir a opressões, por medo. Com o tempo, passam a acreditar que essas opressões e abusos são normais e que não precisam ser questionadas. Posteriormente, as pessoas chegam a esquecer de que tudo começou com a opressão e com o medo, os quais passam a habitar o subconsciente e o inconsciente. Com isso, fica no nível consciente a impressão de não se ter medo.
Um grande problema pode surgir nessas condições, quando aqueles que têm boas almas são enganados e passam acreditar nos maus e a lutar por eles. Enquanto isso, outros bons ficam omissos ou passivos, deixando que os maus governem.
No entanto, sempre que alguém questiona as atitudes habituais ou confronta o estado dominante, o medo geral reaparece, ainda que disfarçado em descrédito em relação a uma ideia nova ou a um questionamento quanto àquilo que é considerado normal.
Se alguém, mesmo sozinho, consegue enfrentar com sucesso os dominadores, faz com que outras pessoas percebam as opressões que sofrem e acreditem novamente na possibilidade de vencer os fatos indesejados. Isso ocorre porque ninguém deseja, em sua essência, ser oprimido e viver sob a tutela do medo, ainda que inconscientemente.
A pessoa que primeiro enfrenta os dominadores representa, na verdade, a vontade real de todos os oprimidos. Essa pessoa é um líder e salvador, que conduz as outras pelo caminho da coragem e do enfrentamento aos opressores, sejam eles pessoas ou ideias, e para a busca dos caminhos que levam à liberdade, passando pelos verdadeiros ideais do universo e do Homem. Os líderes e salvadores despertam dentro de cada pessoa a sua verdadeira consciência de si mesma e do mundo, até então adormecida.
E nesse processo, os líderes podem agir com atos próprios e exemplos, ainda que precisem dar sua própria vida em sacrifício. Porém, deixam ideias e mensagens, que podem fazer efeito somente algum tempo depois, mesmo que com a ajuda de outros líderes, que as retomem e atualizem.
Todos nós conhecemos alguns desses líderes salvadores.
* Augusto é escritor, estudante independente de Filosofia e observador dos fatos do mundo atual. Contato: augustoferradaes@brturbo.com.br ou pelo blog clicando aqui
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