Oscar

Por José Roberto da Silva

Melhor do que assistir aos hiper-desfiles das escolas de samba – com direito à selvageria na apuração em São Paulo e à inovadora paradona da Mangueira na Sapucaí – é estourar a pipoca e abrir o refri ao espetáculo hollywoodiano de hoje. Merecemos uma saideira para adiar o choque de realidade como o câncer do Chavez, o assassinato de jornalistas na Síria, as desavenças lupetistas em São Paulo e o lento retorno dos nossos políticos.

Umberto Eco cunhou a expressão “apocalípticos” & “integrados” – os que esnobavam aristocraticamente a cultura de massas e os acólitos do admirável mundo novo da tecnologia globalizada, hoje em 3D e com seus Iphones, Ipads, e-commerce, blogs. Tudo mudou e pouco mudou. O conteúdo é tudo, seja lá qual for o suporte.

A diferença talvez ainda resida entre o espetáculo ao qual se assistia da janela de casa e, na rua, a massa sacolejando no velhíssimo Entrudo. Dá na mesma vibrar sentado na arquibancada. No Nordeste – acima da Bahia que concorre ao Oscar com a batucada do desenho “Rio” – ainda há carnaval como folguedo coletivo, sem parente-patrocinador e sem mega-empresas faturando.

— “Há diferença entre “assistir” e “ser” o espetáculo”, explicou-nos em off o Sr. Charles Preto, lendário presidente do bloco carnavalesco Pacotão. Ainda assim, o cinema continua imbatível na sala escura, protegida da violência das ruas e seus primórdios são homenageados em “O artista”, com charme de Clark Gable. Já temos até um cinema nacional prá valer e não aquele heróico pioneirismo que foi a Vera Cruz, quando Ciccilo Matarazzo e Yolanda Penteado davam festas para Errol Flynn e seu bigodinho bi-sexual.

Pragmatismo dos tempos em que até o PT optou pelo bom senso das concessões/privatizações, Meryl Streep interpreta magnificamente a gerentona Margareth Tatcher. Filme chato, mas cujos flashs backs mostram a violência que foi fechar as contas estouradas do populismo trabalhista inglês. Deus que nos livre do mesmo destino e que nos permita criar um Ministério da Cultura ou uma tevê aberta inteligente que nos proporcione a transmissão da Berlinale e de Cannes. Hotxuá! o espírito do carnaval não é sonhar de graça?

José Roberto da Silva – jornalista e escritor. Conheça os livros do escritor clicando aqui.
In “Diário de Brasília”  – 05 fevereiro 2012.
Livre divulgação, citado o autor.




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