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><channel><title>Nós - Fora dos Eixos &#187; Conto</title> <atom:link href="http://www.nosrevista.com.br/categoria/conto/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" /><link>http://www.nosrevista.com.br</link> <description>Revista Cultural e Literária</description> <lastBuildDate>Thu, 09 Feb 2012 15:07:33 +0000</lastBuildDate> <language>en</language> <sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod> <sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency> <generator>http://wordpress.org/?v=3.2.1</generator> <item><title>Terror foi Lançado: Não Abra &#8211; Pedaço Malpassado</title><link>http://www.nosrevista.com.br/2011/10/14/terror-foi-lancado-nao-abra-pedaco-malpassado/</link> <comments>http://www.nosrevista.com.br/2011/10/14/terror-foi-lancado-nao-abra-pedaco-malpassado/#comments</comments> <pubDate>Fri, 14 Oct 2011 21:40:04 +0000</pubDate> <dc:creator>Gregory Cotrim</dc:creator> <category><![CDATA[Conto]]></category> <category><![CDATA[Cultura]]></category> <category><![CDATA[Geral]]></category> <category><![CDATA[Lançamentos]]></category> <category><![CDATA[Literatura]]></category> <category><![CDATA[Livros recomendados]]></category><guid
isPermaLink="false">http://www.nosrevista.com.br/?p=18139</guid> <description><![CDATA[Por Gregory Cotrim A Thesaurus Editora de Brasília apresenta o Terror em sua lista de livros. Os lançamentos das duas primeira obras da editora nesse ramo literário promete aterrorizar os leitores mais corajosos. Confira a baixo um pouco de Não Abra – Contos de Terror e Pedaço Malpassado. Entrevista ao Programa Autores e Livros da [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><em><strong>Por Gregory Cotrim</strong></em></p><p>A <a
href="http://www.thesaurus.com.br/?affid=nosrevista_gc" target="_blank">Thesaurus Editora</a> de Brasília apresenta o Terror em sua lista de livros. Os lançamentos das duas primeira obras da editora nesse ramo literário promete aterrorizar os leitores mais corajosos. Confira a baixo um pouco de <a
href="http://www.thesaurus.com.br/livro/1852/nao-abra-contos-de-terror/?affid=nosrevista_gc" target="_blank"><em>Não Abra – Contos de Terror</em></a> e <a
href="http://www.thesaurus.com.br/livro/2767/pedaco-malpassado/?affid=nosrevista_gc" target="_blank"><em>Pedaço Malpassado</em></a>.</p><h4 style="text-align: center;"><span
style="text-decoration: underline;">Entrevista ao Programa Autores e Livros da Rádio Senado FM &#8211; Livro: Não Abra</span></h4><h4><p><a
href="http://www.nosrevista.com.br/2011/10/14/terror-foi-lancado-nao-abra-pedaco-malpassado/"><em>Clique aqui para assistir o vídeo inserido.</em></a></p></h4><p>Foi lançado recentemente o livro <em><em><a
href="http://www.thesaurus.com.br/livro/2767/pedaco-malpassado/?affid=nosrevista_gc" target="_blank"><em>Pedaço Malpassado</em></a></em></em>, do jornalista e escritor <a
href="http://www.thesaurus.com.br/autor/marcelo-araujo/?affid=nosrevista_gc" target="_blank">Marcelo Araújo</a>. Em sua segunda obra Marcelo continua no gênero de terror e suspense. O escritor explica que desde quando era criança os filmes, contos e livros de terror eram seus prediletos. Lógico, como toda criança leu Monteiro Lobato e outros escritores infantis, mas sua vacinação mesmo sempre foi o terror.</p><p>O primeiro livro publicado por <a
href="http://www.thesaurus.com.br/autor/marcelo-araujo/?affid=nosrevista_gc" target="_blank">Marcelo Araújo</a> foi <em><a
href="http://www.thesaurus.com.br/livro/1852/nao-abra-contos-de-terror/?affid=nosrevista_gc" target="_blank"><em>Não Abra – Contos de Terror</em></a></em> que foi um projeto literário que saiu com a ajuda dos recursos do Fundo da Arte e da Cultura (FAC) do Governo do Distrito Federal. A obra reúne uma seleção de contos escritos entre 1990 e 2007 que abordam temas sobrenaturais.</p><p>No entanto, Marcelo afirma que suas histórias já são escritas há muitos anos. Eram tantas histórias que quando foi publicar o livro alguns desses contos haviam sido reformulados completamente, por causa das experiências vividas e a maturidade ao escrever, e outros foram perdidos por completo. Ele afirma que o fato de ser jornalista e ter sido editor foi a melhor arma para escrever suas obras. Mesmo com toda a segurança que tem em suas escritas, <a
href="http://www.thesaurus.com.br/autor/marcelo-araujo/?affid=nosrevista_gc" target="_blank">Marcelo Araújo</a> não abriu mão de passar por revisão em todas as histórias. Para ele isso é fundamental, pois, as vezes, pode passar despercebido alguns erros causados pelo “vicio” de tê-los escritos.</p><p><strong></strong><strong></strong>O jornalista não vai parar por aí. Com um tom de mistério ele afirma já ter outros livros para publicar. Isso mesmo, OUTROS. Mas Marcelo explica que para publicar esses livros precisará de um pouco mais de tempo. <strong></strong>Em uma contagem por alto, o escritor contou duas obras já concluídas e quatro em processo de criação. <a
href="http://www.thesaurus.com.br/autor/marcelo-araujo/?affid=nosrevista_gc" target="_blank"><strong><img
class="alignleft" title="Marcelo_Araujo" src="http://www.thesaurus.com.br/media/fotos_autores/928_med.jpg" alt="" width="174" height="260" /></strong></a>Para quem acredita que Marcelo só irá escrever terror, se engana. Ele já revelou que mudará um pouco de gênero, mas que isso não muda a forma de abordagem e a vertente no terror.<br
/> <strong></strong><br
/> Confira a baixo um simples resumo de cada obra e participe do sorteio de cada exemplar.</p><p><strong>O autor:</strong><br
/> <a
href="http://www.thesaurus.com.br/autor/marcelo-araujo/?affid=nosrevista_gc" target="_blank">Marcelo Araújo</a> nasceu em 1970, na cidade do Rio de Janeiro, mas foi criado em Brasília, onde vive desde os 11 anos. Formado em Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB), já trabalhou com jornais, revistas, rádio e assessoria de imprensa. O autor escreve desde 2006 no <a
href="http://salomao.tijolo.zip.net" target="_blank">Tijoloblog</a>, no qual fala sobre música, cinema e publica contos.</p><p>&nbsp;</p><p><strong><a
href="http://www.thesaurus.com.br/livro/1852/nao-abra-contos-de-terror/?affid=nosrevista_gc" target="_blank">Não Abra – Contos de Terror</a></strong></p><div
class="mceTemp"><dl
id="attachment_14518" class="wp-caption alignright" style="width: 204px;"><dt
class="wp-caption-dt"><a
href="http://www.thesaurus.com.br/livro/1852/nao-abra-contos-de-terror/?affid=nosrevista_gc" target="_blank"><img
class="size-full wp-image-14518" title="capa_nao_abra" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/09/capa_nao_abra.jpg" alt="" width="194" height="300" /></a></dt></dl></div><p>Uma carta pode revelar uma terrível maldição, transmitida de geração em geração de uma família. Belas mulheres que se revelam à noite e escondem segredos que vão além do nosso mundo. Um fiel que busca momentos de paz e fervor em uma igreja acaba se deparando com um espetáculo macabro. O fantasma de um jangadeiro desce um rio para se vingar e levar consigo os que o mataram.</p><p>Esses são alguns dos temas de <a
href="http://www.thesaurus.com.br/livro/1852/nao-abra-contos-de-terror/?affid=nosrevista_gc" target="_blank">Não Abra</a>, projeto vencedor em 2008 do Fundo da Arte e da Cultura, da Secretaria de Cultura do Distrito Federal. São onze contos escritos entre 1990 e 2007 com relatos fantasmagóricos, sobrenaturais e fantásticos que podem estar na escuridão do seu quarto, nas ruas da cidade ou num vilarejo do interior.</p><p><a
href="http://www.thesaurus.com.br/livro/1852/nao-abra-contos-de-terror/?affid=nosrevista_gc" target="_blank">Não Abra</a> é o primeiro projeto literário de Marcelo Araújo, que sai com recursos do Fundo da Arte e da Cultura (FAC) do Governo do Distrito Federal. A obra reúne uma seleção de contos escritos entre 1990 e 2007 que abordam temas sobrenaturais. Edgar Allan Poe, Ambrose Bierce, Algernon Blackwood, H.P. Lovecraft e Bram Stoker são alguns dos escritores de terror favoritos de Marcelo. Entre as influências do autor nesta seara também aparece o rico folclore brasileiro e o cinema, dos expressionistas alemães dos anos 20, passando pelos filmes B das décadas de 30 e 40, às recentes produções de terror oriental como Ju-On e Phone.</p><p>&nbsp;</p><p><strong><em><em><a
href="http://www.thesaurus.com.br/livro/2767/pedaco-malpassado/?affid=nosrevista_gc" target="_blank"><em>Pedaço Malpassado </em></a></em> </em></strong></p><p><strong><em></em></strong><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2011/10/Pedaco_Mal_Passado-Radio_Senado.mp3">Entrevista ao Programa Autores e Livros da Rádio Senado FM &#8211; Pedaço MalPassado (Clique Aqui)</a><strong><em><em><a
href="http://www.thesaurus.com.br/livro/2767/pedaco-malpassado/?affid=nosrevista_gc" target="_blank"><em><br
/> </em></a></em></em></strong></p><div
class="mceTemp"><dl
id="attachment_16415" class="wp-caption alignleft" style="width: 201px;"><dt
class="wp-caption-dt"><a
href="http://www.thesaurus.com.br/livro/2767/pedaco-malpassado/?affid=nosrevista_gc" target="_blank"><img
class="size-full wp-image-16415" title="capa_pedaco_mal_passado" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2011/05/capa_pedaco_mal_passado.jpg" alt="" width="191" height="300" /></a></dt><dd
class="wp-caption-dd"></dd></dl></div><p>Nas duas histórias que compõem o segundo livro, <em><a
href="http://www.thesaurus.com.br/livro/2767/pedaco-malpassado/?affid=nosrevista_gc" target="_blank"><em>Pedaço Malpassado</em></a></em>, <a
href="http://www.thesaurus.com.br/autor/marcelo-araujo/?affid=nosrevista_gc" target="_blank">Marcelo Araújo</a> volta a mergulhar nas trevas do horror, com sarcasmo e referências na cultura pop. Uma viagem pelo mundo do terror o autor mergulha na atmosfera do horror com ironia.</p><p>João e Maria é uma releitura versão terror do clássico conto de fadas João e Maria. Tudo começa quando um homem chamado Max, que viaja por uma estrada deserta, à noite, sofre um acidente no seu carro. Ele vai se abrigar na casa de um aparente ingênuo casal de crianças, os irmãos João e Maria. O problema é que eles não são tão inocentes quanto parecem e Max nem desconfia no que está se metendo.</p><p>A segunda história, <em><a
href="http://www.thesaurus.com.br/livro/2767/pedaco-malpassado/?affid=nosrevista_gc" target="_blank"><em>Pedaço Malpassado</em></a></em>, mostra outro motorista, Isaac, viajando de carro, de noite, na pista. Morrendo de fome, ele avista uma churrascaria, onde estaciona para comer. Lá, conhece o simpático Wino, que lhe serve uma comida maravilhosa. Entre garfadas e conversa fora, Isaac também nem sonha com o mal que pode lhe atingir.</p><p>A exemplo de sua outra obra, o escritor conduz o leitor por um universo sombrio, onde o mal está sempre à espreita e pronto para se apossar de suas vítimas. Respire fundo e corra o mais rápido que puder. O terror começa agora&#8230; e não tem fim!</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.nosrevista.com.br/2011/10/14/terror-foi-lancado-nao-abra-pedaco-malpassado/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> <enclosure
url="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2011/10/Pedaco_Mal_Passado-Radio_Senado.mp3" length="2441993" type="audio/mpeg" /> </item> <item><title>Dívidas e dúvidas</title><link>http://www.nosrevista.com.br/2011/07/01/dividas-e-duvidas/</link> <comments>http://www.nosrevista.com.br/2011/07/01/dividas-e-duvidas/#comments</comments> <pubDate>Fri, 01 Jul 2011 19:38:07 +0000</pubDate> <dc:creator>Gregory Cotrim</dc:creator> <category><![CDATA[Conto]]></category><guid
isPermaLink="false">http://www.nosrevista.com.br/?p=16975</guid> <description><![CDATA[Conto de Flávio R. Kothe Em remota praia gaúcha, entrei com Landira, como quem toma posse, no pequeno apartamento que minha tia me havia deixado em testamento. Não era tia consaguínea, era a viúva do único irmão de minha mãe, o padrinho Herwig, portanto um segundo pai para os costumes locais. Ele havia falecido cedo, [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><strong><em><em>Conto de Flávio R. Kothe</em></em></strong></p><p>Em remota praia gaúcha, entrei com Landira, como quem toma posse, no pequeno apartamento que minha tia me havia deixado em testamento. Não era tia consaguínea, era a viúva do único irmão de minha mãe, o padrinho Herwig, portanto um segundo pai para os costumes locais. Ele havia falecido cedo, com trinta e três anos. Ela havia alcançado os oitenta, mas nos últimos dez havia lutado contra um câncer em metástase. Nas últimas vezes que eu tinha ido ao sul, ela estava no hospital, sem receber ninguém.</p><p>Eu não esperava nada dela. Aos dezoito anos, quando fui estudar em Porto Alegre, eu havia pedido que ela me ajudasse, mas ela havia recusado com uma assertiva que me havia deixado magoado e espantado:</p><p>‒ O que é que as pessoas vão pensar se eu ficar andando com um rapaz!?</p><p>Levei isso a mal, pois “andar com ela” nem me passara pela cabeça. Escolado por jesuítas e pela brutalidade do pai bêbado, já tendo sido submetido a interrogatórios num quartel em abril de 1964, eu precisava antes sair do país do que ter namoradas nele e que me levassem a ficar amarrado. Ter família não era prioridade minha. Eu era, talvez, apenas um sonhador, com sonhos tanto maiores quanto maior a miséria em que vivia. Eu trabalhava à noite para estudar de dia. Durante os quatro anos que morei perto do apartamento da minha tia, poucas vezes fui visitá-la, sobretudo para transmitir recados de minha mãe, mas ela sempre me recebera bem. Nem me ocorria que, sendo eu parecido com o meu tio, pudesse ser visto talvez como edição renovada dele. Meu nome não era Hipólito.</p><p>O casamento do meu tio tinha durado apenas cinco anos, pois ele faleceu subitamente nos idos de 1963. De algum modo tinha sido, no entanto, um casamento de vida toda, mesmo que ela tivesse vivido vários anos com outro homem, a quem ela também sobrevivera. Viúvas e filhas de militares não casam para não perder o privilégio de uma pensão que mulheres de outras castas não recebem, como se as mulheres hoje não tivessem profissão. Não casando, não precisam trabalhar. O que parecera um apoio na época da Guerra do Paraguai se tornou imposição da força. A única igualdade aí presente era a de beneficiar todos os membros da casta. Pequenos descontos na folha de pagamentos dos oficiais eram apenas folha de parreira. Eu não estava acostumado a ver no Estado uma propriedade particular minha e estranhava o que para outros era normal.</p><p>No leito de morte, tia Beatrice pediu para ser enterrada junto ao meu tio. Essa vontade foi cumprida. A mãe dela já estava enterrada ao lado da minha avó, que nunca havia gostado dela. Eu ria imaginando a zanga de minha avó se visse o que haviam feito. Amores e ódios estavam enterrados, esfriavam e se decompunham como os corpos. A morte é uma igualdade que nos une.</p><p>O casamento do meu padrinho, que deveria ser motivo de alegria, até de júbilo, foi para a minha infância algo doloroso: minha avó havia sido terminantemente contra ele. Ela sequer foi à catedral assistir ao casamento. Impediu que o meu avô fosse. Meus pais foram. Pedi que me levassem junto, mas recusaram, com um pretexto besta qualquer. Sei que ainda argumentei:</p><p>‒ Mas o casamento é do meu padrinho!</p><p>De nada adiantou. Ao menos não me surraram, o que já foi um lucro incomum. A exclusão era pena suficiente. Não pude senão obedecer. Tive de ficar com minha avó, como se fosse guardião do seu distanciamento. Vi meu avô calado, como se quisesse ir, mas eu nunca tinha visto minha avó tão radical. A raiva dela não tinha limites. Enquanto eu olhava o mar, ressoaram em mim as palavras ditas por ela antes do casamento:</p><p>‒ Essa mulher não põe os pés na minha casa. Só depois que ela for casada com meu filho, a minha nora é que pode entrar na minha casa.</p><p>A casa era antes uma choupana que um palácio. A mim parecera estranha essa divisão da mesma pessoa em duas. Era assim, no entanto, que funcionava a minha avó. Anos depois, já adolescente, tive uma conversa com ela sobre esse interdito:</p><p>‒ Vó, por que a senhora foi contra o casamento do seu filho? Era por diferença de raça? Afinal, a tia Beatrice era mistura de alemão e italiano?</p><p>‒ Não, nada disso. O problema era a mãe dela, a dona Cecília, que é viciada em cartas. Joga de tarde e de noite, sete dias por semana. Ela adorava o genro, o melhor genro do mundo segundo ela, claro, vivia nas costas dele, sustentando o vício dela. Era isso o que eu não queria.</p><p>Mais de uma dezena de anos depois, ao retornar de uma longa estadia na Europa, contei à tia Beatrice essa conversa, pensando que a interessaria. E acrescentei:</p><p>‒ Lembra que uma vez você me encontrou menino num canto, chorando, durante uma festa na casa do tio Ado. Eu sofri muito com esse conflito, mas acho que para a minha avó tinha Deus no céu e o filho na Terra, o filho dela, esse era um deus. Qualquer mulher que ele amasse seria inaceitável para ela, nenhuma seria boa de chega. De qualquer modo, tenho a impressão de que vocês dois se deram sempre muito bem.</p><p>‒ O estranho é que seu avô, o Niklas, foi quem incentivou o namoro.</p><p>‒ Eu me lembro de que, quando eu era pequeno, teus pais vinham uma vez por mês à casa dos meus avós para um jogo de cartas, com mais outros casais. A minha avó abria a mesa e colocava um pano verde em cima, usado só para isso.</p><p>‒ Foi assim que conheci o Herwig.</p><p>Eu não quis dizer o que eu havia ouvido de minha mãe: o casamento dos dois tinha sido arranjado por uma irmã mais velha da minha avó, e minha avó levava a mal tudo o que aquela irmã fazia, mais ainda se era roubar seu filho e dá-lo para uma moça mais velha que ele. Continuei olhando o mar, distraído, lembrando as fotos do casamento que eu não pudera assistir: como era o casamento de um oficial do exército, havia guarda de honra e os noivos saíram da catedral passando por arcos formados por espadas que se tocavam no alto. O que era proteção podia ser também ameaça.</p><p>Lembrei então mais uma fala de minha mãe:</p><p>‒ Eu tenho a desgraça de ter tidos pessoas preciosas para mim que foram dotadas de muita inteligência. O destino delas foi sempre ir para longe de mim, eu que moro numa cidade do interior, pequena. Quando o meu irmão, adolescente, vinha da escola militar da capital, ele tinha de se apresentar no quartel daqui, eu ia com ele e via todos batendo continência para aquele cadetinho. Mesmo aluno da Escola Militar, sem se ainda Agulhas Negras, para onde foi depois, ele tinha patente. Acho engraçado ver o valor da pessoa marcado por dragonas e estrelas. Já na escola, quando ele era ainda menor e estava no pátio no meio das outras crianças, todos olhavam para ele; sem fazer nada ele já atraía os olhares, como se quisessem lembrar ter visto alguém assim. Era o menino mais inteligente da escola, sabia desenhar bem, tinha nascido para ser referência.</p><p>Eu desconfiava que minha mãe via o irmão com os olhos de irmã, mais projetava a admiração e o bem querer dela do que percebia a inveja e o despeito que as qualidades dele podiam despertar em outros. Eu me lembrava das unhas do dedão que, no mesmo pátio, eu perdera com as patadas de colegas mais velhos e fortes, como o Nilton Ficher. Eu temia colecionar más lembranças, como se estivesse me preparando para enfrentar um tribunal em que eu teria de dar conta de tudo o que eu não havia conseguido fazer.</p><p>Soltei um suspiro, olhei então para Landira, agradeci por ela ter arrumado tudo, disse que se via o dedo da tia Beatrice na decoração, inclusive um quadro de um preto velho sentado numa escadaria e que havia sido pintado por ela. Comentei que precisava ir ao mercado para comprar alguns mantimentos e material de limpeza. Ela se dispôs a me acompanhar, mostrar onde eu poderia comprar melhor. Agradeci à bondade dessa mulher idosa, que, oriunda de uma família pobre, havia sido uma irmã de criação da tia Beatrice, tendo passado a vida toda cuidando da moradia dela e sendo, por isso, a principal beneficiada no testamento.</p><p>‒ Eu evitei contato maior com a tia Beatrice durante a ditadura militar, porque sendo ela viúva de um oficial e eu sendo parte da resistência contra os milicos, eu não sabia se aquilo que eu por acaso dissesse podia ser pior para mim. Quando voltei da Alemanha com uma mulher que eu achava bárbara, eu não sabia que estava sendo acompanhado por uma informante do Deutsche Geheimdienst, o Serviço de Informações da Alemanha Federal, uma mulher que só havia fingido gostar de mim para poder extrair na cama as informações que talvez não conseguissem no pau de arara. Mas eu nem acho que eu tinha tanta informação para o que mais importava a eles, eu não era membro de um grupo armado de combate à ditadura, que ela chamava de terroristas, enquanto ela nos aterrorizava.</p><p>‒ A Beatrice continuou tendo contato com oficiais que tinham sido colegas e amigos do Herwig. Volta e meia eu preparava um jantar para eles lá em casa. Eles contavam de muitas perseguições dentro dos quartéis. O ambiente era cheio de suspeitas e medo.</p><p>‒ Quando estive em Yale, o filho de um general me disse que houve centenas e centenas de expurgos nas forças armadas brasileiras, pessoas que ficavam sem emprego, mas marcadas, porque não concordavam com a ditadura ou não queriam torturas, não queriam as forças armadas atacando o povo brasileiro, já que a função delas é defender o país de ataques de fora, não combater a população.</p><p>‒ Mas parece que elas mais estiveram a serviço dos Estados Unidos e de grandes empresários de fora. É o que os oficiais diziam.</p><p>‒ Se os americanos quisessem invadir o Brasil, as forças armadas logo não teriam forças. A linha dura tinha coragem para combater estudantes desarmados, não para enfrentar a Marinha dos Estados Unidos. O exército parece que não sente vergonha pelos genocídios desnecessários na Guerra do Paraguai, meu tataravô esteve lá e se enforcou depois porque não aguentou as más lembrança; em Canudos o exército massacrou 25 mil pessoas que estavam fazendo a república. Quando foi dado o golpe em 64, parte da frota americana estava na bacia de Campos, pronta para invadir o país. Não sei se Goulart foi covarde ao fugir, em vez de lutar até a morte como fez Allende. Sobreviver também é uma lei da guerra. Não adiantou nada, porque parece que acabaram matando ele. Mente-se mais do que se conta a verdade. Sei que não adianta lutar quando não se tem a menor chance de vitória. Nem na presidência Goulart tinha o poder. Caiu no jogo do inimigo. Parece que faltou sabedoria política. O inimigo tinha mais poder de fogo, e mais imprensa, mais Igreja, mais reacionários, mais covardia.</p><p>Eu, que tão rapidamente tinha interpretado diversos gestos de minha tia, começava a vislumbrar o trágico desacerto que entre nós se impusera. Tanto eu havia entendido como repulsa o que era atração, como havia entendido como possível traição o que seria aproximação solidária. Portanto, não havia entendido nada, achando que tinha entendido tudo. A ditadura havia gerado desconfiança, havia agentes infiltrados por todos os lados.</p><p>‒ O testamento que foi aberto da Beatrice não foi o primeiro, e sim o segundo. Ela me disse que eu não me preocupasse, pois ela ia me deixar bem de vida, tendo uma velhice segura. Realmente, ela me deixou o apartamento grande de Porto Alegre, onde ela morava, mais os investimentos, um escritório e outro apartamento na praia. No primeiro testamento, o grande beneficiário era o filho mais velho de uma prima dela. Você sabe, família pequena, não tinha quase parentes, ela própria não teve filhos. Mas um sobrinho, que era pessoa muito boa, morreu num acidente. Ela deixou muito para outro sobrinho, irmão daquele que faleceu, mas que é um safado e queria tudo para si.</p><p>‒ Ele me ligou, dois dias depois do falecimento da tia, contando quanto ele tinha ganhado, qual o valor de cada apartamento. Achei estranho, o corpo dela não tinha ainda esfriado na cova e ele só pensando no que tinha conseguido.</p><p>‒ Mas ficou com raiva contra mim porque achava que devia ter ganhado tudo e ele ser o inventariante, não eu. Ele mesmo me disse isso. Queria que eu pedisse para deixar de ser inventariante, mas foi o juiz que decidiu que eu seria, não fui eu que pedi. Ele ficava rodeando a Beatrice, quanto mais doente ela ficava tanto mais ele rodeava, para ganhar tudo. O único bem querer dele era consigo mesmo.</p><p>‒ Vampiros não têm gratidão, só apetite.</p><p>‒ Ele quer viver em melhores condições do que ele consegue financiar. Ele há exigiu da mãe dele que ela adiantasse toda a parte da herança dele. Quando o pai dele faleceu, forçou a mãe a vender o apartamento que eles tinham em Porto Alegre, só para pegar o dinheiro.</p><p>‒ Tem mãe que não aprende, infelizmente, fica dando apoio ao filho por pior que ele seja, e faze com que ele fique ainda pior.</p><p>‒ Você mora longe, não deve nem saber que o Floriano processou a cunhada dele, depois da morte do irmão, porque queria metade da empresa que ele tinha com ela.</p><p>‒ Pelo que o Floriano mesmo me disse, ele é professor de natação, e professor de natação não ganha lá aquelas coisas. Tenho um amigo que diz que vocação e remuneração não são o mesmo, que o sujeito pode ganhar bem em qualquer profissão, dependendo apenas do que ele fizer dela.</p><p>‒ A mulher do Floriano é que sustenta ele, organiza as coisas na empresinha que eles têm, mas parece que ela já anda cansada, com vontade de se livrar dele.</p><p>‒ Não deve ter coragem pra fazer nada. Os crentes dizem que cada um carrega a sua cruz. Tem gente que gosta de sofrer. Acaba por merecer. A felicidade de muitos é ser infeliz. Se sofrer na cruz é divino, quem crê nisso deve gostar de sofrer. Tem lógica.</p><p>‒ Se o Floriano tivesse sido o inventariante, ele ia desaparecer com tudo o que pudesse, dinheiro, jóias, móveis. Até me acusou de ter roubado as jóias da Beatrice, mas ela vendeu as jóias dela para não haver problema. Deu uma para a sua irmã. Ele vendeu o apartamento dado a ele sem esperar o espólio encerrar, sem ter licença do juiz, sem ter a minha licença como inventariante. Só que ele vai se ferrar, porque o prédio toda tinha problemas, o juiz já repassou o caso para a procuradoria. O Floriano é capaz de me atacar, já me ameaçou várias vezes, eu disse que não era decisão minha, mas do juiz. Eu vivo com medo, nunca vou no mesmo horário para os mesmos lugares.</p><p>O que eu não queria dizer claramente, mas que essa conversa toda de dinheiro tinha retirado das gavetas em que eu havia escondido toda a papelada das memórias antigas, era que, quando meu tio tinha falecido, sem deixar filhos, metade do soldo deveria ir para os meus avós, que muito precisariam desse dinheiro, assim como a minha mãe teria precisado. Lembro ainda o que meu avô disse, quando a questão se colocou, já uma semana após o falecimento do filho:</p><p>‒ Eu receber esse dinheiro não ia trazer meu filho de volta.</p><p>Minha avó tinha assinado também os documentos desistindo de receber metade da pensão do filho. Reclamava muito da choradeira, aos brados, da tia Beatrice e da mãe dela, como se fossem as únicas a sofrer.</p><p>‒ Alemão sofre, mas calado, não como essa italianada que fica aos berros, desonrando a minha casa, onde o corpo do meu filho estava sendo velado. Essas duas mulheres não tinham vergonha na cara! Gritando: ai o que vai ser de mim, eu, coitadinha, agora não tenho mais quem era o meu amparo, não tenho mais ninguém&#8230;</p><p>Meus avós acreditaram nesse teatro feito com fortes sentimentos e mais fortes palavras, gestos e lágrimas. O corpo do meu padrinho tinha sido trazido de longe para ser velado na casa dos pais, como era costume naquela época. O próprio comandante havia acompanhado o translado, com vários guardas. Disseram que o corpo tinha sido embalsamado, o exército disse que a família não podia fazer necropsia nem mandar examinar o corpo. Era estranho que proibissem isso que a família nem tinha pensado fazer. Quando foram enterrar a tia ao lado dele, abriram o caixão e do corpo só restavam os ossos, nenhum sinal de que ele tivesse sido embalsamado. Durante o velório, meu tio estava vestido com o uniforme de major, o uniforme de gala, como se fosse para uma festa: o caixão estava coberto com a bandeira brasileira.</p><p>No enterro, houve guarda de honra, salva de tiros e toque de silêncio. A bandeira foi recolhida e entregue à viúva quando o caixão baixou à sepultura. Enquanto o corneteiro tocava, a lua vinha surgindo por trás do morro, cortada ao meio por um coqueiro, como se uma faca cortasse a vida em duas metades. A infância tinha acabado naquele momento, de repente, sem volta. A vida do meu tio tinha acabado, como se fosse metade, enquanto o padre prometia vida eterna à outra metade. Todos queriam acreditar nisso. Meu padrinho e eu estávamos mais solitários e solidários que nunca. Um pedaço de mim era enterrado com ele, inclusive a esperança de que o país merecesse o nosso sacrifício.</p><p>Durante o Estado Novo um quartel tinha sido inaugurado em minha cidade natal, justamente para vigiar e perseguir a população de origem alemã. Era o integralismo, o nazismo brasileiro, a perseguir brasileiros descendentes de alemães a pretexto de serem nazistas, justamente aqueles que descendiam de silésios, sudetos, pomeranos, hunspluckeanos que haviam saído da Alemanha porque eram contra o militarismo, as perseguições políticas e religiosas, contra as guerras. Valia a pena servir a um exército assim? Essa era a pergunta que pairava no ar, como se o ponto de exclamação do coqueiro se tivesse curvado num ponto de interrogação?</p><p>Meus avós eram franciscanos na mentalidade. Seus antepassados provinham do enclave do rio Mosela com o Reno, Mosel und Rhein, adeptos da revolução liberal, sufocada pelas forças prussianas reacionárias e protestantes que dominavam a região. O Brasil parecera ser uma alternativa para emigrar, tanto por ser católico quanto por não ter praticamente neve. Queriam mudar a seu modo o mundo: cada um tinha tantas terras quanto o outro. Conviviam bem com os luteranos no Brasil. O avô deles tinha ficado rico na Guerra do Paraguai, mas não resistiu às lembranças tristes: ficou deprimido e se enforcou no meio do mato. Aqueles que o encontraram apenas cavaram uma cova rasa debaixo do corpo pendente, cortaram a corda, deixaram o lastro cair, cobriram o corpo de terra e colocaram uma cruz de madeira para marcar o lugar maldito.</p><p>Meus avós tinham doado para a irmã mais nova todas as terras que haviam herdado, a pretexto de que se encarregara de cuidar os pais idosos. Esses velhos lá aguentavam firme o tranco até os oitenta e tantos, de repente ficavam doentes e morriam. Nesses casamentos de sessenta anos, quando um morria, poucos meses depois o outro ia atrás. Eles todos acreditavam que se reencontrariam depois de mortos. Meus avós poderiam ser ricos e preferiram ser pobres, trabalhando sempre. Não tinham dinheiro para pagar os estudos dos filhos e meu avô havia dito ao filho único ir para a escola militar, porque lá poderia continuar estudando. Meu tio não gostava de ser militar, preferia ser engenheiro.</p><p>Minha mãe, que era uma mulher inteligente, sempre se considerava inferior a esse irmão dois anos mais novo que ela. Dizia:</p><p>‒ Quando fui para a escola, ele aprendeu a ler antes que eu, só olhando os meus livros e cadernos.</p><p>Não adiantava eu brincar dizendo que ela tinha sido uma boa professora. Ela adorava esse irmão, dois anos mais novo que ela. Que ela não tivesse mais podido ir à escola, para que ele estudasse, nunca tinha</p><p>Eu ficava impressionante como ela aceitava os porres, as farras e as prepotências do marido, como ela aceitava ser discriminada pelos pais, mas como ela não me aceitava. Nós, os filhos, éramos antes um fardo que uma alegria, antes uma tarefa que um prazer: como não podíamos ser os sonhados anjos da crença católica, éramos antes capetas que normais. Capetas se exorcizam, a pau e fogo.</p><p>Era estranha a relação dela com a mãe: não se davam bem, mas não se desgrudavam. Minha mãe nunca soube lutar por seus direitos, por aquilo que seriam seus interesses. Ela, que não tinha nas coisas do mundo seu valor principal, sobreviveu a todos, especialmente aos que queriam gozar a vida a qualquer custo. O sentido de sua vida seria ser freira, no <em>ora et labora</em>, mas tinha marido e filhos, depois netos e bisnetos. Eles eram todos secundários. Embora trabalhasse sempre, ela estava interessada na vida eterna, onde nunca mais precisaria trabalhar. Deus teria de lhe dar o céu que ela queria.</p><p>Percebi que Landira estava me olhando, estranhando o meu silêncio, que já se tornava descortês. Dei um suspiro, como quem acorda de sonhos, olhei nos seus olhos e perguntei:</p><p>‒ Eu ouvi duas versões diferentes sobre a morte do meu tio: uma dizia que ele tinha morrido quando ia para o acampamento onde estavam construindo a estrada de ferro; a outra, muito estranha, que gente do quartel transmitiu à família, de que ele tinha morrido jogando tênis. Eu sei que ele às vezes jogava tênis, mas você estava lá, com a tia Beatrice, a mãe dela e meu padrinho.</p><p>‒ Sim, eu estava. Ele acordou cedo, preparei o café da manhã, Beatrice ainda estava dormindo quando ele saiu com o jipe verde dirigido pelo ordenança. O Herwig estava bem disposto, ia inspecionar obras, era o engenheiro responsável, de uma ferrovia que o exército estava refazendo, para ligar o sul com São Paulo.</p><p>‒ Parece que o Prestes também construiu ferrovias, dizem que ele foi o melhor aluno de Agulhas Negras, seria o que eles chamam de um tríplice coroado, quando largou tudo e fez a Coluna Prestes, que ficou revirando o Brasil pelo avesso.</p><p>‒ Quando deu perto do meio-dia, vieram nos avisar de que o Herwig tinha morrido, lá fora, no acampamento. Disseram que foi enfarto do miocárdio.</p><p>‒ Pode ter sido, isso pode acontecer com gente jovem, mas a minha avó dizia que ele sempre fazia exames. Ela temia que ele tivesse escondido alguma doença.</p><p>‒ Mas ele não tinha nada! Nunca tinha tido problema nenhum do coração, ele era muito saudável, fazia muitos exercícios, como esse pessoal do exército é obrigado a fazer.</p><p>‒ O estranho é que a família foi proibida pelo comandante de fazer necropsia. A família nem tinha pensado nisso. Estava chocada demais com a morte, eram pessoas crédulas demais, ingênuas até, para duvidar do que o Exército ou a Igreja fossem dizer. Quando abriram o túmulo para colocar junto o corpo da tia Beatrice, só restavam os ossos do meu tio, não havia o menor sinal de embalsamamento. Sempre pensei que fossem fazer um embalsamamento de múmia, daqueles que duram três mil anos. Em trinta tinha acabado tudo.</p><p>‒ Ele saiu bem de casa pela manhã, alegre e faceiro, com uma cor boa no rosto. Antes do meio-dia já veio a notícia de que ele tinha morrido a caminho do acampamento, um lugar distante e solitário. Eu nunca mais pude conversar com esse ordenança.</p><p>‒ Meu padrinho era um tríplice coroado. Foi esse o critério para escolherem os presidentes durante a ditadura militar, de 1964 a 85: Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Ernesto Geisel e até o Figueiredo, todos eram. Eu nem sabia que isso era importante. Castelo Branco morreu num acidente de avião, dizem, o que foi uma morte violenta, a linha dura queria o poder, homens dela eram tipos como Costa e Silva, Médici. Eu acho que Castelo Branco traiu o juramento que fez como ministro de Jango, mas parece que ele foi eliminado, já que não estava bem de acordo com a linha mais dura. Sobre Costa e Silva, muitas vezes ouvi, de gente bem enfronhada na política, que ele morreu com um tiro no coração. Colocaram o defunto no freezer, enquanto ficavam disputando quem seria o próximo no comando, até que se decidiram pelo Médici, que era parte da linha mais ditatorial.</p><p>‒ Eu ouvia falar da Operação Condor.</p><p>‒ Sim, essa operação eliminou líderes estratégicos de oposição. Dizem que Jango foi morto, trocando um comprimido no frasco do remédio que tomava regularmente. Brizola conseguiu escapar no Uruguai disfarçado de mulher, é o que me contaram. O Lacerda foi morto, Juscelino também. No caso do JK, fizeram um balão de ensaio pouco tempo antes da morte, espalhando o boato de que ele tinha morrido. Ele era o candidato civil mais forte para se tornar presidente. Um acidente na estrada, como o que aconteceu com ele, isso dá para ser preparado. Ele ia tomar um avião, estava com a passagem no bolso, quando recebeu um telefonema e mudou de ideia, pediu para o motorista preparar o carro.</p><p>‒ O major Herwig gostava muito do Juscelino, preferia a democracia, e o modelo de militar era para ele o Lott.</p><p>‒ Que perdeu a eleição. Um bom militar não é necessariamente um bom político. Um bom político nem sempre é político. O coronel que chefiou o gabinete do Juscelino me contou que assistiu a uma reunião do Lott com o Juscelino para ver a lista dos oficiais que seriam promovidos a general. Na lista estava o Castelo Branco, e Lott disse: “Não recomendo, é lacerdista demais.” O presidente perguntou se ele era correto oficial. Lott disse que sim, e ele foi nomeado. Mourão foi outro nome a quem Lott tinha reservas, por ser de extrema-direita, mas Juscelino achou que tinha de promover alguém de sua terra natal a general&#8230;</p><p>‒ Lott estava sendo mais político do que Juscelino nesse caso.</p><p>‒ Foi. A moral da política é que o poder precisa ter sempre mais poder, porque senão ele se perde, assim como o capital precisa ter cada vez mais capital para o capitalista não virar empregado de outro. Juscelino, querendo ser correto sob um critério restrito, deu as armas aos inimigos que derrubaram, cassaram, exilaram, humilharam e mataram não só a ele, mas a muitos milhares de outros. Atrasaram o país por dezenas de anos. Querendo fazer o certo, errou. Não é porque um é democrata que os outros vão ser. Ele devia ter tratado de preservar a linha de democratização que ele representava. Talvez ele nem tenha errado tanto, pois com aqueles dois oficiais ou sem eles, o golpe teria sido dado de qualquer maneira.</p><p>‒ Diziam que na época 15% dos oficiais eram de extrema-direita e 15% eram nacionalistas, levou quem berrou mais. Eu não entendo dos bastidores da política, mas vejo coisas parecidas acontecendo em casa. Desde pequena, cansei de sofrer com pai que xingava e batia, mãe que batia e tremia, como esse pessoal da linha dura. Minha salvação foi o Dona Ciça, mãe da Beatrice, ela me adotou, me deu carinho, deu escola, um lar. Dona Ciça foi muito corajosa ao casar com o pai da Beatrice, a família dela era contra, achava que ele não tinha dinheiro de chega, ela foi deserdada, teve de trabalhar como modista para se sustentar.</p><p>‒ Perguntei a pessoas em altos postos de governo antes de 1964 se a Operação Condor tinha começado antes do Golpe. Elas me disseram que, com outro nome, devia, sim, ter começado. Uns dizem que foi um plano da CIA americana, outros que foi uma invenção brasileira exportada para a América Latina, para eliminar inimigos. Aí uma mão lava a outra. A extrema-direita tentou dar o golpe em 1961. Foi impedida pela resistência gaúcha liderada por Brizola e apoiada pelo Terceiro Exército.</p><p>‒ O Herwig foi a favor da Legalidade. Parece que pagou por isso.</p><p>‒ Entre 1961 e 64 foram tramadas mil coisas, das quais só temos uma vaga noção. Milhares de documentos das torturas e delações internas foram destruídos. Nos Estados Unidos, houve naquela época um golpe de Estado, assassinaram o presidente, John Kennedy, que queria fazer a paz com Cuba e acabar com a corrida armamentista, depois mataram o Roberto Kennedy, irmão dele, que era candidato a presidente. As explicações oficiais sobre isso lá são bastante ridículas, impossíveis de acreditar. Os americanos querem comandar o mundo em nome da democracia, e eles próprios são o governo dos ricos, dominados pela enorme máquina de guerra que eles mesmos criaram.</p><p>‒ Morrem os bons ficam os maus&#8230;</p><p>‒ Os maus também morrem, só que sempre tarde demais. Menos gente, mas boa, seria melhor. Na guerra, dizem, os bonzinhos morrem primeiro; os piores sobrevivem mais.</p><p>‒ Quem decide o que é bom, o que é mau&#8230;</p><p>‒ Antes quem decidia era a Igreja. Depois os extremistas acharam que eram donos da verdade. Eles já eram o sintoma de uma enorme mudança, que ainda não acabou.</p><p>‒ Eu resolvo com o meu travesseiro o que me parece certo ou errado. Tenho me dado bem assim.</p><p>‒ O meu travesseiro é muitas vezes um tribunal de acusação contra mim, mas sempre que eu tenho me olhado nos olhos, na frente do espelho, por mais perseguido e lascado que eu estivesse, sempre o espelho me disse que eu tinha agido certo no que era importante.</p><p>‒ A Beatrice me dizia que a gente precisa aprender a brigar muito pelo que importa e pouco pelo que pouco importa, mas eu acho que às vezes nas coisas que parecem pequenas podem estar os sintomas de coisas maiores, basta olhar bem.</p><p>‒ Pois é, minha cara, eu tinha tanta coisa a aprender com meu tio,e ele se foi cedo; com a tia Beatrice e a mãe dela eu nunca abri a boca para conversar abertamente.</p><p>‒ Em geral a gente fala para não dizer nada, só para passar o tempo.</p><p>‒ A conversa fiada também é publicada nos jornais, está nas novelas, nas entrevistas da tevê, nas falas dos candidatos, nos livros. Sobra pouca coisa.</p><p>‒ Quem sobra é a gente. Até que nem da gente sobra mais nada.</p><p>‒ Então temos de aproveitar a vida que temos. Vamos para a praia? O sol está bom, a água deve estar boa, a praia está tranquila.</p><p>‒ Você não queria ir para o supermercado ainda?</p><p>‒ Vamos primeiro caminhar na praia, depois vamos fazer as compras.</p><p>Eu troquei de roupa, coloquei a indefectível bermuda e saí com Landira para o legado que me havia sido destinado.</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.nosrevista.com.br/2011/07/01/dividas-e-duvidas/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>1</slash:comments> </item> <item><title>Tenho 30, e daí?</title><link>http://www.nosrevista.com.br/2010/09/04/tenho-30-e-dai/</link> <comments>http://www.nosrevista.com.br/2010/09/04/tenho-30-e-dai/#comments</comments> <pubDate>Sat, 04 Sep 2010 16:26:43 +0000</pubDate> <dc:creator>Victor Tagore</dc:creator> <category><![CDATA[Conto]]></category><guid
isPermaLink="false">http://www.nosrevista.com.br/?p=14312</guid> <description><![CDATA[Novo livro da Thesaurus Editora Tenho 30, e daí? de Débora Alves será lançando no fim de outubro. O livro é bem humorado, discute o assunto corrente dos bares: a relação entre homens e mulheres. Ela já começa o livro atacando &#8220;Os machistas que me desculpem, mas o mundo é das mulheres&#8221;. A Nós-fora-dos-eixos trouxe [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><strong>Novo livro da <a
href="http://www.thesaurus.com.br/" target="_self">Thesaurus Editora</a> <em>Tenho 30, e daí</em>? de Débora Alves será lançando no fim de outubro. O livro é bem humorado, discute o assunto corrente dos bares: a relação entre homens e mulheres. Ela já começa o livro atacando &#8220;Os machistas que me desculpem, mas o mundo é das mulheres&#8221;. A Nós-fora-dos-eixos trouxe um capítulo para os nossos leitores:</strong></p><p>Bingo!!! E não é que o Tempo tinha nome?! E eu o conhecia! Ai, ai, queridas colegas do sexo frágil, vocês souberam aproveitar o Tempo de vocês? Espero que sim, porque eu aproveitei, mesmo sendo mais uma iludida cobaia levada pelo irascível esmero do sexo oposto.</p><p>Agora, importante salientar e aceitando sugestões, deixo claro que isso não acontece somente conosco, companheiras da eterna batalha, mas, sim, com o universo humano. Todos somos vítimas do nosso próprio sentimento, basta ser da classe e estamos propensas a cair na retrógrada armadilha contemporânea. Embora, nós mulheres, soframos mais.</p><p>Bom&#8230; Armadilha? Mais ou menos, porque de coitadinhas não temos nada, já estamos virando o jogo e mesmo que doa muito, mas muito mesmo, estamos ali, firmes e fortes, maquiadérrimas e lindas de morrer (mesmo que a cinta que usamos escondida sob a blusa esteja atravancando nosso abdômen ou o sutiã espremendo nossos seios), mas estamos ali, lindas, exuberantes, confiantes, seguras, indescritíveis e maravilhosas, pois não podemos dar o braço a torcer.</p><p>Como falei, o tempo tinha nome, e era bem mais nova que eu, talvez uns dez anos (claro e não esperem que eu diga era mais bonita, isso não combina comigo), e a única semelhança que eu vejo entre nós duas é o fato de que um dia a vi lendo um livro que eu já lera. Fora isso, nada!!! Claro que dez anos faz diferença, ainda mais que na minha independente idade evoluída, quero algo mais que beijo na boca ou sexo ocasional. Eu quero é a segurança de um amor tranquilo ou a lealdade em prosa e homem. Também quero alguém que queira ter cinco filhos comigo (hum&#8230; talvez essa ideia de filhos o tenha assustado), como já me advertira uma amiga na minha penúltima tentativa frustrada. Mas nada impede que o cara de pau que você está caidinha, morta de desejos, te olhe nos olhos e tenha a coragem (e desculpe-me sexo oposto, mas você não tem) de dizer que está apaixonado por outra. Jamais, com raras exceções, eu soube de casos assim. A não ser o inverso, porque nós mulheres temos essa coragem, mas vocês homens não, dão milhões de explicações, dizem tudo, falam sobre tudo, menos que estão apaixonados por outra. Talvez o fato de que a maioria de nós nesta hora tentaria matá-lo justifique sua omissão.</p><p>Posso até pensar que ela seja melhor de cama que eu. Posso até pensar que ela é mais manhosa que eu, ou mais carinhosa, ou mais AMÉLIA (e se depender de amelisses, então morrerei só), ou sei lá, o simples fato desta guria existir tem me transtornado, acabado com meu sono e deteriorado meu cérebro. Não pensem vocês que é por causa dela ou dele, mas é porque odeio perder. ODEIO!!!</p><p>E para não perder, uma bela forma de vingança é a que vem a cavalo, ela pode até demorar, mas vem&#8230; Só que no meu caso ela veio de cavalo voador&#8230; Bem rapidinho (risos), bem como o tempo indispensável que me propunha a feliz pessoa que um dia desejei, e já que para ele eu o queria só quando estava sozinha ou não tinha nada para fazer, tive que arrumar outro para suprir as lacunas dos meus Tempos vazios. Mesmo assim, sou humilde suficiente para confessar que não sei qual minha reação se tivesse nova oportunidade de tocar-lhe os lábios, talvez eu diga que não; não quero mais; ou, bem capaz; esse aí já morreu; arranquei-o do meu dicionário, ou tantas outras esfarrapadas desculpas que jogamos ao vento quando estamos com raiva, mas não sei&#8230;</p><p>Talvez&#8230; Talvez sim. Não, ficaria sim. Claro que ficaria! Óbvio que ficaria! Beijaria, transaria, faria todas as loucuras e acreditaria de novo que agora seria diferente.  Iludiria-me, é claro, mas continuaria aproveitando meu Tempo.</p><p>Desculpe-me, mas eu sou mulher, sou sexo frágil! (risos)</p><p>Acesse o blog da autora pelo: <a
href="http://tenhotrintaedai.blogspot.com/" target="_self">http://tenhotrintaedai.blogspot.com</a></p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.nosrevista.com.br/2010/09/04/tenho-30-e-dai/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>1</slash:comments> </item> <item><title>O Cheque!</title><link>http://www.nosrevista.com.br/2010/07/13/o-cheque/</link> <comments>http://www.nosrevista.com.br/2010/07/13/o-cheque/#comments</comments> <pubDate>Tue, 13 Jul 2010 14:14:36 +0000</pubDate> <dc:creator>Expediente</dc:creator> <category><![CDATA[Conto]]></category><guid
isPermaLink="false">http://www.nosrevista.com.br/?p=13301</guid> <description><![CDATA[O Cheque é um conto Inédito do escritor Orlando Muniz que a Nós &#8211; Fora dos Eixos tem o prazer de apresentar aos seus leitores. Por Orlando Muniz Especial Para Nós – Fora dos Eixos Segundo os pessi mistas de plantão, não há nada de tão ruim que não possa ser ainda piorado. Essa máxima [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><em>O Cheque</em> é um conto Inédito do escritor Orlando Muniz que a <strong>Nós &#8211; Fora dos</strong> <strong>Eixos</strong> tem o prazer de apresentar aos seus leitores.</p><div
id="attachment_13302" class="wp-caption alignleft" style="width: 482px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/07/cheques1-www.prt19.mpt_.gov_.br-informativo.jpg"><img
class="size-full wp-image-13302" title="cheques1- www.prt19.mpt.gov.br-informativo" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/07/cheques1-www.prt19.mpt_.gov_.br-informativo.jpg" alt="" width="472" height="313" /></a><p
class="wp-caption-text">Cheques. Imagem www.prt19.mpt.gov.br/informativo</p></div><p>Por <strong>Orlando Muniz</strong></p><p>Especial Para <strong>Nós – Fora dos Eixos</strong></p><p>Segundo os pessi</p><p>mistas de plantão, não há nada de tão ruim que não possa ser ainda piorado. Essa máxima tirada do manual “Não faça as coisas você mesmo” — de autoria da dupla Mefistófeles e Maga Patalógica — se agrava quando o apraguejado se trata de um jovem, sem dinheiro e começando a vida, ralando em emprego de salário baixo e perspectivas beirando a zero. A possibilidade das coisas darem errado faz parte de uma equação enigmática que mistura destino, emoções, tempo&#8230; Essas variáveis, se analisadas por referenciais que excluem a ciência do contexto, tendem sempre a demonstrar que as coisas serão assim mesmo, sem rumo e direção e que não adianta água benta ou passe de mãe de santo para limpar a urucubaca que ronda o escolhido para as falsas peripécias da vida.</p><p>Como nada nessa vida é cem por cento certo ou cem por cento errado, sempre haverá o outro lado se opondo aos fracassos da existência e mostrando uma velinha acesa lá no fundo da alma. Se os caminhos no começo parecem estreitos, logo, logo surgirá, naturalmente, a possibilidade de o homem criar suas próprias condições para extrair de alguns supostos fracassos a força e os estímulos para dar a volta por cima e seguir por outra direção. Algum dia lá na frente — e olhando para trás — ficará claro que o sofrimento do início foi causa e efeito dos resultados positivos que construíram um novo caminho! Vamos ver!</p><div
id="attachment_13303" class="wp-caption alignleft" style="width: 214px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/07/orlando-muniz.jpg"><img
class="size-full wp-image-13303" title="orlando-muniz" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/07/orlando-muniz.jpg" alt="" width="204" height="209" /></a><p
class="wp-caption-text">Escritor Orlando Muniz. Divulgação.</p></div><p>Chegando ao primeiro emprego, Chiquinho recebeu as recomendações básicas de um iniciando em suas poucas e nada promissoras atividades.</p><p>— Nada de muita conversa sem rumo! Aqui, quem manda é o chefe! Unha limpa, sapato engraxado; chegue no horário e não durma no ponto; piadas, nem pensar; não peça dinheiro emprestado&#8230;! — Recebia esse decálogo de deveres de um tampinha com cara de aprendiz de Hitler, de alcunha Biné. O clima era de apresentação para aprendizado de artilheiro em infantaria de guerra, tamanha a belicosidade. Nem a respiração se dava com naturalidade.</p><p>Apresentadas as armas, Chiquinho não teve moleza, logo a secretária Chica lhe intimou, com aquela suave e cândida voz de cigarra em mês de outubro:</p><p>— Bom, seu Francisco, já que o senhor foi apresentado aos colegas de trabalho, e aos apetrechos da limpeza — vassoura, balde, etc. — está na hora de começar a aprender o serviço de banco — disse-lhe como se fosse bioquímica em banca examinadora de exame de fezes. E prosseguiu: —<a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/07/orlando-muniz.CAPA-armazem-jpg.jpg"><img
class="alignright size-full wp-image-13304" title="orlando-muniz.CAPA armazem jpg" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/07/orlando-muniz.CAPA-armazem-jpg.jpg" alt="" width="200" height="297" /></a> Aproveite sua disposição e passe na sala do doutor Carvalhoso — advogado passado na casca do alho —, pois ele precisa que você vá ao Banco América do Sul trocar um cheque! Vá com cuidado, que ele hoje parece que pisou em ovos! — foi didática. Quais ovos! pensou o indigitado!</p><p>Recomendações feitas, Chiquinho entrou na sala do manda-chuva. Era tanto medo que o pobre estava com as mãos suadas e a cueca mais ou menos. Olhou fixamente para o dito cujo, um baixinho já meio barrigudo, com óculos fundos de garrafa e voz fina e estridente. Ele lhe disse:</p><p>— Nicolau — era assim que o pançudo apelidava todos os contínuos, sabe lá porque —, vá ao banco do japonês e troque este cheque. — O cheque tinha valor alto e os números faziam confusão na cabeça do moleque. Diante do que os outros malas lhe contaram, o mínimo que Chiquinho achava é que sairia do primeiro encontro com um braço decepado pelo verdugo. Como isso não aconteceu — o baixote sequer se deu ao trabalho de levantar os olhos em sua direção —, ele saiu da masmorra achando ingenuamente que já <a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/07/orlando-muniz-capa-mascara.jpg"><img
class="alignleft size-full wp-image-13305" title="orlando muniz capa mascara" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/07/orlando-muniz-capa-mascara.jpg" alt="" width="199" height="300" /></a>tinha dominado a fera.</p><p>Passada a primeira etapa e adrenalina fazendo água, Chiquinho saiu todo serelepe e entusiasmado para entrar em outra divisão do escritório, logo dizendo ao baixinho com pinta de Hitler:</p><p>— Vistes, estive com o homem e saí vivo, não sei do que tanto vocês temem — o tom era de provocação. Não satisfeito com o soslaio, pegou o bendito cheque com as duas mãos, fechou-as e abriu com força para que desse um estalo. Triste a sina do contínuo, o cheque do “redondo” partiu ao meio!</p><p>O desespero se abateu no pobre furrepa, que não sabia o que fazer e a quem recorrer. A dúvida era: se suicidava ali mesmo, pulava do 5º andar para uma morte mais dolorosa ou sairia correndo para pedir socorro à bondosa mãe. O pavor era grande, mas o aperto maior, sem falar no desgaste perante seus ilustres companheiros de sina. Todos achavam que sua “morte” seria inevitável. Ele se sentia um porco indo para o abate. Eis que o baixote carrasco, de forma sumária, faz o libelo acusatório e na seqüência já prolata a sentença:</p><p>— Não te falei, cabra ordinário, que era pra ti ter cuidado? Mas não, ficou aí todo cheio de conversa rasa, pisando mansinho feito dançador de valsa. Agora tu vai ter que consertar a merda que fizestes. Volta lá no doutor Carvalhoso, conta o que aconteceu e assume — resumiu Biné, já querendo tirar as tripas do magricela.</p><div
id="attachment_13302" class="wp-caption alignright" style="width: 160px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/07/cheques1-www.prt19.mpt_.gov_.br-informativo.jpg"><img
class="size-thumbnail wp-image-13302" title="cheques1- www.prt19.mpt.gov.br-informativo" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/07/cheques1-www.prt19.mpt_.gov_.br-informativo-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a><p
class="wp-caption-text">Cheques. Imagem www.prt19.mpt.gov.br/informativo</p></div><p>Como Chiquinho faria aquilo se já na entrada da sala do advogado suava frio e estava todo borrado? Imagine agora tendo que encarar o carnífice do escritório com aquele maldito cheque separado por mãos tão trêmulas? Nada mais poderia ser feito, a sorte estava lançada. Voltou rezando pra todos os santos. Falou com Chica, que parecia uma carpideira em beira de caixão, e voltou para a malsinada sala de tortura.</p><p>O tempo estava frio, o ambiente soturno e a luz sombria lembravam o clima de um filme de terror. Só faltava mesmo a música incidental ao fundo: Tri, tri, tri, tri, tri, tri&#8230; O maníaco o aguardava para o bote e para lhe arrancar os fatos.</p><p>— E então, Nicolau — indagou-lhe, com sua voz de “rasga mortalha”. — O que aconteceu? Já foi ao Japonês?</p><p>Com uma gagueira adquirida naquele momento, Chiquinho foi, como um mergulhador de grandes profundezas, buscar um último suspiro e disse de uma só tacada:</p><p>— Rasguei o cheque! — O silêncio foi de corpo estendido em lápide de mármore!</p><p>A face do arguto ficou enrubescida e foram minutos de tensão que duraram por uma eternidade. Dali em diante, o que Chiquinho ouviu do rechonchudo não pode ser publicado pelos riscos de ofensas à santa mãezinha do vetusto cartorário! Com sua eloqüente verve de locutor de bingo, o borrachudo soltou cobras, lagartos e todo o pantanal no epitáfio do futuro de cujus. Urinou-lhe — o audaz jurista — da cabeça aos pés.</p><p><strong>*Orlando Muniz </strong>nasceu em 1959, em Eirunepé, na foz do Rio Juruá, no Amazonas. Filho de Benedito e Maria. Formou-se em Direito na Universidade Federal do Maranhão. Advogado e procurador federal é autor dos livros <em>Armazém Brasil</em> (crônicas urbanas) e de <em>Máscara das</em> <em>Palavras</em> (contos), lançados pela Thesaurus.</p><p><strong>Serviço</strong></p><p><a
href="mailto:orlandomuniz@uol.com.br">orlandomuniz@uol.com.br</a></p><p><a
href="http://orlandomuniz.blogspot.com/">http://orlandomuniz.blogspot.com</a></p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.nosrevista.com.br/2010/07/13/o-cheque/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>Três Microcontos Inéditos de Geraldo Lima</title><link>http://www.nosrevista.com.br/2010/04/12/tres-microcontos-ineditos-de-geraldo-lima/</link> <comments>http://www.nosrevista.com.br/2010/04/12/tres-microcontos-ineditos-de-geraldo-lima/#comments</comments> <pubDate>Mon, 12 Apr 2010 14:18:05 +0000</pubDate> <dc:creator>Expediente</dc:creator> <category><![CDATA[Conto]]></category><guid
isPermaLink="false">http://www.nosrevista.com.br/?p=10639</guid> <description><![CDATA[Nós – Fora dos Eixos edita três microcontos do livro inédito &#8216;Breu&#8217; do escritor e professor Geraldo Lima. Por Geraldo Lima Especial Para Nós – Fora dos Eixos. Noir Desceu a escadinha tateando no escuro. Loucura aquilo. Uma porta carcomida lhe deu passagem, quase tombando de lado. No centro do cômodo, sentado numa cadeira, cigarro [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><strong></p><div
id="attachment_10640" class="wp-caption alignleft" style="width: 439px"><strong><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/04/céu-estrelado_por_pedraapedra.weblog.com_.pt_jpg.gif"><img
class="size-full wp-image-10640" title="céu estrelado_por_pedraapedra.weblog.com.pt_jpg" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/04/céu-estrelado_por_pedraapedra.weblog.com_.pt_jpg.gif" alt="" width="429" height="428" /></a></strong><p
class="wp-caption-text">Céu-estrelado, por pedraapedra.weblog.com</p></div><p>Nós – Fora dos Eixos</strong> edita três microcontos do livro inédito &#8216;Breu&#8217; do escritor e professor Geraldo Lima.</p><p>Por <strong>Geraldo Lima</strong></p><p>Especial Para<strong> Nós – Fora dos Eixos.</strong></p><p><strong> Noir</strong></p><p>Desceu a escadinha tateando no escuro. Loucura aquilo. Uma porta carcomida lhe deu passagem, quase tombando de lado. No centro do cômodo, sentado numa cadeira, cigarro aceso, um homem a aguardava. Sorriu assim que a viu. Vem cá, meu anjo, vem. Ela avançou se despindo. Embaixo de uma lâmpada oscilante, empoeirada, fizeram amor como se fosse a primeira vez.</p><p><strong> Antro</strong></p><p>Aqui só há o inferno. Vestígios de céu? Nenhum. A gente avança é no escuro, sempre, sempre. A alma mais pura, uma vez aqui, não resiste aos apelos do lodo. Esse aí, ainda com cara de anjo, ontem mesmo, por uma coisinha de nada, abriu uma fenda no peito de um. Eu, que já vi o absurdo, ainda agora estou pasmo, sem crer. Um anjo varrido pela crueldade.</p><p><strong> Ana</p><div
id="attachment_10641" class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><strong><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/04/geraldo_lima-200x300.jpg"><img
class="size-full wp-image-10641" title="geraldo_lima-200x300" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/04/geraldo_lima-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a></strong><p
class="wp-caption-text">Geraldo Lima. Divulgação.</p></div><p></strong></p><p>Sei que vai se agarrar nas minhas pernas me pedindo pra ficar. Por enquanto tá lá na cozinha, deixando cair panelas, talheres&#8230; Quer me fazer ouvir o seu desespero. Não pode viver sem mim. Mas minha mente já não está mais aqui, que posso fazer? Fecho a porta, ouvindo ainda os seus gemidos de dor. Melhor assim. Teria sido ridículo vê-lo atirando-se aos meus pés.</p><p><strong>* Geraldo Lima</strong>, publicou <em>A noite dos vagalumes</em> (contos, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária), <em>Baque</em> (contos, LGE Ed.), <em>Nuvem muda a todo instante</em> (infantil, LGE Ed.) e <em>UM</em> (romance, LGE Ed.). Participou da antologia <em>Todas as gerações</em> &#8211; <em>o conto brasiliense contemporâneo</em> (org. Ronaldo Cagiano) e das revistas Solaris e Neuromancer (org. Nelson de Oliveira). O escritor nasceu em Planaltina (GO) em 1959. É professor, escritor e dramaturgo.</p><p><strong> </strong></p><p><strong>Serviço </strong></p><p><a
href="http://baque-blogdogeraldolima.blogspot.com/">http://baque-blogdogeraldolima.blogspot.com/</a></p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.nosrevista.com.br/2010/04/12/tres-microcontos-ineditos-de-geraldo-lima/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>Bravo! Lista “100 Contos Essenciais da Literatura Universal”</title><link>http://www.nosrevista.com.br/2010/03/17/bravo-lista-%e2%80%9c100-contos-essenciais-da-literatura-universal%e2%80%9d/</link> <comments>http://www.nosrevista.com.br/2010/03/17/bravo-lista-%e2%80%9c100-contos-essenciais-da-literatura-universal%e2%80%9d/#comments</comments> <pubDate>Wed, 17 Mar 2010 19:27:29 +0000</pubDate> <dc:creator>Expediente</dc:creator> <category><![CDATA[Conto]]></category><guid
isPermaLink="false">http://www.nosrevista.com.br/?p=9977</guid> <description><![CDATA[Por: Rosita Via e-mail, Para Nós – Fora dos Eixos. Menezes, não sei de quando é a revista, mas encomendei um exemplar. Achei muito legal a lista de contos. Veja abaixo. 1. A dama do cachorrinho &#8211; Anton Tchekhov 2. Bola de sebo &#8211; Guy de Maupassant 3. O poço e o pêndulo &#8211; Edgar [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/bravo100-contos-essenciais_-jpg.jpg"><img
class="alignleft size-full wp-image-9978" title="bravo,100 contos essenciais_ jpg" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/bravo100-contos-essenciais_-jpg.jpg" alt="" width="500" height="500" /></a>Por: <strong>Rosita </strong></p><p>Via e-mail, Para <strong>Nós – Fora dos Eixos</strong>.</p><p>Menezes, não sei de quando é a revista, mas encomendei um exemplar. Achei muito legal a lista de contos. Veja abaixo.</p><p>1. A dama do cachorrinho &#8211; Anton Tchekhov</p><p>2. Bola de sebo &#8211; Guy de Maupassant</p><p>3. O poço e o pêndulo &#8211; Edgar Allan Poe</p><p>4. O capote &#8211; Nikolai Gógol</p><p>5. Colinas como elefantes brancos &#8211; Ernest Hemingway</p><p>6. Os mortos &#8211; James Joyce</p><p>7. O prato de Bezhin &#8211; Ivan Turguêniev</p><p>8. Bartleby, o escrivão &#8211; Herman Melville</p><p>9. Tlön, Uqbar, Orbis Tertius &#8211; Jorge Luis Borges</p><p>10. A tragédia de um personagem &#8211; Luigi Pirandello</p><p>11. Três mortes &#8211; Liev Tolstói</p><p>12. Um homem bom é difícil de encontrar &#8211; Flannery O&#8217;Connor</p><div
id="attachment_9979" class="wp-caption alignright" style="width: 305px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/edgar-allen-poe.jpg"><img
class="size-full wp-image-9979" title="edgar-allen poe" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/edgar-allen-poe.jpg" alt="" width="295" height="400" /></a><p
class="wp-caption-text">Edgar Allen Poe</p></div><p>13. Angústia &#8211; Anton Tchekhov</p><p>14. Bobók &#8211; Fiódor Dostoiévki</p><p>15. O Horla &#8211; Guy de Maupassant</p><p>16. As irmãs Vane &#8211; Vladimir Nabokov</p><p>17. Felicidade &#8211; Katherine Mansfield</p><p>18. Estudo de mulher &#8211; Honoré de Balzac</p><p>19. Um artista da fome &#8211; Franz Kafka</p><p>20. O homem de areia &#8211; E. T. A. Hoffmann</p><p>21. O beijo &#8211; Anton Tchekhov</p><p>22. Um relatório municial &#8211; O. Henry</p><p>23. A casa tomada &#8211; Julio Cortázar</p><p>24. As neves do Kilimanjaro &#8211; Ernest Hemingway</p><p>25. Um coração simples &#8211; Gustave Flaubert</p><p>26. Uma carta &#8211; Isaac Bábel</p><p>27. O fantasma de Canterville &#8211; Oscar Wilde</p><div
id="attachment_9980" class="wp-caption alignleft" style="width: 227px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Lima-Barreto.jpg"><img
class="size-full wp-image-9980" title="Lima Barreto" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Lima-Barreto.jpg" alt="" width="217" height="320" /></a><p
class="wp-caption-text">Lima Barreto</p></div><p>28. Gimple, o bobo &#8211; Isaac Bashevis Singer</p><p>29. A máscara da morte rubra &#8211; Edgar Allan Poe</p><p>30. O boa-vida &#8211; F. Scott Fitzgerald</p><p>31. As jóias &#8211; Guy de Maupassant</p><p>32. O espelho &#8211; Machado de Assis</p><p>33. Pierre Menard, autor do Quixote &#8211; Jorge Luis Borges</p><p>34. O nariz &#8211; Nikolai Gógol</p><p>35. Uma casa assombrada &#8211; Virgina Woolf</p><p>36. A pane &#8211; Friedrich Dürrenmatt</p><p>37. Olhos de cão azul &#8211; Gabriel García Márquez</p><p>38. A força de Deus &#8211; Sherwood Anderson</p><p>39. A distância da lua &#8211; Ítalo Calvino</p><p>40. Os três anéis &#8211; Giovanni Boccaccio</p><p>41. O homem que queria ser rei &#8211; Rudyard Kipling</p><p>42. A mão &#8211; Colette</p><p>43. Glaudius Dei &#8211; Thomas Mann</p><div
id="attachment_9981" class="wp-caption alignright" style="width: 314px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/james-joyce.jpg"><img
class="size-full wp-image-9981" title="james joyce" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/james-joyce.jpg" alt="" width="304" height="400" /></a><p
class="wp-caption-text">James Joyce</p></div><p>44. A honra de Israel Gow &#8211; G. K. Chesterton</p><p>45. O altar dos mortos &#8211; Henry James</p><p>46. Bilhete premiado &#8211; Anton Theckov</p><p>47. Balas sortidas &#8211; Tennessee Williams</p><p>48. Rumo ao ocidente &#8211; Primo Levi</p><p>49. O muro &#8211; Jean-Paul Sartre</p><p>50. O Hussardo melancólico da legião alemã &#8211; Thomas Hardy</p><p>51. O experimento do Dr. Heidegger &#8211; Nathaniel Hawthorne</p><p>52. A amável senhora &#8211; D. H. Lawrence</p><p>53. Meia folha de papel &#8211; August Strindberg</p><p>54. Mêmnon ou a sabedoria humana &#8211; Voltaire</p><p>55. A imitação da rosa &#8211; Clarice Lispector</p><p>56. O camundongo &#8211; Saki</p><p>57. Vinte e seis e uma &#8211; Máximo Gorki</p><div
id="attachment_9982" class="wp-caption alignleft" style="width: 360px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/machado-de-assis_1.jpg"><img
class="size-full wp-image-9982" title="machado de assis_" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/machado-de-assis_1.jpg" alt="" width="350" height="498" /></a><p
class="wp-caption-text">Machado de Assis</p></div><p>58. O guarda-chuva &#8211; Yasunari Kawabata</p><p>59. O elixir do reverendo padre Gaucher &#8211; Alphonse Daudet</p><p>60. O fantasma inexperiente &#8211; H. G. Wells</p><p>61. Judas Iscariotes &#8211; Leonid Andreiév</p><p>62. O coração delator &#8211; Edgar Allan Poe</p><p>63. A ponte Thor &#8211; Arthur Conan Doyle</p><p>64. O homem que corrompeu Hadleyburg &#8211; Mark Twain</p><p>65. A cruzada das crianças &#8211; Marcel Schwob</p><p>66. Aventuras de uma negrinha que procurava Deus &#8211; George Bernard Shawn</p><p>67. O possível Baldi &#8211; Juan Carlos Onetti</p><p>68. O homem que sabia javanês &#8211; Lima Barreto</p><p>69. Conto azul &#8211; Marguerite Yourcenar</p><p>70. A tortura da esperança &#8211; Villiers de L&#8217;isle-Adam</p><p>71. O leproso da cidade de Aosta &#8211; Xavier de Maistre</p><p>72. O sinaleiro &#8211; Charles Dickens</p><p>73. O tiro &#8211; Aleksander Pushkin</p><p>74. A terceira margem do rio &#8211; João Guimarães Rosa</p><p>75. A pedra que cresce &#8211; Albert Camus</p><p>76. O marido padre &#8211; Marqûes de Sade</p><p>77. O diabo e o relojoeiro &#8211; Daniel Defoe</p><div
id="attachment_9983" class="wp-caption alignright" style="width: 234px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/clarice_lispector_.jpg"><img
class="size-medium wp-image-9983" title="clarice_lispector_" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/clarice_lispector_-224x300.jpg" alt="" width="224" height="300" /></a><p
class="wp-caption-text">Clarice Lispector</p></div><p>78. Nas montanhas da loucura &#8211; H. P. Lovecraft</p><p>79. O tenente Gustl &#8211; Arthur Schnitzler</p><p>80. Juventude &#8211; Joseph Conrad</p><p>81. O mendigo e a donzela orgulhosa &#8211; Rainer Maria Rilke</p><p>82. Um natal &#8211; Truman Capote</p><p>83. Rinoceronte e Cortadillo &#8211; Miguel de Cervantes</p><p>84. A mão encantada &#8211; Gérard de Nerval</p><p>85. Belfagor, o Arquidiabo &#8211; Nicolau Maquiavel</p><p>86. A matrona de Éfeso &#8211; Petrônio</p><p>87. A greve &#8211; Jack London</p><p>88. A gata borralheira &#8211; Irmãos Grimm</p><p>89. Barba-azul &#8211; Charles Perrault</p><div
id="attachment_9984" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/j.d.salinger_.jpg"><img
class="size-full wp-image-9984" title="j.d.salinger_" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/j.d.salinger_.jpg" alt="" width="300" height="419" /></a><p
class="wp-caption-text">J.D.Salinger</p></div><p>90. A loba &#8211; Giovanni Verga</p><p>91. Amor e pedagogia &#8211; Miguel de Unamuno</p><p>92. A Vênus de Ille &#8211; Prosper Merimée</p><p>93. Amor e psique &#8211; Apuleio</p><p>94. A raposa e as uvas &#8211; Esopo</p><p>95. O aumento &#8211; Dino Buzzati</p><p>96. Corcunda recalcitrante &#8211; Anônimo</p><p>97. Rip Van Winkle &#8211; Washington Irving</p><p>98. Um dia perfeito para peixes-banana &#8211; J. D. Salinger</p><p>99. O dente quebrado &#8211; Pedro Emilio Coll</p><p>100. O cair da noite &#8211; Isaac Asimov.</p><p><strong>* Rosita </strong>é contista e tradutora mineira radicada em Brasília (DF).</p><p><strong> </strong></p><p><strong>Nota da Redação: </strong>Este número especial da revista Bravo! está gerando algumas polêmicas. O escritor Eustáquio Ferreira, por exemplo, colaborador da <strong>Nós – Fora dos Eixos</strong>, não concorda com a inclusão de alguns contos selecionados, alegando que seus autores escreveram obras melhores. Vamos começar uma polêmica em torno dos títulos escolhidos? E a não inclusão de muitos contistas bons na relação dos contos selecionados? (<strong>Menezes y Morais</strong>).<strong> </strong></p><p><strong> </strong></p><p><strong>Serviço</strong></p><p><a
href="mailto:rosita.minas@yahoo.com.br">rosita.minas@yahoo.com.br</a></p><p><cite><strong><a
href="http://www.bravonline.abril.com.br/">www.bravonline.abril.com.br</a></strong></cite><cite></cite></p><p><cite></cite></p><p><cite></cite></p><p><strong> </strong></p><p>﻿</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.nosrevista.com.br/2010/03/17/bravo-lista-%e2%80%9c100-contos-essenciais-da-literatura-universal%e2%80%9d/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>2</slash:comments> </item> <item><title>Morena Louca Para Pular a Cerca</title><link>http://www.nosrevista.com.br/2010/03/15/morena-louca-para-pular-a-cerca/</link> <comments>http://www.nosrevista.com.br/2010/03/15/morena-louca-para-pular-a-cerca/#comments</comments> <pubDate>Mon, 15 Mar 2010 18:58:52 +0000</pubDate> <dc:creator>Expediente</dc:creator> <category><![CDATA[Conto]]></category><guid
isPermaLink="false">http://www.nosrevista.com.br/?p=9859</guid> <description><![CDATA[Por: José Edson dos Santos * Quase uma da madrugada. O Café da Rua 8 vazio evidencia o desnaturado frio de julho e o recolhimento sensato dos notívagos mais experientes. Reabasteço a taça de vinho Miolo Merlot para ensandecer a alma de bardo desiludido com o último soneto escrito à iguana potiguar que tive como [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<div
id="attachment_9860" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/pacotão_jpg.jpg"><img
class="size-medium wp-image-9860" title="pacotão_jpg" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/pacotão_jpg-300x265.jpg" alt="" width="300" height="265" /></a><p
class="wp-caption-text">&quot;.... à iguana potiguar que tive como amante na folia do bloco carnavalesco Pacotão...&quot;</p></div><p>Por: <strong>José Edson dos Santos *</strong></p><p>Quase uma da madrugada. O Café da Rua 8 vazio evidencia o desnaturado frio de julho e o recolhimento sensato dos notívagos mais experientes. Reabasteço a taça de vinho Miolo Merlot para ensandecer a alma de bardo desiludido com o último soneto escrito à iguana potiguar que tive como amante na folia do bloco carnavalesco Pacotão. O fígado andava meio detonado que nenhum Epocler ou chá de boldo funcionaria como atenuante sobre o desregramento do corpo etílico. Envolto na divagação, na prosopopéia e no mito de um pássaro pirado chamado de bacurau, não percebo uma morena faceira vestindo roupa de inverno que surge da outra extremidade em penumbra do Café, se prontificando com meiguice e sedução:</p><p>– Posso sentar um pouco?</p><p>– O vinho está no fim e o Café já está fechando também.</p><p>– Que pena! Logo hoje que estou louquinha para pular a cerca&#8230;</p><p>– Muito interessante, digo sem muita convicção.</p><p>– Vamos fazer que ele sinta o prazer de levar um chifre de corno, ela insiste com provocação e acendendo um cigarro mentolado.</p><p>– Por favor, puladora de cerca, não estou querendo complicação à uma da madruga&#8230;</p><div
id="attachment_9861" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/josé-edson-dos-santos_outeiro_.jpg"><img
class="size-medium wp-image-9861" title="josé edson dos santos_outeiro_" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/josé-edson-dos-santos_outeiro_-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a><p
class="wp-caption-text">José Edson dos Santos, poeta e escritor.</p></div><p>– Esse puto merece amanhecer com um par de chifres na testa!</p><p>– Sem querer parecer antipático, puladora de cerca, não estou entendendo patavina de sua prosa. Quem você está pretendendo cornear?</p><p>– É o canalha do Merivaldo que se diz meu marido há sete anos, mas vive me enganando todo esse tempo. Ele pensa que eu não sei que ele tem outra lá no Núcleo Bandeirante. Mulher casada quando enganada pula também a cerca&#8230;</p><p>– O que é que esse tal de Merivaldo faz na vida?</p><p>– Ele tem uma empresa que faz turismo na Chapada dos Veadeiros e viajou hoje de manhã cedinho, me deixando na maior dureza sem nenhum tostão&#8230;</p><p>– Merivaldo fica chapado e vira veado deixando sua raposa morena pulando a cerca, procurando uva passa e um varão vinhateiro. Taí uma situação impulsiva que pode render um samba canção, uma balada de duplo sentido, um bolero indolente e libidinoso&#8230;</p><p>– Se você quiser ser o felizardo, meu querido compositor vinhateiro, moro em uma quitinete do outro bloco e vou te cobrar apenas cinquenta reais na camaradagem. Preciso pagar a minha manicure. Se eu não pagar a Edwirges amanhã, ela vai ficar puta da vida comigo&#8230;</p><p>Entorno o resto do vinho Miolo Merlot, safra 2001. Chamo Betúnia, a garçonete sonolenta de tetas túmidas do Café para acertar a conta. Os noturnos de Chopin tomam de assalto a cabeça quando tento esquecer a cobrinha, a lontra, a gralha e todo zoológico sentimental e inconsútil que habitam a floresta de minhas paixões mal resolvidas. Que fígado porra nenhuma! A morena meiga que quer pular a cerca e mora no bloco D da quitinete vizinha talvez entenda o lado soturno que atormenta a madrugada do bardo que jurou nunca mais escrever um soneto em branco e preto sobre a iguana potiguar do seu encontro carnavalesco no bloco Pacotão. O torpor do vinho invadindo o corpo em delírio é foda! Pular a cerca por cinquenta reais com uma raposa morena é muito pouco, seu Merivaldo veado. A Edwirges que faça manicure em outra freguesia e que vire puta em outra ocasião. Semana que vem começo a adaptação de outro noturno em Brasília, trabalho que o videomaker Salatiel Gontijo chama de um voo altiplano no infininho do ser. Candango depois do tango de desterro amazônico embebeda a sogra com vinho Sangue de Boi e amoníaco, mas aí a conversa toma outro rumo. “A virtude é a mãe do vício, conforme se sabe” e o vinho é de outra safra, morena raposa sabor de veneno. Vou pular a cerca contigo com certeza. O Merivaldo que se foda na Chapada!</p><p>“A virtude é a mãe do vício, conforme se sabe”. Torquato Neto em Literato Cantabile. Os Últimos Dias de Paupéria. Editora Eldorado. Rio de Janeiro, 1974.</p><p><strong></p><div
id="attachment_9862" class="wp-caption alignleft" style="width: 255px"><strong><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/josé-edson-dos-santos_3_jpg.jpg"><img
class="size-full wp-image-9862" title="josé edson dos santos_3_jpg" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/josé-edson-dos-santos_3_jpg.jpg" alt="" width="245" height="265" /></a></strong><p
class="wp-caption-text">José Edson, também conhecido como Zé Edson.</p></div><p>ALGUMAS PALAVRAS SOBRE JOSÉ EDSON DOS SANTOS E SUA OBRA.</strong></p><p>“O cultivo de uma postura maldita juntamente com o sestroso elogio à noite e seus personagens à margem das normas, imersos na singular atmosfera urbana brasiliense. Sem dúvida, Zé Edson esmera-se em explorar estes temas e este clima”.</p><p>Francisco Kaq, Jornal de Brasília.</p><p>“Apesar de seu desterramento, o poeta José Edson dos Santos revela a veia telúrica e amazônica, mas em formatos urbanizados de criação. Linguagem célere, quase minimalista, entre o irônico e grotesco, de sua verve dramática e de black humour como em “Poética magra”: “No contracheque/ o sarcasmo do salário/ como mal-me-pague da educação popular/ / O que pode almejar o poeta/ professor ator/mentado do sonho/ pretextando outras manhãs/ com palavras por dizer/ ser um impróprio trocadilho?”“</p><p>Antonio Miranda</p><p><strong>José Edson dos Santos, por Geraldo Lima.</p><div
id="attachment_9863" class="wp-caption alignright" style="width: 157px"><strong><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/geraldo_lima_escritor_JPG.jpg"><img
class="size-full wp-image-9863" title="geraldo_lima_escritor_JPG" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/geraldo_lima_escritor_JPG.jpg" alt="" width="147" height="220" /></a></strong><p
class="wp-caption-text">Geraldo Lima é professor, escritor e blogueiro.</p></div><p></strong></p><p>Nasceu em Macapá/AP e mora em Brasília desde 1974.</p><p>É Arte-Educador no CEAN/ASA NORTE. Publicou em 1972, em Macapá, Xarda Misturada com José Montoril e Ray Cunha.</p><p>Em 1978 participou da antologia organizada por Salomão Sousa, Em Canto Cerrado.</p><p>Em 1980, publicou Latitude Zero, em edição mimeografada por Paulo Tovar; Águagonia, edição coletiva com Alvisto Skeef, Antonio Flávio Testa, Chico Terra e Kleber Lima. Bolero em  Noite Cinza foi publicado pela Da Anta Casa Editora em 1995.</p><p>Ampulheta de Aedo, pela LGE Editora, em 2005. Participou das antologias: 27 Porretas; Beirute: Final de Século; Poemas e Contos/SEDF; Todas as Gerações – o conto brasiliense contemporâneo; Deste Planalto Central – Poetas de Brasília, entre outros. Blog: <a
href="http://joyedson-artevie.blogspot.com/">http://joyedson-artevie.blogspot.com</a></p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.nosrevista.com.br/2010/03/15/morena-louca-para-pular-a-cerca/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>Do Descanso</title><link>http://www.nosrevista.com.br/2010/03/04/do-descanso/</link> <comments>http://www.nosrevista.com.br/2010/03/04/do-descanso/#comments</comments> <pubDate>Thu, 04 Mar 2010 14:25:13 +0000</pubDate> <dc:creator>Expediente</dc:creator> <category><![CDATA[Conto]]></category><guid
isPermaLink="false">http://www.nosrevista.com.br/?p=9687</guid> <description><![CDATA[Por: Rosa Maria Severino * Especial Para Nós – Fora dos Eixos. − Não se preocupe Estevão, uma vez que você está morto, já não tem pendências por lá. − Finalmente posso descansar. − Não ouse pensar assim. Há muito trabalho por aqui. − Então o que é a morte? Não é o descanso eterno? [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<div
id="attachment_9691" class="wp-caption alignleft" style="width: 460px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/morte_2_jpg1.jpg"><img
class="size-full wp-image-9691" title="morte_2_jpg" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/morte_2_jpg1.jpg" alt="" width="450" height="317" /></a><p
class="wp-caption-text">Por: meblogando.wordpress.com</p></div><p>Por: <strong>Rosa Maria Severino</strong> *</p><p>Especial Para <strong>Nós – Fora dos Eixos.</strong></p><p>− Não se preocupe Estevão, uma vez que você está morto, já não tem pendências por lá.</p><p>− Finalmente posso descansar.</p><p>− Não ouse pensar assim. Há muito trabalho por aqui.</p><p>− Então o que é a morte? Não é o descanso eterno?</p><p>− Considere que você subiu um andar a mais no prédio em que trabalhava. É só isso.</p><p>Morte: por<cite>meblogando.wordpress.com</cite></p><p>− Ao menos terei férias?</p><p>* Rosa Maria Severino é contista e tradutora mineira radicada em Brasília (DF).</p><p><strong>Serviço </strong></p><p><a
href="mailto:rosita.minas@yahoo.com.br">rosita.minas@yahoo.com.br</a></p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.nosrevista.com.br/2010/03/04/do-descanso/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>Boêmio da Chapada</title><link>http://www.nosrevista.com.br/2010/02/17/boemio-da-chapada/</link> <comments>http://www.nosrevista.com.br/2010/02/17/boemio-da-chapada/#comments</comments> <pubDate>Wed, 17 Feb 2010 16:49:34 +0000</pubDate> <dc:creator>Expediente</dc:creator> <category><![CDATA[Conto]]></category><guid
isPermaLink="false">http://www.nosrevista.com.br/?p=9270</guid> <description><![CDATA[Por Orlando Muniz* Especial para Nós &#8211; Fora dos Eixos O mundo de Biné já estava pequeno e queria alçar outros vôos. Foi-se sobre lágrimas de Maria, sua mãe, para o Rio de Janeiro para tentar a sorte e amealhar sonhos de gente grande. Foi bancário, mascate e namorador. Dizem que fazia boca em boate [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<div
id="attachment_9271" class="wp-caption alignleft" style="width: 610px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/rio-de-janeiro_copacabana.jpg"><img
class="size-full wp-image-9271" title="rio de janeiro_copacabana" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/rio-de-janeiro_copacabana.jpg" alt="" width="600" height="400" /></a><p
class="wp-caption-text">Biné, personagem do contista Orlando Muniz, foi tentar a vida no Rio de Janeiro.</p></div><p>Por <strong>Orlando Muniz</strong>*</p><p>Especial para <strong>Nós &#8211; Fora dos Eixos</strong></p><p>O mundo de Biné já estava pequeno e queria alçar outros vôos. Foi-se sobre lágrimas de Maria, sua mãe, para o Rio de Janeiro para tentar a sorte e amealhar sonhos de gente grande. Foi bancário, mascate e namorador. Dizem que fazia boca em boate soturna no baixo Leblon para ouvir de sua meiga donzela pianista – que jazia em vida pelos mais de setenta nas costas – doces acordes que ao final se transformavam em um bom garfo à luz das velas, por conta dela, é claro! Quase casa com a pianista!</p><p><strong>Virado, o baixinho</strong> não se fazia de rogado, e na pensão barata em Botafogo era quem dava às cartas. O bicho era mandão! Mas a saudade falou mais alta e lá se vem o homem de volta e junto com ele os sonhos fechados em uma maleta de couro já um tanto surrada de tantas idas e vindas. Sorte de Maria que tinha de volta seu rebento baixinho, que mesmo lhe consumindo horas de sono pela espera da chegada em madrugadas frias sabia que Paulo Catolé, o soldado de polícia, não era mais perigo para sua cria.</p><p><strong>Cresceram-lhe as calças</strong>, Eirunepé – no alto Juruá – já fazia parte dos sonhos passados, mas os repentes ficaram ainda mais cheios de astúcia.</p><p><strong>Certa terça-feira de carnaval</strong>, ele e alguns amigos de troça descem candidamente pela Avenida Kennedy – local onde se vendem peças de carros em São Luís do Maranhão – tocando Juvenal, um burrico manco que puxava carroça com os apetrechos da festa e que não tinha licença do IBAMA para cair na gandaia com a trupe do deixa disso. Todo mundo estava de cara branca pela quantidade de Maizena aplicada em dose robusta – inclusive Juvenal. No embalo das marchinhas carnavalescas aproveitaram para pipocar foguetão no rabo do faceiro jerico, que urrava como se estivesse no cio.</p><p><strong>Com a cabeça ornada</strong> por doses generosas de uma mistura de leite condensado e vinho seco, os gandaieros desciam ladeiras e mais ladeiras para formar no cortejo de momo, até que um sardento vira latas veio com tudo para cima de Biné lhe rasgando a calça suja da bandalha e metendo canino afiado nas ancas magras. Pobre folião, o cortejo alegre ainda não estava nem na metade e ele ali mordido por um cachorro sem dono, com sangue escorrendo pela perna. Não teve jeito, os colegas de farra estavam resolutos e levaram o cabra na marra para o Presidente Dutra &#8211; hospital público de São Luís.</p><p><strong>Lá chegando</strong>, e na animação típica de uma terça gorda dentro de nosocômio, ficou aquele magote de bêbados se espremendo no corredor até aparecer uma enfermeira austera para introduzir o indigitado à sala de consultas. O paciente estava inconformado com o destino que os arcanos da folia estavam lhe reservando. Sua sorte é que o estoque de cana no juízo tinha autonomia para mais algumas horas fora da realidade. De língua torta feito trança de alho ele indagou ao médico – que já estava com cara de poucos amigos:</p><p>– <strong>E então, doutor</strong>, será que vou morrer com essa mordida de cachorro? – no que o médico responde na bucha:</p><p>– Morrer coisa nenhuma, seu pé-de-cana, com o tamanho desse bafo e dessa cachaça é melhor vocês enterrarem o pobre do cachorro, que a estas horas deve está mortinho da silva.</p><p><strong>O médico, com um mau humor</strong> de dar gosto, enfiou uma dose generosa de éter no ferimento e logo lhe dando atestado de alta:</p><p>– Pode voltar prá cachaça que neste carnaval não teremos teu funeral.</p><p>O cabra ainda teve fôlego prá um gracejo:</p><p>– Égua, doutor, esse produto – o éter – tá cheirando um tremendo loló -</p><p><strong>Quase sai preso do hospital</strong>. Até hoje o malandro sente saudades de Juvenal, que segundo contam já com a lata cheia de cana, se apaixonou por jumenta nova e seguiu o caminho de vida nova em carroça de pastoreio. Nunca mais foi encontrado!</p><p><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/orlando_muniz_4_.jpg"><img
class="alignleft size-full wp-image-9273" title="orlando_muniz_4_" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/orlando_muniz_4_.jpg" alt="" width="218" height="320" /></a>* Orlando Muniz, nasceu em 1959, em Eirunepé, na foz do Rio Juruá, no Amazonas. Filho de Benedito e Maria.Formou-se em Direito na Universidade Federal do <a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/orlando_muniz_-capa_armazém-brasil_.jpg"><img
class="alignright size-full wp-image-9274" title="orlando_muniz_ capa_armazém brasil_" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/orlando_muniz_-capa_armazém-brasil_.jpg" alt="" width="200" height="297" /></a>Maranhão. É advogado e procurador federal. É autor do livro <em>Armazém Brasil</em>, livro de crônicas urbanas publicado em 2006, e de <em>Máscara das Palavras</em>, lançado em 2009.</p><p><strong>Serviço</strong></p><p><a
href="http://orlandomuniz.blogspot.com/" target="_blank">http://orlandomuniz.blogspot.com</a></p><p><a
href="http://www.thesaurus.com.br/">www.thesaurus.com.br</a></p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.nosrevista.com.br/2010/02/17/boemio-da-chapada/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>O Menor Conto do Mundo</title><link>http://www.nosrevista.com.br/2009/12/07/o-menor-conto-do-mundo/</link> <comments>http://www.nosrevista.com.br/2009/12/07/o-menor-conto-do-mundo/#comments</comments> <pubDate>Mon, 07 Dec 2009 17:51:30 +0000</pubDate> <dc:creator>Expediente</dc:creator> <category><![CDATA[Conto]]></category><guid
isPermaLink="false">http://www.nosrevista.com.br/?p=8034</guid> <description><![CDATA[Por Rosa Maria Severino * Especial para Nós – Fora dos Eixos O menor conto do mundo: El Emigrante é um micro-conto do escritor mexicano Luis Felipe Lomelí.  Veja-o na íntegra: &#8220;¿Olvida usted algo? -¡Ojalá!&#8221; Esta simples frase se constitui no conto mais curto já escrito na Língua espanhola. Antes de sua publicação, em 2005, [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<div
id="attachment_8036" class="wp-caption alignleft" style="width: 219px"><img
class="size-full wp-image-8036" title="mario_de_andrade_por_anita_malfati_" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2009/12/mario_de_andrade_por_anita_malfati_1.gif" alt=" 	Mario de Andrade, por Anita Malfatti" width="209" height="270" /><p
class="wp-caption-text"> Mario de Andrade, por Anita Malfatti</p></div><p><strong>Por Rosa Maria Severino *</strong></p><p>Especial para <strong>Nós – Fora dos Eixos</strong></p><p>O menor conto do mundo: El Emigrante é um micro-conto do escritor mexicano Luis Felipe Lomelí.  Veja-o na íntegra:</p><p>&#8220;¿Olvida usted algo? -¡Ojalá!&#8221;</p><p>Esta simples frase se constitui no conto mais curto já escrito na Língua espanhola. Antes de sua publicação, em 2005, o relato mais breve era El dinosaurio, do escritor guatemalteco Augusto Monterroso:</p><p>&#8220;Cuando despertó, el dinosaurio todavía estaba allí&#8221;.</p><p>Apesar do conto de Lomelí, &#8220;El dinosaurio&#8221; continua sendo o conto mais lembrado quando se fala em micro-contos, talvez pela inovação e impacto causado na época de sua publicação, 1959.</p><p><strong>MÁRIO DE ANDRADE</strong></p><p>Quando Mário de Andrade afirmou que “será conto tudo aquilo que seu autor batizou com o nome de conto,” ele pensava mais na dificuldade de definição do gênero do que na autoridade que possui o autor para introduzir seu texto na poética do conto.</p><p>Essa dificuldade de definição é, certamente, a razão pela qual Julio Cortázar apela para a construção de imagens-metáforas e analogias para expor suas ideias a respeito da configuração do gênero.</p><p>* Rosa Maria Severino é tradutora e costuma reunir amantes da literatura em sua casa, em Brasília (DF),  para leituras de textos e bate-papos literários.</p><p><strong>Serviço</strong></p><p>Tradutora español&gt;&lt;português</p><p><a
href="http://www.bsbtraducoes.com/">www.bsbtraducoes.com</a></p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.nosrevista.com.br/2009/12/07/o-menor-conto-do-mundo/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> </channel> </rss>
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