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><channel><title>Nós - Fora dos Eixos &#187; Ensaios</title> <atom:link href="http://www.nosrevista.com.br/categoria/ensaios/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" /><link>http://www.nosrevista.com.br</link> <description>Revista Cultural e Literária</description> <lastBuildDate>Fri, 30 Jul 2010 18:56:46 +0000</lastBuildDate> <generator>http://wordpress.org/?v=2.9.2</generator> <language>en</language> <sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod> <sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency> <item><title>O último Mensageiro</title><link>http://www.nosrevista.com.br/2010/07/13/o-ultimo-mensageiro/</link> <comments>http://www.nosrevista.com.br/2010/07/13/o-ultimo-mensageiro/#comments</comments> <pubDate>Tue, 13 Jul 2010 04:19:45 +0000</pubDate> <dc:creator>Expediente</dc:creator> <category><![CDATA[Ensaios]]></category><guid
isPermaLink="false">http://www.nosrevista.com.br/?p=13280</guid> <description><![CDATA[Como acontece com relação a outros assuntos da espiritualidade, a tradição hindu trata com maior desenvoltura o tema dos avatares
 Por Luis Augusto Weber Salvi *
Especial Para Nós – Fora dos Eixos
Prezados @migos:
Tal como acontece com relação a muitos outros assuntos da espiritualidade, a Tradição hindu é, provavelmente, aquela que trata com maior desenvoltura o tema [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p>Como acontece com relação a outros assuntos da espiritualidade, a tradição hindu trata com maior desenvoltura o tema dos avatares</p><p> <a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/07/kalki.jpg"><img
class="alignleft size-full wp-image-13281" title="kalki" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/07/kalki.jpg" alt="" width="345" height="400" /></a>Por <strong>Luis Augusto Weber Salvi</strong> *</p><p>Especial Para <strong>Nós – Fora dos Eixos</strong></p><p>Prezados @migos:</p><p>Tal como acontece com relação a muitos outros assuntos da espiritualidade, a Tradição hindu é, provavelmente, aquela que trata com maior desenvoltura o tema das encarnações divinas cíclicas, ou seja: os avatares.</p><p><strong>Outras Tradições</strong> também aportam contribuições de peso, embora em aspectos mais específicos da avatarização, como são salvação, intervenção, divindade, intermediação, modelo etc.</p><p><strong>Não existem dúvidas</strong> de que o panteão ou linhagem divina hindu, enumere os adventos divinos sucedidos ao longo do atual Ano Cósmico, o Grande Ano de Platão.</p><div
class="mceTemp"><strong>Das 22 encarnações cíclicas de Vishnu</strong>, há 12 relacionadas às Eras zodiacais (coisa esta, que a representação simbólica de alguns avatares deixa entrever), e 10 relacionadas às raças-raízes. Ambos os grupos se subdividem em etapas alternadas de dharma positivo de integração, e dharma negativo de interiorização (ver adiante).</div><p><strong>E eis que o Hinduísmo</strong> vem anunciando a chegada da última encarnação de Vishnu, que é o Cristo cósmico, o 2º Logos, responsável pela preservação ou manutenção da luz, os grandes “reativadores do movimento da roda do dharma” (chakravartin), os administradores cósmicos, enfim, da Verdade universal para cada ronda mundial de evolução.</p><div
id="attachment_13282" class="wp-caption alignright" style="width: 437px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/07/platao.jpg"><img
class="size-full wp-image-13282" title="platao" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/07/platao.jpg" alt="" width="427" height="350" /></a><p
class="wp-caption-text">Busto do filósofo Platao</p></div><p><strong>Para se ter uma idéia</strong> da extensão do trabalho destes seres, seria necessário no mínimo investigar tudo aquilo que já se afirmou a seu respeito, e ainda mais.</p><div
class="mceTemp"><strong>Cite</strong></div><p><strong>mos </strong>então alguns pontos capitais, relacio nados às missões ava táricas:</p><p>- Resgate das Verdades eternas perdidas, acerca da unidade cósmica. &#8211; Anúncio dos Novos Mistérios e suas instituições. &#8211; Infusão de novas energias espirituais no planeta em diversos planos.</p><p>- Estabelecimento da transmissão dos Altos Saberes Tradicionais.</p><p>- Concessão de modelos e paradigmas para a evolução humana.</p><p><strong>Considerando </strong>aquilo tudo que se observa hoje, parece não haver dúvida que a humanidade ainda tem muito a aprender. Porém, o aprendizado da verdade não é coisa simples de alcançar, afinal existem muitas dimensões a se tratar, e que ainda devem ser integradas, havendo em meio a tudo isto o poder do Mal Organizado para confundir, iludir, desviar e tentar separar as coisas.</p><p><strong></p><p
class="mceTemp"><dl
id="attachment_13283" class="wp-caption alignleft" style="width: 390px;"><dt
class="wp-caption-dt"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Simbolos-do-OM.-yogacoletanea.blogspot.gif"><img
class="size-full wp-image-13283" title="Simbolos do OM. yogacoletanea.blogspot" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Simbolos-do-OM.-yogacoletanea.blogspot.gif" alt="" width="380" height="380" /></a></dt><dd
class="wp-caption-dd">Simbolos do OM. Imagem por yogacoletanea.blogspot.com</dd></dl><p>Esta última encar</p><p>nação</p><p>, repre</p><p>senta a der</p><p>radeira oportu</p><p>nidade para a huma</p><p>nidade encon</p><p>trar os seus rumos e eixo. Não é pouca coisa que ele vem trazer: a totalidade humana, preparando o caminho planetário para a superação da condição humana.</p><p></strong></p><p>Ver continuação com o item “O aristocrático Kalki-Maitreya” em</p><p><a
href="http://amskueosmcj.blogspot.com/">http://amskueosmcj.blogspot.com</a> /2010/ 07/o-ultimo-mensageiro.HTML </p><p>*<strong>Luís A. W. Salvi</strong>, filósofo e escritor.</p><p><strong>Serviço</strong></p><p>(51) 9861-5178 / (62) 9602-9646.        </p><p>webersalvi@yahoo.com.br</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.nosrevista.com.br/2010/07/13/o-ultimo-mensageiro/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>Comunismo Transcendental: Lei do Karma, a Ideologia da Superestrutura</title><link>http://www.nosrevista.com.br/2010/07/09/comunismo-transcendental-lei-do-karma-a-ideologia-da-superestrutura-2/</link> <comments>http://www.nosrevista.com.br/2010/07/09/comunismo-transcendental-lei-do-karma-a-ideologia-da-superestrutura-2/#comments</comments> <pubDate>Sat, 10 Jul 2010 02:08:27 +0000</pubDate> <dc:creator>Expediente</dc:creator> <category><![CDATA[Ensaios]]></category><guid
isPermaLink="false">http://www.nosrevista.com.br/?p=8919</guid> <description><![CDATA[Por Wagner Vila Sresthas (José Araújo Wagner)
E Hilda Rádhá Govinda (Hilda Cipriano De Ácio) *
Especial Para Nós – Fora dos Eixos.
A organização social Varna Asrma Dhárma, o Estado Comunista Védico Transcendental, forma universal da Cidade Escola, é, originalmente, a sociedade do comunismo científico. Sociedade composta por categorias sociais produtivas inter­dependentes e ajustada, as quais são [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<div
id="attachment_8920" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/01/srila-prabhupada_karl-marx.jpg"><img
class="size-medium wp-image-8920" title="srila prabhupada_karl marx" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/01/srila-prabhupada_karl-marx-300x161.jpg" alt="" width="300" height="161" /></a><p
class="wp-caption-text">Srila Prabhupada e Karl Marx, Oriente e o Ocidente se encontram.</p></div><p>Por <strong>Wagner Vila Sresthas</strong> (José Araújo Wagner)</p><p>E <strong>Hilda Rádhá Govinda</strong> (Hilda Cipriano De Ácio) *</p><p>Especial Para <strong>Nós – Fora dos Eixos</strong>.</p><p>A organização social Varna Asrma Dhárma, o Estado Comunista Védico Transcendental, forma universal da Cidade Escola, é, originalmente, a sociedade do comunismo científico. Sociedade composta por categorias sociais produtivas inter­dependentes e ajustada, as quais são denominadas Varnas, tem como fator de legitimação da ordem social a Educação-Asrmas.</p><p><strong>Os fundamentos Marxistas</strong> para a Ciência da Natureza correspondem a forma como a Ciência Védica define a materialidade do mundo. Segundo a lei do karma, materialismo dialético-histórico, o homem descobre e transforma o mundo material pela sua atividade pratica.</p><p><strong>A lei do karma</strong> é um fenômeno natural que se realiza através das três gunas: A afirmação, a negação e a negação da negação. 0 filósofo Hegel transfere para o &#8220;espírito do tempo&#8221; impessoal a idéia de totalidade. A leitura dos filósofos gregos e de Hegel da lei do karma, corresponde ao principio dialético da contradição, onde cada coisa guarda dentro de si mesma, os elementos de sua própria afirmação ou negação.</p><p><strong>O filósofo</strong> Feuerbach identifica a natureza abstrata existente no espírito impessoal de Hegel. Karl Marx transfere para a relação capital-trabalho a sua atenção investigativa.</p><p><strong>Temos que admitir</strong> incompletude na Teoria Formal de Estado de Marx e Engels: <em>No Manifesto Comunista</em>, no <em>Dezoito Brumário de Luis Bonapar­te</em> (Marx), no <em>Capital</em> principalmente<em>; Na Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado</em> (Engels), na Obra de Morgan e na obra dos demais construtores da &#8220;Doutrina do Proletariado&#8221;. Ou seja, faltou um estudo aprofundado sobre a teoria de Estado Comunista Védica.</p><div
id="attachment_8921" class="wp-caption alignright" style="width: 260px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/01/karl-marx-2.png"><img
class="size-full wp-image-8921" title="karl marx 2" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/01/karl-marx-2.png" alt="" width="250" height="352" /></a><p
class="wp-caption-text">Karl Marx, o cientista social que mais escreveu sobre o dinheiro (O Capital), sem ter um tostão no bolso.</p></div><p><strong>No Estado comunista</strong> Védico Transcendental, os meios de produção ativos (maquinas, terras, matérias-primas) são bens coletivos, cuja mais-valia não se confunde com os impostos e as riquezas produzidas pelas categorias sociais produtivas. E elas são divididas de forma equânime segundo as necessidades de cada uma das partes envolvidas.</p><p><strong>As categorias sociais</strong> produtivas a partir da inva­são mongol na Índia foram adulteradas e trocadas por castas hereditárias.</p><p><strong>De acordo</strong> <strong>com os</strong> <strong>fundadores da Ciência Védica</strong> e mais precisamente do Sábio Sir Caetânya Maha­prabhu, fundador da Escola Vaishinava (1486/1624), todo ser humano pode se qualificar para uma das quatro categorias sociais produtivas. Todos os seres humanos são livres para exercer funções diversas dentro da superestrutura historicamente definida. (Ele restabeleceu os direitos das mulhe­res, das crianças etc.). Os Bramanes, intelectuais vaishinavas, são pilares da educação comunista transcendental védica cidadã universal. Os Ksatrias, administradores, políticos e militares, são uma Única hemogênica categoria social produtiva. Eles são) preparados para não corromperem o tecido social e com isso não praticarem o nepotismo. Os Vaisyas, grandes e pequenos produtores agrícolas, empresários, produtores de riquezas. E os Sudras aprendizes e trabalhadores braçais.</p><p><strong>Na Índia</strong>, desde dez mil anos antes da forma­ção da civilização grega, a arte de filosofar sobre a identidade (quem sou?), sobre a origem (de onde vim?) e sobre o futuro (para onde vou?) é praticada nos Asrmas, as escolas multidisciplinares.</p><p><strong>Procedentes da Índia</strong>, a cultura da filosofia transcendental de Stma (partícula não material indestrutível) e a filosofia materialista do átomo (partícula material divisível, chegam à Grécia de Sócrates (átma espírito indivisível), e à Grécia de Leucipo e de Demócrito (átomo divisível erroneamente interpretado pelos mesmos como partícula não divisível) enriquecendo a cultura ocidental. A Escola Jônica introduz na colônia grega no Sul da Itália a teoria da origem das coisas em uma única fonte real (Metafísica de Xenófones — que corres­ponde a teoria do veda de Vyasadeva, introduzida na Grécia pelos Pandavas) opondo-se a escola de Eléia (Sankara/Buda), para eles o movimento, assim como a realidade aparente das coisas era uma simples ilusão.</p><p><strong>Pirros de Elias</strong>, secretário de Alexandre, o Gran­de, estudou as filosofias correlatas de Sidarta Buda e de Sankara na Índia. Ao retornar para a Grécia criou o ceticismo filosófico.</p><p><strong>A Consciência Transcendental e o Materialismo Dialético </strong></p><p>A autonomia da Ciência Védica Vaishinava é uma questão que os cientistas e os filósofos devem se primar. Trata-se de uma autonomia historica­mente transmitida pela sucessão discipular desde tempos imemoriais, original e autônoma. 0 caráter arbitrário das fenomologias impersonalistas, das filosofias empiristas ontológicas, da Epistemologia da Ciência e a Metafísica da Existência de Sartre não conseguiram integrar organicamente a ldeologia Transcendental com a ldeologia Materialista da Historia e com o Materialismo Dialético.</p><p><strong>No início do século XIX</strong> cientistas his­toriadores ocidentais tais como Horace H. Wilson, Sir M. Monier-Wilians, Sir William Jones e outros renomados acadêmicos tentaram dentro das aca­demias indianas negarem as tradições da cultura védica, colocando em seu Lugar a cultura cristä. 0 sábio indiano da escola vaishinava Srila Prabhupada confirmou que a palavra Cristo é uma derivativa da palavra Krsna/com Krista/Cristo ou Ungido, pela tradição Oral do Bagavad-Gita (cinco mil anos) e mais recentemente pelos lineares localizados pela Escola Vaishinava.</p><p><strong>0 comunismo</strong> Védko Vaishinava deu origem ao comunismo de Karl Marx. 0 idioma alemão, inglês e os demais idiomas ocidentais, menos estonianos, têm origem no idioma sânscrito.</p><p><strong>O conceito </strong>de Aliertação Ideológica faz parte da literatura Védica. Ela chega ao conhecimento de Karl Marx através da Escola Hegeliana.</p><p><strong>Os Pós-Modernos</strong>, Adomo, Horkhreimeir, Baudrillard e Jurgen Habermas, gerados pela Escola de Frankfurt, além de formularem e proporem por superação critica, a negação generalizada das filo­sofias, das religiões, das ideologias e das tradições que construíram a Modernidade, sugere o fim do culto a Historia.</p><p><strong>As Ciências</strong> do Karma dialética da natureza e a dietética das forças produtivas que, de acordo com o reintrodutor do Veda sem adulteração Srila Pra­bhupada,&#8221;karma e o método, métrica força potencial de todas as jivas atuantes, que fazem a Historia dentro dos mundos materiais e imateriais; ciências que estão diretamente vinculadas as necessidades práticas e as próprias coisas. Nos fundamentos do Bgavad-Gita como ele é karma-yoga é a dialética do real: que condiciona o espírito aos ditames dos reflexos da mente material, e, que simultanea­mente e inconsebivelmente restabelece a relação do demiurgo espírito passageiro do tempo com o espírito Supremo.</p><p><strong>Além das utopias</strong> de fim da Historia (Pos-­Modernos), de fim do Estado (Marxistas), a partir da reintrodução por Srila Prabhupada dos funda­mentos dos Vedas, sem adulteração, a questão da ideologia Teista Védica Vaishinava vem se impondo ao pensamento moderno, como uma questão essencial e fundamental em torno da Teoria do Conhecimento, das Ciências Sociais, da recondução do Estado a condição de Organização Unitária e Centralizada.</p><p><strong>Os princípios do comunismo transcendental</strong> passam a limpo todas as formas de democracias, inclusive a democracia comunista prevista na superação das ditaduras totalitárias do proletaria­do. Princípios do Estado Comunista Transcendental I de Direito que valoriza a produtividade de cada ser vivo na natureza.</p><p><strong>Além do achado Aird</strong>, descobertas anômalas que já é terra de pesquisa em muitas academias do mundo, depois da publicação dos estudos dos Doutores Machel A. Cremo e Richard L. Tompson (Califórnia —autores da obra Hist6ria Secretada Rap Humana), cujas evidências consistentes confirmam que seres humanos automaticamente inteligentes construíram civilizações na terra cem milhões de anos eras, incluindo a documentação cabal apre­sentada pelos mesmos sobre o use de ferramentas tecnicamente avançadas.</p><p>* <strong>Wagner</strong> e <strong>Hilda Cipriano</strong> são jornalistas, autores do livro Brasília – A Cidade Mais Inteligente do Mundo.</p><p><strong>Serviço</strong></p><p><a
href="mailto:wagnerhilda@gmail.com">wagnerhilda@gmail.com</a></p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.nosrevista.com.br/2010/07/09/comunismo-transcendental-lei-do-karma-a-ideologia-da-superestrutura-2/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>Homenagem a Waldemar Lopes</title><link>http://www.nosrevista.com.br/2010/03/15/homenagem-a-waldemar-lopes/</link> <comments>http://www.nosrevista.com.br/2010/03/15/homenagem-a-waldemar-lopes/#comments</comments> <pubDate>Mon, 15 Mar 2010 20:02:59 +0000</pubDate> <dc:creator>Expediente</dc:creator> <category><![CDATA[Ensaios]]></category><guid
isPermaLink="false">http://www.nosrevista.com.br/?p=9865</guid> <description><![CDATA[Por: Anderson Braga Horta *
Especial Para Nós – Fora dos Eixos
Conheci Waldemar Lopes no ano de 1973, em seu apartamento na Asa Sul, em reunião projetada por Domingos Carvalho da Silva para a criação do Clube de Poesia de Brasília. Havia apenas três anos que publicara seu segundo livro, Sonetos do Tempo Perdido (o primeiro [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<div
id="attachment_9866" class="wp-caption alignleft" style="width: 208px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Waldemar-Lopes-foto-de-Elizabeth-Coutinho.jpg"><img
class="size-medium wp-image-9866" title="Waldemar Lopes foto de Elizabeth Coutinho" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Waldemar-Lopes-foto-de-Elizabeth-Coutinho-198x300.jpg" alt="" width="198" height="300" /></a><p
class="wp-caption-text">O poeta Waldemar Lopes (1911-2006), por Elizabeth Coutinho.</p></div><p>Por: <strong>Anderson Braga Horta</strong> *</p><p>Especial Para <strong>Nós – Fora dos Eixos</strong></p><p>Conheci Waldemar Lopes no ano de 1973, em seu apartamento na Asa Sul, em reunião projetada por Domingos Carvalho da Silva para a criação do Clube de Poesia de Brasília. Havia apenas três anos que publicara seu segundo livro, <em>Sonetos do Tempo Perdido</em> (o primeiro fôra <em>Legenda </em>– Recife, 1929), com isso candidatando-se à contumácia, em termos editoriais, visto que até então o único livro de circulação nacional em que aparecia era a <em>Antologia de Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos</em>, de Manuel Bandeira (Rio de Janeiro, 2. ª ed., 1965). Mas bastaria o que o poeta de <em>Estrela da Vida Inteira </em>colocara nessa antologia para granjear-lhe o merecido renome de grande sonetista; lá estavam, para gáudio dos aficionados dessa forma poética, jóias numa vitrine, quatro daqueles sonetos, entre eles o de número 7, depois nomeado “Soneto dos Vaga-Lumes”, bastante, por si só, para credenciar um poeta à admiração dos leitores:</p><p><em>SONETO DOS VAGA-LUMES</em></p><p><em> </em></p><p><em>Era o impúbere céu, era a anteaurora</em></p><p><em>translúcida. Na meia-luz contida</em></p><p><em>de súbito se abria, aura sonora,</em></p><p><em>a flor do canto, logo emurchecida.</em></p><p><em> </em></p><p><em>Mas no chão da memória surge agora,</em></p><p><em>de matérias do tempo concebida,</em></p><p><em>visão morta da noite feita aurora</em></p><p><em>(e uma vida fundida noutra vida).</em></p><p><em> </em></p><p><em>Chispas de azul verdefosforescendo</em></p><p><em>trazem à solidão da terra acesa</em></p><p><em>o secreto esplendor da alma apagada.</em></p><p><em> </em></p><p><em>Ritmo de lume e cor, nascem morrendo,</em></p><p><em>enquanto cresce – tensa de beleza,</em></p><p><em>madura de silêncio – a madrugada.</em></p><p><strong>Extraio algumas palavras da apresentação de Bandeira:</strong></p><div
id="attachment_9867" class="wp-caption alignright" style="width: 355px"><strong><strong><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Manuel-Bandeira.jpg"><img
class="size-full wp-image-9867" title="Manuel Bandeira" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Manuel-Bandeira.jpg" alt="" width="345" height="350" /></a></strong></strong><p
class="wp-caption-text">Manuel Bandeira</p></div><p><strong> </strong></p><p>Até os vinte e dois anos foi contumaz na poesia. &#8230;. Nos últimos anos, voltou à poesia, já agora na condição de bissexto, mas um bissexto que honra a categoria e é de fazer inveja a muito contumaz que anda por aí incensado. Os <em>Sonetos do Tempo Perdido </em>precisam ser publicados na íntegra, pois representam poesia da melhor escrita no Brasil.</p><p><strong>O livro com esse belo título</strong> de sabor proustiano demoraria ainda cerca de seis anos para sair: impresso em dezembro de 1970, foi lançado no ano seguinte. Recebeu imediata consagração, como a do Prêmio do PEN-Clube do Brasil. Todas as peças que o integram são antológicas. Gostaria de ler, aqui, uma por uma, nisso fazendo consistir a homenagem ao amigo e ao poeta. Mas vamos limitar-nos a apenas mais dois de seus belos sonetos. Eis o primeiro dos trinta e três <em>Sonetos do Tempo Perdido</em>:</p><p><em>SONETO DA ESPERANÇA</em></p><p><em> </em></p><p><em>Tempo de azul e não. Desencantado</em></p><p><em>reino do que não foi, mundo postiço, </em></p><p><em>ontem feito de agora, hoje passado:</em></p><p><em>na essência do não-ser o instante omisso.</em></p><p><em> </em></p><p><em>(Margaridas da tarde, onde o seu viço?</em></p><p><em>Choro de água nos ares, lento e alado</em></p><p><em>caminho cor de sonhos? Insubmisso</em></p><p><em>mar sem datas, desfeito e recriado?</em></p><p><em> </em></p><p><em>Suaves rechãs por onde a mão do vento</em></p><p><em>esculpia no verde a sombra exata</em></p><p><em>e as imagens que o olhar já não alcança.</em></p><p><em> </em></p><p><em>Aventuras tão-só do pensamento:</em></p><p><em>arco de azul, a tarde era a fragata</em></p><p><em>supérflua, para o exílio da esperança.)</em></p><p><strong> </strong></p><div
id="attachment_9868" class="wp-caption alignleft" style="width: 337px"><strong><strong><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Gilberto-Mendonca-Telles.jpg"><img
class="size-full wp-image-9868" title="Gilberto Mendonca Telles" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Gilberto-Mendonca-Telles.jpg" alt="" width="327" height="637" /></a></strong></strong><p
class="wp-caption-text">Gilberto Mendonca Teles (arquivo).</p></div><p><strong>Com esses magníficos versos</strong> rivalizam os do segundo soneto, não menos expressivo. Na sua fôrma clássica –o que, de resto, é característico da poesia waldemariana– concentra-se uma sintaxe poética original, em que palpita, condensado mas vívido, um mágico sentimento da beleza das coisas; sentimento que é, transposto em forma verbal, um modo superior dessa beleza mesma, se me permitem esta livre aplicação, aqui, do camoniano-platônico “transforma-se o amador na coisa amada”:</p><p><em>SONETO DAS NUVENS E DA BRISA</em></p><p><em> </em></p><p><em>Os pássaros nostálgicos&#8230; Errantes</em></p><p><em>mágicos do crepúsculo, soprando</em></p><p><em>das longas asas trêmulas o brando</em></p><p><em>vento da tarde; e logo, em céus cambiantes,</em></p><p><em> </em></p><p><em>alvos blocos de pluma vão distantes</em></p><p><em>e efêmeras imagens modelando:</em></p><p><em>sereias e hipocampos, entre o bando</em></p><p><em>de carneiros, e rosas, e elefantes,</em></p><p><em> </em></p><p><em>cães e estrelas, dragões, ou aguçadas</em></p><p><em>torres, na superfície roseoviva</em></p><p><em>por onde voga, acesa, a caravela</em></p><p><em> </em></p><p><em>e as longas asas captam, retesadas,</em></p><p><em>a poesia da tarde, fugitiva,</em></p><p><em>mas eterna no instante em que foi bela.</em></p><p><strong>A relativa</strong> <em>bissextitude</em> do poeta se dissolveria na preamar de livros e opúsculos que viria a seguir: <em>Inventário do Tempo </em>e <em>Os Pássaros da Noite</em> (ambos de 1974); de 1976  a 1979, um por ano, <em>Sonetos da Despedida</em>, <em>Sonetos do Natal</em>, <em>Elegia para Joaquim Cardozo </em>e <em>O Jogo Inocente</em>; o citado <em>Memória do Tempo</em>, de1981, mais os <em>Sonetos de Portugal </em>(1984, 2.ª ed. em 1994 e 3.ª em 1995), <em>As Dádivas do Crepúsculo </em>e <em>A Flor Medieval </em>(1996), <em>Sombras da Tarde </em>(1999) e <em>Cinza de Estrelas </em>(2003). Não posso deixar de mencionar a miniantologia, singelamente intitulada <em>Sonetos</em>, que tive a alegria de preparar para a coleção O Livro na Rua, da Thesaurus (n.º 27 da série Escritores Brasileiros Contemporâneos).</p><div
id="attachment_9869" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/joaquim_cardozo_poeta_calculista_2_jpg.jpg"><img
class="size-medium wp-image-9869" title="joaquim_cardozo_poeta_calculista_2_jpg" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/joaquim_cardozo_poeta_calculista_2_jpg-300x252.jpg" alt="" width="300" height="252" /></a><p
class="wp-caption-text">Joaquim Cardozo, poeta e engenheiro, fez os calculos para a arquitetura de Niemeyer em Brasília (DF).</p></div><p><em> </em></p><p><em>Os Pássaros da Noite</em>, que se apresenta com o selo do Clube de Poesia de Brasília,<em> </em>levantou o Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal.<em> </em>Vinte composições enfeixa, todas de extraordinária beleza, escrínio de que se destaca esta jóia de acabamento e brilho incomparável, que de imediato conquista o <em>amador de poemas</em> para o círculo de seus admiradores, este maravilhoso</p><p><em>SONETO DOS SÍMBOLOS EFÊMEROS</em></p><p><em> </em></p><p><em>Os símbolos efêmeros: memento</em></p><p><em>da vida breve: música secreta</em></p><p><em>– do tempo, a se esvair na asa do vento,</em></p><p><em>– do sonho, a esmaecer a chama inquieta.</em></p><p><em> </em></p><p><em>Cresça no céu de pedra o véu nevoento;</em></p><p><em>junto à nuvens se perca a doida seta</em></p><p><em>rumo ao não e ao talvez: o sentimento</em></p><p><em>atrela-se a uma estrela, e essa incompleta</em></p><p><em> </em></p><p><em>visão apaziguante é misteriosa</em></p><p><em>luz transcendência: rútila persiste,</em></p><p><em>seiva do ser, essência poderosa,</em></p><p><em> </em></p><p><em>pois se foi dito o quanto a carne é triste,</em></p><p><em>arde em perfume o espírito da rosa</em></p><p><em>e é mais belo o que só no sonho existe.</em></p><div
id="attachment_9870" class="wp-caption alignleft" style="width: 210px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Camões_por_François_Gérard.jpg"><img
class="size-full wp-image-9870" title="Camões_por_François_Gérard" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Camões_por_François_Gérard.jpg" alt="" width="200" height="271" /></a><p
class="wp-caption-text">Camões, por François Gérard.</p></div><p>Sobre os <em>Sonetos de Portugal</em>, repito o que disse a propósito na ocasião do lançamento – que nesses versos não pretendeu o poeta mais altos vôos. Diz ele mesmo, em nota prévia, que, &#8220;do ponto de vista formal, sua linguagem é demasiado espontânea, sem maiores preocupações de ordem técnica&#8221;. Naturalmente, não são de aceitar essas e outras restrições que faz ao novo livro o próprio autor. A circunstancialidade que presidiu à elaboração dos seus trinta e oito sonetos, &#8220;registros de uma romaria sentimental à altura dos setenta anos&#8221;, é amplamente transcendida pela pureza do sentimento e da linguagem, pela técnica que se resolve em simplicidade, pela autenticidade, enfim. Retratam eles paisagens de Portugal (e não se apaga de nossos olhos a imagem do &#8220;Minho, cão azul deitado&#8221;, nem se esquecem essas &#8220;asas de um moinho ao pé da encosta, / as doiradas pirâmides de feno, / os mansos bois com flores nas cabeças&#8221;); cantam a gloriosa epopéia nascida da &#8220;essência de ideal na alma do Infante&#8221;, o &#8220;homem que fez maior o sonho do Homem&#8221;; homenageiam os autores queridos –&#8221;Eça, Nobre, Camões, Régio, Pessoa, / e o doce Antero, que era poeta e santo&#8221;, e Cesário Verde, e Guerra Junqueiro, e Camilo, e Ferreira de Castro–; exaltam a língua portuguesa, a &#8220;fala heróica de Camões&#8221;; e, além e acima, sublinham o mais profundo, o mais belo destino da gente portuguesa, que</p><p><em>é doar a semente do humanismo</em></p><p><em>aos desafios do devir do mundo.</em></p><p>Poucas traduções fez o poeta, quase todas de latino-americanos. Uma delas é o <em>Canto a Brasília</em>, do uruguaio Carlos Manini-Ríos, publicada em plaquete em 1973. Particularmente notável é a de “L’Albatros”, de Baudelaire, livremente transposto para sua fôrma predileta (em <em>O  Jogo Inocente</em>):</p><p><em>O ALBATROZ DE BAUDELAIRE<br
/> </em></p><p><em>NAS MALHAS DO SONETO</em></p><p><em> </em></p><p><em>Andarilho do azul, o albatroz soberano</em></p><p><em>sonha infinitos céus. Lá-baixo arde a paisagem</em></p><p><em>da móvel massa imensa; e no dorso do oceano</em></p><p><em>o indolente navio enfrenta a lenta viagem.</em></p><p><em> </em></p><p><em>De súbito, porém, a alegre marinhagem</em></p><p><em>captura o grão-senhor do espaço, em desumano</em></p><p><em>empenho de vencer-lhe a grandeza selvagem</em></p><p><em>e desfazer-lhe o garbo, a intrepidez, o engano.</em></p><p><em> </em></p><p><em>Ei-lo agora rendido à humilhante postura:</em></p><p><em>um cachimbo no bico, apupado em chacota,</em></p><p><em>longas asas arrasta, os remos a imitar.</em></p><p><em> </em></p><p><em>Irmão do poeta, em vão se angustia e amargura:</em></p><p><em>alijado do azul, sem mais ideal nem rota,</em></p><p><em>as asas de gigante impedem-no de andar.</em></p><p><strong>Muitos escritores de alta linhagem</strong> manifestaram-se acerca dessa poesia. Aurélio Buarque de Holanda, seu</p><div
id="attachment_9871" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/aurelio-buarque-de-holanda_e-jorge-amado_.jpg"><img
class="size-medium wp-image-9871" title="aurelio buarque de holanda_e jorge amado_" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/aurelio-buarque-de-holanda_e-jorge-amado_-300x299.jpg" alt="" width="300" height="299" /></a><p
class="wp-caption-text">Aurelio Buarque de Holanda e Jorge Amado. (Arquivo).</p></div><p>companheiro entre os bissextos de Bandeira, prefaciando os <em>Sonetos do Tempo Perdido</em>, tece penetrantes considerações em torno desse “disfarçado romântico”, em cuja obra diz que “podemos ver, sem esforço, uma técnica, uma estrutura pouco distante das mais puras fontes simbolísticas”; comenta elegantemente “l’enfance retrouvée”, da epígrafe baudelairiana, e sua <em>recaptura</em> no verso de Waldemar, não sem frisar, heracliticamente, que tal se dá com vestes e feições que não as de outrora, mas por meio de um transfazimento em símbolos, numa reconquista alegórica; e –recordo ainda, sem querer exaurir a seqüência de singulares e lúcidos tópicos de sua análise– disserta magistralmente sobre o notável emprego que dá ao <em>enjambement</em> e sobre a frequência e a função das expressões interparentéticas (períodos, versos inteiros, às vezes corporificando a maior parte do soneto).</p><p><strong>Gilberto Mendonça Teles</strong>, por sua vez, apresentando <em>Memória do Tempo</em>, esmiúça, com a competência habitual, iluminada por uma sensibilidade de poeta, ele também, de notórios méritos, aspectos, técnicas, alumbramentos de um mago capaz de mergulhar o leitor no “encantamento de uma sonata verbalmente construída em forma de soneto”.</p><p><strong>Seria impossível, e descabido</strong>, transcrever todas essas manifestações numa simples oração de homenagem, que outra coisa não são estas palavras, mas os nomes gostaria de lembrar: Almeida Fischer, Alphonsus de Guimaraens Filho, Antônio Guedes de Campos, Domingos Carvalho da Silva, Herberto Sales, José Augusto Guerra, Nélson Omegna, Plínio Salgado, Pompeu de Souza, que trouxeram, como ele, valioso aporte cultural à jovem Brasília; Abgar Renault, Artur Eduardo Benevides, Audálio Alves, Carlos Drummond de Andrade, Carlos Nejar, Francisco Carvalho, Geraldo Pinto Rodrigues, João Manuel Simões, Mauro Mota, Onestaldo de Pennafort, Vitto Santos, poetas de variadas feições; Nilo Pereira, que o recebeu na Academia Pernambucana de Letras; Alvacir Raposo, Álvaro Salema, Mário Márcio de Almeida Santos, Miranda Neto e Vieira de Melo, que lhe dedicaram estudos; e outros, como Abeylard Pereira Gomes, Antônio Girão Barroso, Bela Josef, Cornélio Leal, Edson Nery da Fonseca, Fagundes de Menezes, Fernando de Azevedo, Gilberto Freyre, Heli Menegale, Hélio Pinto Ferreira, Jayme Posada, Joaquim Inojosa, José Alcides Pinto, José Condé, José de Souza Alencar, Jurandir Gomes Júnior, Luiz Delgado, Marcelo Bastos, Maria do Carmo Barreto Campello de Melo, Martins Napoleão, Mem de Sá, Milton Lins, Nertan Macedo, Nyda Cuniberti de Abal (poetisa argentina), Oscar Mendes, Pe. Fernando Bastos de Ávila, Permínio Asfora, Povina Cavalcanti, Renato Aquino, Roberto Acízelo Quella de Sousa, Sílvio Júlio, Valdemar Cavalcanti, Vivaldi Moreira.</p><div
id="attachment_9873" class="wp-caption alignleft" style="width: 179px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Gilberto_Freyre.jpg"><img
class="size-full wp-image-9873" title="Gilberto_Freyre" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Gilberto_Freyre.jpg" alt="" width="169" height="252" /></a><p
class="wp-caption-text">Gilberto Freyre. (Arquivo).</p></div><p><strong>Não trarão as minhas modestas palavras</strong> valor maior a esse contributo. Mas não posso deixar de dizê-las –de repeti-las, às que noutras ocasiões lhe tenho ofertado–, porque, pouco valiosas que sejam, constituem oblata que despretensiosamente se juntam às mais gradas, e vêm com o selo não só da admiração, mas de uma perduradoura amizade.</p><p><strong>A poesia de Waldemar Lopes</strong> impõe-se e encanta pela sóbria, rigorosa linguagem, não infensa contudo à invenção vocabular –&#8221;carne de lua / transluminosamente azuluzindo&#8221;– e perpassada de um frêmito constante –&#8221;aura da aurora&#8221;– que vem do abismo-infância e se projeta no &#8220;imprevisto itinerário&#8221; do abismo-amanhã. São seus temas (colhidos <em>à vol d&#8217;oiseau</em> sobre as superiores realizações de <em>Sonetos do Tempo Perdido </em>e <em>Os Pássaros da Noite</em>, que o situam entre os grandes sonetistas da língua): o tempo, onipresente (&#8220;tudo é memória: o só vivido / ou o apenas sonhado&#8221;), &#8220;a flor da infância&#8221;, a &#8220;noite metafísica&#8221; projetando &#8220;uma sombra na sombra de outra sombra&#8221;, a vida, &#8220;o rude esforço sem sentido&#8221; (&#8220;viver não acrescenta: diminui&#8221;), o amor, cujo &#8220;êxtase pungente &#8230;. antes nos lembra a morte do que a vida&#8221;, mas sobretudo o efêmero-eterno da beleza –&#8221;a poesia da tarde, fugitiva, / mas eterna no instante em que foi bela&#8221;– e o sonho, &#8220;as coisas mais sonhadas que vividas&#8221;.</p><p><strong>Clássica na forma</strong>, com sugestões simbolistas e uma força de pensamento que a aproxima de um Antero e de um Leoni, essa poesia de suave pessimismo nos convida a descobrir &#8220;a transitória / dádiva do mistério: ínfimo instante = / sopro de eternidade no ar perplexo&#8221;.</p><div
id="attachment_9876" class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/anderson_-braga_-horta__.jpg"><img
class="size-full wp-image-9876" title="anderson_ braga_ horta__" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/anderson_-braga_-horta__.jpg" alt="" width="200" height="131" /></a><p
class="wp-caption-text">Anderson Braga Horta. (Arquivo).</p></div><p><strong>Para fechar a amostragem</strong> poética, trazemos Waldemar Lopes às comemorações do cinqüentenário de Brasília evocando o terceiro dos cinco <em>Sonetos da Despedida</em>:</p><p><em>FLOR DE CIMENTO E SOL</em></p><p><em> </em></p><p><em>Sobre o vazio imenso a flâmula da Idéia</em></p><p><em>fulgia, estrela ideal, na amplidão do Planalto.</em></p><p><em>Ao mundo mineral, em sopro de epopéia,</em></p><p><em>tinham cortado, outrora, o pasmo e o sobressalto</em></p><p><em> </em></p><p><em>das Bandeiras viris. Cantava no mais alto</em></p><p><em>dos verdes buritis a mansa melopéia</em></p><p><em>da brisa. Mas um dia a afanosa colméia</em></p><p><em>de candangos por fim daria o grande salto</em></p><p><em> </em></p><p><em>na seqüência do tempo; e à cobiça forânea</em></p><p><em>– flor de cimento e sol, ou mais: contemporânea</em></p><p><em>do futuro – se opôs a Cidade sonhada</em></p><p><em> </em></p><p><em>como Lúcio a compôs e a previra o profeta:</em></p><p><em>destino e doação, sonho tornado meta,</em></p><p><em>luz-síntese a indicar o rumo da escalada.</em></p><p><strong><em> </em></strong></p><div
id="attachment_9877" class="wp-caption alignleft" style="width: 190px"><strong><em><strong><em><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Fernando-Pessoa.jpg"><img
class="size-full wp-image-9877" title="Fernando Pessoa" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Fernando-Pessoa.jpg" alt="" width="180" height="240" /></a></em></strong></em></strong><p
class="wp-caption-text">Estátua do poeta Fernando Pessoa, em Portugal (Lisboa).</p></div><p><strong><em>Também no território</em></strong> da prosa passeia à vontade o grande mestre do soneto. No opúsculo <em>Amando Fontes: a Linha da Vida, o Perfil da Obra </em>(Recife, 1995), a propósito do autor de <em>Os Corumbas</em>, e aplicando em seu enfoque uma postura antípoda à dos &#8220;tecnocratas da crítica&#8221;, relembra com justeza o fino ensaísta José Augusto Guerra, que, &#8220;em sua pertinaz defesa da crítica impressionista&#8221;, sobrepunha &#8220;o imponderável da expressão estética&#8221; às &#8220;rígidas leis das ciências exatas&#8221;.</p><p><strong>Em trabalho sobre</strong> <em>Bandeira: Estrela Permanente no Céu de Pasárgada </em>(Recife, 1996), o raro sonetista exibe as duas faces de seu talento literário. São dois excelentes ensaios – &#8220;Manuel Bandeira: Poesia sem Mistério&#8221; e &#8220;Presença de Teresópolis na Vida e na Obra de Manuel Bandeira&#8221; (ao fim deste se reproduz o soneto inédito &#8220;Luar de Maio&#8221;, escrito na cidade fluminense, em 1906, pelo poeta de &#8220;Evocação do Recife&#8221;); e, fechando o volume, alguns poemas do ensaísta em louvor de Bandeira e de Teresópolis.</p><p><strong>Pouco antes de morrer</strong>, entregou ao prelo, prontos e revistos, os três volumes de sua <em>Prosa Variada de Ontem e de Hoje</em>,<em> </em>contendo “breves crônicas sobre fatos e idéias, textos à margem da História, notas sobre livros e autores, discursos acadêmicos e não-acadêmicos, memórias”: o primeiro, intitulado <em>O Preço da Liberdade</em>; o segundo, <em>Laudas de Louvação</em>; e o terceiro, <em>Veredas do Tempo</em>. Coube-me a honra de redigir as orelhas do inicial, onde registro que o grande poeta é também muito bom de prosa, e nos dois sentidos da expressão: conversador de irradiante simpatia, marcaram época as fidalgas recepções que oferecia em sua residência no Lago Sul, em Brasília, com a esposa, sua querida Iracy; prosador de mérito, como tal reconhecível pelo menos desde <em>Austro-Costa, Poeta da Província</em>, de 1970, oferece-nos, com os três tomos dessa “prosa variada”, a inteira extensão de seu valor.</p><p><strong>Com tranquilo domínio</strong> da língua e do estilo, discorre sobre assuntos que, se não o forem por natureza, se tornam palpitantes mercê de sua pena. E o espectro que abarca é amplo e diferenciado: desde literatura, naturalmente, até história e, sobretudo, interpretação histórica; de economia e política a perfis psicológicos como o de Tancredo Neves; desde o comentário erudito sobre citações literárias até o elogio à idéia geradora de Goiânia, em ensaio de 1951, que preconiza e defende a interiorização da capital do País.</p><div
id="attachment_9879" class="wp-caption alignright" style="width: 208px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Waldemar-Lopes-foto-de-Elizabeth-Coutinho1.jpg"><img
class="size-medium wp-image-9879" title="Waldemar Lopes foto de Elizabeth Coutinho" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Waldemar-Lopes-foto-de-Elizabeth-Coutinho1-198x300.jpg" alt="" width="198" height="300" /></a><p
class="wp-caption-text">Waldemar Lopes, de Brasília (DF) para Olinda (PE): a poesia presente.</p></div><p><strong>Merecem destaque a competência</strong> e a sensibilidade com que fala de poetas e de poesia, da essência desta, da validade ou demagogia do engajamento poético, da intransitividade de certa poesia contemporânea. São objeto de suas reflexões escritores de todas as regiões do Brasil e de países tão distanciados quanto o Chile e a Bulgária, a Alemanha e o México, a Nicarágua e a Espanha.</p><p><strong>Mesmo quando escreve</strong> sobre assuntos técnicos, ligados a suas vivências profissionais, nunca se deixa tomar pelo frio tecnicismo; ao contrário, seu estilo é sempre irrigado de simpatia e calor humano. O que se disse de Ferreira de Castro, que foi grande “pela arte e pelo coração” (“que só assim se pode ser grande”, completa o nosso autor), tem perfeita aplicação a Waldemar Lopes.</p><p><strong>Waldemar era homem de grande afabilidade</strong> e simpatia. Alto, esguio, muito claro, tendendo ao rubicundo, era uma figura verdadeiramente apolínea, coroada por uma cabeleira de prata. A impressão de distância que essa figura poderia causar se desfazia de pronto ao influxo de uma fala mansa, de voz um tanto embargada, e ao poder de envolvimento de sua personalidade, de que emanava –como que temperando o apolíneo– uma leve brisa de melancolia (Antonio Carlos Villaça, nas orelhas de <em>Memória do Tempo</em>, diz que ele tinha “a suprema coragem de ser só, sendo gregário” e que ele era “um ser melancólico”). Na verdade, era um homem agregador, desses que se fazem cercar de pessoas e derramam em torno de si as ondas lustrais da amizade, os eflúvios mais refinados e mais almos da inteligência e do espírito. E um homem de ação. Jornalista, funcionário de proa do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, diretor da <em>Revista Brasileira de Estatística </em>e da <em>Revista Brasileira dos Municípios</em>, diretor-secretário da <em>Síntese Política, Econômica e Social</em>, da Universidade Católica do Rio de Janeiro, serviu, de 1954  a 1976, à OEA – Organização dos Estados Americanos, tendo sido diretor de seu escritório no Brasil e representante de sua secretaria-geral junto ao Governo. Em Brasília, como dito, foi um dos fundadores do Clube de Poesia, que presidiu em seu período de ouro; com Domingos Carvalho da Silva, entre outros, foi um dos luminares da <em>Revista de Poesia e Crítica</em>; vice-presidente da ANE – Associação Nacional de Escritores e secretário-geral da Academia Brasiliense de Letras. Saindo de Brasília em 1976, transferiu-se, com sua aura de sereno agitador cultural, para a cidade de Teresópolis, onde fundou e dirigiu os <em>Cadernos da Serra</em>, presidiu a Academia Teresopolitana de Letras e o Conselho Municipal de Cultura. De volta a seu Pernambuco natal, em Olinda primeiro, depois no Recife, exerceu até o fim o seu papel oracular, de irradiador de cultura.</p><div
id="attachment_9881" class="wp-caption alignleft" style="width: 328px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/guerra-junqueiro_jpg.jpg"><img
class="size-full wp-image-9881" title="guerra junqueiro_jpg" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/guerra-junqueiro_jpg.jpg" alt="" width="318" height="500" /></a><p
class="wp-caption-text">Guerra Junqueiro. (Arquivo).</p></div><p>Waldemar Freire Lopes, nascido em 1.º de fevereiro de 1911, é natural de Peri-Peri, então pertencente ao município de Quipapá e hoje ao de São Benedito do Sul, em Pernambuco. Faleceu no Recife, em 21 de outubro de 2006, aos 95 anos de idade. Entrevado, com problemas sérios de locomoção, desde alguns anos, manteve-se entretanto lúcido e ativo até o fim. Humanista de escol, fino cultor da poesia e da amizade, deixou luminosa e indelével impressão em tudo que tocou, no coração dos que o conheceram e de quantos têm tido a fortuna de ser tocados pelo seu verso de pensativa beleza.</p><p><strong>Relevem que eu termine esta homenagem</strong> com uma nota pessoal, recordando o soneto que lhe fiz quando se retirava de Brasília, em abril de 1976 (não por nenhum suposto mérito, que de si mesmo não tem, embora procurasse de algum modo imitar-lhe o incomparável estilo, mas pelo sentido –na ambivalência da palavra– de seus quatorze versos, talvez mais significativos hoje do que então):</p><p>SONETO SEM DESPEDIDA</p><p><em>para Waldemar Lopes</em></p><p>Buscas da infância o inexorável pomo,</p><p>pinta-lo em cores de memória, abstrato</p><p>e belo; mas, melhor que nesse cromo,</p><p>trazes no coração seu cerne, intato.</p><p>O que ganhaste em Tempo e em Ritmo exato,</p><p>dizê-lo perda e no-lo dás em Nomo.</p><p>E, agora que te vais de nosso trato,</p><p>tampouco ir-te-ás quanto imaginas. Como,</p><p>da noite, a fugitiva claridade</p><p>solar dissolve em luz os tons soturnos –</p><p>permanece entre nós tua alma antiga</p><p>na dimensão do Sonho sem idade;</p><p>e, em teu Reino de pássaros noturnos,</p><p>tua presença matinal e amiga.</p><p>Associação Nacional de Escritores,</p><p>Brasília, 25 de fevereiro de 2010.</p><div
id="attachment_9878" class="wp-caption alignleft" style="width: 210px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/anderson_braga_horta_antologiapessoal.jpg"><img
class="size-full wp-image-9878" title="anderson_braga_horta_antologiapessoal" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/03/anderson_braga_horta_antologiapessoal.jpg" alt="" width="200" height="294" /></a><p
class="wp-caption-text">Anderson Braga Horta, capa do livro Antologia Pessoal.</p></div><p>*<strong> Anderson Braga Horta</strong> nasceu em Carangola (MG) em 17.11.1934.</p><p>Cursou o Ginásio em Goiânia (GO), e Manhumirim (MG);</p><p>Clássico em Leopoldina (MG); Faculdade Nacional de Direito,</p><p>Universidade do Brasil, Rio de Janeiro, 1959. Em Brasília (DF) desde 1960,</p><p>fez o primeiro vestibular da UnB – Universidade de Brasília,</p><p>onde iniciou o Curso de Letras Brasileiras. Diretor Legislativo da Câmara dos Deputados, aposentado — Professor de Português –</p><p>Co-fundador da Associação Nacional de Escritores, de que foi secretário-geral, do Clube de Poesia de Brasília e de seu sucessor, o Clube de Poesia e Crítica, de que foi presidente, e da Associação Profissional, depois Sindicato dos Escritores do Distrito Federal — Membro da Academia Brasiliense de Letras, de que foi 1. º-secretário, e da Academia de Letras do Brasil, de que foi 2. º-secretário. É poeta, contista, tradutor, ensaísta. Sua obra foi editada pela Thesaurus Editora. <a
href="http://www.thesaurus.com.br/">www.thesaurus.com.br</a></p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.nosrevista.com.br/2010/03/15/homenagem-a-waldemar-lopes/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>1</slash:comments> </item> <item><title>A Intertextualidade Como Engenho: o Brasil de Drummond na Braxília de Nicolas Behr</title><link>http://www.nosrevista.com.br/2010/02/18/a-intertextualidade-como-engenho-o-brasil-de-drummond-na-braxilia-de-nicolas-behr/</link> <comments>http://www.nosrevista.com.br/2010/02/18/a-intertextualidade-como-engenho-o-brasil-de-drummond-na-braxilia-de-nicolas-behr/#comments</comments> <pubDate>Thu, 18 Feb 2010 19:19:57 +0000</pubDate> <dc:creator>Expediente</dc:creator> <category><![CDATA[Ensaios]]></category><guid
isPermaLink="false">http://www.nosrevista.com.br/?p=9308</guid> <description><![CDATA[
Por Wilberth Salgueiro
Ufes/CNPq
Especial Para Nós – Fora dos Eixos
rio do mistério
que seria de mim
se me levassem a sério?
Paulo Leminski (1987, p. 116)
No dia em que descobrirem minha poesia vão acabar com ela. Mas eu arraso antes. Digo que é fast-food, poesia fácil, eu mesmo me arraso. É uma defesa, um escudo.
Nicolas Behr [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><strong> </strong></p><p><strong> </strong></p><div
id="attachment_9309" class="wp-caption alignleft" style="width: 299px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/drummond-e-nicolas-behr.jpg"><img
class="size-medium wp-image-9309" title="drummond-e-nicolas-behr" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/drummond-e-nicolas-behr-289x300.jpg" alt="" width="289" height="300" /></a><p
class="wp-caption-text">Nicolas Behr (direita) dialoga com a escultura do poeta Carlos Drummond de Andrade, na praia de Copacabana, Rio de Janeiro.</p></div><p>Por<strong> Wilberth Salgueiro</strong></p><p><strong>Ufes/CNPq</strong></p><p>Especial Para <strong>Nós – Fora dos Eixos</strong></p><p>rio do mistério</p><p>que seria de mim</p><p>se me levassem a sério?</p><p>Paulo Leminski (1987, p. 116)</p><p>No dia em que descobrirem minha poesia vão acabar com ela. Mas eu arraso antes. Digo que é <em>fast-food</em>, poesia fácil, eu mesmo me arraso. É uma defesa, um escudo.</p><p><strong> </strong></p><p>Nicolas Behr (2004, p. 47)</p><p>Em 2007, Nicolas Behr – poeta cuiabano, radicado em Brasília – lançou a antologia <em>Laranja seleta</em>, com poemas produzidos desde o longínquo ano de 1977. Indicado aos prestigiosos prêmios Jabuti e Portugal Telecom, o livro trouxe a um público maior a figura singular de Behr, verdadeiro militante do verso e do verde, na lida há tempos com plantas e páginas, flores e congêneres. Leitores antenados em poesia brasileira devem ter a devida dimensão do nome do escritor em nosso panorama poético, ao lado de outros históricos e canônicos marginais como Glauco Mattoso, Roberto Piva, Leila Míccolis, Tião Nunes, Chacal e Waldo Motta, para listar alguns poucos.</p><div
id="attachment_9310" class="wp-caption alignright" style="width: 181px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/drummond.foto_.jpg"><img
class="size-full wp-image-9310" title="drummond.foto" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/drummond.foto_.jpg" alt="" width="171" height="139" /></a><p
class="wp-caption-text">Carlos Drummond de Andrade</p></div><p><strong>Pelo fato mesmo de ser uma antologia</strong> tão abrangente (dezenas – <em>sic – </em>de livros de 1977  a 2007) e de contar com escolha do próprio autor, sua representatividade é inconteste: as quase duas centenas de poemas de <em>Laranja seleta </em>dão uma idéia bem boa da trajetória poética de Behr, dono de uma biografia que inclui prisão e processo por parte do DOPS, em 1978, acusado de “porte de material pornográfico” e “também por suas atividades políticas no movimento estudantil”<a
href="#_ftn1">[1]</a>. Data de então, de 15 de novembro de 1978, uma preciosa carta de solidariedade de Drummond, que aí comenta: “vejo como pode ser perigoso para o cidadão ter em seu poder ‘livretos de cunho pornográphico’, cuja classificação fica dependendo do senso crítico de autoridades policiais. A ameaça pode atingir quem tenha em casa a Bíblia em <strong>fascículos, ou um drama</strong> de Shakespeare em  quadrinhos. O que não impede que nas bancas de jornais&#8230; Sem comentários” (in: BEHR, 2005, p. 112). A verve do poeta se faz ver na referência nada simpática à censura das “autoridades policiais”, nos exemplos inusitados (“Bíblia em fascículos”, “Shakespeare em quadrinhos”) e mesmo na indicação elíptica do paradoxo do argumento repressor: se o livro de Behr foi censurado por pornográfico, o que dizer do que se via, e se vê, nas bancas de jornais? O comentário, ferino, se fez.</p><p><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/nicolas_behr_2_.bmp"><img
class="alignleft size-full wp-image-9312" title="nicolas_behr_2_" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/nicolas_behr_2_.bmp" alt="" /></a>Em <em>Laranja seleta </em>– portanto, na obra de Behr – um estilema que se quer visível é a intertextualidade. Lá, abundam alusões a poemas e poetas da estirpe do citado Shakespeare a Castro Alves, de Caetano Veloso a Torquato Neto, de Mário de Andrade a Manuel Bandeira, de Glauco Mattoso a Adélia Prado, mas, sobretudo, chovem referências ao solidário missivista itabirano. Para além de ser um traço marcadamente geracional, pergunta-se: por que a freqüência do recurso à intertextualidade? E Drummond, exatamente ele, Drummond – por quê?</p><p><strong>O volume 27 da</strong> <em>Poétique</em> dedicou-se ao estudo da intertextualidade. O artigo de abertura, “A estratégia da forma”, de Laurent Jenny (1979), faz um apanhado relevante da questão, afirmando, de saída, que, “fora da intertextualidade, a obra literária seria muito simplesmente incompreensível” (p. 5), considerando o termo em sentido deveras lato, como o fez igualmente a búlgara Julia Kristeva ao cunhar o conceito em frase que se celebrizou: “qualquer texto se constrói como um mosaico de citações e é absorção e transformação dum outro texto” (1974, p. 64). Se, por hipótese, um texto “esconde” o tal mosaico, esta postura mesma manifestaria o seu estatuto. É como se, quanto a isto, não houvesse saída: citar ou não, de forma mais ou menos explícita, via imitação, paródia, montagem ou plágio, pouco importa: os intertextos estão em toda parte, formam uma teia absolutamente inescapável. O teórico francês trabalha tais questões com farta exemplificação, a partir de William Burroughs, Raymond Queneau, James Joyce, Petrônio, Claude Simon e, mais que todos, Lautréamont.</p><div
id="attachment_9313" class="wp-caption alignright" style="width: 331px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/lautreamont.jpg"><img
class="size-full wp-image-9313" title="lautreamont" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/lautreamont.jpg" alt="" width="321" height="400" /></a><p
class="wp-caption-text">Lautreamont, poeta</p></div><p><strong>Às vezes, o embate se exterioriza</strong> de tal modo que a intertextualidade se torna uma verdadeira máquina de guerra: é o que propõe Harold Bloom em seu <em>A</em><em> angústia da influência </em>(1991), publicado originalmente em 1973. Aqui, o crítico americano ergue uma teoria da poesia baseada numa sólida rede interativa de poetas <em>fortes</em> e <em>pretendentes a</em> – ambas as categorias de acordo, e tão-somente, com seu juízo avaliativo. Sem meias palavras, acentua que seu único interesse são “os poetas fortes, grandes figuras com persistência para combater seus precursores fortes até a morte. Talentos mais fracos são presa de idealizações: a imaginação capaz se apropria de tudo para si” (p. 33)<em>.</em> Bloom não esconde que seu cânone é resultado de um “gosto etnocêntrico”, praticamente ignorando as literaturas ditas periféricas. Na apresentação do livro, Arthur Nestrovski retoma <strong>a referência ao texto</strong> “Kafka e seus precursores”, de Jorge Luís Borges, onde o escritor argentino acentua que<strong> “</strong>todo escritor <em>cria</em> seus precursores. Sua obra modifica nossa concepção do passado, como haverá de modificar o futuro” (p. 12). Assim, a potência da obra kafkiana transforma nossa leitura de obras distantes no tempo e no espaço, adjetivando-as — mal comparando, é como se disséssemos que a visão corrosiva, satírica e metapoética de Gregório de Matos fosse <em>oswaldiana</em>.</p><p><strong></p><div
id="attachment_9314" class="wp-caption alignleft" style="width: 292px"><strong><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/guimarães_rosa_3_.jpg"><img
class="size-full wp-image-9314" title="guimarães_rosa_3_" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/guimarães_rosa_3_.jpg" alt="" width="282" height="399" /></a></strong><p
class="wp-caption-text">Guimarães Rosa</p></div><p>O efebo (poeta jovem, posterior)</strong> deve – se quiser alçar um grau elevado – <em>desler</em> o poeta forte, contrapondo-se a ele. Percebe-se a fundamental presença das concepções edipianas <strong><em>de</em></strong> Freud <strong><em>em</em></strong> Bloom, além da igualmente confessada sombra de Nietzsche, sobretudo quando lança mão de definições contundentes do filósofo alemão, que atribui ao <em>sentir-poeta</em> um misto exclusivo de consciência da inutilidade do ser e do mundo, donde a equivalência da dissipação do sujeito e da humanidade. Salienta-se, em Bloom, o desejo dos poetas: imitar, homenagear, reverenciar; mas, também, <em>superar, desler, diferenciar</em>. A citação legitima, sim, a hierarquia; mas, de novo com Nietzsche, há que se saber os inimigos: o que não me mata me fortalece.</p><p><strong>Para Laurent Jenny</strong> “o olhar intertextual é sempre um olhar crítico” (p. 10), em que têm lugar complexas operações de assimilação e transformação, através de elipses, paronomásias, amplificações, hipérboles, interversões de variada ordem etc. Um ponto decisivo reside em detectar o <em>grau</em> da intertextualidade, desde uma sutil reminiscência a um desabusado plágio, de um emaranhado jogo anagramático de timbre saussureano a uma citação espetacularizada de um cânone. De um jeito ou de outro, a intertextualidade é uma “máquina perturbadora” (p. 45), com “vocação crítica, lúdica e exploradora” (p. 49), que solicita do sentido incessantes deslocamentos. Por fim, o jogo intertextual reacende o debate em torno do lugar do sentido e da figura do sujeito, amalgamados sob lavas de discursos alheios.</p><p><strong>Apesar de reconhecer</strong> o “suporte ideológico confesso” (p. 49) do uso intertextual, o artigo de Jenny é lacunar quanto às intrínsecas relações entre intertextualidade e história: que interesses ideológicos (confessos ou não) são mobilizados quando um autor se apropria de outro? Vale dizer, quando um texto se apropria de outro, e esta apropriação é sempre crítica (porque julga o texto anterior), o que é que se quer transformar <em>na história</em> que o texto apropriado representa? Particularizando a pergunta, por que tantos poemas de Drummond (exatamente ele, Drummond) são tomados, vampirizados por Nicolas Behr? Certamente, a presença de Drummond aí não é inconsciente nem aleatória. Seja um desrecalque, um ato lúdico, um gesto encomiástico – um motivo há em tudo o que se cita, em tudo o que se ingere, em tudo o que se regurgita. O excesso, de algum modo, há de transbordar, diferido noutra matéria.</p><div
id="attachment_9315" class="wp-caption alignright" style="width: 139px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/pauloleminski.foto_.1jpg.jpg"><img
class="size-full wp-image-9315" title="pauloleminski.foto.1jpg" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/pauloleminski.foto_.1jpg.jpg" alt="" width="129" height="173" /></a><p
class="wp-caption-text">Paulo Lemininski, poeta e compositor</p></div><p><strong>Já em 1979, em</strong> <em>Põe sia nisso!</em>, Behr recupera um poema clássico do livro inaugural de Drummond, <em>Alguma poesia, </em>de 1930. Cotejemo-lo</p><table
border="0" cellspacing="0" cellpadding="0"><tbody><tr><td
width="288" valign="top">“Política   literária”</p><p><em>A Manuel Bandeira</em></p><p>O poeta municipal<br
/> discute com o poeta estadual<br
/> qual deles é capaz de bater o poeta federal.</p><p>Enquanto isso o   poeta federal<br
/> tira ouro do nariz.</p><p>(DRUMMOND, 2006, p.   15)</td><td
width="288" valign="top">“Política literária”</p><p>(com licença, carlos)</p><p>o poeta da asa norte</p><p>discute com o poeta</p><p>da asa sul</p><p>pra ver qual deles</p><p>é capaz de bater</p><p>o poeta do plano piloto</p><p>enquanto isso um poeta</p><p>de uma cidade-satélite qualquer</p><p>tira a lama</p><p>do sapato</p><p>(BEHR, 2007, p. 59)</td></tr></tbody></table><p><strong></p><div
id="attachment_9316" class="wp-caption alignleft" style="width: 401px"><strong><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Harold_Bloom_2_jpg.jpg"><img
class="size-full wp-image-9316" title="Harold_Bloom_2_jpg" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Harold_Bloom_2_jpg.jpg" alt="" width="391" height="390" /></a></strong><p
class="wp-caption-text">Harold Bloom, crítico literário.</p></div><p>Desde o título, mantido</strong> <em>ipsis litteris</em>, e o “agradecimento”, entrega-se a fonte: trata-se de um poema <em>do </em>poeta brasileiro<a
href="#_ftn2">[2]</a><em>.</em> A irreverência do modernista ironiza a emulação poética, a partir de uma cômica hierarquia entre poetas: enquanto os dois subalternos – o municipal e o estadual – discutem, o poeta “superior”, o federal, qual um Midas tupiniquim, transforma em bem o lixo, em ouro o muco, em valor a meleca. Funcionário público desde 1929, Drummond denuncia disputas e vaidades no ígneo mundo das poéticas, à maneira das quadrilhas políticas. Sofrerá, ao longo de décadas, o estigma de ser funcionário público e, à revelia ou não, contribuir para o fortalecimento – por exemplo, sendo secretário de Capanema – do governo getulista<a
href="#_ftn3">[3]</a>. O evidente tom jocoso, o aspecto metapoético, os paralelismos e as fortes aliterações decerto contribuíram para o poeta ter alinhado o poema entre os “exercícios lúdicos” de “Uma, duas argolinhas” de sua antologia de 1962 (e não, como se poderia crer, na seção “Na praça de convites”, em que figuram poemas que trazem “o choque social”) (cf. ANDRADE, 2009).</p><p><strong>À primeira vista</strong>, o caráter nacional do poema de Drummond dá lugar a uma problemática local no poema de Behr. Aqui, os dois subalternos se travestem de “o poeta da asa sul” e “o poeta da asa norte” e o poeta superior é o “do plano piloto”. Fora do panteão, um quarto personagem aparece, para desafinar o coro dos contentes: é “um poeta de uma cidade-satélite qualquer”. Enquanto os três poetas da capital se ocupam de questões estéticas, o poeta periférico se vê às voltas com questões aparentemente triviais: tirar a lama do sapato. Mas é aí mesmo o epicentro do problema: o bem-estar, o progresso, a modernidade, o asfalto não chegam para todos. A grande maioria tem de se virar e conviver com o desconforto, a estagnação, o atraso, a treva – a lama. Uns são capitais; outros, satélites. A força ideológica do poema de Behr reside em trazer para a cena poética, <em>por meio do recurso à intertextualidade</em>, uma situação marginal que, sem deixar de ser específica, transcende o contexto regional que indicia. Repare-se, ademais, que sutilmente ecoa na paródia de Behr a lembrança do poema “Nova poética” (de <em>Belo belo</em>, 1948), de Bandeira – a quem Drummond dedica o poema! –, na imagem da lama: “(&#8230;) Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama: /// É a vida. (&#8230;)” (BANDEIRA, 1993, p. 188). Brasília, veremos, é metonímia e metáfora do Brasil (embora o poeta, em sua utopia, tenha criado – no espaço poético, diria Blanchot, espaço em que tudo é possível – sua mítica <em>Braxília</em>). Estávamos em 1979, ano que se inicia com a revogação do AI-5 em 31/12/1978.</p><div
id="attachment_9317" class="wp-caption alignright" style="width: 410px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Manuel_Bandeira_por-_Netto.-jpg.jpg"><img
class="size-full wp-image-9317" title="Manuel_Bandeira_por _Netto. jpg" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Manuel_Bandeira_por-_Netto.-jpg.jpg" alt="" width="400" height="252" /></a><p
class="wp-caption-text">Manuel Bandeira, pelo genial Netto.</p></div><p><strong>O segundo poema de Nicolas Behr</strong>, presente na antologia <em>Laranja seleta</em>, e que também protagoniza uma ação intertextual, seqüestrando Drummond, tem “Drummond brasiliensis” como título e diz:</p><p>brasília, e agora?</p><p>com o avião na pista quer levantar vôo</p><p>não existe vôo</p><p>quer se afogar no paranoá mas o lago secou</p><p>quer falar com o presidente mas este viajou</p><p>quer se esconder no cerrado o cerrado acabou</p><p>quer ir pra goiás goiás não há mais</p><p>e agora, brasília?</p><p>(BEHR, 2007, p. 96)</p><p><strong>Este poema</strong>, publicado originalmente em <em>Beijo de hiena</em>, de 1993, foi buscar, mais uma vez, uma clássica matriz drummondiana: “José”, do livro homônimo de 1942. Com o mundo em guerra e o Brasil em pesado clima ditatorial, a desesperança toma conta do outrora debochado poeta modernista, sob a capa, agora, de um José que mal esconde o Carlos que se espalha ao longo da obra drummondiana: “o bonde não veio, / o riso não veio, / não veio a utopia / e tudo acabou” – as redondilhas menores, em tom menor, sintetizam o sentimento reinante de amargura e inércia.</p><p><strong>Das seis estrofes de “José</strong>”, o poema de Behr vai se aproximar mais estreitamente da quarta, que se transcreve para a comparação:</p><p>Com a chave na mão <a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/carlos_drummond_de_andradade_-jpg.jpg"><img
class="alignleft size-full wp-image-9318" title="carlos_drummond_de_andradade_ jpg" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/carlos_drummond_de_andradade_-jpg.jpg" alt="" width="562" height="750" /></a></p><p>quer abrir a porta,</p><p>não existe porta;</p><p>quer morrer no mar,</p><p>mas o mar secou;</p><p>quer ir para Minas,</p><p>Minas não há mais.</p><p>José, e agora?</p><p>(ANDRADE, 2006, p. 107)</p><p><strong>No poema de Behr</strong>, o José de Drummond vira Brasília, antropomorfizada, em situação aparentemente tão aporética quanto à do personagem de Carlos: há chave e avião, mas não tem porta nem vôo; para morrerem, há mar e lago, mas ambos secaram; para a fuga, há Minas e Goiás, mas o tempo aboliu essa possibilidade de volta ao passado. Aqui, numa espécie de licença poética autobiográfica, à Minas de origem do poeta modernista, o poeta marginal inventa para si (para o eu lírico que fala) uma falsa origem, Goiás, em vez de Mato Grosso, seu estado natal, muito provavelmente agindo “por amor à rima”<a
href="#_ftn4">[4]</a>: goiás / goiás / mais. Recorde-se, igualmente, que o território de Brasília, distrito federal, está encravado no estado de Goiás, daí a impossibilidade de querer ir para um “goiás&#8221; que não há mais, um Goiás de antes da invenção de Brasília por JK.</p><p><strong>De modo ambíguo</strong>, o sujeito que dá título ao poema, “Drummond brasiliensis”, é também o sujeito que nele se expõe, misturando-se ao outro “sujeito”, Brasília, que substitui sintática e semanticamente o personagem drummondiano, José. O poema de Behr, qual o de Drummond, se sustenta em base anafórica: aquilo que se <em>quer</em> não se pode mais ter, embora, lembrando o mítico suplício de Tântalo, tudo esteja de algum modo próximo.</p><div
id="attachment_9319" class="wp-caption alignright" style="width: 254px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/theodor-adorno1.jpg"><img
class="size-full wp-image-9319" title="theodor-adorno1" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/theodor-adorno1.jpg" alt="" width="244" height="299" /></a><p
class="wp-caption-text">Theodor Adorno</p></div><p><strong>O drama de Drummond</strong>, ainda que possa ser estendido a toda uma geração e a um período, se dá a ver – porque assim o quis – pelo viés de um sujeito: um sujeito comum, sim, “que é sem nome”, um josé, um zé, mas também um sujeito singularizado, com “biblioteca”, “lavra de ouro”, de “Minas”. <em>Ao ativar o recurso da intertextualidade</em>, e ultrapassando o mero jogo paródico, Nicolas Behr recorda a história que dá chão <em>àquele</em> poema, a década da segunda grande guerra mundial, para mostrar que na capital do Brasil há um sentimento finissecular de perda, de inércia, de falta. A <em>transposição</em>, para usar termo de Kristeva, de José em Brasília indica de imediato a vontade de dar ao desamparo individual uma feição mais coletiva, social, política.</p><p><strong>Theodor Adorno</strong> em “O artista como representante” (2003) desenvolve reflexões que retomaria anos depois em artigo mais conhecido – “Palestra sobre lírica e sociedade” (1957). Naquele texto, Adorno se dispõe a mostrar, na contracorrente da opinião vigente, o “conteúdo histórico e social inerente à obra de Valéry” (p. 152), a partir da análise do livro <em>Degas, dança desenho</em>, do poeta-crítico francês. Para este, segundo o filósofo alemão, “o homem como um todo, e toda a humanidade, estão presentes em cada expressão artística e em cada conhecimento científico” (p. 155). Tal concepção se fundamenta na idéia de “homem completo”, ou seja, aquele que investe todas as faculdades na realização dos atos, assim como aquele que quer compreender estes atos. Para Valéry, “Flaubert e Mallarmé são exemplos literários da consagração total de uma vida à exigência total imaginária, que eles confiavam à arte da pena” (p. 158). O homem, portanto, ao dar o máximo de si estaria não só satisfazendo a exigência da própria arte, mas elevando-se a si mesmo, ao colocar a razão – lógica, coerência, concentração, densidade, resistência, organização (p. 163) – em posto privilegiado no ato criador, desvencilhando-se, assim, da arte fácil: “não se tornar estúpido, não se deixar enganar, não ser cúmplice: estes são os modos de comportamento social sedimentados na obra de Valéry, uma obra que recusa o jogo da falsa humanidade, da aprovação social à humilhação do homem” (p. 163). O homem completo, o artista completo seriam, então, mais do que um indivíduo que produz uma obra qualquer, o representante do “sujeito social coletivo” (p. 164); mais do que o criador de algo contingente, dispensável, o fundador de alguma coisa incontornável, única <em>porque</em> histórica, porque – sempre com o propósito apriorístico da grandeza máxima da completude artística – encontrou a forma extrema, exata, de sua existência. O esplendor do homem que cria está todo investido exatamente naquilo que cria: a grandeza de um diz da grandeza do outro, o que um homem <em>pode </em>é porque o seu tempo pôde. Neste texto, Adorno não discute se Valéry e Nietzsche superestimaram a arte, dando-lhe um lugar metafísico, e daí longe da história. Interessa a ele desvincular a criação artística da “sina da cega individuação” (p. 164), tributária de heranças românticas, que erigiram estátuas à figura semidivina do gênio.</p><p><strong></p><div
id="attachment_9320" class="wp-caption alignleft" style="width: 194px"><strong><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/nicolasbehr.fotoctracapapoesilia3.gif"><img
class="size-full wp-image-9320" title="nicolasbehr.fotoctracapapoesilia3" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/nicolasbehr.fotoctracapapoesilia3.gif" alt="" width="184" height="225" /></a></strong><p
class="wp-caption-text">Nicolas Behr, &quot;retrato do artista quando jovem&quot;</p></div><p>Há na poesia de Nicolas Behr</strong> um empenho de falar para muitos e por muitos. Para lembrar termos leminskianos, o relaxo de seus versos é constituinte do próprio capricho que alcança na fatura final da forma que lhe é possível. Grande parte de seu engenho vem dessa vontade de atribuir à arte uma responsabilidade social, e grande parte dessa vontade se realiza por intermédio da adoção de um <em>locus</em> coletivo: a cidade de Brasília (não mais o quarto e a casa, espaços tão queridos dos marginais) (cf. MEDEIROS, 1998). E a cidade de Brasília não é uma cidade qualquer: ela é símbolo, ela representa uma instância de poder, uma história complexa de interesses políticos, de criação de heróis e mártires, de emblemáticos arquitetos e folclorizados candangos. Pensar em Brasília é pensar no Brasil.</p><p><strong>Eis que em recentíssimo livro</strong>, <em>Iniciação à dendrolatria, </em>de 2006, com poemas já incluídos em <em>Laranja seleta</em>, de 2007, Nicolas Behr vai buscar de novo a inspiração em Drummond para seu ecológico poema-paródia:</p><p>quando eu nasci uma árvore torta</p><p>dessas que vivem no cerrado</p><p>chegou pra mim</p><p>e não disse nada</p><p>não havia nada a dizer</p><p>não havia nada a salvar</p><p>(BEHR, 2007, p. 118)</p><p><strong>A memória poética brasileira</strong> tem, sem dúvida, no “Poema de sete faces” um de seus pilares mais fortes: é o primeiro poema do primeiro livro do primo-poeta Carlos Drummond de Andrade, tendo sido todas as sete estrofes reviradas de ponta-cabeça pela crítica literária especializada e tendo sido glosado às pencas por artistas de distintos matizes, demonstrando sua força de irradiação, força que provoca, proporcionalmente, desejos parricidas violentos. Behr glosa somente a estrofe inicial: “Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse: Vai, Carlos! ser <em>gauche</em> na vida.” (ANDRADE, 2006, p. 5). Aqui, mais uma vez, <em>o procedimento intertextual vai se efetivar numa troca de sinal</em>: a problemática de um indivíduo dá lugar a uma questão coletiva, ainda que de forma sutil, sem barulhos. Embora em ambos se mantenha um “eu”, lírico e gaiato, encenando mesmo um bom humor, o desfecho da estrofe é diverso: em Drummond, o anjo se refere com intimidade ao poeta Carlos (a despeito da máscara que o sujeito lírico pressupõe, o fato é que a escolha onomástica – “Carlos” – aponta uma vontade de identificação entre este sujeito e o sujeito autoral), profetizando-lhe um futuro <em>gauche</em>, marginal; em Behr, a árvore quebra a expectativa (estando no lugar que, no texto anterior, cabia ao anjo) e simplesmente não diz nada.</p><div
id="attachment_9321" class="wp-caption alignright" style="width: 423px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Gustave-Flaubert-vers-1856-portrait-by-Eugène-Giraud-1806-1881_jpg.jpg"><img
class="size-full wp-image-9321" title="Gustave Flaubert vers 1856, portrait by Eugène Giraud (1806-1881)_jpg" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Gustave-Flaubert-vers-1856-portrait-by-Eugène-Giraud-1806-1881_jpg.jpg" alt="" width="413" height="599" /></a><p
class="wp-caption-text">Gustave Flaubert por:Eugène-Giraud (1806-1881)</p></div><p><strong>O cerrado, lembremos</strong>, se situa geralmente em terreno plano, tem prolongados períodos de seca – é vegetação típica do planalto central do país – de Brasília. O anjo “torto” de Drummond vive na sombra, se parece com o poeta ao qual se dirige, é figura espiritual, metaforizada, mediando a relação entre homem e deus; a árvore “torta” de Nicolas vive em lugar árido e seco, é “torta” literalmente, é real e carrega resignação: não diz nada, seria infrutífero e retórico se dissesse algo. O humor seca. Em excelente estudo sobre a poesia de Behr, Gilda Furiati afirma: “A denúncia contra a destruição ou a exploração do cerrado nativo em troca de plantação de soja também se tornará uma linha explorada pelo poeta, anos mais tarde, com a publicação do livro <em>Iniciação à Dendrolatria</em>, publicado em 2006 e todo dedicado às árvores e à preservação ambiental” (2007, p. 38). Dendrolatria significa respeito e adoração pelas árvores.</p><p><strong>O jovem Drummond</strong>, de 1930, ano de <em>Alguma</em> <em>poesia </em>(onde está o “Poema de sete faces”), não tinha então trinta anos; o alternativo Nicolas, em 2006, ano de <em>Iniciação à Dendrolatria</em> (onde está o poema em foco da “árvore torta”), já chegava aos cinquenta anos, maduro e ainda maldito. Sob essa perspectiva temporal, o velho e <em>gauche </em>Nicolas lê o novo e comportado Drummond, que “Quase não conversa. / Tem poucos, raros amigos”.</p><p>Em um quarto poema de <em>Laranja seleta</em>, o também familiar “O enterrado vivo”, de <em>Fazendeiro do ar </em>(1954), de Drummond, é apropriado por Behr, em poema publicado originalmente em <em>Peregrino do estranho </em>(2004, grifos abaixo meus):</p><table
border="0" cellspacing="0" cellpadding="0" width="586"><tbody><tr><td
width="281" valign="top"><p>É   sempre no passado aquele orgasmo,<br
/> é sempre no presente aquele duplo,<br
/> é sempre no futuro aquele pânico.</p><p>É sempre no meu peito aquela garra.<br
/> É sempre no meu tédio aquele aceno.<br
/> É sempre no meu sono aquela guerra.</p><p>É sempre no meu trato o amplo distrato.<br
/> Sempre na minha firma a antiga fúria.<br
/> Sempre no mesmo engano outro retrato.</p><p>É sempre nos meus pulos o limite.<br
/> É sempre nos meus lábios a estampilha.<br
/> É sempre no meu não aquele trauma.</p><p>Sempre no meu amor a noite rompe.<br
/> Sempre dentro de mim meu inimigo.<br
/> E sempre no meu sempre a mesma ausência.</p><p>(ANDRADE,   2006, p. 404)</td><td
width="304" valign="top">é sempre dentro de mim esse muro</p><p>as divisórias internas do escritório carnal</p><p>quem me cobra o fracasso? quem?</p><p>me iludo e digo que no meu passado</p><p>vive um menino feliz (menino sem mimo)</p><p>o tempo e esse desgaste, esse vento áspero</p><p>é sempre este poema a me fitar no escuro</p><p>essas fraturas expostas, essas carnes podres</p><p>em tudo, a presença viva</p><p>da poesia de drummond</p><p>é sempre dentro de mim essa vontade enorme</p><p>de caminhar entre as gentes e encontrar pessoas</p><p>ah, esse desprezo, essa inveja,</p><p>essa alegria covarde</p><p>dentro de mim, fora de mim,</p><p>as armaduras de aço</p><p>os escudos, as couraças, o museu do toque</p><p>a promessa de mais uma linha, conclusiva, final</p><p>a tensão que dignifica a vida</p><p>esse mal-estar permanente</p><p>o sofrimento: meu e alheio</p><p>as testas enrugadas, os braços cortados</p><p>o coração aberto, coberto de moscas</p><p>o poema-lixa polindo os olhos</p><p>um ipê roxo florido lá longe, no meio da mata</p><p>é sempre dentro de mim</p><p>esse reciclar de lágrimas</p><p>é sempre dentro de mim esse vazio</p><p>(BEHR, 2007, p. 125)</td></tr></tbody></table><p><strong></p><div
id="attachment_9322" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><strong><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/afonso_romano_de-sant_ana_jpg.jpg"><img
class="size-medium wp-image-9322" title="afonso_romano_de sant_ana_jpg" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/afonso_romano_de-sant_ana_jpg-300x206.jpg" alt="" width="300" height="206" /></a></strong><p
class="wp-caption-text">Affonso Romano de Sant&#39;Ana, poeta e crítico literário.</p></div><p>Este último exemplo de apropriação</strong> repete um procedimento intertextual já explicitado, e, vemos, recorrente: onde, em Drummond (<em>isto é: nos poemas de Drummond escolhidos</em>), impera a plena subjetividade, sem disfarce, na tensão entre eu e mundo (cf. SANT’ANNA, 1980), em Nicolas Behr se impõe um desejo de troca, de reciprocidade, de participação, “essa vontade enorme / de caminhar entre as gentes e encontrar pessoas”. Um verso de Behr resume bem a diferença de postura: “o sofrimento: meu e alheio”. Os belíssimos decassílabos de Drummond se apóiam em anáforas e imagens provocantemente herméticas; os versos brancos e livres de Behr mantêm o eco – é sempre, é sempre – do poema primeiro, mas as imagens se querem diretas, referenciais, selvagens, transparentes.</p><p><strong>O autor de</strong> <em>Claro enigma </em>é o mestre, não há dúvida, do poeta de Brasília. Não bastasse, “em tudo, a presença viva / da poesia de Drummond”, aparecendo aqui e ali e acolá na obra de Behr, a confissão se faz categórica numa entrevista:</p><p><strong>Drummond é meu ídolo</strong>. A pessoa e a obra de Drummond caminharam juntos. O que me fascina na poesia dele é porque, além da imensa qualidade, é extremamente acessível, fácil mesmo. Gosto da aspereza da poesia dele, daquele mal-estar permanente. E, na vida, ele não cagou regras, não virou medalhão nem acadêmico, não precisou de nenhum balangandã para ser poeta. Mas eu evito ler muito Drummond porque minha poesia fica pequenininha, me sinto diminuído. Aí, eu paro. Por isso, quando alguém fala ‘você é muito influenciado por Drummond!’, eu respondo: “Graças a Deus, imagina se fosse por Olavo Bilac!” (BEHR, in MARCELO, 2004, p. 49)<a
href="#_ftn5">[5]</a>.</p><p><strong>Entende-se, comumente</strong>, que o recurso da intertextualidade se associa a categorias como influência e subversão, gosto e erudição: há o desejo de se filiar a uma legitimada e legitimante genealogia e (quase) ao mesmo tempo de transgredir esta filiação. Nicolas Behr faz questão de mostrar seu gosto por Drummond: escolhe poemas conhecidos, cita-o como ídolo-mor, destaca nele o que ele, filho e idólatra, quer e crê ter: qualidade, acessibilidade, aspereza, liberdade, rebeldia, marginalidade. Todavia, o gesto parricida é inevitável para a sobrevivência: o filho deve ir aonde o pai não foi. (Ou, isto é o que importa, lá aonde eu afirmo que o pai não chegou.) Para que não precise pedir perdão pela covardia – “Sou o que não foi, o que vai ficar calado” (ROSA, 1988, p. 37) –, o poeta ousa, invade, rebela-se, e diz um amoroso e sonoro não ao nome do pai.</p><div
id="attachment_9323" class="wp-caption alignright" style="width: 330px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/francisco-kaq_poeta_.jpg"><img
class="size-full wp-image-9323" title="francisco kaq_poeta_" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/francisco-kaq_poeta_.jpg" alt="" width="320" height="240" /></a><p
class="wp-caption-text">Francisco Kaq, poeta.</p></div><p><strong>Para Harold Bloom</strong>, o<em> “</em>sublime, na poesia, é sempre o ponto da citação: da citação sublimada” (1991, p. 14), conquanto sua teoria da influência não seja uma teoria da <em>alusão</em> tampouco de <em>causação</em>. Bloom cria seis razões revisionárias para detectar o movimento da influência: <em>clinamen, tessera, kenosis, demonização, askesis</em> e <em>apophrades</em>. Deste “curioso bailado de figuras”, na irônica expressão de Laurent Jenny (1979, p. 8), parece que o movimento levado a cabo por Nicolas Behr foi o da <em>tessera</em>, que consiste num jogo de complementação e antítese: o poema segundo preserva os termos do primeiro, mas altera-lhes o significado, como se o precursor não tivesse ido longe o bastante. Téssera, desde o latim <em>tessera</em>, é exatamente isto: uma tabuinha que, na Roma antiga, servia como uma espécie de senha. Foi o que Nicolas fez, basicamente, ao retomar os poemas de Drummond: ainda que sob o signo do exagero, podemos dizer que a poesia de Drummond foi e é a “presença viva”, uma senha que Nicolas Behr elaborou para adentrar, a seu modo, a poesia brasileira. O Brasil e as Minas Gerais que Drummond pensa em seus versos retornaram em forma de Braxília, que é Brasília reinventada, sua Pasárgada, sua cidade visível (para lembrar o livro clássico de Calvino).</p><p><strong></p><div
id="attachment_9324" class="wp-caption alignleft" style="width: 510px"><strong><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/silviano-santiago_escritor_jpg.jpg"><img
class="size-full wp-image-9324" title="silviano santiago_escritor_jpg" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/silviano-santiago_escritor_jpg.jpg" alt="" width="500" height="425" /></a></strong><p
class="wp-caption-text">Silviano Santiago, escritor.</p></div><p>Não há como entender a obra</strong> de Behr sem atentar para este fenômeno de construção de uma utopia através da arte, em particular, da arte poética. E atentos estão aqueles que dela se avizinham: além do referido estudo de Gilda Furiati, destaquem-se também as pesquisas de Tiago Borges dos Santos (2008), de Laíse Ribas Bastos (2009) e de Francisco Kaq (2009)<a
href="#_ftn6">[6]</a> e, ainda, a edição já referida do livro <em>Nicolas Behr – eu engoli Brasília, </em>de Carlos Marcelo. Em todos, a onipresença da capital do país na poesia do autor de <em>Brasiléia desvairada </em>(e de <em>Porque construí Braxília, Poesia Pau-Brasília, Braxília revisitada </em>e <em>Brasilíada</em>) é mote incontornável para a reflexão crítica.</p><p><strong>Num dos aforismos</strong> de <em>Minima moralia </em>[1951], intitulado “<em>De gustibus est disputandum</em>” [1944], Adorno afirma que toda obra de arte, porque sempre cotejada com seus pares, quer “levar a morte a todas as outras” (2001, p. 73). Na verdade, o discurso da “incomparabilidade das obras de arte” camufla, para o filósofo, o desejo de “aniquilar-se umas às outras” (p. 73). Mais ainda: a obra de arte quer tudo, quer o seu próprio fim, superando, dessa maneira, a própria possibilidade de comparação. Esta vigorosa metáfora adorniana da arte – seja pelo gesto corriqueiro da comparação, seja pelo movimento agônico da destruição do outro ou mesmo da autodestruição como ápice da própria força – aponta para uma idéia, uma abstração, uma reflexão que, embora no plano concreto não ganhe correspondência prática (nem careça), leva longe o pensamento teórico sobre o mundo artístico, aqui distante de qualquer tom cordial.</p><p><strong>Nicolas Behr se apropria</strong>, sem pudores, da poesia drummondiana, ou seja, da poesia mais reconhecida e legitimada do país, com o intuito (mesmo não programático nem consciente) de sinalizar para uma radical diferença: o poeta mineiro atravessou décadas de Brasil, do início do século a 1987, quando falece, e seus versos testemunham, livro a livro, a passagem da história nacional e mundial pelo imaginário de um sujeito preocupado, sim, com as coisas, mas extremamente ensimesmado; o poeta cuiabano, desde 1977 e seu <em>Iogurte com farinha</em>, vem criando uma persona lírica irreverente e alternativa, com um grau altíssimo de comprometimento social, a ponto de fundar, livros a fio, uma cidade – Braxília – não somente para si, mas para todos aqueles que, adaptando frase memorável de Marx e Engels, querem interpretar o mundo <em>e</em> transformá-lo.</p><div
id="attachment_9325" class="wp-caption alignright" style="width: 358px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Italo_Calvino_1.jpg"><img
class="size-full wp-image-9325" title="Italo_Calvino_1" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Italo_Calvino_1.jpg" alt="" width="348" height="376" /></a><p
class="wp-caption-text">Italo Calvino, escritor e ensaista italiano.</p></div><p><strong>Como quem não quer nada</strong>, com sua poesia <em>fast-food</em> e fácil, Behr lança mão do recurso da intertextualidade não para fazer brilhar em seu texto o texto do cânone Drummond e assim angariar um capital simbólico para se manter na tribo. Talvez seja isto também. Mas, sobretudo, o poeta braxiliense quer nos fazer ver que qualquer modelo, mesmo o maior modelo, deve ser abalado, abalado por dentro, daí o engenho de reescrever o Brasil de um cético e inerte Drummond (porque há mais de sete faces) num outro Brasil de um militante poeta pelejador.</p><p><strong>Fique claro: </strong>nem entendo ter a poesia de Drummond um tom hegemonicamente alienado, dócil, conformista (o que seria ignorar a vastidão de seu projeto poético-pensante) (cf. DALVI, 2009), nem tampouco considero a poesia de Behr um exemplo clássico de rebeldia, engajamento, testemunho. Afirmo, e repito, que a apropriação dos quatro poemas de Drummond, explicitamente citados em <em>Laranja seleta</em>, se faz de forma interessada, com visível mudança da perspectiva ideológica (se a mudança é inevitável, porque a história atua na mentalidade dos homens, a perspectiva é imprevisível, porque cada homem se constitui como cidadão político a partir de forças múltiplas, absolutamente indomesticáveis).</p><p>O Brasil de Nicolas Behr se ergue sob a sombra da tradição, mas agora ganha novo rumo: não repete o refrão, não repete o estilo, não repete as idéias. Alimenta-se de tudo isto que vem do amigo, mas, feito um ímã que gira em torno do campo gravitacional, resiste a colar um polo noutro.</p><p><strong></p><div
id="attachment_9327" class="wp-caption alignleft" style="width: 707px"><strong><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Nicolas-Beher_camiseta_.jpg"><img
class="size-full wp-image-9327" title="Nicolas Beher_camiseta_" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Nicolas-Beher_camiseta_.jpg" alt="" width="697" height="523" /></a></strong><p
class="wp-caption-text">Camiseta com texto de Nicolas Behr, alusivo ao escândalo da quadrilha do panetone, que começa ir para a penitenciária da Papuda. (Nota da Redação).</p></div><p>O ilustre “poeta federal</strong>” vira “um poeta de uma cidade-satélite qualquer”; o entediado e metafísico José se transforma numa problemática e coletiva Brasília; o etéreo anjo torto que vive na sombra se reconfigura na concreta árvore torta que vive no cerrado; e o revoltado, mas retórico, “enterrado vivo” dá lugar a um sujeito com uma “vontade enorme / de caminhar entre as gentes e encontrar pessoas”. Mais que jogo, exibição ou disputa, a intertextualidade funciona como arma para matar o pai que se ama, pois o que ele diz e o modo como diz já são passado. Tanto quanto o Brasil, o tempo é a matéria de ambos – mas já não concordam em nada.  O vasto mundo de Carlos não cabe na cidade do outro, do filho prófugo. Ímãs, no entanto, não podem mais ir de mãos dadas. Não há saída: tão-somente desmentir o pai, sempre, para sempre encantoado.</p><p><strong>Referências</strong></p><p>ADORNO, Theodor. “O artista como representante” [1953]. <em>Notas de literatura I. </em>Tradução e apresentação: Jorge M. B. de Almeida. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2003, p. 151-164.</p><p>ADORNO, Theodor. <em>Minima moralia. </em>Tradução: Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 2001.</p><p>ANDRADE, Carlos Drummond de. <em>Antologia poética. </em>63ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2009.</p><p>ANDRADE, Carlos Drummond de. <em>Carlos Drummond de Andrade – poesia completa. </em>Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006.</p><p>BANDEIRA, Manuel. <em>Estrela da vida inteira</em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p. 188.</p><h4>BARBOSA, João Alexandre. <em>Alguma crítica. </em>Cotia, SP: Ateliê, 2002.</h4><p>BASTOS, Laíse Ribas. “Nicolas Behr: um (anti) dizer poético”. Disponível em <a
href="http://www.abralic.org.br/enc2007/anais/50/507.pdf">http://www.abralic.org.br/enc2007/anais/50/507.pdf</a>. Acesso em 27 junho 2009.</p><p>BEHR, Nicolas. “Entrevista”. In: MARCELO, Carlos. <em>Nicolas Behr – eu engoli Brasília. </em>Brasília: Ed. do Autor, 2004, p. 45-57.</p><p>BEHR, Nicolas. <em>Laranja seleta. </em>Rio de Janeiro: Língua geral, 2007.</p><p>BEHR, Nicolas. <em>Restos vitais. </em>Brasília: Ed. do Autor, 2005.</p><p>BEHR, Nicolas. <em>Umbigo. </em>Brasília: LGE, 2006.</p><p>BLOOM, Harold. <em>A angústia da influência – uma teoria da poesia.</em> Tradução e apresentação: Arthur Nestrovski. Rio de Janeiro: Imago, 1991.</p><p>BLOOM, Harold. <em>O cânone ocidental: os livros e a escola do tempo</em>. Tradução: Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995.</p><p>DALVI, Maria Amélia. <em>Drummond, do corpo ao </em>corpus<em>: </em>O amor natural<em> toma parte no projeto poético-pensante</em>. Vitória: Edufes, 2009.</p><p>FREITAS FILHO, Armando. <em>Raro mar</em>. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.</p><p>FURIATI, Gilda. <em>Brasília na poesia de Nicolas Behr: idealização, utopia e crítica</em>. Dissertação. Brasília, DF: UnB, 2007.</p><p>JENNY, Laurent. “A estratégia da forma”. In: <em>Poétique </em>27 – Intertextualidades. Tradução: Clara Crabbé Rocha. Coimbra: Livraria Almedina, 1979, p. 5-49.</p><p>KAQ, Francisco. “As cidades de Nicolas Behr”. Disponível em <a
href="http://www.nicolasbehr.com.br/pagartigos.htm">http://www.nicolasbehr.com.br/pagartigos.htm</a>. Acesso em 27 junho 2009.</p><p>KRISTEVA, Julia. <em>Introdução à Semanálise</em>. Tradução: Lucia Helena Franco Ferraz. São Paulo: Perspectiva, 1974.</p><p>LEMINSKI, Paulo. <em>Distraídos venceremos</em>. São Paulo: Brasiliense, 1987.</p><p><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/nicolas_behr_o-bagaço_da_laranja.jpg"><img
class="alignleft size-medium wp-image-9329" title="nicolas_behr_o bagaço_da_laranja" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/nicolas_behr_o-bagaço_da_laranja-300x204.jpg" alt="" width="300" height="204" /></a>MARCELO, Carlos. <em>Nicolas Behr – eu engoli Brasília. </em>Brasília: Ed. do Autor, 2004.</p><p>MEDEIROS, Fernanda Teixeira de. “Play it again, marginais”. <em>Poesia hoje</em>. Organização: In: Célia Pedrosa; Claudia Matos; Evando Nascimento. Niterói: EdUFF, 1998, p. 53-69.</p><p>MORICONI, Italo. <em>Como e por que ler a poesia brasileira</em>. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.</p><p>ROSA, Guimarães. <em>Primeiras estórias</em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.</p><p>SANT’ANNA, Affonso Romano de. <em>Carlos Drummond de Andrade: análise da obra</em>. 3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.</p><p>SANTIAGO, Silviano. &#8220;O intelectual modernista revisitado&#8221;. <em>Nas malhas da letra</em>. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 165-175.</p><p>SANTOS, Tiago Borges dos. <em>Lira Pau-Brasília: entre fardas e superquadras: poesia, contracultura e ditadura na Capital (1968-1981).</em> Dissertação (Mestrado). UnB, Brasília, DF, 2008.</p><hr
size="1" /><a
href="#_ftnref1">[1]</a> Cf. Pau-Brasília Viveiro Eco-Loja em <a
href="http://www.paubrasilia.com.br/">http://www.paubrasilia.com.br/</a> e também http://www.nicolasbehr.com.br/.</p><p><a
href="#_ftnref2">[2]</a> Polêmicas à parte, registre-se que na lista de 850 autores de <em>O cânone ocidental</em>, do citado Bloom (1995), só um brasileiro comparece: exatamente ele, Drummond. Ademais, para Italo Moriconi, em <em>Como e por que ler a poesia brasileira </em>(2002), o poema brasileiro do século XX é “A máquina do mundo”, o livro é <em>Claro enigma.</em> Logo, Moriconi parece concordar com verso de Armando Freitas Filho, em <em>Raro mar </em>(2006): “Drummond é o cara”.</p><div
id="attachment_9328" class="wp-caption alignright" style="width: 230px"><a
href="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/nicolas_behr_capa_jpg.jpg"><img
class="size-medium wp-image-9328" title="nicolas_behr_capa_jpg" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/02/nicolas_behr_capa_jpg-220x300.jpg" alt="" width="220" height="300" /></a><p
class="wp-caption-text">Capa do livro de Nicolas Behr.</p></div><p><a
href="#_ftnref3">[3]</a> Silviano Santiago vem estudando, com lucidez, ao longo de sua obra ensaística, as relações delicadas e perigosas entre o intelectual e o Estado brasileiros. Veja-se, por exemplo, &#8220;O intelectual modernista revisitado&#8221;, em <em>Nas malhas da letra </em>(1989).</p><h4><a
href="#_ftnref4">[4]</a> Cito verso final do poema “O teixugo estético”, de Christian Morgenstern, em tradução de Haroldo de Campos: “Um teixugo / sentou-se num sabugo / no meio do refugo /// Por que / afinal? /// O lunático / segredou-me / estático: /// O re- / finado animal / acima / agiu por amor à rima.” (apud: BARBOSA, 2002,<em> </em>p. 320).</h4><p><a
href="#_ftnref5">[5]</a> Em <em>Umbigo </em>(BEHR, 2006), dirá: “minha poesia tem inveja da poesia de drummond” (p. 9), “minha poesia tropeça na pedra que drummond colocou no meio do caminho” (p. 11) etc.</p><p><a
href="#_ftnref6">[6]</a> Aqui, por exemplo, lemos: “Braxília é não só imaginária, mas feita à medida do poeta: em sua grafia (como na pronúncia) já se inscreve a marca de singularidade pessoal. (&#8230;) Braxília é a utopia pessoal do poeta que amadureceu. Mas não deixa de manter tensões e atritos com a cidade real; até porque esta se tornou uma realidade mais dura, problemática e indiferente (mesmo sem ditadura)”.</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.nosrevista.com.br/2010/02/18/a-intertextualidade-como-engenho-o-brasil-de-drummond-na-braxilia-de-nicolas-behr/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>Um Pássaro que Voou Lonjuras</title><link>http://www.nosrevista.com.br/2010/01/12/um-passaro-que-voou-lonjuras/</link> <comments>http://www.nosrevista.com.br/2010/01/12/um-passaro-que-voou-lonjuras/#comments</comments> <pubDate>Tue, 12 Jan 2010 19:48:03 +0000</pubDate> <dc:creator>Expediente</dc:creator> <category><![CDATA[Ensaios]]></category><guid
isPermaLink="false">http://www.nosrevista.com.br/?p=8852</guid> <description><![CDATA[Por Carlos Alberto Dias*
Especial Para Nós – Fora dos Eixos
José Menezes de Morais. Quem conhece esse nome em Altos (PÍ)? Quem já leu um livro de sua autoria? Quem já viu um retrato seu? Quem é ele?
Eu lhes digo: Menezes y Morais (seu nome literário) é um altoense da gema, consagrado poeta, contista, romancista, [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<div
id="attachment_8854" class="wp-caption alignleft" style="width: 266px"><img
class="size-full wp-image-8854" title="menezes y morais_por_marilda campolino" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/01/menezes-y-morais_por_marilda-campolino1.JPG" alt=" 	Menezes y Morais, recital na Sala Funarte, em Brasília (DF). Por Marilda Campolino" width="256" height="688" /><p
class="wp-caption-text"> Menezes y Morais, recital na Sala Funarte, em Brasília (DF). Por Marilda Campolino</p></div><p>Por <strong>Carlos Alberto Dias</strong>*</p><p>Especial Para <strong>Nós – Fora dos Eixos</strong></p><p><strong> </strong></p><p>José Menezes de Morais. Quem conhece esse nome em Altos (PÍ)? Quem já leu um livro de sua autoria? Quem já viu um retrato seu? Quem é ele?</p><p>Eu lhes digo: Menezes y Morais (seu nome literário) é um altoense da gema, consagrado poeta, contista, romancista, jornalista e professor.</p><p><strong>É partidário </strong>da definição de Maiakovski, para quem &#8220;não existe arte revolucionária sem forma revolucionária&#8221;. Buscando as mais variadas modalidades de linguagem, mantem-se sempre atentamente &#8220;preocupado com as idéias, as formas e as renovações&#8221;, no dizer do poeta e magistrado Elmar Carvalho.</p><p><strong>Menezes </strong>y Morais foi um dos pioneiros da renovação poética no Piauí na década de 70, ao lado de Alcenor Candeira Filho, Paulo Machado, William Melo Soares, Nelson Nunes, Rubervam du Nascimento, Elmar Carvalho, Wilton Santos, Chico Castro, Beth Rêgo, Marleide Lins Albuquerque, Francisco Eduardo de Moraes Lopes, Ana Miranda, Zé Magão, Miso, Kenard Kruel, Albert Piauí, Arnaldo Albuquerque, dentre outros.</p><p><strong>Essa renovação</strong> deu-se com a eclosão do fenômeno chamado Literatura Marginal, que originou a Geração Mimeógrafo, definida por José Pereira Bezerra, em seu livro Anos 70: Por que Essa Lâmina nas Palavras (FCMC, Teresina &#8211; PI, 1993) como o &#8220;produto de um fenômeno cultural típico da segunda metade dos anos 70,&#8230; que se utilizava uma antiestética, anárquica e confusa, que incluía a tematização da realidade, produção autofinanciada de livros (sobretudo mimografados) e a veiculação e venda pessoalizada desses livros, além de uma postura integrada ao contexto sócio / político / cultural de seu tempo&#8221;.</p><p><strong>Nordestino</strong> pela gravidez de alto risco, como ele próprio diz, Menezes y Morais nasceu no solo da cidade de Altos, a 29 de julho de 1951.</p><p><strong>Cursou o ensino </strong>médio no Colégio Álvaro Ferreira, em Teresina (PÍ), cidade em que manteve intensa atividade cultural. Ali trabalhou no jornal O Dia, onde era responsável pela parte de Cultura e Artes, editando entre os ano de 1977 / 1878 uma página cultural.</p><p><strong>Em rascunhos </strong>para uma trova, o poeta nos dá uma dimensão do seu pensamento inquieto e revolucionário.</p><p>canto</p><p>despertar</p><p>a amanhã</p><p>c/ sua carga</p><p>revolucionária</p><p>de amor</p><p>y liberdade</p><p>radicalmente a favor</p><p>de tudo q/ é contra</p><p>a fria-longa noite</p><p>dos campos</p><p>fábricas</p><p>laresubúrbios</p><p>escolas templos prisões</p><p>canto</p><p>a negação do canto</p><p>sim, por que não</p><p>pela ternura (in) compreendida</p><p>dos Mortos</p><p>do novo mundo</p><p>república de todos um</p><p>olhos da liberdade</p><p>calor do sol.</p><p>(<strong>Jornal O DIA,</strong> Teresina &#8211; Pi, 13.7.1977).</p><p><strong>Afeito ao teatro</strong>, muito se interessou pela arte cênica, tendo representado e dirigido várias peças em grupos amadores.</p><div
id="attachment_8856" class="wp-caption alignright" style="width: 410px"><img
class="size-full wp-image-8856" title="menezes y morais_altos_jpg" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/01/menezes-y-morais_altos_jpg.jpg" alt="Menezes y Morais, recitando no 1º SaliAltos. Por Michelle Mascharenhas." width="400" height="300" /><p
class="wp-caption-text">Menezes y Morais, recitando no 1º SaliAltos. Por Michelle Mascharenhas.</p></div><p><strong>Mudando-se </strong>para a Capital Federal (Brasília) adquiriu licenciatura em História, pela Universidade de Brasília, onde ainda reside, milita na imprensa, participando do Sindicato da categoria e do Sindicato dos Escritores, que presidiu pelos idos de 1992, e é professor universitário.</p><p>Autor de vários livros, participou de mais de 13 antologias e tem poemas traduzidos para o espanhol.</p><p><strong>Seu primeiro </strong>livro, <em>Laranja Partida ao Meio</em>, foi editado em 1975, em mimeógrafo, com capa de Fábio Torres e contracapa de Arnaldo Albuquerque. Analisando-o, o poeta, contista e ensaísta José Pereira Bezerra fala que o mesmo &#8220;apresenta poemas e, sobretudo, uma prosa experimental, numa linguagem macarrônica, onde o autor expõe a sua cosmovisão&#8221;.</p><p><strong>Para Menezes </strong>y Morais, o que abre as portas para a verdadeira existência é a liberdade para viver.</p><p>senha da existência</p><p>o</p><p>que</p><p>se</p><p>basta</p><p>em</p><p>nome</p><p>da</p><p>vida</p><p>é</p><p>livre</p><p>para</p><p>a vida</p><p>que não</p><p>se basta</p><p>em si.</p><p>(<em>Outros Poemas</em>, 1992).</p><p><em></p><div
id="attachment_8857" class="wp-caption alignleft" style="width: 292px"><em><img
class="size-medium wp-image-8857" title="menezes y morais_capa_diário_JPG" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/01/menezes-y-morais_capa_diário_JPG-282x300.jpg" alt="Diário da Terra &amp; Cenas da Cidade Sitiada, de Menezes y Morais." width="282" height="300" /></em><p
class="wp-caption-text">Diário da Terra &amp; Cenas da Cidade Sitiada, de Menezes y Morais.</p></div><p>N&#8217;A Balada do Ser e do Tempo</em>, publicado em Brasília e Teresina, o poeta escreve o mesmo poema ao longo das 81 páginas do livro, &#8220;sem a preocupação com a organicidade do tema&#8221;, tendo sido produzido &#8220;entre os anos de 1966 e 1986&#8243;, no dizer do próprio autor. Na dedicatória, ele diz que:</p><p>ser é</p><p>brinquedo</p><p>do tempo</p><p>o tempo</p><p>é invenção</p><p>da existência</p><p><strong>Já desenvolvendo </strong>o poema, Menezes y Morais traça um perfil do homem em seus aspectos social, político, econômico e, acima de tudo, humano:</p><p>existe uma coisa tão grande</p><p>que só cabe dentro d&#8217;um homem</p><p>haverá um tempo em que todos seremos todos</p><p>na infinita totalidade do ser</p><p>&#8230;</p><p>o homem</p><p>de fome</p><p>ao homem</p><p>&#8230;</p><p>o homem</p><p>de homem</p><p>ao nome</p><p>o nome</p><p>de homem</p><p>ao homem</p><p>a fome</p><p>de nome</p><p>ao homem</p><p>a fome</p><p>de homem</p><p>ao homem</p><p>o homem</p><p>de fome</p><p>à fome</p><p>o homem</p><p>de nome</p><p>à fome</p><p>o nome</p><p>de fome</p><p>ao homem</p><p><strong>Pessimista?</strong> Não. Realista. No conto Conversa na Esquina (de três linhas apenas), do livro O Suicídio da Mãe Terra, vemos a dura vida em suas vielas:</p><p>- e aí?</p><p>- dei sei tiros; morreu sem um gemido.</p><p>- jóia.</p><p><strong>Realidade esta</strong> endossada no livro-poema A Balada do Ser e do Tempo:</p><p>nem só de precisão vive o homem</p><p>além desta existem outras misérias.</p><p><strong>Publicou </strong>vários livros, dentre os quais: 1964 &#8211; Poemas do Sufoco (1986); Laranja Partida ao Meio (1978); Pássaros da Terra com Paisagens Humanas (1982); Diário da Terra &amp; Cenas da Cidade Sitiada (1984); A Balada do Ser e do Tempo (1986/87); O Suicídio da Mãe Terra (1980), contos; O roque da massa falida (1992); O Livro das Canções de Amor &amp; e Outros Cantares de Igual Teor (1990); Na Micropiscina da Lágrima Feliz (1999) e outros.</p><div
id="attachment_8858" class="wp-caption alignleft" style="width: 236px"><img
class="size-full wp-image-8858" title="menezes y morais_capa_paulo yolovitch_" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/01/menezes-y-morais_capa_paulo-yolovitch_1.jpg" alt="Menezes y Morais, capa de Por Favor, Dirija-se a Outro Guichê. Por Paulo Yolovitch." width="226" height="159" /><p
class="wp-caption-text">Menezes y Morais, capa de Por Favor, Dirija-se a Outro Guichê. Por Paulo Yolovitch.</p></div><p><strong>Participou </strong>das antologias: Tudo é Melhor que Nada (1974); Aviso Prévio (1977); Ô de Casa (1977); Descartável (1979); O Rio (1980); Piauí: Terra, História e Literatura (1980), organizado por Francisco Miguel de Moura; Poetas Brasileiros Hoje; Literatura Brasileira &#8211; Volume I; 27 Po(rr)etas; Outros Poemas; Antologia Poética Piauí / Ceará &#8211; Projeto Mão Dupla (1994) e Baião de Todos (1996), ambos organizados por Cineas Santos, além da Antologia da Nova Poesia Brasileira (1992), organizada por Olga Savary.</p><p><strong>Figura nos livros</strong> <em>Anos 70? Por que Essa Lâmina nas Palavras?</em> (1993), de José Pereira Bezerra, e <em>A Poesia Piauiense no Século XX</em> (1995), de Assis Brasil.</p><p><strong>É verbete </strong>no Dicionário Biográfico Escritores Piauienses de Todos os Tempos (1995), de Adrião Neto.</p><p><strong>Na Antologia </strong><em>Ô de Casa</em><strong>!</strong> (Editora Nossa, Coleção Ciranda, Comepi, Teresina, 1977), Menezes y Morais noticia a existência de outros trabalhos, como: Organização Geral dos Seres Vivos (poemas): <em>Homocobaias</em> (romance) e <em>A História é o Povo em Movimento, Lembra?</em> (romance).</p><p><strong>De visão </strong>ampla, o poeta altoense preocupa-se com o meio ambiente e a vida comunitária de nossa gente.</p><p>No poema <em>De um Povo de lugar</em> <em>II</em> sua preocupação com a ecologia &#8220;se dá num contexto ideologicamente onde a natureza e o coletivo são duas faces que se comunicam e se resolvem&#8221; (J Pereira Bezerra, in Anos 70:&#8230;):</p><p>nada de aerosol</p><p>queremos o supermercado no quintal</p><p>natural e coletivo</p><p>nada de radioatividade</p><p>&#8230;</p><p>queremos o sol</p><p>em sua forma</p><p>nativa.</p><p>(<em>Aviso Prévio</em>, 1977).</p><p><strong>Também </strong>no<strong> </strong><em>Cântico dos Prantos</em>, da antologia <em>O Rio</em>, podemos verificar este sentimento de alerta e amor à natureza:</p><p>1 &#8211; da geografia dos rios</p><p>os rios conhecem a terra</p><p>musgos, relvas, pradarias.</p><p>ribanceirando os caminhos</p><p>ao encontro de outros rios.</p><p>&#8230;</p><p>desmatamentos, queimadas, esgotos</p><p>indústrias. roubo de areia</p><p>dos leitos para as caras moradias</p><p>canais de fezes, do mundo,</p><p>cercas, nada disso impede os rios</p><p>2 &#8211; o movimento dos peixes</p><p>os rios têm o seu povo</p><p>universos que se agitam</p><p>no milagre da existência</p><p>da vida de todo dia.</p><p>&#8230;</p><p>choram o verde que era verde</p><p>e hoje é seca, cinza, prantos.</p><p>choram os meninos travessos</p><p>que aplacam a ira dos rios.</p><p>choram os meninos e os bêbados</p><p>que morrem nas águas vadias,</p><p>nas águas da morte funda</p><p>da terra sem moradia.</p><p>3 &#8211; o tempo social dos rios</p><p>os rios choram seus mortos</p><p>nas enchentes e marés,</p><p>os rios cantam seus mortos</p><p>nas chuvas das cabeceiras.</p><p>lamento das lavadeiras</p><p>no barulho dos anzóis</p><p>nos esgotos que recebem</p><p>nas barragens que constroem.</p><p>&#8230;</p><p>é para os rios que convergem</p><p>as lavadeiras do Brasil.</p><p>assembléia de mães pobres</p><p>confluência da esperança.</p><p>com o sabão da miséria</p><p>i a grandeza cotidiana das mãos</p><p>ensaboam e enxagoam</p><p>a sujeira dessa vida.</p><p>vida de pobres e ricos</p><p>de dores y alegrias.</p><p>&#8230;</p><p>nesses tempos de miséria</p><p>os rios são o choro da terra.</p><p><strong>Seu conto </strong><em>A Concha Uniformizada</em> é uma retratação crítica e fabulada da situação político-administrativa do Brasil, apresentando o cidadão como ser de sua história: “a formiga 716 olhou bem o que tinha nas mãos e ainda não entendeu direito”. ser fiel ao teu governo, não desrespeitar as leis, cumprir todas as normas, dizia o manual de instruções. ela vinha se perguntando se tinha algum sentido todas as formigas repetir a mesma coisa todos os dias. olhou, re-olhou, jogou o manual fora. disse consigo: &#8220;eu liberdade universo&#8221;.</p><div
id="attachment_8859" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img
class="size-medium wp-image-8859" title="menezes y morais_5_" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/01/menezes-y-morais_5_2-300x200.jpg" alt="Menezes y Morais, na redação da Nós - Fora dos Eixos. Por Victor Tagore." width="300" height="200" /><p
class="wp-caption-text">Menezes y Morais, na redação da Nós - Fora dos Eixos. Por Victor Tagore.</p></div><p><strong>Segue </strong>o conto narrando toda a luta travada pela formiga 716 na peleja de organizar o formigueiro para lutar por sua liberdade e seus direitos. tendo saldo positivo, com a ruína do império, a 716, presa e condenada à morte, descansa vitoriosa: &#8220;já fiz meu papel somei meu universo ao universo do meu povo e a minha descoberta se completou com a vontade de todos e ganhamos forma de luta. aqui encerro meu drama enquanto estou vivendo o ato maravilhoso da descoberta do ser e do mundo&#8221;.</p><p><strong>Do gênio </strong>de Souzandrade, Menezes y Morais busca todas as formas de linguagem e cai no bloco de rua que tenta repensar a vida, diz ele próprio em sua autoapresentação, afirmando que &#8220;&#8230; se a poesia é razão e emoção, matéria e espírito, lógica e acaso &#8211; entre outros elementos &#8211; o Poeta nada mais é do que a poesia em si. O Poeta nada mais é do que um instrumento de Deus para a poesia nossa de cada dia&#8221;.</p><p><strong>Os poemas transcritos abaixo</strong> bem traduzem sua concepção filosófica:</p><p>hai cais ocidentais</p><p>quando os milhos</p><p>milharem</p><p>colherei teu ser</p><p>manhã se primavera</p><p>cadê a paz e a calma</p><p>que a alma espera?</p><p>o dia em cio</p><p>meus olhos vadios</p><p>em tua poesia</p><p>(<em>Outros Poemas</em>, 1992)</p><p><em>mad in</em></p><p><em> terra (anún</em></p><p><em> cios classficados</em>)</p><p>fabricamos os melhores homens</p><p>do planeta. entre e teste um: ajeite o</p><p>míssil dirigível à sua maneira. seriva-se, bem fre</p><p>guês: a nossa experiência é mundialmente comprovada em</p><p>duas grandes guerras e milhares de guerras menores. mas todas com</p><p>incríveis resultados. consulte os nossos catálogos (mesmo sem compro</p><p>missos) e veja q maravilha de preços: sem entrada sem juros sem correção.</p><p>fabricamos os melhores homens do planeta: poliglotas; de nível superi</p><p>or; capazes de manter sob seus controles quaisquer situações ab</p><p>solutamente incontroláveis; especialistas em questões externas</p><p>e de segurança interna; exímios atiradores; homens de fi</p><p>bras de aço, talhados com as mais modernas emoções</p><p>da cibernética. enfim: o homem do futuro es</p><p>tá ao seu alcance. a nossa garantia é</p><p>total. aproveite e teste um. com</p><p>pare as nossas ofertas: gran</p><p>de liquidação: o senhor</p><p>não paga. a morte</p><p>e cortesia</p><p>da ca</p><p>sa</p><p>(<em>A Balada do Ser e do Tempo</em>, 1986)</p><p><strong>Sendo </strong>o mais expressivo nome de nossas letras, o escritor, professor e jornalista Menezes y Morais alcançou projeção nacional e até internacional. Foi presidente do Sindicato dos Escritores no Distrito Federal (SEDF).</p><p>&#8220;Todas às vezes que o Menezes vem a Altos, ele chora&#8221;, revelou-me o poeta William Melo Soares.</p><p><strong>Nas páginas </strong>47-48<strong> </strong><em>d&#8217;A Balada do Ser e do Tempo</em> ele dá um mergulho na infância passada na terra natal:</p><p>manhãs aguadas de tempo e os mangueirais da</p><p>terra no cio do vento e os passarinhosangrando</p><p>os frutos do sol que alimentam</p><p>os dias os seres soldados na usina do tempo</p><p>do tempo passado a limpo no corpo da gente</p><p>o tempo oficina de tudo onde a vida se reinventa</p><p>e os frutos eternos ciciando o vento</p><p>explodem em fogo água ar semente</p><p>um homem caminha lento nas ruas do tempo</p><p>do menino nascido em Altos</p><p>ficou a infância</p><p>cinema da existência</p><p>e esta simples</p><p>lição de vida</p><p><strong>Este arredio </strong>altoense parece ter resumido num dos poemas que faz a sua biografiua:</p><p>eu sou apenas um pássaro que pousou livre</p><p>na janela</p><p>do seu coração</p><p>mas você não viu</p><p>e eu avoei lonjuras</p><p>da gaiola dos seus olhos.</p><p><img
class="alignleft size-medium wp-image-8855" title="carlos dias_professor_escritor_jpg" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/01/carlos-dias_professor_escritor_jpg-300x225.jpg" alt="carlos dias_professor_escritor_jpg" width="300" height="225" />*<strong>Carlos Alberto Dias</strong> é escritor, pesquisador e professor.</p><p><strong>Serviço</strong></p><p>Este estudo, ampliado por Carlos Alberto Dias, foi apresentado em forma de palestra para saudar Menezes y Morais, durante a abertura do 1º SaliAltos (Salão do Livro de Altos (PÍ), realizado no período de 13 a  15 de novembro de 2009, no qual o poeta foi homenageado). O texto foi publicado inicialmente em<a
href="http://www.krudu.blogspot.com/"> www.krudu.blogspot.com</a></p><p>Sobre os livros <em>Por Favor, Dirija-se a Outro Guichê</em> (teatro) e <em>Diário da Terra &amp; Cenas da Cidade Sitiada</em> (poesia e fotografia) acesse:</p><p><a
href="http://www.thesaurus,com.br/">www.thesaurus,com.br</a></p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.nosrevista.com.br/2010/01/12/um-passaro-que-voou-lonjuras/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>1</slash:comments> </item> <item><title>Catarse e Testemunho Existencial</title><link>http://www.nosrevista.com.br/2009/10/06/catarse-e-testemunho-existencial/</link> <comments>http://www.nosrevista.com.br/2009/10/06/catarse-e-testemunho-existencial/#comments</comments> <pubDate>Tue, 06 Oct 2009 18:47:20 +0000</pubDate> <dc:creator>Expediente</dc:creator> <category><![CDATA[Ensaios]]></category><guid
isPermaLink="false">http://www.nosrevista.com.br/?p=6520</guid> <description><![CDATA[Ronaldo Cagiano *
Especial para Nós &#8211; Fora dos Eixos
Das muitas leituras que podemos fazer de uma trajetória de vida ou de uma obra literária, a que melhor pode refletir o homem ou definir o escritor é o sentimento de indignação. Refiro-me àquele que nasce do espírito e da consciência de quem, ao olhar o mundo, [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><strong>Ronaldo Cagiano </strong>*<br
/> Especial para <strong>Nós &#8211; Fora dos Eixos</strong></p><div
id="attachment_6521" class="wp-caption alignleft" style="width: 102px"><img
class="size-full wp-image-6521" title="emanuelmedeirosvieira.FotoSite-1" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2009/10/emanuelmedeirosvieira.FotoSite-1.jpg" alt="Emanuel Medeiros Vieira" width="92" height="115" /><p
class="wp-caption-text">Emanuel Medeiros Vieira</p></div><p>Das muitas leituras que podemos fazer de uma trajetória de vida ou de uma obra literária, a que melhor pode refletir o homem ou definir o escritor é o sentimento de indignação. Refiro-me àquele que nasce do espírito e da consciência de quem, ao olhar o mundo, é capaz de extrair dessa mirada a sua permanente visão crítica, como farol para seu posicionamento diante das questões que afetam o homem, o mundo e as instituições.</p><p>A vida e a literatura de Emanuel Medeiros Vieira, autor de cerca de duas dezenas de livros, é ressonância de sua imensa preocupação com o homem e sua transitoriedade. No conto, na poesia, no romance, na crônica ou nas intervenções jornalísticas, percebe-se um escritor mergulhado profundamente nas questões cruciais que dizem respeito ao ser e seu lugar no mundo.<br
/> <strong></strong></p><p><strong>HERDEIRO DE UMA TRADIÇÃO</strong></p><p>Herdeiro de uma tradição literária humanista, Emanuel vem construindo sua bibliografia dentro de uma perspectiva crítico-filsófica em que a problemática existencial é tema recorrente em sua obra. A passagem do tempo, a morte, o sucateamento dos valores éticos e morais, o enterro das utopias, a incomunicabilidade do homem contemporâneo na sociedade globalizada (seduzido pelos fetiches do deus-mercado) e seu consequente isolamento num tempo de coisificação e etiqueta vêm sendo mapeadas pelo autor desde seus primeiros trabalhos poéticos e ficcionais.</p><div
id="attachment_6522" class="wp-caption alignright" style="width: 160px"><img
class="size-thumbnail wp-image-6522" title="emanuel medeiros_cerrado_desterro_" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2009/10/emanuel-medeiros_cerrado_desterro_-150x150.jpg" alt="Cagiano vê na obra de EMV um &quot;testemunho&quot; diante da vida. Este romance foi publicado pela Thesaurus.Confira:www.thesaurus.com.br" width="150" height="150" /><p
class="wp-caption-text">Cagiano vê na obra de EMV um &quot;testemunho&quot; diante da vida. Este romance foi publicado pela Thesaurus. Confira:www.thesaurus.com.br</p></div><p>Ainda há pouco, Emanuel experimentou uma prova de fogo em sua caminhada. Vitimado por uma infecção que afetou todo seu metabolismo, viveu seu apartheid psicológico num leito de hospital por algumas semanas. Nesse período, considerado um divisor de águas em sua vida, escreveu um obra tão pungente quanto arrebatadora, em que passou em revis(i)ta à sua trajetória pessoal e intelectual, legando um testemunho literário emocionante, inventário e balanço dessa terrível travessia. Cerrado desterro (Ed. Thesaurus, DF, 2008), primeiro volume de uma obra de cunho memorialístico e intimista, mas sem o vezo da autocomiseração ou sentimentalismo, abriga densa e (in)tensa indagação existencial. Vieira nos dá a conhecer a sua terrível experiência da enfermidade, ao mesmo tempo em que faz um meticuloso e introspectivo encontro de contas com o passado (tanto o pessoal como o político). Nesse texto candente, rememora suas lutas, discute temas hoje tão negligenciados na literatura e na arte, percorre os tempos difíceis da ditadura (quando colocou sua palavra a serviço da luta e da esperança), relembra os amigos, os livros de cabeceira, os autores que influenciaram sua formação moral, espiritual e filosófica e as relações afetivas e culturais.  Nesse trânsito entre o passado e o presente, flertando com a realidade, a invenção e a memória, expõe a coerência dos propósitos que não morrem, sem envergonhar-se das ilusões que ainda alimentam sua alma, porque, apesar das contradições e dicotomias da era moderna, ainda crê na vida e faz da literatura sua catarse, seu salto dialético, sua ponte sobre os escombros da própria civilização.</p><p><strong>TESTEMUNHO</strong></p><p>Todo o trabalho de Emanuel, desde seus primórdios como estudante em Florianópolis ou Porto Alegre até radicar-se em Brasília, onde desde 1979 exerce a assessoria de imprensa na Câmara dos Deputados, é um testemunho de seu inesgotável “sentimento do mundo”. Em seus livros, o poema ou a narrativa não se esgotam num simples projeto editorial ou mercadológico, é uma confissão íntima, uma declaração e uma confiança no trabalho criativo como êmulo de sua razão de ser e viver. Como Alfredo Bosi, que entende que “só a arte é capaz de tirar o homem de sua total imbecilidade”, ou Fernando Pessoa, para quem “toda literatura é sempre uma expedição à verdade”, Emanuel concebe seus livros como instrumento para se entender o mundo, para vencer a solidão, para compreender nossas fraquezas e limitações e, acima de tudo, para ir fundo, cada vez mais fundo, doa o que doer – e a quem doer – naquilo que incomoda, avilta, humilha e nos apequena, seja na vida, na literatura, na política ou na história das instituições. Seus livros, como um rio, como um mosaico, são vertentes e repositório de seu fluxo onírico, são expansões de seu aguçado senso de observação, são contundentes e vulcânicas extrapolações de um inconsciente que vasculha os escuros da alma, os infernos da vida e as mazelas da morte.</p><p>Com sua prosa visceralmente inquieta (e inquietante), Medeiros Vieira deixa uma valiosa contribuição, como autor e como homem, à inteligência e à bibliografia nacional, embora injustamente negligenciado pela lógica editorial do hegemônico e monopolista eixo Rio-SP. Seus livros são um repositório de idéias, sonhos, posições e preocupações com o nosso destino, o que mais uma vez se confirma no recém-lançado romance Olhos azuis, ao sul do efêmero (Thesaurus Editora de Brasília, 2009), quando retoma a sua inesgotável capacidade ficcional e fabulatória, sem deixar de lado nas suas histórias o viés que sempre deve marcar a passagem do homem pela Terra, que é jamais perder sua disposição para se indignar diante das injustiças, do caos,  do fracasso das ideologias e da derrocada dos valores. Como Borges, o autor catarinense  também entende que “A literatura é revanche de ordem mental contra o caos do mundo.”</p><p><img
class="alignleft size-thumbnail wp-image-6523" title="Ronaldo-Cagiano" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2009/10/Ronaldo-Cagiano-150x150.jpg" alt="Ronaldo-Cagiano" width="150" height="150" />* Ronaldo Cagiano é escritor.</p><p>Autor de Canção Dentro da Noite</p><p>(poesia) e Dezembro Indigesto (contos),</p><p>dentre outros.Morou muito tempo</p><p>em Brasília (DF). Depois mudou para</p><p>São Paulo.</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.nosrevista.com.br/2009/10/06/catarse-e-testemunho-existencial/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>A Arquitetura Lírica da Poesia de João Carlos Taveira</title><link>http://www.nosrevista.com.br/2009/09/21/a-arquitetura-lirica-da-poesia-de-joao-carlos-taveira/</link> <comments>http://www.nosrevista.com.br/2009/09/21/a-arquitetura-lirica-da-poesia-de-joao-carlos-taveira/#comments</comments> <pubDate>Mon, 21 Sep 2009 18:24:51 +0000</pubDate> <dc:creator>Redação</dc:creator> <category><![CDATA[Ensaios]]></category><guid
isPermaLink="false">http://www.nosrevista.com.br/?p=6026</guid> <description><![CDATA[Por Wilson Pereira *
Especial para Nós – Fora dos EixosA produção poética brasileira, significativa tanto em termos de quantidade quanto de qualidade, é também representativa na diversidade de estilos.
Do início da segunda metade do século passado, quando surgiram as manifestações e produções poéticas de vanguarda, especialmente com o concretismo, passando, em seguida, pela poesia práxis, [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por Wilson Pereira *</strong><br
/> Especial para <strong>Nós – Fora dos Eixos<br
/> </strong></p><div
id="attachment_6027" class="wp-caption alignleft" style="width: 160px"><img
class="size-thumbnail wp-image-6027" title="taveira.foto.1" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2009/09/taveira.foto.11-150x150.jpg" alt="João Carlos Taveira" width="150" height="150" /><p
class="wp-caption-text">João Carlos Taveira</p></div><p>A produção poética brasileira, significativa tanto em termos de quantidade quanto de qualidade, é também representativa na diversidade de estilos.</p><p>Do início da segunda metade do século passado, quando surgiram as manifestações e produções poéticas de vanguarda, especialmente com o concretismo, passando, em seguida, pela poesia práxis, o poema-processo, o neo-concretismo e, depois, nos anos setentas, pela chamada poesia marginal, têm coexistido diversas formas de expressão poética.</p><p>Ao lado dessa poesia de caráter experimental, que vigorou com maior força de penetração nos meios literários até a década de 1980, mas com ecos ainda nos dias atuais, vem sendo produzida a poesia de estrutura tradicional, elaborada em  estrofes e versos com ritmo, rima e, até, métrica, pois mesmo o velho e bom soneto, combatido pelos modernistas de 22, retomado pela Geração de 45, renegado aqui e ali por alguns vanguardistas, vem sendo praticado como forma legítima e bem aceita de construção poemática.</p><div
id="attachment_6028" class="wp-caption alignright" style="width: 160px"><img
class="size-thumbnail wp-image-6028" title="manoeldebarros.foto.1.vari" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2009/09/manoeldebarros.foto.1.vari-150x150.jpg" alt="Manoel de Barros" width="150" height="150" /><p
class="wp-caption-text">Manoel de Barros</p></div><p><strong>EM BUSCA DA ORIGINALIDADE<br
/> </strong><br
/> Enfim, parece que as investidas vanguardistas em busca da originalidade como valor maior, se não único, de criação artística, esbarraram nos limites próprios da linguagem verbal, esgotaram-se. Fica, no entanto, a par e dentro desses limites estruturais, semióticos, a busca por uma expressão poética pessoal, que é, enfim, o que justifica a produção da obra de arte genuína, senão não seria criação, mas tão-somente cópia.</p><p>Essa busca passa a ser mais por uma semântica poética, por um significado, um conteúdo, que emana de uma forma elaborada em linguagem apropriada. E, no caso da poesia, a linguagem deve re)vestir-se de um tecido metafórico, figurado, conotativo, capaz de produzir no leitor a contemplação artística, a surpresa, o embevecimento, o espanto estético.</p><p>E é daí que, dependendo da criatividade (em pouquíssimos casos da genialidade) do autor, surge o novo, o inusitado, para bulir com a sensibilidade, com a intersubjetividade do receptor da obra de arte.</p><p>A procura da originalidade na obra de arte, especialmente na poesia, é tema complexo, que mereceria pesquisa exaustiva com as considerações pertinentes. No entanto, resvalo na questão por pura elucubração teórica, de pretensões menores.</p><p>E me vem,  a propósito, que seria impossível hoje, depois de mais meio milênio de literatura produzida no Ocidente, alguém arvorar-se a inventor de uma nova “roda” no universo literário.</p><p><strong>MANOEL DE BARROS<br
/> </strong><br
/> Caso interessante, a esse respeito, na literatura brasileira, é a poesia do mato-grossense Manoel de Barros que, com seu alogicismo semântico, sua cata de inutilidades poéticas, em contraponto com o sóbrio, o profundo, o filosófico, com os temas grandiosos ou edificantes da humanidade, faz pressupor uma extraordinária inovação.</p><p>No entanto, um olhar mais cuidadoso pode  encontrar raízes desse jeito novo de dizer poético em outros poetas como Murilo Mendes, Jorge de Lima, Manoel Bandeira e Mário Quintana, isso sem falar na visível influência que recebe aquele poeta de Guimarães Rosa.</p><p>E isso, vale ressaltar, não diminui o valor de Manoel de Barros, como bom poeta que é, mas mostra que, mesmo sendo um dos mais ousados e criativos dos últimos tempos, não é tão original quanto se poderia a princípio supor. A questão, porém, para encerrar essa pequena provocação crítica, é o que se propõe o poeta a fazer com o que catou, com o que absorveu em suas leituras e como transformar em novidade ou, pelo menos, como, enfim, recriar o impacto da arte.</p><p><strong><img
class="alignleft size-full wp-image-6030" title="taveira,captadoarquitetura.1491" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2009/09/taveiracaptadoarquitetura.1491.jpg" alt="taveira,captadoarquitetura.1491" width="200" height="196" /> ARQUITETURA DO HOMEM<br
/> </strong><br
/> As considerações acima me vêm como pretexto para um breve comentário sobre Arquitetura do Homem, último livro de poemas de João Carlos Taveira.  Com bela capa e acabamento gráfico primoroso, traz o conjunto de poemas distribuídos em 5 partes: “Da eterna construção”; “Da inútil arquitetura”; “Das imprecações”; “De novo a música e as incertezas” e “De sonetos e haicais”.</p><p>Assentada nos pilares sugeridos pelos subtítulos do livro, ou seja, pelos títulos das partes, e seguindo a lírica tradicional que sempre caracterizou desde o primeiro livro a safra poética do autor, a poesia deste novo livro comunica um sentido palpitante de vida e de suas ressonâncias, de suas buscas e perdas, de sua constante construção e da inevitável caminhada dos seres e das coisas para o fim.</p><p>O poeta Taveira é desses que escreve antes para expressar o que lhe brota da alma sensível, como necessidade de comunhão artística, com viés existencialista, do que para exibir sua habilidade de construir o verso, o que, aliás, faz muito bem. Sua poesia surge, portanto, carregada de significados íntimos e sugestivos da condição do ser perante o mundo.</p><p>Como nota o admirável poeta e crítico de poesia Anderson Braga Horta, no texto impresso na orelha do volume: “Assim, sua poesia agrada pelo equilíbrio formal e pelo sentido existencial que a forma veicula, depurado em essência poética.”</p><p>De fato forma e conteúdo se harmonizam de maneira que os poemas expressam, numa  linguagem de ritmo fluente, com metáforas sugestivas, mas sem sofisticações impertinentes, um sentido de imediata absorção e, ao mesmo tempo, de conotações sutis e, às vezes, surpreendentes, para a fruição refinada, de leitores mais exigentes de poesia.</p><p><strong>ARTESÃO DA PALAVRA<br
/> </strong><br
/> O poeta Ronaldo Costa Fernandes, que também assina texto de apresentação do livro, ressalta: “É João Carlos Taveira um exímio artesão da palavra poética, reinventando a tradição sem perda da contemporaneidade. Verso musical, sonoro, rítmico, construído a partir de uma conjunção feliz de tema e expressão poética”.</p><div
id="attachment_6031" class="wp-caption alignleft" style="width: 160px"><img
class="size-thumbnail wp-image-6031" title="quintana1" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2009/09/quintana1-150x150.jpg" alt="Mário Quintana" width="150" height="150" /><p
class="wp-caption-text">Mário Quintana</p></div><p>Taveira, consciente de que a poesia não é feita de arroubos ou bravatas, nem pirotecnias verbais, como os poemas-piada, os trocadilhos fáceis, os protestos sem destino certo, nem tampouco de meras aparências visuais e fônicas, declara, na abertura do poema “Novíssima poética”: “Não sou conservador/ nem progressista: sou poeta”.</p><p>Boa poesia se faz especialmente com metáforas, com os recursos expressivos da linguagem figurada. E há nos poemas de Arquitetura do Homem passagens dignas que bem demonstram o teor metafórico com o que poeta  reveste sua poesia.</p><p>Veja o leitor os seguintes exemplos: “Em proporção aritmética/ o boi me parecia ter crescido/ centímetros acima do espanto. / As casas já podiam/ ser desvendadas/ do alto dos meus sonhos.” (do poema “Autoconhecimento”, p.35); “As paredes sem cal/ erguidas dentro do tempo, / se vestem de fuligem, / assombrações e morcegos.” (do poema “A Máquina”, p.37) “Guarda teu boi/ de espuma e vento/ dentro da nuvem/ branca, da nuvem/  que se formou/ sobre o papel.” (do poema “Adágio para Oboé”).</p><p><strong>ARTIMANHAS DA LINGUAGEM<br
/> </strong><br
/> A aparente simplicidade – aparente porque, como já assinalado, o poema, mesmo sendo acessível ao leitor não especializado, carreia em seu bojo sutilezas, enigmas, sugestões e subjetividades só alcançáveis por olhos mais afeitos às artimanhas da linguagem poética – é uma conquista e não demérito como pensam alguns.</p><p>Penso no poema “Ismália”, que vem encantando gerações de leitores há mais de um século. É um poema simples, mas de uma simplicidade profundamente poética e comovente pela situação que expressa. Penso também em Cecília Meireles: “Eu não tinha este rosto de hoje (&#8230;)”, penso em Manoel Bandeira, em Mário Quintana, poetas que encantam tanto leitores simples quanto críticos e professores de literatura.</p><p>Boa parte da poesia de qualidade, em geral, tem o mérito de servir a uma leitura contemplativa, capaz de encantar e comover, logo de saída, e também de se sujeitar a uma leitura crítica, para análise de seus elementos estruturais e suas reverberações semânticas.</p><p>Pois bem, a poesia de João Carlos Taveira, bem arquitetada, se desenha com linhas claras, transparentes, que deixam ver em seu interior a essência lírica, de edificante sentido humano.</p><p><img
class="alignleft size-thumbnail wp-image-6029" title="wilson_pereira" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2009/09/wilson_pereira-129x150.jpg" alt="wilson_pereira" width="129" height="150" />* <strong>Wilson Pereira</strong>,</p><p>associado da Associação</p><p>Nacional de Escritores,</p><p>é poeta, contista,</p><p>ensaísta, professor</p><p>e autor de livros infanto-juvenis.</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.nosrevista.com.br/2009/09/21/a-arquitetura-lirica-da-poesia-de-joao-carlos-taveira/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>A Inocência de Pensar</title><link>http://www.nosrevista.com.br/2009/08/28/a-inocencia-de-pensar/</link> <comments>http://www.nosrevista.com.br/2009/08/28/a-inocencia-de-pensar/#comments</comments> <pubDate>Fri, 28 Aug 2009 20:21:55 +0000</pubDate> <dc:creator>Expediente</dc:creator> <category><![CDATA[Ensaios]]></category> <category><![CDATA[Lançamentos]]></category> <category><![CDATA[Literatura]]></category><guid
isPermaLink="false">http://www.nosrevista.com.br/?p=5525</guid> <description><![CDATA[Da Redação,
Com Carmen Barreto, divulgaçãoA Inocência de Pensar é o novo livro de ensaios do poeta, editor, compositor, ensaísta e tradutor de Floriano Martins. O livro  assume a forma de um álbum crítico de retratos, com suas anotações sobre vida e obra dos personagens abordados.
Na maioria, os textos são diálogos com outros estudiosos – tais [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><strong>Da Redação,<br
/> Com Carmen Barreto, divulgação<br
/> </strong></p><div
id="attachment_5526" class="wp-caption alignleft" style="width: 139px"><img
class="size-full wp-image-5526" title="guimaraesrosa.foto" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2009/08/guimaraesrosa.foto1.jpg" alt="João Guimarães Rosa (1908*1967), &quot;emprestou&quot; o título do livro de FM" width="129" height="173" /><p
class="wp-caption-text">João Guimarães Rosa (1908*1967), &quot;emprestou&quot; o título do livro de Floriano Martins...</p></div><p><em>A Inocência de Pensar</em> é o novo livro de ensaios do poeta, editor, compositor, ensaísta e tradutor de Floriano Martins. O livro  assume a forma de um álbum crítico de retratos, com suas anotações sobre vida e obra dos personagens abordados.</p><p>Na maioria, os textos são diálogos com outros estudiosos – tais são os casos das conversas com o francês Michel Roure e os brasileiros Eliane Robert Moraes, Per Johns e Sânzio de Azevedo.</p><p>Os temas estão ligados à cultura contemporânea de uma maneira geral, abordam singularidades e ícones dessa cultura, e o faz manifestando essencialmente a visão de mundo de seu autor.</p><p><strong>LÍDERES CULTURAIS<br
/> </strong><br
/> No prefácio de A Inocência de Pensar, Jacob Klintowitz, uma das vozes mais expressivas da crítica de arte no Brasil, chama a atenção para o particular estilo de crítica empregado pelo autor do livro, destacando:</p><div
id="attachment_5527" class="wp-caption alignleft" style="width: 181px"><img
class="size-full wp-image-5527" title="drummond.foto" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2009/08/drummond.foto1.jpg" alt="...que analisa a poesia de Carlos Drummond de Andrade..." width="171" height="139" /><p
class="wp-caption-text">...que analisa a poesia de Carlos Drummond de Andrade...</p></div><p>“O interesse de Floriano Martins concentra-se nos escritores, nos poetas, nos artistas plásticos, nos líderes culturais, no movimento social da cultura, nas perspectivas e tendências da consciência nos séculos XX e XXI.”</p><p>O interesse de Floriano Martins – acrescenta Jacob Klintowitz –  também se volta para a integração possível entre os vários países da América, no frágil intercâmbio entre os idiomas espanhol e português, na interpenetração entre a cultura erudita e a popular, na política exterior dos países e a sua relação com a valorização das manifestações artísticas”.</p><div
id="attachment_5528" class="wp-caption alignright" style="width: 116px"><img
class="size-full wp-image-5528" title="bandeira" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2009/08/bandeira1.jpg" alt="...que analisa a poesia de Manuel Bandeira, entre outros" width="106" height="114" /><p
class="wp-caption-text">... e Manuel Bandeira, entre outros</p></div><p>“Podemos dizer que nós, leitores, por nossa vez, terminamos por nos interessar, além da especificidade de cada texto, por esta figura autoral carismática e renascentista”, concluiu.</p><p>Floriano Martins  destaca aspectos que entende merecedores de atenção crítica em vários autores, entre os quais Carlos Drummond de Andrade, João Cabral, Max Ernst, Marcel Schwob, Marquês de Sade,  Pablo Neruda, Robert Graves e Georges Duby.</p><p><strong>TÍTULO EMPRESTADO<br
/> </strong><br
/> Numa espécie de bônus, analisa ainda temas como abstracionismo, simbolismo, surrealismo e romance nordestino.</p><div
id="attachment_5532" class="wp-caption alignleft" style="width: 385px"><img
class="size-full wp-image-5532" title="josesantiagonaud.foto.ag65naud1" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2009/08/josesantiagonaud.foto.ag65naud11.jpg" alt="O poeta José Santiago Naud, residente em Brasília, entrevista à Floriano Martins, in Agulha " width="375" height="186" /><p
class="wp-caption-text">O poeta José Santiago Naud, residente em Brasília e editado pela Thesaurus, concedeu entrevista à Floriano Martins, in Agulha</p></div><p>Floriano Martins pediu “emprestado” o seu título em fragmento de uma carta de Guimarães Rosa a seu tradutor alemão, Curt-Meyer Clason, através dele evocando a urgência do pensamento livrar-se de pequenos vícios adquiridos a modo de imperativos acadêmicos ou jornalísticos.</p><p>FM se diz essencialmente poeta, mesmo considerando a abrangência de sua obra, que inclui ensaio, narrativa, plástica, canção popular, tradução e edição. Ele é diretor da Agulha – Revista de Cultura e curador da Bienal Internacional do Livro do Ceará.</p><p>Tem um CD de canções gravado em parceria com o compositor Mário Montaut, e prepara uma exposição de fotografias, vídeos e objetos para o MuBE &#8211; Museu Brasileiro da Escultura.</p><p>Publicou livros sobre o surrealismo e traduziu obras de autores como Guillermo Cabrera Infante, Juan Calzadilla, Federico García Lorca, Wilfredo Machado e Carlos Pellicer. Já escreveu ensaios sobre vários poetas, entre os quais José Santiago Naud, autor de Fábrica de Ritos (Thesaurus, 20009).</p><p><strong>Serviço</strong><br
/> <em>A Inocência de Pensar.</em><br
/> Páginas: 272.<br
/> Autor: Floriano Martins.<br
/> Coleção Ensaios Transversais vol. 38.<br
/> Prefácio: Jacob Klintowitz.<br
/> Ilustração da capa: Aline Daka.<br
/> Gênero: Crítica literária / Ensaios: Literatura brasileira.</p><p><strong>Contato</strong>: floriano.agulha@gmail.com.br</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.nosrevista.com.br/2009/08/28/a-inocencia-de-pensar/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>Centenário de Nascimento de Patativa do Assaré</title><link>http://www.nosrevista.com.br/2009/08/05/centenario-de-nascimento-de-patativa-do-assare/</link> <comments>http://www.nosrevista.com.br/2009/08/05/centenario-de-nascimento-de-patativa-do-assare/#comments</comments> <pubDate>Wed, 05 Aug 2009 18:16:15 +0000</pubDate> <dc:creator>Expediente</dc:creator> <category><![CDATA[Ensaios]]></category><guid
isPermaLink="false">http://www.nosrevista.com.br/?p=5028</guid> <description><![CDATA[Por Menezes y Morais *
Ilustração: João de Deus Netto *
Uma das vozes mais autênticas da poesia brasileira está completando cem anos de nascimento. Trata-se de Antônio Gonçalves da Silva (1909-2002), que entrou para a história com o pseudônimo de Patativa do Assaré.
Nascido na comarca Serra de Santana, distante 18 km de Assaré, cidade da região [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p>Por Menezes y Morais *<br
/> Ilustração: João de Deus Netto *</p><div
id="attachment_5030" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><img
class="size-medium wp-image-5030" title="PATATIVA SHAKESPEARE" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2009/08/PATATIVA-SHAKESPEARE1-300x203.jpg" alt="Patativa do Assaré e William Shakespeare" width="300" height="203" /><p
class="wp-caption-text">Patativa do Assaré e William Shakespeare</p></div><p>Uma das vozes mais autênticas da poesia brasileira está completando cem anos de nascimento. Trata-se de Antônio Gonçalves da Silva (1909-2002), que entrou para a história com o pseudônimo de Patativa do Assaré.</p><p>Nascido na comarca Serra de Santana, distante 18 km de Assaré, cidade da região do Cariri (CE), AGS perde a visão do olho direito aos quatro anos de idade, em função de uma enfermidade e da  falta de médico na cidade.</p><p>Esse lamentável fato denuncia o descaso que existe até hoje na medicina brasileira (especialmente no interior), com a falta de profissionais e o despreparo científico de muitos deles.</p><p>Eu tenho um amigo  – cujo nome não revelo para não expô-lo – que há cerca de cinco anos, em Brasília (DF), entrou na sala de cirurgia enxergando, para livrar-se de glaucoma, e  saiu de lá literalmente cego. Como é possível uma coisa dessas?</p><p>Conheço uma senhora com mais de 70 anos, que, ao contrário, que há cerca de um ano, também entrou com problemas de visão numa sala cirúrgica, para o mesmo procedimento, e saiu de lá maravilhada com a recuperação da visão.</p><p><strong>SALVO PELA POESIA</strong></p><p>E Patativa do Assaré? Simplesmente não havia médico nenhum para operar-lhe o olho. Para completar, tinha uma perna mecânica, devido a um acidente de carro que sofrera em Fortaleza (CE).</p><p>Patativa foi salvo pela Poesia: prendeu ler com os folhetos de Literatura de Cordel. Ficou apenas um semestre na escola, mas descobriu o caminho das pedras.</p><p>E tornou-se um autodidata que inclusive lia os poetas clássicos e tratados técnicos de literatura. Dominava até a polêmica forma do soneto. Patativa é mais uma voz brilhante na tradição de poetas cegos como Homero, Camões, Jorge Luiz Borges, Cego Aderaldo e Glauco Matoso.</p><p><strong>TRABALHO<br
/> </strong></p><div
id="attachment_5031" class="wp-caption alignleft" style="width: 152px"><img
class="size-full wp-image-5031" title="patativa" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2009/08/patativa.jpg" alt="O Autor de Cante Lá Que Eu Canto Cá pensou o Brasil" width="142" height="80" /><p
class="wp-caption-text">O Autor de Cante Lá Que Eu Canto Cá pensou o Brasil</p></div><p>Aos oito anos, com a morte do pai, ingressa no mundo do trabalho, labutando a terra. Aos 12 anos vai para a escola, onde fica apenas seis meses, dividindo as atividades escolares com o trabalho na roça.</p><p>PA aprendeu a ler sem respeitar ponto ou vírgula. E foi através da leitura de poetas clássicos como Castro Alves &#8211; que considera o maior do Brasil &#8211; que aperfeiçoou a leitura.</p><p>Aos 16 anos, fascinado pela literatura de cordel, pelo som da viola e a peleja entre os cantadores, foi fisgado pela música, a leitura e a Poesia. Daí em diante não parou mais.</p><p>É quando compõe os primeiros versos e convence a mãe a vender uma ovelha para comprar uma viola: ingressa, assim, no universo literário e musical, participando de cantorias. A partir de então começa a construir a sua lenda pessoal, produzindo poesia, fazendo cantorias e trabalhando na roça &#8211; até os 70 anos.</p><p>Aos 19, faz a sua primeira grande viagem, sai do Ceará para Belém (PA). Na capital paraense, Patativa trava cantorias com vários colegas. Ele mostrou o seu trabalho às comunidades que habitavam ao longo da estrada de ferro entre Belém e Bragança.</p><p><strong>APELIDO </strong></p><p>Foi em Belém que ele ganhou o epíteto de Patativa, pelo jornalista e escritor José Carvalho de Brito, ao ouvir a cantoria do poeta conterrâneo. Ao regressar de Belém, constata que existem inúmeros poetas com o pseudônimo de Patativa e decide acrescenta o sobrenome Assaré.</p><p>Inconscientemente, ao homenagear a cidade onde nascera, insere-se na tradição clássica da Antiguidade, como Tales de Mileto e Jesus de Nazaré. O resto é história.</p><p>Para quem não sabe, Patativa é o nome de um pequeno pássaro de cor cinza, hoje ameaçado de extinção, cuja principal característica é esconder-se na floresta e ficar imitando outros passarinhos.</p><p>PA não imitou ninguém. Sua inspiração nascia da vida concreta. Escreveu o que vivera. Teve inclusive problemas com a ditadura militar de 1964-85.</p><p>PA criticou a ditadura em artigos em jornais alternativos, assinados com pseudônimo. Amargou uma prisão, por causa do poema Prefeitura sem prefeito.</p><p>Como cidadão, teve participação ativa na vida política nacional. Foi uma das vozes que empolgou o País nos comícios da histórica campanha nacional pelas eleições “diretas já”!</p><p><strong>VOZ SOCIAL </strong></p><div
id="attachment_5032" class="wp-caption alignleft" style="width: 90px"><img
class="size-full wp-image-5032" title="patativa do assaré" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2009/08/patativa-do-assaré.jpg" alt="Patativa criticou a ditadura e foi preso" width="80" height="80" /><p
class="wp-caption-text">Patativa criticou a ditadura e foi preso</p></div><p>PA é um poeta camponês. Sua poesia dá voz ao povo nordestino do campo e da cidade, excluído da riqueza e à mercê das intempéries naturais.</p><p>Mas não é apenas a voz social que lhe serve de temática. Sua poética envolve questões sociais gritantes &#8211; fome, opressão, reforma agrária, falta de liberdade.</p><p>PA também cantou o amor, religião, a amizade, costumes sociais, Deus, natureza, Poesia. Enfim: todos os temas cabem na sua poesia.</p><p>Cantor, compositor, violeiro e poeta, PA era uma celebridade quando Luiz Gonzaga, o “Rei do Baião”, grava o clássico A Triste Partida (1964), de sua autoria. Foi um sucesso nacional.</p><p>Outros nomes famosos da Música Popular Brasileira, como Fagner, também gravaram obras do PA. A interprete e compositora brasiliense Simone Guimarães também gravou música dele,</p><p>Fagner, inclusive,  gravou <em>O Vaqueiro</em>, modificado para Sina, sem citar a autoria, no disco <em>Manera Fru-Fru</em> (1972).  Em 1996 o LP de estréia de Fagner é transformado em CD, ainda excluindo o nome de PA. A crítica denunciara o fato.</p><p>Fagner, então, redimiu-se: foi ao encontro de Patativa, explicou o mal entendido, gravou outra canção, <em>Vaca Estrela e Boi Fubá</em>, com o nome do Patativa no crédito. E fez inclusive fez um grande show em Fortaleza, dividindo o palco com o poeta Patativa.</p><p><strong>TRIBUTOS </strong></p><div
id="attachment_5029" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><img
class="size-medium wp-image-5029" title="adilson.imita patativa" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2009/08/adilson.imita-patativa-300x225.jpg" alt="O ator Adilson Tavares, de Teresina (PÍ), revive Patativa " width="300" height="225" /><p
class="wp-caption-text">O ator Adilson Tavares, de Teresina (PÍ), revive Patativa interpretando seus poemas</p></div><p>PA gravou inúmeros discos de poesia &#8211; sabia sua obra de cor, carregando-a consigo para onde ia. Ao todo, são mais de mil poemas. Publicou obra extensa, entre as quais Inspiração Nordestina (1956) e Digo e não Peço Segredo (2001).</p><p>Virou tema de tema de filme (Jefferson Albuquerque Jr. e Rosemberg Cariri). E objeto de estudo em teses acadêmicas (mestrado e doutorado), de ensaios bibliográficos.</p><p>Patativa foi agraciado com quatro títulos de Doutor Honoris Causa. Ele é um dos poetas brasileiros mais estudados, inclusive no exterior, (França). Recebeu dezenas de tributos em vida e de forma póstuma.</p><p>Em Brasília (DF), no primeiro semestre de 2009, foi homenageado diversas vezes. Primeiro, pelo Coletivo de Poetas e depois pela Associação dos Cantadores Repentistas e Escritores Populares.</p><p>A Associação, presidida por Chico de Assis,  promoveu um encontro nacional (28 e 29 de maio de 2009) no qual Patativa  foi homenageado.  O Coletivo de Poetas promove saraus no DF desde 1990, ao longo deste ano está promovendo tributos ao Autor de A Triste Partida, com saraus e rodas de leituras, incluindo minipalestras sobre sua vida e sua obra.</p><p>Uma das palestras foi proferida pelo casal de escritores Wagner Sresthas e Hilda  Rãdha, autores do livro Brasília: a Cidade Mais Inteligente do Mundo.  A TV Brasil (Canal 2 no DF) levou ao ar (01/6/2009) uma edição do programa De Lá Pra Cá, dedicado a Patativa do Assaré, apresentado pelos jornalistas Vera Barroso e Anselmo Góis.</p><p>No Teatro dos Bancários (Brasília-DF) foi exibido o longa-metragem de Rosemberg Cariri sobre a vida e a obra do autor de Cante Lá Que Eu Canto Cá.</p><p>A Poesia está livre e, graças a Deus, o poeta vive.</p><p>* Jornalista, professor, escritor e historiador, editor de <strong>Nós &#8211; Fora dos Eixos.</strong></p><p><strong>** </strong>Designer gráfico, cronista, chargista, caricaturista e criador dos blogs Jenipapo + News e PINICEZ<strong> </strong></p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.nosrevista.com.br/2009/08/05/centenario-de-nascimento-de-patativa-do-assare/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>2</slash:comments> </item> <item><title>H. Dobal: A Poética do Homem e Outros Bichos Esquecidos</title><link>http://www.nosrevista.com.br/2009/08/03/h-dobal-a-poetica-do-homem-e-outros-bichos-esquecidos/</link> <comments>http://www.nosrevista.com.br/2009/08/03/h-dobal-a-poetica-do-homem-e-outros-bichos-esquecidos/#comments</comments> <pubDate>Mon, 03 Aug 2009 15:42:03 +0000</pubDate> <dc:creator>Redação</dc:creator> <category><![CDATA[Ensaios]]></category><guid
isPermaLink="false">http://www.nosrevista.com.br/?p=4934</guid> <description><![CDATA[Menezes y Morais *
Os olhos do poeta Hindeburgo Dobal Teixeira (1927-2008) brilhavam repletos de ternura naquela tarde, na qual ele, Cineas Santos e o autor dessas virtuais traçadas linhas, saboreávamos um cafezinho em sua casa, em Teresina (PÍ).
De férias na cidade, morando em Brasília, sabendo que H. Dobal fora acometido pela doença de Parkinson, pedi [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p>Menezes y Morais *</p><div
id="attachment_4943" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><img
class="size-full wp-image-4943" title="hdobal 3" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2009/08/hdobal-3.jpg" alt="Dobal em Teresina, foto sem crédito" width="300" height="225" /><p
class="wp-caption-text">Dobal em Teresina, foto sem crédito</p></div><p>Os olhos do poeta Hindeburgo Dobal Teixeira (1927-2008) brilhavam repletos de ternura naquela tarde, na qual ele, Cineas Santos e o autor dessas virtuais traçadas linhas, saboreávamos um cafezinho em sua casa, em Teresina (PÍ).</p><p>De férias na cidade, morando em Brasília, sabendo que H. Dobal fora acometido pela doença de Parkinson, pedi ao CS que me levasse até sua casa.</p><p>Poeta consagrado, premiado, servidor público aposentado, cidadão do mundo que morou em Teresina, Rio de Janeiro, Brasília, Londres e Berlim, HD parecia feliz naquela tarde.</p><p>Creio que isto aconteceu em 1994. Dobal indagou se eu queria café com açúcar ou adoçante. Diante a minha negativa, observou, com um sorriso sincero nos lábios:<br
/> &#8220;Você tem razão, doçura só a da vida&#8221;.</p><p><strong>ALIENAÇÃO </strong></p><p>Conversamos amenidades, dias depois eu voltei a Brasília, sem, entretanto esquecer aquela frase ecoando na memória, que bem pode ser um verso: &#8220;doçura só a da vida&#8221;.</p><p>O que mostra que Dobal não sofria da doença chamada alienação política, essa gente costuma creditar a vida as mazelas sociais e históricas que infernizam a odisséia humana, esquecendo que o verdadeiro inimigo não atende pelo nome &#8220;vida&#8221;, mas pela alcunha &#8220;poder&#8221;, a forma de como o &#8220;Estado&#8221; é organizado.</p><p>A vida é inocente. Como dizia Sartre, &#8220;o inferno são os outros&#8221;.</p><p>Se Dobal tivesse resistido um pouco mais, talvez sua viagem definitiva fosse prorrogada por mais tempo, pelo milagre das células-tronco, a grande esperança da revolução na medicina neste surpreendente século XXI.</p><p><strong>HUMANO</strong></p><p><strong> </strong></p><div
id="attachment_4947" class="wp-caption alignleft" style="width: 195px"><strong><strong><img
class="size-full wp-image-4947" title="hdobal2" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2009/08/hdobal2.jpg" alt="Dobal, retrato do artista quando jovem, album de família" width="185" height="260" /></strong></strong><p
class="wp-caption-text">Dobal, retrato do artista quando jovem, album de família</p></div><p><strong> </strong></p><p>H Dobal debruçou-se sobre a existência humana, falando no &#8220;homem e outros bichos esquecidos&#8221;, diz num poema. Nada escapou do seu olhar poético e crítico. Da solidão humana povoando a tarde, à solidão dos homens anônimos encharcando o dia.<br
/> Flashes da vida, retratos do cotidiano &#8211; Rio-Teresina-Brasília-Londres-Berlim &#8211; o atento olhar dobalino observou mudanças na geografia física da cidade &#8211; <em>Roteiro Sentimental e Pitoresco de Teresina</em>, <em>Os Signos e as Siglas</em> (Brasília) &#8211; e nas paisagens humanas, produzindo uma poética onde não faltam mergulhou objetivos e subjetivos na condição humana.</p><p>A obra de HD dá uma sacudida dialética na cabeça e no estômago do leitor. Poeta de paisagens, tempo, gentes, lugares, dos rebanhos do tempo, do homem ou da vida simplesmente, Dobal ainda encontrou uma folguinha para criticar a poesia rimada e metrificada.</p><p>Mesmo quando escreveu ficção (<em>Um Homem Particular</em>), condimentou poeticamente a sua prosa, às vezes, é um poema quase inteiro, embora com o final frouxo, aguado, prosaico.</p><p><strong>CRONISTA DO TEMPO</strong></p><p><strong> </strong><br
/> O olhar atento do poeta registra mudanças na rota do tempo, o que faz de HD um cronista do tempo. A &#8220;Província&#8221; de Dobal é o mundo, mais ou menos como a aldeia de Marshall McLuan é a aldeia global.<br
/> A globalização do capitalismo começou no período das grandes navegações, no mercantilismo, quando o colonizador europeu transformou as populações nativas (chamadas índios) e povos africanos em mercadoria, mão-de-obra escrava.</p><div
id="attachment_4945" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><img
class="size-medium wp-image-4945" title="Dobal-por-adriano-lobao" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2009/08/Dobal-por-adriano-lobao-300x264.jpg" alt="Dobal, por Adriano Lobão" width="300" height="264" /><p
class="wp-caption-text">Dobal, por Adriano Lobão</p></div><p>Tudo isso consta do ideário poético de H. Dobal: os índios piauienses que foram massacrados (Acoroazes, Pimenteiras, Gueguezes, Tapuyas), ganharam um poema épico (<em>El Matador</em>), onde nomina um dos chefes da chacina, o tenente-coronel João do Rêgo Castelo Branco (1776-1780).</p><p>Faltou o pistoleiro de aluguel, o assassino por encomenda de índios e africanos, o bandeirante Domingos Jorge Velho, que é nome de ruas no país inteiro e de colégios, inclusive em Teresina.</p><p>DJV chefiou a expedição militar da monarquia que assassinou Zumbi dos Palmares (?-1695). Por todos os crimes que cometeu, sempre bem remunerado, DJV é considerado um &#8220;herói&#8221; nacional.</p><p>Até quando?</p><p>Dobal exaltou heróis da independência &#8211; anônimos (Memorial do Jenipapo, &#8220;o sonho anônimo dos que morreram pela liberdade&#8221;) e resgatou o histórico poeta piauiense Leonardo de Carvalho Castelo Branco ou Leonardo de Nossa Senhora das Dores Castelo Branco, que foi preso no Piauí, Maranhão e Portugal.</p><p>Em tempo: a vida do poeta e inventor Leonardo também deveria ser estudada nas escolas do ensino médio do Piauí e do país.</p><p>Não temos sequer um retrato de Leonardo. Lembro de algumas conversas que eu tive, na década de 1980, com o publicitário, letrista (tem obras-primas com o cantor e compositor Edvaldo Nascimento) e poeta Durvalino Filho, nas quais me dizia, empolgado:</p><p>&#8220;Vamos forjar um retrato do Leonardo&#8221;.</p><p><strong>POESIA VIVA</strong></p><p><img
class="alignleft size-full wp-image-5017" title="poemadodobalmail.google.com" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2009/08/poemadodobalmail.google.com2.jpg" alt="poemadodobalmail.google.com" width="96" height="166" /></p><p>A grandeza ética e estética da poesia de HD parte do micro para o macro, da solidão para a alegria (me divirto lendo Serra das Confusões), da vida para a destruição da morte: a Poesia vive.</p><p>Dobal deu-se ao luxo de achar alguns dias inúteis, por ser um repórter do tempo, cuja poesia fotográfica não poupa o mal caratismo popular ou estilista.</p><p>A poética dobalina é uma radiografia da existência social, iniciando pelo começo, da Província à contemplação da paisagem, registrando universais tipos humanos.</p><p>Nem a gente simples e humilde com seus flagrantes de virtude e desvirtude escapou de suas retinas. As qualidades estéticas de HD já foram exaltadas por poetas e estudiosos da literatura.</p><p>Entre eles Manuel Bandeira, Odylon Costa, filho, Álvaro Pacheco, Fábio Lucas, Cristina Maria Miranda de S. P. Correia, M. Paulo Nunes (grande contemporâneo e companheiro de Dobal), Almeida Fischer, Cineas Santos (anjo da guarda de Dobal, na fase aguda da doença de Parkinson) e a professora Maria G. Figueiredo dos Reis.</p><p>Lembro bem daquela tarde, Cineas com o olhar fixo no poeta, eu bebendo café puro e Dobal sorrindo com seu jeito piauiense universal de ser, com sua ternura e humildade diante o mistério, se emocionando com o dia bonito pra chover.</p><p>Por que Deus não nos deu o poder de congelarmos o tempo nas retinas da tarde?</p><p><strong>BIBLIOGRAFIA</strong></p><p><strong> </strong></p><div
id="attachment_4983" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><strong><strong><img
class="size-medium wp-image-4983" title="hdobalGetAttachment.aspx" src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2009/08/hdobalGetAttachment.aspx1-300x205.jpg" alt="Dobal visto pelo olhar genial de João de Deus Netto" width="300" height="205" /></strong></strong><p
class="wp-caption-text">Dobal visto pelo olhar genial de João de Deus Netto</p></div><p><strong> </strong></p><p><strong> </strong></p><p>O Tempo Consequente (1966), O Dia Sem Presságios (1970, Prêmio Jorge de Lima).</p><p>A Viagem Imperfeita ((1973), A Província Deserta (1974), A Serra das Confusões (1978, editada por Cineas Santos, com ilustrações geniais de Albert Piauí, saiu originalmente em A Província Deserta).</p><p>A Cidade Substituída (1978), El Matador (1980, em forma de folheto, com xilogravura de Fernando Costa, editado por CS, saiu originalmente em O Dia Sem Presságios).</p><p>Os Signos e as Siglas (1986, ilustrado por AP e editado por CS).<em> Gleba dos Ausentes &#8211; Uma Antologia Provisória</em> (2002). Entre as antologias que tem a poesia de H. Dobal incluída, <em>Desde Planalto Central &#8211; Poetas de Brasília</em> (2008, organizada e apresentada por Salomão Sousa).</p><p>* Jornalista, professor, escritor e historiador, editor da <strong>Nós – Fora dos Eixo</strong>s</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.nosrevista.com.br/2009/08/03/h-dobal-a-poetica-do-homem-e-outros-bichos-esquecidos/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>1</slash:comments> </item> </channel> </rss>
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